quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Senadores do Amapá gastaram R$ 262 mil em três meses


O subsídio mensal dos senadores, por força de decisão do Congresso Nacional, desde o dia 1º de fevereiro de 2011, é de R$ 26.723,13. Os senadores recebem ajuda de custo, no mesmo valor, no início e no final da sessão legislativa, isto é, em fevereiro e dezembro de cada ano, uma espécie de 13º e 14º salários.
Os senadores que não ocupam apartamentos funcionais podem optar por um auxílio-moradia de R$ 3.800,00 para cobrir despesas com aluguel ou diária de hotel em Brasília. Os gastos precisam ser declarados e comprovados formalmente.
Os senadores ainda contam com outros serviços como o atendimento médico odontológico. Para os senadores no pleno exercício do mandato não há limite para as despesas médicas. O atendimento beneficia o parlamentar, o cônjuge e dependentes com até 21 anos, ou até 24, se universitários. Já com relação às despesas odontológicas e psicoterápicas, está estabelecido um limite anual de R$ 25.998,96.
No caso de ser o beneficiário um ex-senador, assim considerado aquele que exerceu pelo menos 180 dias consecutivos do mandato e que tenha participado de Sessão Deliberativa no Plenário ou em Comissão do Senado Federal, o limite das despesas médicas, psicológicas, odontológicas e de fisioterapia é de 84.508 CH (coeficiente de honorários médicos) que corresponde, em valores atuais, a R$ 32.958,12.

Verba indenizatória
O Ato nº 09 de 2011, da Comissão Diretora, com base em outras resoluções emanadas de várias áreas do Senado, constituiu a Cota para Exercício da Atividade Parlamentar dos Senadores – CEAPS, integrando a antiga verba de transporte aéreo e a verba indenizatória. O uso da CEAPS foi regulamentado por Ato do 1º Secretário, no dia 3 de junho de deste ano (2011).
O total da Cota passou a ser composto pelo valor da antiga verba indenizatória (R$ 15.000,00 mensais) e pelo valor correspondente a cinco passagens aéreas, igualmente mensais, e ida e volta da capital do estado de origem do senador a Brasília. Por isso a verba de passagem aérea difere de estado para estado como, também, pode flutuar ao longo do ano de acordo com o valor das passagens. O ressarcimento só ocorrerá mediante comprovação de gasto pelos senadores e as informações serão disponibilizadas, imediatamente, no Portal da Transparência. O senador tem 90 dias, findo o exercício fiscal (31 de março de cada ano) para pedir o ressarcimento de despesas efetuadas. Não há previsão de cota suplementar devida aos membros da Mesa e Lideranças Partidárias.

Escritório de apoio
Os senadores estão autorizados a manter Escritório de Apoio às Atividades Parlamentares, mediante comunicação expressa à Mesa do Senado Federal, onde deve constar o endereço completo de sua localização. O senador pode optar por instituí-lo em diversos municípios quando, a seu critério, a extensão territorial de seu estado ou sua atividade política assim exigirem, sem que essa decisão acarrete qualquer elevação nos quantitativos de pessoal ou de recursos postos à sua disposição. As despesas de instalação e manutenção do Escritório de Apoio correrão por conta da CEAPS a que faz jus cada senador, na forma prevista na regulamentação específica.
No Escritório de Apoio, somente poderão ser mantidas ou desenvolvidas ações ligadas ao exercício do mandato do seu titular.
Somente servidores ocupantes de cargo em comissão em exercício no gabinete do senador poderão ser lotados no respectivo Escritório de Apoio, mediante solicitação à Diretoria-Geral do Senado.
Os senadores não podem lotar ou requisitar, para exercício no Escritório de Apoio, servidores do Quadro de Pessoal Efetivo do Senado Federal e de seus órgãos supervisionados, bem como servidores ocupantes de cargo em comissão vinculados à Mesa Diretora, aos Gabinetes das Lideranças ou às demais unidades administrativas.
Aos senadores poderá ser concedido, se solicitado, passaporte diplomático emitido pelo Ministério das Relações Exteriores. A concessão de passaporte diplomático ao cônjuge, companheiro ou companheira, e aos dependentes dos senadores, também é regulado pelo Ministério das Relações Exteriores.

Cotas
Correios – as despesas com os Correios variam de acordo com o Estado de origem do parlamentar e o tamanho de sua população. O senador tem direito a duas unidades postais para cada grupo de 1.000 (mil) habitantes do estado representado. A cota mensal mínima é de 4.000 mil correspondências.
Gráfica – valor de R$ 8.500,00 pro senador, mas é proibida a impressão, editoração e publicação de qualquer material que não seja inerente às atividades parlamentares, ao Conselho Editorial e a renovação e manutenção de material de expediente administrativo. Revistas e Jornais - cada senador tem direito a assinatura de duas revistas de sua escolha e quatro jornais: sendo um de Brasília, um do Rio de Janeiro, um de São Paulo e um do Estado representado.
Internet (envio de e-mails) – até agora não há norma específica para a cota de internet dos senadores. Eles utilizam os parâmetros globais do sistema de correio. A única particularidade é que a caixa do Outlook dos senadores é considerada como caixa institucional, com capacidade maior de armazenamento.
Telefone – a cota mensal dos senadores para telefone fixo é de R$ 500,00. As despesas com o uso de telefone residencial podem ser ressarcidas com base nos mesmos valores. Por outro lado, não há limite para gastos com telefone celular. Cada gabinete de senador está aparelhado com uma linha direta para uso normal; uma linha direta para uso de FAX; seis ramais digitais (MD 110); e dois ramais analógicos.
A manutenção dos ramais e das linhas telefônicas fica associada ao gabinete, não se admitindo a transferência de linha e ramais entre gabinetes, ainda que ocupados por um mesmo parlamentar, ou por ocasião de mudança.
Combustível de veículos – a cota diária de combustível dos senadores é de 25 litros de gasolina ou 36 litros de álcool, de segunda a sesta-feira, quando da estada em Brasília. A cota não pode ser antecipada ou acumulada.
Os gastos com combustível nos Estados podem ser custeados com recursos da verba indenizatória.
Cada senador tem direito ao uso de um veículo oficial em Brasília.

Os senadores
amapaenses
Os três senadores eleitos pelo Estado do Amapá que estão no exercício do mandato são: José Sarney (PMDB e presidente do Senado), Geovani Borges (PMDB que substitui Gilvan Borges) e Randolfe Rodrigues (PSOL). O senador Randolfe Rodrigues foi eleito nas eleições regionais de 2010 e, portanto, está iniciando o mandato de oito anos.
Durante o último trimestre (julho, agosto e setembro) os três senadores gastaram da CEAPS – Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar R$ 262,8 mil reais, sendo que o mais gastador foi o senador Geovani Borges que quase chegou aos R$ 140 mil. O senador Sarney, dessa rubrica, utilizou R$ 24 mil para contratação de consultoria, assessorias, etc.
O senador Randolfe Rodrigues (PSOL) ficou bem perto dos R$ 100 mil, alcançando o total de R$ 99.800,99.
O quadro a seguir mostrar os gastos que estão no Portal da Transparência do Senado (www.senado.gov.br/transparência/).
Por Rodolfo Juarez

sábado, 17 de dezembro de 2011

Geografia do Amapá

Localizado no nordeste da região norte do país, ocupando uma área de 143.453,7 km2, limitado ao norte com a Guiana Francesa, a nordeste com o Suriname, a leste com o oceano Atlântico e ao sul e oeste com o Pará, do qual está separado pelo rio Amazonas. Parte de sua superfície é constituída por terras baixas onde se encontram mangues e lagos — bacia do Oiapoque, litoral atlântico, foz do Amazonas —, embora possua trechos mais elevados, com altitudes superiores a 200 metros, na região centro-ocidental, incluída no Planalto das Guianas. O ponto mais elevado do Estado é a serra do Tumucumaque, com 500 metros de altitude, situada em sua parte noroeste. O clima predominante no Amapá é equatorial, ou seja, quente e muito úmido, com índice de pluviosidade superior a 2.500 mm anuais. As temperaturas médias anuais oscilam entre 25 e 30º C. A maior parte do território do Estado do Amapá, cerca de 73% do total, que corresponde a aproximadamente 97.000 km2, está coberta pela Floresta Amazônica ou Hiléia Brasileira. No entanto, na faixa oriental encontram-se campos "cerrados", com árvores esparsas e esgalhadas, e o solo recoberto de gramíneas e manguezais.
Aproximadamente 39% da área de sua bacia hidrográfica, que ocupa toda a extensão do Estado, pertence à bacia amazônica, enquanto o restante incorpora-se ao trecho norte e nordeste da bacia do Atlântico Sul. Seus rios mais extensos são o Jari, o Oiapoque e o Araguari, que correm diretamente para o oceano Atlântico. O Jari é principal tributário do rio Amazonas e o Oiapoque corre na fronteira com a Guiana Francesa. Destacam-se ainda na bacia hidrográfica do Estado, os rios Calçoene e Maracá.

Economia - Destacam-se as atividades extrativistas tanto vegetais como minerais. No extrativismo vegetal são exploradas a castanha-do-pará, palmito e as madeiras. Entre os minerais mais encontrados estão as jazidas de manganês, ouro, caulim e granito. A produção agrícola limita-se ao cultivo de arroz e mandioca. Na pecuária predominam as criações de búfalos e o gado bovino.O setor industrial dedica-se ao processamento das principais riquezas do Estado, ou seja, a extração mineral, a madeira e também a pesca. A produção de energia elétrica no Amapá supera o seu consumo doméstico. Entre junho de 1993 e julho de 1994, foram produzidos 451 milhões de kWh de energia, para um consumo local de 220 milhões de kWh.


Formação Histórica - A região foi doada ao português Bento Manuel Parente, em 1637, com o nome de capitania da Costa do Cabo do Norte. A região sofreu incursões de ingleses e holandeses, que foram expulsos pelos portugueses. No século XVIII, os franceses também reivindicaram a posse da área e em 1713, o Tratado de Utrecht estabeleceu os limites entre o Brasil e a Guiana Francesa, os quais não foram respeitados pelos franceses. Os portugueses construíram então a fortaleza de São José do Macapá, para proteger seus limites das incursões dos franceses.
O povoamento do território começou a se intensificar no século XIX, com a descoberta de ouro na área e o crescimento da extração da borracha, que havia atingido altos preços internacionais na época. A descoberta de riquezas, no entanto, fez crescer as disputas territoriais, que culminaram com a invasão dos franceses em maio de 1895. A Comissão de Arbitragem, em Genebra, em 1º de janeiro de 1900, deu a posse da região ao Brasil e o território foi então incorporado ao Estado do Pará com o nome de Araguari. Em 1943, passou à administração do governo federal, com o nome de Amapá. Em 1945, a descoberta de ricas jazidas de manganês na serra do Navio, revolucionou a economia local. Procedeu a nova divisão territorial, passando a parte do Amapá ao norte do Rio Cassiporé a constituir o Município de Oiapoque. Foi mais uma vez desmembrado em dezembro de 1957, com a criação do município de Calçoene e a cessão de terras ao norte dos rios Amapá Grande e Mutum. A nova Constituição, promulgada em 5 de outubro de 1988, elevou o território do Amapá à categoria de Estado da Federação.

Manganês - Principal riqueza do Estado do Amapá, o manganês teve sua exploração iniciada em 1957. Ali se encontram as maiores reservas do País, chegando o Estado a extrair 80% da produção total de manganês brasileiro na década de 60. Suas jazidas foram arrendadas por 50 anos pela ICOMI, Indústria e Comércio de Mineração, do grupo Bethlehem Steel, que paga royalties de 4 a 5% do valor do minério extraído ao Governo local, sendo as encomendas asseguradas por um contrato com o Defense Materials Procurement Agency, órgão governamental norte-americano. A renda dos royalties do manganês foi destinada à construção da Usina de Paredão, para assegurar base energética às indústrias que vierem a ser ali instaladas. A mineração do manganês provocou deslocamento de mão-de-obra e contribuiu consideravelmente para o aumento da população no Estado, antes Território administrado pelo Governo Federal. Essa empresa construiu uma estrada de ferro com capacidade para 700.000 toneladas de minério e 200.000 toneladas de outros tipos de mercadorias, assim como um porto, a que podem ter acesso navios de até 45.000 toneladas.

Outras riquezas minerais - Além do manganês, o Amapá tem também grande reserva de recursos naturais que inclui minerais como o ouro, explorado nos garimpos dos rios Calçoene, Cassiporé e Igarapé de Leona, além do rico veio existente no rio Gaivota. Diamantes são também muito encontrados na região de Santa Maria. A 80 km da capital, Macapá, existe uma jazida de 9,6 milhões de toneladas de hematita, com 70% de ferro, explorada pela empresa Hanna Company.


Macapá - A capital do Estado do Amapá ocupa área de 6.562,4 km2, localizada a uma altitude de 16,5 metros a 1.783 km de distância de Brasília, a capital do País. A cidade é um porto fluvial situado no braço mais largo e mais ao norte do delta do rio Amazonas, no lado oposto ao arquipélago de Marajó. O acesso à cidade é possível por via aérea ou de barco. O Forte de São José de Macapá, que deu origem à cidade, foi fundado em 1688. Em 1758, o povoado recebeu o status de vila e recebeu o nome de São José de Macapá.
Entre os principais atrativos turísticos da cidade encontra-se a igreja de São José de Macapá, construída em 1761, no período em que chegou grande número de portugueses ao local. O forte de São José de Macapá, construído entre 1764 e 1784, numa língua de terra que avança pelo rio Amazonas, é outra atração da cidade, que atualmente encontra-se em sua zona central.
A linha do Equador, conhecida como "Marco Zero", ou seja, com sua latitude de 0º, encontra-se a 5 km do centro da cidade de Macapá e pode ser alcançada pela Rodovia Juscelino Kubitscheck. Na cidade de Laranjal do Jari, ao sul de Macapá, encontra-se a cachoeira de Santo Antonio, queda d´água de 30 metros de altura, que proporciona linda paisagem. Próxima a esse local, está o vilarejo de Mazagão Velho, fundada no século XVII, mas tendo preservado seu estilo, costumes tradicionais e algumas construções do período colonial. A partir do Porto de Santana, 28 km ao sul de Macapá, existe uma variedade de passeios de barco que podem ser feitos pelas ilhas do rio Amazonas, incluindo a ilha de Marajó, os igarapés, os estreitos canais entre as ilhas e, na direção do Oiapoque, ao norte, pode ser visitada a área de fronteira com a Guiana Francesa.


Lago Piratuba - Reserva natural com área de 385.000 hectares, localiza-se no município de Amapá, costa leste do Estado, e é banhada pelo rio Araguari, que nesta altura deságua no oceano Atlântico.

Parque Nacional do Cabo Orange - Com área de 619.000 hectares, na região da baía do Oiapoque, extremo norte do Estado do Amapá, o parque foi criado em 1980 e se estende ao longo da costa, passando pelos municípios de Oiapoque e Calçoene. O acesso ao parque se dá através da rodovia BR-156, que liga Macapá a Oiapoque e Clevelândia do Norte, na fronteira com a Guiana Francesa. Pode também ser alcançado por barco, a partir de Macapá ou Porto Santana.

Pororoca - A palavra é de origem indígena e expressa o barulho produzido pelo fenômeno do encontro das águas do rio Amazonas com o oceano Atlântico, com um volume de 240.000 m3 por segundo. O choque é particularmente violento no período das marés de primavera. Na primeira fase do encontro, as águas do Amazonas penetram por vários quilômetros dentro do oceano. Em seguida, a maré empurra o rio de volta na direção de seu curso e este se expande pela terra ao redor, inundando toda a região, inclusive praias e as ilhas mais rasas. Dessa forma, o rio é então impedido de despejar suas águas no oceano, ao mesmo tempo em que faz pressão para impedir a força do mar contra seu percursos. A certa altura essa disputa se encerra e a força da maré penetra no estuário do rio Amazonas. As ondas crescem a uma altura de 4 metros, com ruídos que podem ser ouvidos a vários quilômetros de distância. Esse espetáculo natural pode ser observado em vários pontos do estuário do Amazonas, mas sua performance mais impressionante ocorre no maior braço do rio, situado no litoral do Amapá. Existem barcos que levam os turistas ao delta do rio Araguari, que também fica alagado, em viagem que dura 15 horas a partir de Macapá.


Indígenas - A população indígena do Estado do Amapá está estimada em 4.100 habitantes, divididos em quatro grupos — Galibi, Juminá, Uacã e Waiãpi — que ocupam área total de 1.091.454 hectares. Todas essas áreas já se encontram definitivamente demarcadas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

domingo, 27 de novembro de 2011

“Esta luta não é só dos chilenos, mas de todos os jovens do mundo”


Oleg Yasinsky
Santiago, Chile
Desinformémonos

Um renovado movimento estudantil cresce no Chile desde maio deste ano. São já seis meses de protestos nas ruas, assembleias e articulações com outros setores da sociedade, sob a primeira demanda de um novo modelo de educação que se traduz em uma demanda contra o sistema neoliberal em geral.

Camila Vallejo, uma jovem de 23 anos, estudante de Geografia, tornou-se uma das figuras visíveis do movimento mais importante no Chile desde a chegada da Concertación. Presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile, militante das Juventudes Comunistas, Camila fala em entrevista ao Desiformémonos dos desafios e esperanças do movimento, das conquistas obtidas e dos temores atuais. Na primeira entrevista concedida a um meio de comunicação mexicano, Camila saúda aos estudantes da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e envia uma mensagem aos jovens da América Latina.

A seguir a entrevista completa:

O que é ser de esquerda hoje?

Primeiro, tem que se entender que é necessário fazer mudanças profundas na sociedade e no sistema político-econômico e cultural, que é a estrutura, mas também tem que se ter a consciência de que isso requer fazer ação coletiva, trabalho coletivo e trabalhar de maneira organizada e em unidade. Em segundo lugar, essa transformação tem que ter o objetivo de recuperar a soberania dos distintos povos, particularmente no Chile, que essa soberania não somente se traduza na recuperação dos recursos naturais, mas também no poder de distribuir de melhor forma o poder político, uma democracia muito mais coletiva, muito mais participativa que implica em gerar a nível institucional os espaços necessários para que as diferentes sociedades tomem em suas próprias mãos a construção do futuro, e isso com o princípio básico de ter maior justiça social, que passa tanto por justiça distributiva como justiça produtiva e, nesse sentido, não só se foca na recuperação dos meios de produção materiais, mas também culturais, no conhecimento, tem que se democratizar. Acredito que esse é o grande desafio hoje em dia da esquerda.

Por que este movimento surge agora, 23 anos depois do término da ditadura? Por que deixou-se passar tanto tempo? Parecia que no Chile não acontecia nada...

No Chile sempre estão acontecendo coisas, o que acontece é que para fora não se mostra isso, para fora se diz que somos uns jaguares da América Latina, que somos um país exemplar, com um modelo educacional exemplar, que temos uma estabilidade a nível de governo muito clara, um abrupto crescimento econômico, que temos acabado com a pobreza, mas não se mostra como se tem acumulado certos descontentamentos sociais, resultado de lutas, que não têm tido um bom final.
Temos tido mobilizações não tão massivas como esta, mas que têm sido importantes, que têm colocado mudanças sobre a mesa e ainda assim nossa institucionalidade política não tem lhes permitido expressar-se e que essa opinião se traduza em algo vinculativo, como um projeto de lei; então, há uma acumulação de descontentamento que obviamente tem a ver também com o desenvolvimento, a perpetuação e o aprofundamento da desigualdade em nosso país, um país que tem combatido a pobreza, a indigência e onde, contudo, a desigualdade cresce cada vez mais, e o pior, é que a gente tem tomado consciência de que essa desigualdade não é por mero continuísmo de algo, mas que está se reproduzindo como resultado do sistema dominante que foi instaurado à força na ditadura. Aqui se reflete que este estouro social, como se tem assinalado, não é algo espontâneo, mas que vem de toda essa acumulação e amadurecimento de lutas sociais anteriores.

Por que vocês têm tanto apoio e tanta simpatia do povo e não só no Chile? Esperavam uma reação assim a princípio?

Acredito que atacamos problemas centrais do sistema e creio que isso tem gerado transversalidade. Esta não é uma luta sindical, pela defesa de algo corporativo ou algo que não implique diretamente aos estudantes, mas a problemática que se tem apresentado e a demanda que se levanta é uma demanda social, que é para todos, não somente para a atual geração, mas para a futura, e isso tem gerado simpatia e tem também despertado a consciência de muita gente, devolvendo a esperança a aqueles que haviam lutado anteriormente, mas por temor não seguiram lutando, e creio que isso tem sido a principal riqueza deste movimento: a transversalidade, o despertar da consciência, o ataque ao problema central e, sobretudo, o resultado do movimento; creio que não temos negociado, não por intransigência, mas por responsabilidade ante questões que para nós são éticas e morais, que são luta legítima. Nesse aspecto, creio que se tem gerado o maior respaldo social a este movimento.

Quais são os medos e as esperanças deste movimento depois de tantos meses?

A esperança é muita, porque se vê que o Chile já não é mais o mesmo de antes, que a partir disto há um despertar, mas também uma mudança ou o início de uma mudança na estrutura mental, que não chegou ainda, mas se vislumbra; e que a partir daqui podem se desenvolver processos de construção muito mais arraigados na base social que possibilitem reconstruir o tecido social que foi destruído durante a ditadura.
O temor mais grande é que isto se mantenha de maneira linear e que não tenha êxito, e que a frustração seja tão grande que o recolhimento também seja muito prolongado. Nesse sentido, o como poder fazer agora, por exemplo, retirada tática para a acumulação de força e para reformular-se a estratégia, dado que o governo não está fazendo nada, creio que é o maior temos - “O que vai acontecer com isto?”, não somente o dizia Lenin, mas que outros grandes intelectuais falavam de como tem que dar-se as lutas sociais, é que têm momentos onde um não pode fazer só pressão, pressão, pressão, inerte, mas que um também tem que tomar o pulso, retroceder e voltar a pressionar com mais força. E creio que isto falta, e ainda não o podemos aplicar.


Que lugar ocupa a tecnologia na vida cotidiana dos jovens chilenos? Que valor vocês dão às redes sociais? Elas têm sido realmente importantes para este movimento?

São uma ferramenta dinamizadora dos fluxos de informação, das convocações, acredito que têm permitido maior fluidez, mas não têm sido o fator determinante para a articulação de um movimento amplo e massivo. Acredito que isso se trabalha no seio da organização, de uma forma personalizada. Quer dizer, este movimento não se levantou graças às redes sociais. Antes pela construção que vem desenvolvendo-se há muitos anos. São as organizações, é seu amadurecimento político orgânico, a articulação que se gerou com o movimento; a construção tem sido do trabalho pessoal, não midiatizado por Facebook, nem Internet ou Twitter.

Como o povo mapuche participa nas mobilizações estudantis?

O povo mapuche é um ator que ainda não é maioritário, mas tem se integrado a este processo. Não somente porque a demanda histórica da recuperação de suas terras é muito mais antiga que a nossa, mas porque a problemática da educação é muito mais integral do que pensávamos. De como se forma, como se educa. É através do processo de educação que se respeitam as distintas identidades e, neste caso, considerar como uma nação um povo que não é o mesmo que o povo chileno, que é o povo mapuche, que é diferente. Então, o projeto educativo que nós acreditamos que tem que se criar para o futuro envolve a realidade do povo mapuche: sua história, sua construção, sua visão de sociedade, sua visão de futuro, sua relação com o meio; essas coisas nós não somente temos que apresentar como um desafio para envolvê-las no sistema educacional, mas como uma questão à parte, também temos que nos alimentar desse conhecimento. Aqui tem exercido um papel muito importante o povo mapuche com a integração particular da Federação Mapuche de Estudantes, a Confech, que tem nos permitido repensar o projeto educativo com este fator.

Qual é o papel da imprensa e dos jornalistas nesse processo?

São um poder real. A imprensa no Chile está muito manipulada pelos grandes grupos econômicos, joga em grande medida a favor dos interesses do governo, obviamente. Todos conhecemos dos duopólios que estão por trás dos grandes meios de comunicação. Neste processo, ao menos a princípio, dispôs muito bem a opinião pública ao que estava acontecendo porque não havia outra, porque era muito massiva a manifestação, muito criativa, muito diversa, alegre; aqui o papel que exercem os meios também tinha que ser um pouco mais imparcial. Contudo, com o desenvolvimento do conflito se chegou ao ponto em que não se resolve nada com o governo e os meios tomaram outra estratégia, já clara, de indispor a opinião pública ante o movimento estudantil, os movimentos sociais, e isso se vê nas ruas, a disposição se centra na suposta delinquência, na violência, na necessidade de se reprimir, de criminalizar o protesto social; então, obviamente, os meios de comunicação são do sistema – um sistema comunicacional – em que se permite reproduzir a hegemonia de um discurso dominante, um discurso que provém particularmente do governo atual, dos setores mais reacionários.
Outra coisa são os meios alternativos, a rádio; eles exercem um papel que está se diversificando e ampliando mais, resultado da necessidade de comunicar da melhor forma o que está acontecendo. Com mais objetividade, um pouco mais a favor do que é realmente o movimento estudantil.

Em que momento sentiram que este movimento teria tanta força?

A verdade é que todos nós nos surpreendemos. Na primeira manifestação não esperávamos mais de 3 mil pessoas e chegaram em torno de 10 mil; esta foi a primeira vez que nos surpreendemos. Depois veio a segunda e a terceira crescia e não parava, não parava e todos nos surpreendemos; a cada manifestação que convocamos aderia mais gente.
A verdade é que houve uma surpresa contínua durante todo esse tempo e em algum momento pensamos “bom, houve um salto qualitativo maior”. Nós sempre soubemos que a demanda partia de algo simples, concreto: o endividamento, o problema do financiamento, chegando às propostas mais políticas, o sistema educacional que queremos e uma questão mais social – e política, também – que tem a ver com o questionamento do modelo de desenvolvimento que há no Chile. Então começamos a ver que a demanda não era setorial, mas que era multi-setorial, um problema mais sistêmico, que havia uma totalidade de setores e que todos eram afetados pelas consequências deste modelo de desenvolvimento que produz desigualdade, que produz injustiça, que não garante os direitos fundamentais.
Em determinado momento nos demos conta de que estávamos dando um salto qualitativo e que aqui não somente se questionava a qualidade da educação, mas a qualidade da nossa democracia, uma democracia falha, débil, que precisa se modificar, reformular-se e, nesse questionamento, começam a envolver-se muitas outras organizações, muitos outros setores, onde está a principal riqueza do movimento atual. Envolvem-se trabalhadores, povos, movimentos ambientais, homossexuais, etc.. Todas as minorias com projetos de maiorias.

Uma vez, falando dos partidos oficiais da esquerda do México, o deputado Marcos disse que são “a mão esquerda da direita”. Esta identificação seria válida para a Concertación também?

Sim, claro que sim. Finalmente a Concertación é a outra direita. A verdade é que no Chile nunca tivemos socialdemocracia. Nunca tivemos um regresso à democracia dentro de um processo de transição; é como uma transição que nunca termina, mas que é nada mais que a administração do modelo imposto na ditadura que nunca conseguiram questionar apesar de terem as possibilidades e o quórum necessário para fazer uma mudança estrutural, porque se acomodaram no modelo neoliberal que lhes gerou também um benefício, no âmbito da educação, por exemplo.
A Concertación tem um conflito de interesse. Tem escolas, tem universidades, etc. Então, toda esta crítica, toda esta desconfiança que surge dos jovens e em geral da sociedade em seu conjunto para a Concertación se justifica, e aqui a Concertación tem que encarregar-se. Tem que encarregar-se de todo o feito e de capitalizar politicamente isto ou o que impere o oportunismo político; tem que ter humildade e tem que ter uma auto-crítica muito forte.
A revolução dos pinguins.
Durante a revolução dos eu estava no primeiro ano da Universidade; claro, eu a via como uma questão impressionante, impactante a nível de massividade. Foi muito mais curta, mais breve, essa manifestação.
Minha opinião pessoa é que se perdeu a oportunidade de chamar a outros setores; acredito que os estudantes secundários quiseram exercer um papel protagonista. Acho que eles quiseram ser protagonistas nesse momento e não envolver outros setores; pensavam nos universitários como “apoiem mas não façam parte”. Então, acredito que houve uma marginalização, que talvez seja compreensível e legítima nesse momento, para não misturar elementos e posicionar em uma demanda central e para que ninguém instrumentalize o movimento; havia uma oportunidade real de fazer uma questão mais transversal e de maior pressão, porque entrou uma instância de negociação com a Comissão Assessora Presidencial onde não houve uma boa preparação, a classe política, e isso gerou um golpe e uma frustração muito grandes, que acabou com seu trabalho. Mas isso também nos ajudou a amadurecer e a ter esses elementos para não cair no mesmo jogo, nos serviu como experiência e, por isso, também, tem durado tanto e não caiu tampouco no jogo da manipulação de ninguém.


Quando o movimento de estudantes chilenos recém estava ascendendo, a impressa não sabia nem escrever corretamente seu apelido, de imediato te chamou de “líder” deste movimento. Parece que nestes tempos, depois da queda dos “socialismos reais”, que talvez não foram tão reais nem tão socialismos, o povo e os jovens não querem mais líderes nem vanguardas iluminadas... Vivemos uma necessidade de reformular o tema do poder não só fora, mas também dentro dos nossos movimentos... Como vê esse tema? Você se sente uma líder, uma dirigente, uma coordenadora, uma porta-voz?

Eu creio que a história nos pôs aqui. Não creio que sejamos líderes natos, eu acredito que as circunstâncias me obrigaram a estar aqui; poderia estar outro. E nos colocou como dirigentes neste momento. Acredito que este movimento se deve, principalmente, ao trabalho de todos, não principalmente às caras mais visíveis, mas a todos os que constroem dia a dia isto. Não porque saem para marchar, mas que constroem desde a assembleia, desde a articulação com outras organizações, e, nesse sentido, compartilho a ideia de que o poder não tem que estar concentrado em uma liderança, mas na base do movimento. E isso é um desafio também, porque hoje em dia não existe a revogação do poder, ou seja, ainda se apresenta como a problemática, a demanda e a exigência, o mesmo de sempre, mas não é a real consciência ainda, mesmo sendo um potencial que está se gerando, o de encarregar-se, do “encarreguemo-nos do que estamos pedindo”, sabendo que é uma luta ao longo prazo.
Nós não depositamos um cheque em branco a cada quatro anos a quem supostamente delegamos a responsabilidade de fazer mudanças, mas que nós mesmos nos encarregamos disso. Agora, eu acredito que ainda existe muito, e não somente a nível nacional, mas a nível mundial, a necessidade de ver o tema das lideranças, estes heróis que sempre se tratam de instalar na história, de que haja heróis que encabecem processos e povos como quem sente essa necessidade para retomar a esperança, mas acredito que tem que se reformular isso, fazer prevalecer a ideia de que o poder e a condução tem que ser em massa. Isso é fundamental, e no Chile, de alguma maneira, tem se desenvolvido assim, apesar dos meios instalarem muito a personificação.

Nos últimos 5 meses você se converteu em uma pessoa muito conhecida e querida pelo povo, não só no Chile. Há quem diga que as pessoas com o poder ou a fama sempre se transformam. Qual tem sido a sua experiência com este tema?

Não sei se me sobra tempo para que a vaidade suba à minha cabeça. Acredito que ainda me custa assimilar o impacto que tem isto na gente. É que muitos se focalizam no eu, eu, eu.... Mas creio que não. Creio que temos os pés no chão.
Se você escuta os políticos profissionais, a palavra eu é a mais frequente...
Sim, nos políticos profissionais, mas falando do movimento acredito que não, sabemos equilibrar esta situação e sempre dizemos isso também. Acho que é importante enfatizá-lo, porque muitas vezes vamos a fóruns ou conferências e nos aplaudem não por sermos nós. Os aplausos têm que ser para todos os nossos companheiros que nestes momentos o merecem. E nós estamos nas câmaras, e nas reuniões e fazendo mil coisas, mas se esquecem de todo o trabalho que os companheiros estão fazendo e sem eles isto não seria possível. Quem está construindo a base deste movimento são todos os estudantes, trabalhadores, professores que trabalham diariamente. Isso temos muito claro, e acredito que tem ajudado muito a não permitir que a vaidade não nos suba à cabeça.

Influências e referencias históricas

Talvez seja pela cultura que eu recebi do meu partido, mas acredito que não tem que ser comunista para valorizar e admirar Violeta, Víctor Jara e Allende. Eles são os que mais admiro como lutadores no âmbito da cultura e da política, ou seja, eram trabalhadores da cultura e além disso militantes de um projeto de construção, de transformação para maiorias, e sacrificaram tudo por isso. Esses são personagens pelos quais sinto muita admiração e tantos outros que vêm de antes, como (Luis Emilio) Recabarren. E da América Latina há vários, mas talvez são mais intelectuais: Mariátegui, Galeano, o Che, mas me gera muito mais simpatia e admiração o papel dos trabalhadores da cultura e Salvador Allende, que merecem todo o meu respeito e admiração.

O que gostaria de dizer aos jovens do México e da América Latina?
Aos do México, muito obrigada pelo exemplo de luta; eles, os da UNAM, nos mostraram que se pode sim, e isso é para nós muito esperançoso. E ao jovens da América Latina em geral que assumam com responsabilidade o que se tem impulsionado, no sentido de que é necessário sempre reger-se por alguns princípios; primeiro, fortalecer nossas organizações, pois são um fio que a suor, sangue e lágrimas todos temos conquistado, devemos defendê-las e protegê-las, porque são nosso patrimônio, são nossa principal ferramenta para a construção de uma sociedade distinta. A unidade, apesar das diferenças, mantê-la sempre. As esquerdas são muitas em todos os países; têm que ser construídas apesar da diferença. Nosso inimigo é um só, não está dentro. Por outro lado, entender que as grandes transformações não são feitas só pelos estudantes; tem que envolver aos trabalhadores, a nossas famílias, e tem que se ter boas estratégias de comunicação. Muitas vezes acreditamos que qualquer pessoa pode entender o que estamos apresentando, mas não é assim; tem que se usar o sentido comum, ainda que seja o menos comum dos sentidos muitas vezes, mas tem que se usar uma linguagem que chegue até o mais humilde, ao mais pobre. E isso é algo que temos que tratar com inteligência, sem perder o conteúdo. É uma recomendação, e a seguir adiante, que esta luta não é somente dos chilenos mas que é uma luta de todos os jovens, de todos os estudantes de todos os povos no mundo, que é uma luta por dignidade humana e pela recuperação de nossos direitos para alcançar essa dignidade que todos queremos, e sociedades mais humanas.

sábado, 26 de novembro de 2011

Solidariedade aos estudantes da USP

Por esse compromisso histórico do MST com a Educação Brasileira, viemos por meio desta carta demonstrar toda a nossa solidariedade e apoio aos estudantes.

A terra, assim como a educação, são latifúndios que historicamente sempre estiveram nas mãos da elite brasileira, fazendo com que servissem somente aos seus interesses. Mas ao mesmo tempo, a classe trabalhadora se organizou para lutar contra esses latifúndios. O MST e o Movimento Estudantil são provas dessa organização da classe trabalhadora.
O que se viu na ação da Polícia Militar do último dia 8/11 foi mais uma demonstração da truculência e arbitrariedade com que o governo do estado de São Paulo tem tratado os movimentos sociais nos últimos anos, com a clara intenção de reprimir e criminalizar as lutas e os lutadores sociais que sonham em construir um mundo mais justo.
Porém, essa não é uma ação isolada. Faz parte da estratégia que o capital tem para com o nosso continente: transformar todos os bens em mercadoria. A educação e a terra, para eles, são somente mais uma dessas mercadorias. Da mesma forma acontece em outros países, como por exemplo no Chile e na Colômbia, onde leis de reforma da educação propostas pelos governos tem o claro objetivo de transformar a educação em mercadoria.
Mesmo com os avanços desses processos de privatização da educação, os estudantes seguem se organizando e se mobilizando, como demonstram os estudantes chilenos que estão em luta desde o inicio desse ano e os estudantes colombianos, que há cinco semanas estão em greve e hoje fazem uma grande marcha em defesa da educação pública. Para os estudantes chilenos e colombianos, todo nosso apoio e solidariedade.
É nosso dever e nossa tarefa defender uma educação pública, gratuita e de qualidade para o campo e à cidade. Não podemos permitir mais que fechem escolas no meio rural como vem acontecendo nos últimos 10 anos, onde mais de 37.776 escolas do campo foram fechadas. Temos que defender a autonomia e a democracia dentro das universidades e escolas, com eleição direta para reitores e diretores.
Lutaremos por mais verbas para a educação, tendo na bandeira dos 10% do PIB para educação o nosso instrumento de luta para melhores salários aos professores, aumentar a verba para assistência estudantil, expandir o ensino público com contratação de professores e técnicos administrativos e a melhoria da infraestrutura das escolas e universidades no campo e na cidade.
Repudiamos a ação truculenta e antidemocrática da polícia de São Paulo sob o comando do governador Geraldo Alkmin e do Reitor João Grandinho Rodas. Basta de repressão e criminalização das lutas sociais!
Por esse compromisso histórico do MST com a Educação Brasileira, viemos por meio desta carta demonstrar toda a nossa solidariedade e apoio aos estudantes da Universidade de São Paulo, que lutam por autonomia e democracia nos rumos dessa importante universidade do nosso país para que ela represente de fato os anseios do povo brasileiro.

Direção Nacional do MST

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Justificativa

Desculpem por não estar postando no último período é que tenho andando bem ocupado, em breve postarei mais materiais.

Abraços!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O carro triunfou!

Apesar da campanha do “dia mundial sem carro”, o mesmo está mais do que nunca na moda. A civilização do automóvel já está entre nós brasileiros

21/09/2011

Cesar Sanson*

O carro triunfou. Eles entopem os estacionamentos das universidades privadas e públicas, dos aeroportos, dos shoppings, dos supermercados. Estacionar já se tornou um drama. Ter uma vaga cativa – e gratuita – é um privilégio que se assemelha ao da casa própria.

Nos grandes centros já é mais caro estacionar do que almoçar. A verdade é que ninguém quer andar de ônibus e menos ainda de bicicleta, com as ruas atulhadas de carros se tornou um perigo pedalar, fora a quantidade enorme de gás carbônico que se ingere.

A sugestão da “carona solidária” não pegou. Ninguém quer andar de carona com o outro, todos querem dirigir sua própria máquina. Ninguém quer esperar ninguém. Aliás, o ato de “esperar” se tornou um problema. Em tempos de sociedade da “banda larga”, esperar é o mesmo que sofrer.

O estresse no trânsito é alto, os engarrafamentos enormes, a irritação é grande, mas ninguém quer abrir mão do carro. E ainda mais: quanto mais potente, belo e equipado o carro, melhor. A última novidade é o GPS a bordo. Todos querem.

Já não basta o carro como utilidade de ir e vir, ele tem também que passar a imagem de belo e potente. Pense num mesmo itinerário feito por dois modelos diferentes de carros, um popular e um da categoria Sport Utility Vehicle, os SUV, que são potentes e com design arrojado. Qual é a diferença? A princípio nenhuma, os dois levam ao local desejado e, com os congestionamentos, no mesmo tempo. Porém, o capitalismo vende a ideia de que dirigir um SUV é mais agradável, a paisagem se torna mais bonita, o ar mais puro. Logo dirigir um carro potente oferece a sensação de prazer e poder que um popular não oferece.

Dirigir se tornou um ato de poder e prazer. Quem não tem carro deseja um, mesmo que seja popular, e quem tem um popular deseja um SUV. Ninguém quer regredir no consumo.

Nas eleições municipais do ano que vem, a problemática do trânsito insuportável nas grandes capitais voltará à baila e nenhum candidato terá a coragem de afirmar que a única forma de enfrentar o problema em áreas de congestionamentos é o pedágio urbano. A proposta é antipática. Viadutos, pontes, avenidas e eternas melhorias no transporte coletivo serão prometidas. O Brasil perde uma oportunidade com a proximidade da Copa do Mundo. O tema está desconectado da construção de estádios.

O fato é que apesar da campanha do “dia mundial sem carro”, o mesmo está mais do que nunca na moda. A civilização do automóvel já está entre nós brasileiros. As concessionárias e revendedoras comemoram vendas fantásticas e quebram recordes sucessivos. O governo dá o seu empurrão com as reduções de IPI que vão e voltam.

As montadoras afirmam que o “brasileiro ama carro”. E vai ver que ama mesmo, que o diga a “liturgia” de lavar o carro no final de semana, uma manifestação de amor ao veículo que ganha laços afetivos de membro da família.


*Cesar Sanson é pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutor em sociologia pela UFPR.

Extraído: http://www.brasildefato.com.br/content/o-carro-triunfou

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Por uma nova geografia, Milton Santos - Fichamento

Capítulo IX - Uma nova interdisciplinaridade
“Desde que a geografia começou a busca de sua individualidade como ciência, os geógrafos tiveram a pretensão de que ela fosse, antes de tudo, uma ciência de síntese, isto é, capaz de interpretar os fenômenos que ocorrem sobre a face da terra, com a ajuda de um instrumental proveniente de uma multiplicidade de ramos do saber científico tanto no âmbito das disciplinas naturais e exatas, quanto no das disciplinas sociais e humanas”. (p.97)
“A capacidade de síntese, que não é privilégio de nenhum especialista surge como resultado de uma preparação intelectual que vai além da própria especialidade para abarcar o universo das coisas e a compreensão de cada coisa como um universo”. (p.98)
O isolamento da geografia
“Com a geografia além do mais, estamos diante de um paradoxo que, ao mesmo tempo, é uma ironia. Na verdade essa ciência de síntese é, seguramente, aquela que, na sua realização cotidiana, mantém menos relações com outras disciplinas. Tal isolacionismo é mesmo responsável pelas dificuldades que ela encontra para evoluir”. (p.98)
“De fato, a manutenção da ideia da existência de escolas nacionais de geografia está ligada, sobretudo, a um certo gênero de competição, cujos efeitos se fazem originariamente sentir muito mais fora das fronteiras dos diversos países. Cada qual das chamadas Escolas Nacionais de Geografia funciona muito mais eficazmente no estrangeiro do que dentro de casa. Constituem uma forma a mais de exercitar o imperialismo cultural, que é uma maneira insidiosa de insinuar, através dos intelectuais locais, uma interpretação alienada das realidades locais”. (p.99)
“Mas, nesta história cheia de ironias que é a história da geografia, tudo pode acontecer. A exportação de uma forma de elaborar o conhecimento que representa os interesses internos e externos do país exportador, termina por repercutir dentro dele através do condicionamento da pesquisa e do ensino, que formam uma unidade junto com os interesses político-econômicos dominantes em cada país. Isso ajuda, igualmente, a criar um isolacionismo que a barreira linguística e o agravamento das disputas hegemônicas entre países ricos só faz agravar”. (pp.99-100)
Vantagens da interdisciplinaridade
“A geografia padece, mais do que as outras disciplinas, de uma interdisciplinaridade pobre e isso está ligado de um lado à natureza diversa e múltipla dos fenômenos com que trabalha o geógrafo e de outro lado, a própria formação universitária do geógrafo”. (p.100)
“Na realidade, ainda está para ser analisada mais profundamente a coerência de uma autêntica preocupação interdisciplinária entre os geógrafos, potencialmente agravada pelo fato de todos, ou quase todos, estarem absolutamente certos de que trabalham de forma interdisciplinar. Como na realidade isso não se passa, a geografia não se beneficia dessa forma de enriquecimento”. (pp.100-101)
“O filósofo inglês Whitehead (1938 p. 136) nos lembra que a explicação para muitos fenômenos correspondentes a uma dada ciência é muitas vezes encontrada fora do âmbito dessa ciência. Em outras palavras: se ficamos confinados à sociologia para explicar o que se chama o fato social; à economia, para compreender os fenômenos econômicos; à geografia, para interpretar as realidades geográficas, acabamos na impossibilidade de chegar a uma explicação válida. Não há porque temer a invasão do campo do outro especialista”. (p.101)
“Na verdade, o princípio de interdisciplinaridade é geral a todas as ciências. Foi Jacques Boudeville quem escreveu que ‘toda ciência se desenvolve nas fronteiras de outras disciplinas e com elas se integra em uma filosofia. A geografia, a sociologia, a economia, são interpretações complementares da realidade humana’.”(p. 102)
Geografia e interdisciplinaridade
“A busca dessa interdisciplinaridade há tempo sugerida por Ritter inspirou os geógrafos em certo número de soluções. Uma delas foi a entronização do que se poderia chamar de geografias especiais, fórmula adotada por Jean Brunhes como Camille Vallaux, ambos criticados por Maximilien Sorre... ‘Apesar do que disseram Brunhes e Vallaux’, continua Sorre, ‘não há geografia especial nem um problema de geografias especiais, mas, somente capítulos de uma geografia humana cuja unidade não se deve romper porque o homem individual é, em cada um dos seus atos, um homem total’.” (p. 103)
“Além disso, e assim como ocorreu com muitas outras disciplinas, um outro fator veio contribuir para que a meta muito desejada não fosse alcançada. Referimo-nos à confusão entre interdisciplinaridade e multidisciplinaridade. Quando se fala em multidisciplinaridade se está dizendo que o estudo de um fenômeno supõe uma colaboração multilateral de diversas disciplinas, mas isso não é por si mesmo uma garantia de integração entre elas, o que somente seria atingível através da interdisciplinaridade, isto é, por meio de uma imbricação entre disciplinas diversas ao redor de um mesmo objetivo de estudo”. (p. 104)
“...Uma interdisciplinaridade mercantil, ao invés de fazer progredir a ciência, contribui para a sua regressão. Esse modelo, fundado na índole comercial de certas universidades do mundo desenvolvido é, todavia, transplantado para países cujas condições reais são bem diversas”. (p.104)
As etapas da interdisciplinaridade aplicada à geografia
“Em primeiro lugar teremos que falar da interdisciplinaridade clássica, baseada em relações bilaterais entre a geografia e a história. Durante muito tempo se considerou a história e a geografia como uma espécie de irmãs siamesas”. (p. 105)
“A noção de uma história que organiza os fenômenos no tempo e de uma geografia que os organiza no espaço, herança de Kant que Hettner reelaborou aperfeiçoando-a, e que um sem-número de geógrafos do nosso próprio tempo manteve quase intacta é responsável por um equívoco extremamente grave no domínio do método: porque a geografia, na realidade, deve ocupar-se em pesquisar como o tempo se torna espaço e de como o tempo passado e o tempo presente têm, cada qual, um papel específico no funcionamento do espaço atual...”. (p. 105)
“O melhor é pensar em termos de espaço e tempo. Estas duas noções também não são liberadas das mesmas dificuldades, talvez até maiores que as relacionadas com os vocábulos História e Geografia, porque o debate em torno da significação do Tempo e do Espaço iniciou-se com o começo da filosofia”. (p. 106)
“Uma segunda etapa da interdisciplinaridade em geografia é marcada por um fato muito mais negativo do que positivo, quer dizer, pela recusa dos geógrafos em aperfeiçoar conhecimentos oriundos de outras disciplinas. Esta fase é contemporânea daquele momento crucial em que os fundadores da geografia moderna passaram a ter como preocupação fundamental afirmar a geografia como uma ciência e como uma ciência autônoma”. (p. 106)
“A noção de interdisciplinaridade evoluiu com o progresso científico e o progresso econômico. E as novas realidades, exigindo uma explicação particular, exigem o aparecimento de novas disciplinas científicas. Isto equivale à morte da interdisciplinaridade clássica e à sua substituição por uma outra. O que ontem ainda podia ser considerado como um enfoque interdisciplinar correto, hoje não o é mais. Torna-se também necessário recusar aquelas contribuições parciais que anteriormente eram úteis, sempre que elas não mais representem as realidades. Nas condições novas aumenta a possibilidade de ajudar as ciências afins a progredir de fora para dentro com a contribuição de matérias vizinhas. Se, todavia, fazer progredir uma ciência particular não é um privilégio dos seus próprios especialistas, é, todavia, indispensável que o cientista, disposto a esse tipo de exercício, disponha das faculdades de crítica que somente podem ser-lhes oferecidas pela posse de uma concepção filosófica coerente”. (p. 107)
“A transformação da tecnologia em técnica é subordinada a dados econômicos, políticos, ideológicos; daí a necessidade da intervenção dos ensinamentos das ciências respectivas. Em nossos dias a ideologia vê aumentado o seu papel na interpretação do espaço pelo fato de os objetos serem planejados e construídos, com o objetivo de aparentar uma significação que realmente não têm. Tal significação é, muitas vezes, um resultado da preocupação com interesses de ordem internacional. Daí a importância do estudos das relações internacionais. E é para separar o significado assim outorgado ao objeto do seu valor real que a contribuição da semiologia surge como importante”. (p. 108)
“...E David Harvey (1972 p. 41 in Grave), um dos poucos geógrafos a se aventurar nesta seara intrincada que é a epistemologia da geografia, lembrando a dificuldade de termos de compreender psicologia, economia, sociologia, física, química e biologia, teme (1972 p. 41) ‘que a necessidade de especialização possa conduzir muitos dentre nós a nos concentrar apenas em um dos aspectos desse problema tão vasto’. Isto seria chegar ao resultado oposto ao desejado porque, ao invés de alcançar uma interdisciplinaridade suscetível de compreender os diversos aspectos de um mesmo objeto, chegaríamos a uma interdisciplinaridade coxa, uma especialização com todos os perigos da analogia do tipo mecânico”. (p. 109)
“O limite entre a utilização de uma descoberta obtida em um domínio do conhecimento e a posse completa e aprofundada deste domínio é bem colocado por A. N. Whitehead, quando se refere à enorme contribuição de Einstein para o desenvolvimento do conjunto das ciências. Em um discurso pronunciado ante uma assembleia de químicos ele foi levado a dizer: ‘sei bem que estou falando para membros de uma sociedade de química que, na sua maioria não são versados nas matemáticas avançadas. O primeiro ponto sobre o qual devo, pois, insistir é o de que, o que concerne imediatamente aos senhores não são exatamente as deduções detalhadas da nova teoria, mas as modificações de ordem global na base mesmo das concepções científicas, que decorrerão de sua aceitação’(A. N. Whitehead, The concept of nature, Cambridge at the University Press, 1964 p. 164)”. (p. 110)
A necessidade de uma definição do objeto da geografia
“As dificuldades para chegar a uma interdisciplinaridade legítima fizeram pensar a muitos que o melhor caminho poderia ser encontrado por uma espécie de trabalho de pesquisa cooperativa. Especialistas de diversas áreas seriam convocados, trazendo consigo sua bagagem metodológica própria, a fim de oferecer as múltiplas contribuições necessárias a que a geografia pudesse trabalhar de forma realmente interdisciplinar. A sugestão, evidentemente, serviria às outras disciplinas, que seriam, igualmente, interdisciplinares”. (p. 110)
“Uma interdisciplinaridade que não leva em conta a multiplicidade de aspectos com os quais se apresenta aos nossos olhos uma mesma realidade, poderia conduzir a construção teórica de uma totalidade cega e confusa, incapaz de permitir uma definição correta de suas partes, e isso agravaria, ainda mais, o problema de sua própria definição como realidade total”. (p. 111)
“Isto supõe que se reconheça um objeto à geografia e que se hajam identificado suas categorias fundamentais. É bem verdade que as categorias mudam de significação com a história, mas elas também são uma base permanente e portantoum guia permanente para teorização. Em nosso caso, trata-se da produção do espaço”. (p. 111)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Geografia Agrária: perspectivas no início do século XXI

No texto Geografia Agrária: perspectivas no início do século XXI, Ariovaldo Umbelino de Oliveira defende inicialmente a necessidade de abrir a discussão sobre as múltiplas dimensões que envolvem as análises sobre o campo, o que significaria mergulhar no debate político, ideológico e teórico. Segundo o autor o debate e o confronto de ideias são função da produção acadêmica e da reflexão intelectual.
Para o autor as alterações recentes na configuração territorial do mundo e do Brasil, especialmente, nas duas últimas décadas do século XX, revelaram que o mundo, assim como o Brasil, transformaram-se. O capitalismo monopolista teria adquirido novos padrões de acumulação o que muitos chamaram de modernidade, pós-modernidade, etc. Viveríamos, portanto, em uma nova etapa da história.
Para Ariovaldo, estamos todos inseridos no turbilhão da modernidade, sendo que alguns engajam-se no establishment, fazendo da ciência instrumento de ascensão social e envolvimento político; e outros, criticam-no, procurando colocar o conhecimento científico a serviço da transformação e da justiça social. No entanto, o importante seria, através do debate, fazer as necessárias reflexões sobre a práxis e dar conta da utopia, para pensá-la como instrumento que contribua com a construção da liberdade, da autonomia e do compromisso social no interior da prática universitária.
Segundo Ariovaldo, a geografia moderna teria nascido no século XIX, sob a égide do debate filosófico entre o positivismo, o historicismo e a dialética. Essas três correntes de pensamento estariam nas raízes do pensamento geográfico moderno. O autor estaria assumindo uma posição crítica em relação a autores que tratam deste período da historia da geografia, classificando-o como Geografia Tradicional. Para Ariovaldo, esta expressão não ajudaria a revelar a matriz historicista da geografia, e não abriria a possibilidade para compreensão do importante debate entre o materialismo e o idealismo nas ciências humanas. Segundo o autor esse debate geografizado, retiraria a discussão do campo da filosofia, remeteria à origem da geografia, exclusivamente ao positivismo, e continuaria desconhecendo a possibilidade de uma terceira raiz do pensamento geográfico influenciada pela dialética.
Para Ariovaldo, o positivismo que teve em Auguste Comte seu principal representante, seria um sistema coerente e operacional que entende que a sociedade seria regida por leis naturais, e por conta disso, poderia ela ser epistemologicamente assimilada pela natureza e ser estudada pelos mesmos métodos das ciências naturais, além do que, as ciências da sociedade, deveriam limitar-se à observação e à explicação causal dos fenômenos, de forma objetiva, neutra e livre de julgamentos de valor ou ideologias.
A ideia de uma ciência axiologicamente neutra não seria exclusividade do positivismo, ela apareceria mesmo no historicismo, e até no marxismo. O movimento neopositivista na geografia, representado pelo empirismo lógico, teria mantido praticamente intactos os postulados básicos do positivismo, sobretudo o da objetividade/neutralidade científica. Sendo assim, a história do pensamento geográfico na Geografia Agrária, não teria sido em hipótese alguma diferente da influencia dessa corrente, sobretudo na sua versão atual, a teórico-quantitativista.
O historicismo segundo Ariovaldo, seria uma escola fundada na Alemanha que teve como um de seus principais expoentes, Wilhelm Dilthey. Nascida no interior do idealismo a escola historicista defenderia a autonomia do estatuto científico das ciências humanas, admitindo que todo fenômeno cultural, social e político, é histórico; que existem diferenças fundamentais entre fatos naturais e fatos históricos; e que não somente o objeto da pesquisa está imerso na história, mas também o próprio pesquisador. O historicismo estaria na raiz filosófica daquilo que os geógrafos chamam de possibilismo. Além do que também a discussão sobre região na geografia teria que passar necessariamente pelo historicismo. A história do pensamento na Geografia Agrária também teria sido fortemente influenciada por esta corrente de pensamento.
O autor menciona que ocorre um avanço da fenomenologia na geografia, e que hoje, a maior parte dos trabalhos produzidos em geografia seriam influenciados por esta corrente, e também pelo neo-historicismo, como por exemplo, as pesquisas sobre percepção e modo de vida das populações camponesas.
Segundo Ariovaldo, a dialética como corrente filosófica na geografia seria uma raiz propositadamente esquecida. Nascida no século XIX das obras dos anarquistas Eliseé Reclus e Piotr Kropotkin, contemporâneos de Marx, discutiram profundamente as concepções de Hegel e a transformação da sociedade capitalista. Esse debate seria retomado apenas no final da década de 1930 na França por um grupo de intelectuais franceses, dentre eles Pierre George e Yves Lacoste.
Para Ariovaldo, a dialética teria sido trazida pela influência marxista, e como corrente na Geografia Agrária estaria na base de um conjunto de trabalhos de geógrafos brasileiros como Orlando Valverde e Manuel Correia de Andrade. Essa influência seria marcada por princípios como o condicionamento histórico e social do pensamento. Com o marxismo teria iniciado o desmascaramento do discurso de neutralidade e objetividade presente no positivismo e no empirismo lógico, e mesmo no historicismo. Entretanto, segundo Ariovaldo, na história do marxismo, diferentes autores não escaparam da influência positivista, historicista ou mesmo racionalista, o que teria desenvolvido de um lado um marxismo positivista e de outro um historicista. A Geografia e a Geografia Agrária teriam sido influenciadas por essas concepções.
Segundo Ariovaldo, o estudo da agricultura brasileira tem sido feito por muitos autores que expressam diferentes vertentes do marxismo. Uma primeira vertente inclui aqueles que defendem a ideia de que no Brasil houve feudalismo ou mesmo relações semifeudais de produção, e que por conta disso advogam que seria preciso acabar com essas relações e ampliar o trabalho assalariado no campo. Segundo eles a luta dos camponeses contra o latifúndio exprimiria o avanço da sociedade na extinção do feudalismo, e a luta pela reforma agrária seria um instrumento que faria avançar o capitalismo no campo. Para estes autores o capitalismo estaria penetrando no campo. Dentre os vários autores poderíamos destacar Nelson Werneck Sodré e Orlando Valverde.
Uma segunda vertente defende a tese de que o campo brasileiro já está se desenvolvendo do ponto de vista capitalista, e que os camponeses irão desaparecer. Segundo esta vertente os camponeses ao tentarem produzir para o mercado se endividariam, e acabariam indo a falência tendo de vender suas terras para pagar suas dívidas, ou entregando-as aos bancos, tornando-se proletários. A maior parte dos trabalhos produzidos em geografia agrária teriam por base esta concepção. Dentre os principais pensadores dela estão Marx, Lênin e no Brasil poderíamos destacar José Graziano da Silva e José Eli da Veiga.
Ariovaldo afirma que para essas duas vertentes, na sociedade capitalista avançada não teria lugar histórico para os camponeses no futuro da sociedade. Segundo ele, isso se daria porque esses autores pensam a sociedade capitalista como sendo composta apenas por duas classes sociais, a burguesia e o proletariado, e por contam disso muitos autores e mesmo partidos políticos não assumiriam a defesa dos camponeses. Para Ariovaldo esses autores teriam esquecido uma frase escrita por Marx em O capital, onde o filósofo alemão defende a existência de três classes sociais, a burguesia, o proletariado e os proprietários de terra, onde entrariam os camponeses.
Para Ariovaldo, ou entende-se a questão no interior do processo de desenvolvimento do capitalismo no campo, ou então continuar-se-á a ver muitos autores afirmarem que os camponeses estão desaparecendo. Segundo ele, na realidade, o que ocorre é que esses autores têm uma concepção teórica que deriva de uma concepção ideológica de transformação da sociedade capitalista, o que levaria a uma interpretação equivocada da realidade.
Ariovaldo afirma fazer parte de uma terceira vertente da geografia agrária. Segundo o autor, o estudo da agricultura brasileira deve ser feito levando em conta que o processo de desenvolvimento do capitalismo no território brasileiro é contraditório e combinado, ou seja, que ao mesmo tempo em que avança reproduzindo relações especificamente capitalistas, implantando o assalariamento, como é o caso dos bóias-fria, por outro lado, o capitalismo produz igual e contraditoriamente relações não-capitalistas, como é o caso do trabalho familiar típico das relações camponesas. Entre os pensadores desta vertente podemos destacar Rosa Luxemburgo e José de Souza Martins no Brasil.
Por fim, Ariovaldo enumera um grande número de trabalhos acadêmicos, dissertações e teses, feitas por orientandos seus que segundo ele são fiéis aos princípios de liberdade, autonomia e compromisso social, cada um ao seu modo criando novos recortes no interior dessa já clássica concepção de entender a recriação camponesa em meio ao capitalismo.

sábado, 27 de agosto de 2011

O surgimento do crack

Na década de 1980 jovens do bairro pobre de South Central de Los Angeles, Califórnia, foram devastados pelo crack. Em 18/08/1996 o jornal local San José Mercury News, publicou uma série de artigos sobre como a droga se apoderou daquele território.

O que esteve por trás de tudo: o escândalo Irã-Contras e as ligações entre a CIA, DEA (Departamento Anti-Drogas) e os cartéis colombianos, protegendo a entrada de drogas nos EUA para financiar os “Contras” na Nicarágua A citação é longa mas merece ser reproduzida por extenso:

Os que possuem boa memória se recordarão do processo contra o coronel Oliver North, que terminou com sua condenação. Os autos desse processo demonstraram com nomes e fatos que por vários anos a CIA e a DEA estiveram em contato com os chamados cartéis colombianos, protegendo, a entrada de drogas nos Estados Unidos. Tal operação servia para encontrar fundos ilegais para financiar as forças opositoras ao governo sandinista da Nicarágua. Lembremos também que esses fatos foram provados por uma comissão no Senado, presidida pelo já citado, senador John Kerry.

É neste clima que Danilo Brandon, pertencente a uma das famílias mais ricas da Nicarágua e expoente do partido anti-sandinista Fuerza Democrática, entra em contato com Ivan Meneses, pequeno criminoso, já fichado pela polícia norte-americana. Juntos encontraram em Honduras um tal coronel Bermudez, regularmente pago pela CIA, que lhes propõe traficar a cocaína da Colômbia para o interior dos EUA para conseguir fundos. Entram em contato com o chamado cartel de Cáli e tentam entrar no mercado de Beverly Hills, famoso bairro onde se concentram os ricos de Hollywood. Porém os canais já estão ocupados. Experimentam então com as zonas mais pobres de Los Angeles, mas a cocaína custa muito caro para os bolsos dos jovens e o preço de mercado não deve ser rebaixado porque entrariam em conflito com outras quadrilhas.

Os valentes `combatentes pela liberdade` encontram-se num impasse, até que uma inovação tecnológica vem resolver seus problemas. Através dos cristais que restam da fabricação da cocaína, é possível fabricar uma droga muito mais barata e mortal, adequada aos pobres, que será chamada de crack. Eis que os guetos negros de Los Angeles, onde o desemprego juvenil chega a 45%, pode ser inundado com o novo produto. Por cinco anos de 1982 a 1987, os contras nicaragüenses, com a cobertura de organismos oficiais, despeja 100 quilos de cristais de coca semanais sobre South Central. Os lucros são lavados em Miami e partem para a América Central para alimentar a subversão contra o governo de Manágua.

Ao tomar conhecimento desses fatos, a comunidade negra justamente se rebela e exige a abertura de um processo que lance luz sobre os episódios e condene os culpados. A reação da administração Clinton é hesitante, e faz-se de tudo para sepultar o episódio. O jornal conservador Washington Post, mesmo reconhecendo que a CIA conhecia pelo menos parte das atividades dos traficantes e que não fez nada para bloqueá-los, tenta desmoralizar os artigos publicados pelo San José Mercury News, dizendo que a quantidade de cristais de coca que entraram em Los Angeles por mãos dos contras nicaragüenses não foram 27.000 quilos mas apenas 5.000!!!

Mesmo aceitando a cifra menor acenada pelo Washington Post, isso significa algo como 10 milhões de doses. Além do quê, a partir dessa atividade criminosa exercida contra os negros de Los Angeles, o crack espalhou-se pelas metrópoles dos Estados Unidos e de vários países latino-americanos. Esta é uma história para recordarmos quando vemos nas ruas de São Paulo as nossas crianças agonizando ou cometendo crimes porque viciadas em crack. Agora sabemos quem são os primeiros responsáveis, que elaboraram suas perversidades e decretaram que tantas crianças não deveriam possuir sonhos e nem futuro (DEL ROIO, 1997, p 120, 121, 122).

Fonte: http://www.urutagua.uem.br/012/12jansen.htm

domingo, 31 de julho de 2011

Democratização ou interesses privados?


Oficialmente, a livre docência no ensino superior do Brasil só pode ser exercida por mestres e doutores, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) vigente. No entanto, um projeto de lei do Senado, que tem Alvaro Dias (PSDB-PR) como relator, pretende dispensar a necessidade de pós-graduação em instituições superiores.

O projeto do senador tucano, de número 220/2010, foi aprovado à francesa na Comissão da Educação do Senado em junho último e deve ser discutido em sessão da Casa nas próximas semanas. Uma vez aprovado, qualquer pessoa com nível superior poderá dar aula em qualquer universidade do país.

No sistema atual, há muitos casos em que a instituição superior tem professores ainda sem mestrado dando aulas. Mas estes casos se enquadram em uma concessão do MEC (Ministério da Educação) até que a instituição se organize para ter profissionais gabaritados, com prazo definido.

A ideia dos idealizadores do projeto 222/2010 é democratizar o ensino superior, com mais gente dando aula em mais faculdades. No entanto, a possível mudança gera preocupação nos meios acadêmicos. A Federação dos Professores do Estado de São Paulo divulgou nota declarando considerar um retrocesso a mudança: “Os empresários do ensino privado, que nunca dormem no ponto, viram na proposta uma grande oportunidade para flexibilizar as regras de contratação em todos os cursos da rede privada. Para tanto, tiveram o apoio do senador Alvaro Dias, relator da proposta na Comissão de Educação. Generoso, o parlamentar manteve a possibilidade de contratar graduados, suprimiu a ‘relevante experiência profissional’ e ainda estendeu a flexibilização para todos os cursos”.

O professor José Roberto Castilho Piqueira, da Escola Politécnica da USP, é incisivamente contrário à proposta do senador tucano. “Muitas vezes algumas universidades particulares mandam o professor embora quando ele faz o mestrado ou o doutorado, porque tem que pagar salários maiores para ele. O espírito desta emenda, na minha opinião, é o ‘tá liberado’. Posso contratar qualquer pessoa com qualquer nível de graduação, mesmo com formação parca, para aumentar meus lucros”, afirma.

Castilho Piqueira também enxerga a possível mudança como anti-democrática. “Existe uma demanda muito forte para os cursos de Engenharia e Tecnologia para as próximas décadas no Brasil. O Estado investe muito dinheiro na qualificação de profissionais através do Capes, Faperj, Unifesp e outras. E, no entanto, quando você permite essa mudança, faz com que os mestres e doutores formados com dinheiro público não devolvam esse conhecimento à sociedade. É um desperdício. Os que querem a mudança vestem uma fantasia de liberais e nos pintam como autoritários, como quem diz que esses caras acham que só título que interessa e nós sabemos reconhecer o trabalho prático. Na prática, isso é balela”, complementa Piqueira.

Já existe uma petição online para pressionar o Senado a votar contra a o projeto de lei 222/10.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/democratizacao-ou-interesses-privados

A era do preconceito

Celso Amorim

29 de julho de 2011 às 22:03h

Nesta era da internet a informação é instantânea. A desinformação também. A notícia sobre os trágicos atentados de Oslo chegou-me enquanto eu navegava pelos sites que costumo frequentar para me atualizar sobre o que ocorre no mundo. Pus-me imediatamente em busca dos detalhes. Abri a página de uma respeitada revista internacional. Além de alguns pormenores, obtive também a primeira explicação, que veria em seguida nas versões eletrônicas dos jornais brasileiros, segundo a qual o perpetrador dos atos terríveis era alguém a serviço de um movimento fundamentalista islâmico. Dois dias depois do acontecido, quando ficou claro que, na verdade, se tratava de um extremista de direita que pertenceu a movimentos neonazistas, ainda é possível encontrar, mesmo com ressalvas (porque a internet comete essas “traições”), a mesma interpretação apressada, baseada no preconceito contra muçulmanos.

No caso da revista internacional, a interpretação não se limitou a essa caracterização genérica. Deu “nome e endereço” do facínora, que seria um iraquiano curdo ligado a sunitas fanáticos, vivendo no exílio desde 1991. O articulista foi mais longe. Apontou as possíveis motivações do crime hediondo, que estariam relacionadas com a presença de tropas norueguesas no Afeganistão e com a percepção, por parte dos tais fundamentalistas, da cumplicidade da imprensa norueguesa com caricaturas ofensivas ao Profeta.

Evidentemente, tudo isso era muito plausível, à luz do ocorrido no 11 de Setembro, descartando-se as hipóteses conspiratórias sobre aquele trágico episódio. Mas era igualmente plausível a hipótese, que acabou confirmada, de que se tratasse de outro tipo de fundamentalista, do gênero “supremacista branco”. O alvo do ataque era um governo da esquerda moderada, visto como tolerante em relação a imigrantes e aberto ao diálogo com as mais diversas facções em situações conflituosas, inclusive no Oriente Médio. Para sublinhar a natureza ideológico-religiosa do ato de violência, o terrorista visou também a juventude do partido, pacificamente acampada em uma ilha.

Algo semelhante havia ocorrido seis anos antes do atentado contra as Torres Gêmeas, quando outro fanático havia feito explodir um prédio público na cidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. Daquela feita, o Estado – e tudo o que ele simboliza como limitação ao indivíduo, percebido como independente e antagônico em relação à sociedade – foi o objeto da ira destruidora. Também naquela época, quando a Al-Qaeda ainda não havia ganhado notoriedade, as primeiras análises apontaram para os movimentos islâmicos.

Não ponhamos, porém, a culpa na internet. Ela apenas faz com que visões baseadas em preconceitos, que não deixam de refletir certo tipo de fundamentalismo, se espalhem mais rapidamente, com o risco de gerarem “represálias” contra o suposto inimigo. Felizmente, neste caso, a eficiente ação da polícia norueguesa impediu que isso ocorresse. Mas o risco existe de que, em outras situações, as tragédias se multipliquem, por vezes com o apoio de movimentos marginais inconsequentes, que buscam tirar partido dos eventos, assumindo responsabilidade por algo que não fizeram.

Não é possível ignorar que, no caso da invasão do Iraque, o preconceito, e não apenas a manipulação deliberada (que também existiu), estava por trás de vinculações absurdas, usadas para justificar decisões que causaram centenas de milhares de vítimas (há quem fale em 1 milhão). O suposto elo entre Saddam Hussein e o terrorismo nunca se comprovou, da mesma forma que eram falsas as alegações quanto à posse por Bagdá de armas de destruição em massa. Num primeiro momento, contudo, essas justificativas foram aceitas pela maioria da população norte-americana.

Não sejamos inocentes. Interesses econômicos e políticos, e não apenas preconceitos, motivaram a decisão de atacar o Iraque. Mas o pano de fundo de uma visão particularista do mundo, em que “diferente” se torna sinônimo de “inimigo”, ajuda a criar o caldo de cultura de que se valem os líderes para obter, das populações que governam, o indispensável apoio às suas custosas aventuras bélicas.

A Noruega não corre esse risco. Como disse o primeiro-ministro Stoltenberg, o terrorismo insano não destruirá a democracia do país nórdico, que, ademais, se tem notabilizado por importantes iniciativas em favor da paz. Aliás, é o ódio às pessoas que promovem a paz e o entendimento, além da intolerância e do fanatismo, que está na raiz desse bárbaro atentado. Infelizmente, não só o orgulho, como queria a romancista inglesa, mas também o ódio costuma ser um companheiro inseparável do preconceito.

sábado, 30 de julho de 2011

Pentágono e CIA, íntimos

A estratégia das guerras imperiais dos EUA implica uma colaboração cada vez mais profunda entre a CIA e o Pentágono

29/07/2011



Miguel Urbano Rodrigues



O general David Petraeus despediu-se em Kabul das tropas de ocupação dos EUA com um discurso cauteloso. Vai assumir a direção da CIA.

A cerimônia quase coincidiu com a despedida nos EUA do diretor da CIA, Leon Panetta, transferido para secretário da Defesa.

A mídia estadunidense derramou elogios sobre ambos.

Petraeus é apresentado como um estratego muito dotado, um soldado-intelectual, quase um pensador. Estudou em Princeton, é mestre em Relações Internacionais, lecionou em academias militares e escreveu ensaios e livros de que muitos falam e poucos leram. Em artigos apologéticos chamam-lhe “o pacificador do Iraque”, não obstante a resistência à ocupação estadunidense aumentar a cada mês naquele país.

Leo Panetta foi nomeado para dirigir o Pentágono como prêmio pelo papel que desempenhou como cérebro e coordenador da operação concebida pela CIA para assassinar Bin Laden numa cidade do Paquistão.

Quando Petraeus assumiu o comando no Afeganistão após o afastamento do general Stanley Mc Chrystal – demitido por criticar Obama - fixou dois objetivos principais: ganhar a guerra e criar um exército afegão capaz de “garantir a segurança” no país. Nem um nem outro foram atingidos.

Transcorridos dois anos, as áreas sob controle da Resistência aumentaram e os atentados terroristas são mais frequentes.

Respondendo a Petraeus, o seu substituto, general John Allen, pronunciou um discurso que caiu mal em Washington. Aconselhou civis e militares a não alimentarem ilusões. Esclareceu que “o terrorismo no pais é uma realidade” e o horizonte se apresenta carregado de ameaças e desafios.

Quanto ao exército afegão, a esperança de Petraeus também não se confirmou. A realidade desmentiu as previsões. Até o The New York Times reconhece que os soldados fogem ao combate, as deserções aumentam e a infiltração dos talibãs alastra, atingindo os comandos. O assassinato recente em Kandahar do irmão de Hamid Karzai por um homem da sua confiança comprovou essa evidência.

Nos comentários à ida de Petraeus para a CIA e de Panetta para secretário da Defesa, a mídia de referência estadunidense chama a atenção para o fato de a decisão do presidente Obama tornar transparente a íntima colaboração hoje existente entre a CIA e o Pentágono.

No Afeganistão e no Paquistão a maioria dos bombardeios são agora realizados pelos drones, os aviões sem piloto. A guerra está a assumir um caráter cada vez mais eletrônico. É a CIA a partir dos EUA quem define quase sempre os alvos a atingir. As operações são montadas em computadores, a milhares de quilômetros de distância das aldeias atacadas. O balanço dos “erros” é pesado: centenas de camponeses, mulheres e crianças têm sido abatidos nesses bombardeios criminosos.

Os governos afegão e paquistanês, refletindo a pressão popular, sentem a necessidade de denunciar essas chacinas. Porta-vozes do Exército e da Força Aérea, rotineiramente, lamentam e anunciam a abertura de inquéritos rigorosos. Mas não há notícia de qualquer punição.

O general David Petraeus declarou que pretende aperfeiçoar o sistema. Como? Numa entrevista à Newsweek informou que vai reforçar a contratação de agentes e informadores da CIA em países da Ásia Central.

Entretanto, Obama aproveita todas as oportunidades para afirmar que os EUA vão honrar o compromisso de retirar as suas tropas do Afeganistão até fi nal do próximo ano, transferindo as “suas responsabilidades” para as forças armadas daquele país. Não diz, porém, que os soldados norte-americanos estão a ser substituídos em ritmo acelerado por mercenários recrutados entre a escória social estadunidense e latino-americana.

A nomeação do general Petraeus para diretor da CIA e a de Leon Panetta para secretário da Defesa confirmam o óbvio. A estratégia das guerras imperiais dos EUA implica uma colaboração cada vez mais profunda entre a CIA e o Pentágono. Com a total aprovação do Presidente Barack Obama, Premio Nobel da Paz.



Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português.



Texto originalmente publicado na edição 439 do Brasil de Fato.

domingo, 17 de julho de 2011

Motivos econômicos pelo transporte público gratuito

João Alexandre Peschanski

A criação de um sistema de transporte público gratuito universal no capitalismo soa como uma fantasia inatingível. Tal sistema, à primeira vista, seria economicamente ineficiente, na medida em que oneraria demais o Estado.

Mas, do ponto de vista econômico, criar um sistema de transporte público gratuito é vantajoso para o Estado. Uma sociedade que depende de automóveis individuais como meio de transporte principal tem custos sociais e ecológicos elevados. É preciso levar em conta esses custos no cálculo da eficiência de qualquer sistema de transporte.

Uma sociedade dependente de automóveis individuais tem altos níveis de poluição -- muito mais do que teria se o principal meio de transporte fosse coletivo. A contaminação do ar leva a doenças respiratórias e, consequentemente, gastos médicos, para o cidadão e o Estado. Na medida em que tais doenças respiratórias incapacitam os membros de uma sociedade levam a uma possível desaceleração econômica -- trabalhadores sem saúde não produzem no mesmo nível do que trabalhadores com saúde. Há outros gastos relacionados ao uso do automóvel em massa, como a manutenção de uma rede de fiscais de trânsito, fundamental para organizar cidades com tráfego intenso, e o tempo -- produtivo -- perdido em engarrafamentos. Quem paga a conta pelo trânsito são, de novo, o cidadão e o Estado.

As montadoras conseguem vender a preços mais baratos os automóveis que produzem porque repassam ao cidadão e ao Estado os custos sociais do sistema de transporte que patrocinam. Nos primeiros meses de 2011, o aumento na venda de automóveis chegou a 8% em comparação com o ano anterior. As montadoras exigem do governo redução de impostos e mais facilidade no crédito para compradores, isto é, querem se livrar ainda mais dos custos sociais relacionados a seus carros. Mas o imposto deveria aumentar, não diminuir.

O imposto deveria aumentar sobre as montadoras que lucram com a produção de um bem com alto custo social, como acontece com outros produtos nocivos (cigarro, bebida). Mas também deveria aumentar, paulatinamente, sobre o consumidor, à medida que se consolide um sistema de transporte coletivo funcional. Numa sociedade onde o transporte público é bom, um cidadão pode querer ou precisar de um carro, por conforto ou por qualquer outro motivo, mas como sua decisão tem repercussões sociais -- o custo social relacionado ao uso do automóvel -- cabe também a ele pagar por isso.

Até agora, a argumentação nos levou à necessidade social de substituir o uso em massa dos automóveis pelo transporte público, mas por que este teria de ser gratuito? Por justiça econômica. Os usuários de transporte público beneficiam toda a sociedade, pois mantêm baixos os custos sociais relacionados ao transporte (poluição, trânsito). Beneficiam até mesmo as pessoas que não usam o transporte público. Cobrar tarifas pelo uso do transporte público é, então, uma injustiça econômica: por mais que o serviço beneficie a todos, só uma parcela dos beneficiados paga por ele. De certo modo, cobrar pelo transporte público se torna uma exploração dos usuários pelos não-usuários. Os gastos do sistema de transporte coletivo têm de ser partilhados pelos beneficiados, ou seja, divididos entre todos os cidadãos.

A gratuidade do transporte público pode ser defendida por dois outros aspectos econômicos. Por um lado, cobranças de tarifas envolvem custos de operação e fiscalização; um sistema de transporte público gratuito os elimina. Por outro lado, a gratuidade funciona como um incentivo aos cidadãos para que usem meios públicos de locomoção, aumentando os benefícios sociais.

Um sistema de transporte público gratuito é eficiente, do ponto de vista econômico, e compatível em teoria com uma sociedade capitalista. Os obstáculos à criação desse sistema não são de ordem econômica, mas política. As montadoras têm, evidentemente, interesse em manter a sociedade dependente dos carros que fabricam. Para garantir seus lucros, precisam manter essa dependência e investem para pressionar os governos local e federal a manter seu controle sobre o sistema de transporte. No Brasil, têm alta capacidade de pressão, pois contam com políticos aliados com posições-chave, na Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados, e potencial de chantagem sobre o governo, ameaçando demitir trabalhadores se seus interesses não forem atendidos.

A reivindicação por transporte público gratuito é, portanto, realista e justa. Organiza-se no Brasil, principalmente, pelo Movimento Passe Livre, criado em 2005, que mobiliza jovens e trabalhadores de baixa renda em diversas capitais sob a bandeira da tarifa zero. Enfrenta, nas ruas, uma visão atrasada e ineficiente da vida em sociedade. E tem a lógica econômica de seu lado.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/6845

Grécia, entre a raiva e a resistência

Elpida Niku
Desinformémonos

O ano de 2010, na Grécia, foi de incerteza total. Depois de ganhar as eleições em outubro de 2009, o primeiro-ministro George Papandreou anunciou que “sim, havia dinheiro" para a economia grega continuar cumprindo suas obrigações. Uns meses depois decidiu que já não o tinha, e que o país teria que solicitar ajuda econômica ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e para a União Europeia. Durante todo esse tempo, os políticos apareceram nas telas dos meios de comunicação comentando o tema: se havia ou não dinheiro, se a economia entraria ou não em colapso, se havia necessidade de pedir um empréstimo para seguir pagando as dívidas.

A população grega se encontrava aterrorizada. Enquanto os políticos falavam de números incompreensíveis, o povo duvidava o que tudo isso significaria para sua vida diária, sem entender a quem devia e por quê. Até que chegou o momento em que os gregos decidiram se mobilizar. Uma convocatória anônima foi lançada através das redes sociais na internet para que os habitantes saíssem e se reuníssem na praça central de Atenas, chamada Sintagma, onde se localiza o parlamento grego.

Assim, na tarde de 25 de maio, as pessoas começaram a se concentrar em frente ao parlamento do país. Foi impressionante a quantidade de pessoas que chegaram. A partir desse dia, os gregos se reuniram em frente ao parlamento todas as tardes. Aí permaneceram por horas, batendo colheres em panelas, carregando bandeiras gregas e de outros países do mundo, assobiando, gritando consignas espontâneas constantemente, sem parar. A atmosfera era festiva. Não se tratava de queixar-se ou de pedir; tratava-se de manifestar um descontentamento enorme e decisivo. “Sim, nunca mais vão decidir sem nós”. "Aqui estamos e não estamos de acordo". “Não estamos de acordo em viver em uma suposta democracia, em que decidem por nós sem nossa participação”, comentavam as pessoas entre si.

E assim se seguiu a situação por mais de um mês, e o governo se viu obrigado a anunciar uma mudança de gabinete. Ao mesmo tempo, o gabinete estabeleceu a data em que se aprovariam as novas medidas de austeridade, que consistem em um aumento de impostos para a maioria dos gregos, privatizações de empresas estatais e cortes de bem-estar fatais para uma população por si só já pressionada, que sofre com o desemprego e vive um futuro incerto. “Poderíamos suportar muito sofrimento se pudéssemos contar com alguma perspectiva para o futuro”, conta um dos manifestantes. “Mas com essas medidas que querem aprovar não há futuro, nem para nós nem para os nossos filhos”.

A data anunciada para a aprovação foi 29 de junho. A assembleia popular da praça de Sintagma, que acontece todos os dias às nove da noite com a participação do povo, decidiu que estariam presente nas ruas neste dia e no anterior (28/6), pressionando para que tais medidas anti-sociais não fossem aprovadas. Também os sindicatos oficiais, pressionados por sua base, anunciaram greve geral de 48 horas.

O dia 29 de junho amanheceu belo. Dezenas de pessoas juntaram-se em três pontos de encontro que haviam sido escolhidos na assembleia para cercar o parlamento e não deixar os deputados entrarem no edifício. A brutalidade da polícia se fez clara desde a manhã, quando armaram dois bloqueios nas ruas principais para fechar o caminho dos deputados. Os policiais atacaram com força os manifestantes, atirando gás lacrimogênio e batendo com seus cassetetes.

Ao mesmo tempo, o povo se concentrava na praça Sintagma. Nos microfones anunciaram a chegada de ônibus procedentes de diferentes cidades do país com pessoas que vinham para protestar contra a aprovação das medidas. Os gregos entravam na praça carregando seus cartazes, aplaudindo e gritando consignas, e depois concentravam-se em frente ao parlamento. Também a estação de metrô se encontrava lotada de pessoas moradoras dos diferentes bairros da cidade.

Enquanto isso, dentro do parlamento começou o debate sobre as novas medidas. O centro de Atenas estava cheio de pessoas que protestavam pacificamente. Aproximadamente às duas da tarde começou um ataque policial sem precedentes. Com uma quantidade imensa de gases lacrimogêneos, cujo uso só é considerado legal em condições de guerra, as polícias dispersaram o povo que se manifestava. Os cassetetes dos policiais golpearam indiscriminadamente idosos, mulheres e crianças, deixando um saldo de pelo menos 500 feridos. Quebraram pernas e cabeças e provocaram problemas respiratórios na grande maioria dos manifestantes. Inclusive, atiraram gases dentro das estações de metrô do centro da cidade, onde as pessoas buscavam fugir dos gases atirados na praça e onde, também, um grupo de médicos atendia os feridos. Ainda que muitos dos manifestantes já viessem preparados com máscaras e lenços para proteger-se dos gases, a quantidade com que foram atacados superou o que esperava de qualquer um. O centro de Atenas foi cenário de guerra por mais de 12 horas, durante as quais uma nuvem de gás cobriu o céu, que se fez cinza por várias horas.

Enquanto isso, um grupo de jovens irados retiravam o pavimento das ruas próximas e da praça, e jogavam pedras nos policiais. Alguns manifestantes se aproximaram destes jovens e explicavam que aquilo que faziam, longe de ajudar, dava pretextos para a polícia atacar.

Muitos dos jovens escutaram e deixaram de fazê-lo. No entanto, existem vídeos que mostram “manifestantes” vestidos de preto, como esses meninos, deixando as fileiras da polícia ou entrando nelas.

O que se tentou fazer foi provocar medo à população para que esta não saísse às ruas para se manifestar. Mas a repressão brutal provocou o resultado contrário. As pessoas estavam com muita raiva; depois de cada ataque por parte da polícia, regressavam a seu lugar de protesto com mais força que antes. Muitas vezes, os manifestantes ficavam com tanta raiva pelo comportamento dos policiais que se juntavam e, sem mais armas que sua voz, os forçavam a retroceder. A solidariedade entre os participantes foi impressionante. Se alguém não podia respirar ou ver devido os gases lacrimogêneo, sempre se encontrava alguém para ajudar. Havia muitas pessoas dando voltas pelo centro da cidade, levando um líquido que alivia os sintomas produzidos pelos gases e oferecendo ajuda à população. Mãos dispostas a ajudar carregavam as pessoas que não podiam se mover. E cada vez que se ouviam disparo dos gases, as pessoas aplaudiam forte, constantemente, animando umas as outras.

E assim passaram quase três horas, até o momento que começou a correr o rumor de que já haviam aprovado as medidas, com 155 dos 300 deputados votando a favor. "Nós sabíamos que eles iriam votar", comentou uma mulher de 50 anos que estava na rua desde a manhã. "Estamos lutando por uma derrota gloriosa, por nossa dignidade. Nos falam na televisão de crianças que atiraram pedras e não sei mais que coisas. Pois, a verdade, que agora se queimem tudo, já que nada é nosso”.

“Hoje vivemos uma guerra”, comenta uma companheira que descansa por um tempo ao seu lado, já exausta de tantos gases. “Jamais vimos isso antes. De hoje em diante estão em guerra com o povo grego, o senhor presidente já está no lixo da história”.

Depois de muitas horas de repressão, a polícia decidiu terminar de uma vez por todas com o protesto. Um grupo especial de policiais que andava em motos foi colocado nas ruas centrais da cidade. Eram 50 motos de uma vez, avançando a uma velocidade assassina pelas ruas que estavam cheias de gente. Enquanto se moviam atiravam gás lacrimogêneo nas pessoas que estavam em seu caminho para não atropelá-las e batiam forte com os cassetetes. Passaram, inclusive, pelas ruas turísticas da cidade lançando gases em quem estavam comendo em restaurantes e em turistas que passeavam pela cidade.

“Eu os vi passando várias vezes por aqui, debaixo de minha casa, batendo nas pessoas”, conta uma das manifestantes que vive próxima da praça Sintagma. “Aterrorizaram todo o mundo, são uns brutos. Eu já estive um mês na rua, aí na praça e o que estão fazendo é inconcebível. Mas não vamos parar. Não era bom quando ficávamos em nossas casas aguentando tudo que faziam, sem falar”.

Mesmo com a repressão, os gregos não foram embora e continuaram resistindo, regressando constantemente à praça até que, aproximadamente às onze da noite, dezenas de corpos anti-motins cercaram Sintagma, proibindo os presentes de permanecerem em frente ao parlamento. Muita gente ficou em frente às fileiras de policiais por muitas horas, perguntando: "por que não nos deixam passar?”. Nas primeiras horas do dia seguinta, a polícia se retirou e os gregos regressaram à praça; pouco a pouco se limparam as ruas e a praça, se recolheram as pedras, os recipientes dos gases e as tendas destruídas. Se armou um novo acampamento e se preparou a praça para receber as pessoas que hoje, 30 de junho, de novo se juntarão ali.

30 de julho: “Em vez de nos enfraquecer, nos fizeram mais fortes”

No dia seguinte à repressão brutal que a polícia grega desencadeou contra o povo grego, o centro de Atenas se encheu outra vez de gente. Milhares de pessoas saíram novamente às ruas para denunciar o comportamento policial durante o dia 29 de junho. Desta vez, a raiva dos gregos se sentia no ambiente e dava calafrios. Durante horas as pessoas ficaram em pé na frente das fileiras de policiais, que guardavam o parlamento, conversando com eles, insultando-os, pedindo-lhes para renunciar.

Um jovem irado atirou neles, de repente, uma garrafa de água. Alguns dos dos manifestantes pediram que não fizesse isso. Outros o defenderam, dizendo: “Superaram nossos limites, são uns brutos que não entendem nada. Eu não estou encapuzado, tenho dois filhos e o que fizeram ontem é imperdoável, se portaram como cães ferozes”. Por ali havia também um pai, fora de controle, gritando com um policial específico: “eu te conheço, ontem mandou meu filho ao hospital, você é meu vizinho, eu sei onde você mora e a escola onde vão seus filhos”.

“O que seu filho vai dizer amanhã quando perguntarem onde trabalha seu pai? Ele terá que dizer que está matando gente. Como podem dormir à noite?”, lhe gritava outro. Outro companheiro acrescentava: “Ontem nos diziam que agora nós íamos xingar vocês, nós que não temos trabalho e que por isso estamos aqui. Quando vocês ficarem sem trabalho, quem vai estar a seu lado?”.

Na praça já haviam armado de novo as tendas e os espaços dos diferentes postos de trabalho e também se viam pendurados em diferentes partes da praça dezenas de recipientes dos gases lacrimogêneos que foram recolhidos da noite anterior.

Como todas as noites desde 25 de maio, a assembleia popular da praça começou às nove da noite. O assunto de discussão era contra a repressão do Estado e da classe política e pela democracia direta. “O que se passou ontem é a destruição total da democracia, que significa que o povo manda. Todos eles, aí no parlamento, deveriam abrir um dicionário. Mas é que não havia outra maneira de votar as medidas, se não afogassem nossas vozes por umas horas com gases lacrimogêneos. Mas o que não sabiam era que em vez de nos enfraquecer, nos fariam mais fortes”, comentava uma senhora.

Na assembleia se escutaram mensagens de solidariedade vindas da Islândia, Egito e Argentina que davam ânimo para os gregos seguirem resistindo. O clima era festivo. O povo aplaudia uma, outra vez e forte. “Nós, como idiotas, votamos neles até agora, mas agora este movimento é nossa vida, nosso futuro, nós não vamos deixá-lo até que eles se vão”.


Tradução: Aline Scarso

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/6800

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Legalização das drogas, uma resposta à falência da política proibicionista

A medicina considera droga todo tipo de substância capaz de alterar as funções de organismos vivos. O tabaco, álcool, café, maconha, cocaína, heroína e a maioria dos fármacos encontrados nas farmácias, cientificamente falando, são drogas. Dados da ONU afirmam que quase 10% da população mundial utiliza algum tipo de droga de alguma forma.

O uso de substâncias psicoativas é prática milenar identificada em praticamente todo tipo de sociedade estudada pela academia até hoje. A proibição e a guerra contra algumas dessas substâncias é uma postura relativamente recente do estado brasileiro e o objetivo deste texto é clarificar o porquê da política proibicionista estar presente em nossa sociedade, a que vem o proibicionismo e como ele afeta nossa realidade. Hoje, milhares de pessoas pobres estão morrendo em nome da guerra às drogas e já passa da hora de debatermos o proibicionismo de maneira séria e responsável.

Histórico da proibição

A política proibicionista é vista pela primeira vez de maneira nítida dentro dos Estados Unidos. Com a intenção de reprimir as minorias e desencorajar a imigração em seu país, os EUA proibiram em 1909 o consumo do ópio, hábito extremamente comum aos imigrantes orientais. Em 1914 é proibida a cocaína e a heroína e em 1919 é aprovada a Lei Seca que proibia o comercio e uso do álcool, bebida largamente consumida pelos negros e pelos imigrantes irlandeses. Pouco depois a maconha, substância também utilizada em larga escala pelos imigrantes africanos, foi proibida. Mesmo com a proibição e a repressão ao uso, nos anos 60 a demanda por essas substâncias aumenta dentro dos EUA e explode, neste período, os cartéis e o tráfico de drogas para abastecer o mercado ilegal. Neste momento, importantes grupos mafiosos são organizados no Peru, na Bolívia e na Colômbia para abastecer o mercado norte-americano.

No Brasil a proibição também teve um caráter de repressão às minorias, as minorias negras mais especificamente. A proibição da maconha foi decretada junto com a proibição da realização de cultos afros e também da capoeira, todos traços culturais e hábitos comuns aos descendentes africanos no Brasil. Neste período, uma idéia de eugenia e de ‘embranquecimento’ da população brasileira perpetuava o imaginário de nossa elite. Não à toa, no mesmo período foi incentivada a vinda de imigrantes europeus para trabalhar nas fazendas de café enquanto, por outro lado, uma massa de negros recém libertos estavam aos montes no Brasil à procura de trabalho.

A criminalização da pobreza pela política proibicionista

Hoje a proibição tem como principal intuito criminalizar a pobreza e referendar o encarceramento em massa da população pobre no Brasil. O discurso do proibicionismo funciona bem como um dispositivo que existe apenas para prender os pobres. Atualmente, a lei que enquadra uma pessoa como traficante abre ao juiz a possibilidade de interpretar o sujeito como criminoso ou não levando em conta a quantidade de droga apreendida e o local onde foi realizada a apreensão. Não é raro o ‘playboy’ da zona sul do Rio não ser enquadrado como traficante pelo fato de ter dinheiro para consumir todo o volume de drogas de seu porte. Em contrapartida, o aviãozinho do tráfico, pobre, é enquadrado como traficante e preso aos montes por ter feito exatamente a mesma coisa que os sujeitos com grana: ter vendido uma substância ilícita.

Dado isto não fica difícil perceber como a proibição, hoje referendada no dispositivo da lei, tem condições de caracterizar uma ação como crime apenas se o sujeito em questão for pobre. A esse processo damos o nome de ‘criminalização da pobreza’.

O proibicionismo, mega-eventos e a reforma urbana

A vinda da Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016 não estão trazendo apenas gordos investimentos aos bancos e expectativas de lucros históricos para o setor hoteleiro e para os conglomerados de empresários donos de empreiteiras.

Os mega-eventos no Brasil trazem consigo todo um processo de criminalização da pobreza e de reestruturação urbana para nossas cidades que, infelizmente, é uma conta a ser paga pela parcela trabalhadora e pobre da população. Os despejos em massa para a construção de complexos esportivos, estacionamentos ou hotéis são referendados por uma política de “remoção branca”, como designou o deputado estadual Marcelo Freixo. A remoção branca consiste em elevar os custos de vida de uma determinada região para que os moradores pobres tenham que se deslocar para as periferias cedendo espaço aos grandes empresários e seus investimentos em infra-estrutura para os eventos. A política de UPP, restrita praticamente à zona sul do Rio, é um bom exemplo. Com a entrada das ‘Unidades de Polícia Pacificadora’ uma gama enorme de serviços tiveram uma alta em seus preços e acabaram por expulsar os mais pobres da região. A esse processo de alteração dinâmica da cidade, quem vem excluindo os pobres, chamamos de “reestruturação urbana”, no caso específico uma reestruturação excludente.

Embora absurda, toda essa política repressora é referendada no discurso de guerra às drogas. A entrada do estado nas favelas da zona sul carioca por meio das UPP só ocorreram porque a opinião pública estava convicta de que tudo aquilo era necessário para combater o grande mal que é o tráfico. Não demorou muito para que a população pobre dali não se visse mais em condições de pagar suas contas de luz, água, telefone e tivesse que se deslocar para as periferias, longe dos olhos mal acostumados de nossos turistas.

A legitimação da proibição na mídia

Com o processo de urbanização e modernização das sociedades a opinião pública passou a ser mediada pelos meios de comunicação e a mídia tornou-se uma importante ferramenta para seu controle. Não à toa, hoje, a mídia detém tanto poder que, conhecida como o 4º poder, tem no dono da TELMEX, empresa de telefonia transnacional radicada no México, o homem mais rico do mundo.

A mídia cumpre um papel muito importante na manutenção da política proibicionista no Brasil. A televisão, o rádio e os jornais foram os principais responsáveis por instaurar o terror e o medo na sociedade no processo de invasão dos morros cariocas ao fim do ano passado. Ao mesmo tempo, a grande mídia também cumpria o papel de encobrir os abusos cometidos pela polícia dentro das favelas e de ressaltar a boa relação desta com os locais.

Enfim, o proibicionismo é uma política que movimenta muito dinheiro, principalmente nos programas de guerra ao tráfico e por esse motivo é necessário que ele (o mercado ilegal) esteja sempre ali, existindo, mas ameaçando as pessoas ao mesmo tempo. Muitos interesses econômicos estão por trás da proibição e são estes mesmos interesses que movimentam a mídia de forma a tornar todo esse processo o mais lucrativo possível. Infelizmente, em um país onde a comunicação tem donos e seus donos tem preço, uma comunicação popular, voltada para o interesse social fica longe de nossas vistas e temos de nos deparar com a subserviência do empresariado ligado à mídia diante dos grandes detentores de poder do tráfico e do estado.

A necessidade de legalizar as drogas

De maneira concreta a proibição não reduziu o número de usuários de drogas no mundo. O único resultado real que temos como efeito colateral desta política é um aumento vertiginoso no aumento da violência e do encarceramento de um setor pobre da sociedade. Parece estar claro que a proibição das drogas hoje tem como real intuito criminalizar a pobreza e não proteger a sociedade dos malefícios das drogas: um estado que estivesse realmente preocupado com a saúde de nossa população não deixaria o Sistema Único de Saúde passando pelo processo de sucateamento em que se encontra e as políticas de redução de danos junto aos usuários seriam levadas mais a sério.

A luta pela legalização das drogas se dá pela certeza de que precisamos dar uma resposta ao extermínio da população negra, pobre e jovem das periferias e morros brasileiros que morrem, dia-a-dia, sob um discurso falido de combate às drogas que mais tem resultado em óbitos do que em avanços na qualidade de vida da nossa população.

Sabemos que muitos interesses permeiam a manutenção da proibição e o próprio tráfico é um dos grandes beneficiados desta política. Com a legalização e regulamentação das drogas o tráfico sofreria um duro golpe pelo fato de perder grande fatia de seu mercado.

É importante destacar que apenas a legalização das drogas por si só não resolverá o caos em que se encontra a segurança pública hoje. Se não houver um projeto sério de investimento em educação, saúde, saneamento básico e planos trabalhistas para receber o enorme contingente de trabalhadores do tráfico após a legalização, derrubar o proibicionismo poderá ser um tiro no pé.

A questão das drogas deve ser encarada como um problema de saúde pública e deve ser conduzida de maneira a reduzir danos.

É tempo da esquerda amadurecer esse debate e começar a levantar a bandeira da legalização das drogas junto à bandeiras históricas do movimento como a educação pública de qualidade, a saúde pública, a democratização da cultura e, claro, a democratização da comunicação.

A Enecos defende a legalização das drogas, o grow (cultivo caseiro que ajuda a combater o tráfico), o uso medicinal e marcha junto a todos os coletivos e ativistas anti-proibicionistas do Brasil por entender que essa luta é parte importante da construção da nova sociedade que reivindicamos: justa, livre, igualitária e livre das opressões.


Andrew Costa é estudante de Comunicação Social

Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social