domingo, 17 de abril de 2011

A geografia visionária de Pierre George

Dizem que é impossível dissociar as idéias de um intelectual de sua biografia. Eu acredito que sim. Ao que tudo indica, este é o caso de Pierre George (1909-2006), um dos maiores nomes da geografia francesa e mundial. Infelizmente, as limitações de tempo me impedem de radiografar a vida desse pensador do “espaço humanizado” que conquistou o respeito de geógrafos, sociólogos e economistas de todas as partes do mundo, portanto nosso foco será mantido em suas teses – visionárias por sinal.


Não deixa de ser embaraçoso admitir que meu primeiro contato “a sério” com a obra de George se deu no ano passado, durante meu estágio de doutorado na Universitat de Barcelona. Tinha ido a um sebo de livros em Gracia, um bairro da capital catalã, procurar um exemplar de “La Geografía y el Espacio Social del Poder”, de Joan-Eugeni Sánchez, e acabei levando junto uma edição de “Geografia Ativa” em espanhol para compor minha biblioteca pessoal de obras clássicas. Chegando em casa, após folhear rapidamente o livro do professor Sánchez, peguei o “Geografia Ativa”, que George escreveu em parceria com Bernard Kayser, Raymond Guglielmo e Yves Lacoste. Apenas vinte minutos de leitura foram suficientes para que eu ouvisse algo como o soar de um clarim. Havia descoberto oficialmente um dos geógrafos mais brilhantes do século XX.

Mas a minha admiração se consolidou mesmo quando adquiri, ainda no ano passado, uma cópia de “L’Action Humaine” (1968), publicado em português – com tradução correta do título (“A Ação Humana”) – pela editora Difel através da coleção “Terras e Povos”. Logo nas primeiras linhas da introdução, George deixou bem claro o que ele entende por geografia: é a ciência que estuda a dinâmica do espaço humanizado. O geógrafo francês parte do princípio que os fenômenos estudados pela geografia devem ser apreendidos “em suas relações com com a presença e a ação das coletividades humanas”.

Mas isto não significa excluir ou marginalizar os espaços “não humanizados”? Para George, a resposta é: não necessariamente. Primeiro porque os limites do espaço humanizado, conceito que para o geógrafo equivale à noção de “ecúmeno” usada por Max Sorre, são imprecisos. Segundo, porque a história do homem é marcada por incontáveis experiências de penetração e conquista de espaços que outrora lhes pareciam “vetados” pela natureza. É aí que entra a questão da técnica, um problema que foi retomado posteriormente por Milton Santos. Segundo George, as técnicas criam tanto a necessidade de penetração e instalação nesses espaços quanto os meios para realizar essa apropriação.

Milton Santos também recuperou de George o conceito de “espaço herdado”: os empreendimentos que modelam e organizam o espaço para nele introduzir estruturas técnicas, jurídicas e administrativas são condicionados pela “arrumação espacial” já existente, que pode funcionar ora como incentivo à difusão e consolidação das novas estruturas, ora como freio ou fator limitante desses mesmos processos. Trata-se de uma abordagem revolucionária porque abre um canal de diálogo concreto entre a geografia e a história que ultrapassa o discurso tautológico e truísta da indissociabilidade entre o espaço e o tempo.

Entretanto, um dos momentos mais visionários de “A Ação Humana” é o capítulo 3 da terceira parte do livro: “Do espaço especializado ao espaço globalizado”. Nele, George analisa a expansão da sociedade industrial na escala planetária, fenômeno que tornou-se possível graças a progressiva libertação da indústria do “universo mineiro e ferroviário do século XIX”. Afinal, muitos se esquecem que a mundialização do consumo e das finanças, que hoje se confunde com o fenômeno da globalização, foi antecipada pelas empresas multinacionais e suas unidades multilocalizadas.

Além disso, George foi um dos primeiros a perceber que tal globalização do espaço através da influência técnica, econômica e social da civilização industrial na escala mundo era produtora de raridades e de escassez. Ele cita como exemplo o próprio espaço, que passa a ser objeto de especulação nos centros urbanos, e a água (!), devido ao crescente desequilíbro entre seu consumo e oferta.

Não restam dúvidas de que Pierre George é uma das principais influências do pensamento geográfico contemporâneo, inclusive no Brasil, país cujos efeitos da rápida modernização que o inseriu no espaço global da civilização industrial incluem os desequilíbrios urbanos e os problemas ambientais. É óbvio que, como toda obra, princpalmente nas ciências humanas, ela já nasceu datada. Afinal, o mundo mudou bastante desde que a primeira edição de “A Ação do Homem” foi lançada. Mas as questões levantadas pelo geógrafo francês não estão de modo algum ultrapassadas. A partir delas, o saudoso Milton Santos deu passos importantes e forneceu à geografia novas contribuições. Mas, assim como Geroge, Milton também já nos deixou e o mundo está aí, se recriando e se reinventando a todo instante, nos exigindo uma atualização e uma ressignificação dos conceitos e das categorias de análise. As questões permanecem, mas o que muda são as respostas que daremos a elas.

Luís Angelo dos Santos Aracri

2 comentários:

Felipe de Souza disse...

Interessantíssimo ... Comecei a gostar de Pierre George também em Geografia Ativa... é realmente impressionante a preocupação dele com a epistemologia da Geografia. Tinha feito um comentário de Geografia Ativa em 2009 está na internet... Recentemente senti necessidade de ampliar um pouco e fiz um artigo que será apresentado no Encontro nacional de Geografia. É um pequeno passo para a importância desse autores esquecidos pela Geografia atual... Interessante o uso do termo visionário...foi exatamente o termo que encontrei para expressar os caminhos de George... Parabéns
Felipe de Souza Ramão

Felipe de Souza disse...

A Geografia necessita do resgate de autores importantes.