terça-feira, 13 de julho de 2010

O método científico em Galileu, Bacon, Descartes e Newton

Quando falamos hoje em ciência moderna devemos ter como referência os séculos XVI e XVII que foram importantíssimos no processo de construção da mesma, eles ficaram conhecidos na história como a Idade da Revolução Científica. Segundo CAPRA (2006, p.50):
A ciência do século XVI e XVII baseou-se num novo método de investigação, defendido vigorosamente por Francis Bacon, o qual envolvia a descrição matemática da natureza e o método analítico de raciocínio concebido pelo gênio de Descartes. Reconhecendo o papel crucial da ciência na concretização dessas importantes mudanças, os historiadores chamaram os séculos XVI e XVII de a Idade da Revolução Científica.
Durante a Idade Média a ciência baseava-se na razão e na fé, e sua principal finalidade era compreender o significado das coisas e não exercer a predição ou o controle. Para CAPRA (2006, p.49), “...Os cientistas medievais, investigando os desígnios subjacentes nos vários fenômenos naturais, consideravam do mais alto significado as questões referentes a Deus, à alma humana e à ética”.
A visão de mundo que predominou na Europa durante a Idade Média, era orgânica. A igreja católica era a principal autoridade espiritual, política e científica, e a grande referência filosófica era Aristóteles. Ainda CAPRA (2006, p.49):
...As pessoas viviam em comunidades pequenas e coesas, e vivenciavam a natureza em termos de relações orgânicas, caracterizadas pela interdependência dos fenômenos espirituais e materiais e pela subordinação das necessidades individuais às da comunidade.
Para CARDOSO, citado por TEIXEIRA (2005, p.95) predominava um paradigma Teocêntrico, que supõe a existência de dois mundos, e o conceito vigente de universo era geocêntrico.
Destacamos aqui que o conceito de paradigma utilizado é o mesmo de KUHN (1998, p.13) “... Considero “paradigmas” as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência...”.
A partir do século XVI a visão de mundo orgânica foi substituída pela noção de mundo como se ele fosse máquina, e o paradigma Teocêntrico deu espaço para o Antropocêntrico ou newtoniano-cartesiano, conhecido ainda como mecanicismo. A ciência medieval é substituída por um novo modelo de ciência baseado em um novo método de investigação, estabelecido dentre outros pelos seguintes pensadores: Francis Bacon, Galileu Galilei, René Descartes e Isaac Newton.
É importantíssimo frisar o papel que teve Nicolau Copérnico nesse processo. Copérnico se opôs à concepção Geocêntrica de Ptolomeu, que estabelece a Terra como centro do Universo, defendida pela Igreja Católica, e que foi um dos sustentáculos intelectuais usados por ela. Em oposição a essa teoria, Copérnico vai defender a concepção heliocêntrica, segundo a qual, a Terra orbita em torno do Sol, sendo este astro o centro, e não mais a Terra, estas idéias vão gerar uma enorme mudança na maneira de pensar e de ver o mundo, a igreja por sua vez, vai perseguir todos que passam a defender essa idéia, o próprio Copérnico, “...retardou sua publicação até 1543, ano de sua morte, e, mesmo assim, apresentou a concepção heliocêntrica como mera hipótese.” (CAPRA, 2006 p.50)
A busca por um método científico adequado pautou a ação de grande parte dos pensadores da Idade da Revolução Científica (séculos XVI e XVII). Onde destacaram-se os já citados Galileu Galilei, Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton, que com suas contribuições foram decisivos para a estruturação daquilo que chamamos hoje de ciência moderna. Em seus estudos e pesquisas, estiveram sempre preocupados em construir um método, o mais adequado possível, para o entendimento da realidade, método este que fosse pautado na racionalidade.
O método científico constitui-se em elemento fundamental para a pesquisa científica, apesar de a ciência não ser a única forma de conhecimento a utilizar-se de método, a mesma não existe sem ele, como afirma LAKATOS (1991, p.39):
Todas as ciências caracterizam-se pela utilização de métodos científicos; em contrapartida, nem todos os ramos de estudo que empregam estes métodos são ciências. Dessas afirmações podemos concluir que a utilização de métodos científicos não é da alçada exclusiva da ciência, mas não há ciência sem o emprego de métodos científicos.
Segundo CERVO (2007, p.27):
Em seu sentido mais geral, método é a ordem que se deve impor aos diferentes processos necessários para atingir um certo fim ou um resultado desejado. Nas ciências, entende-se por método o conjunto de processos empregados na investigação e na demonstração da verdade.
Tentaremos a partir de agora mostrar como se deu a construção do método científico com Galileu Galilei, Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton.
O florentino Galileu Galilei (1564-1642) foi o primeiro teórico do método experimental. O método empírico defendido por Galileu constitui uma ruptura com o método aristotélico mais abstrato, que busca a essência íntima das substâncias individuais, devido a isso, Galileu é considerado o "pai da ciência moderna".
Para Galileu o objetivo das investigações deve ser o conhecimento da lei que preside os fenômenos, e não a essência íntima dos mesmos. Além disso, o foco principal da ciência não deve ser a qualidade, mas sim as relações quantitativas.
O método de Galileu é conhecido como indução experimental e consiste nos seguintes passos: observação dos fenômenos, análise dos elementos constitutivos
do fenômeno, indução de certo número de hipóteses, verificação das hipóteses, generalização dos resultados, e confirmação das hipóteses.
Para LAKATOS (1991, p.41):
Da mesma forma que o conhecimento se desenvolveu, o método, sistematização das atividades, também sofreu transformações. O pioneiro a tratar do assunto, no âmbito do conhecimento científico, foi Galileu, primeiro teórico do método experimental.
O inglês Francis Bacon (1561-1626) é considerado um dos fundadores da ciência moderna, ele foi o responsável por desenvolver o método empírico de pesquisa cientifica, onde a razão fica subordinada a experimentação. Bacon propõem o raciocínio indutivo ou indução, que vai do particular para o geral e onde “o objetivo dos argumentos é levar a conclusões cujo conteúdo é muito mais amplo do que o das premissas nas quais se basearam” (LAKATOS, 1991 p.47), para se chegar ao conhecimento científico.
Para Bacon o conhecimento científico tem por finalidade servir o homem e dar-lhe poder sobre a natureza. Segundo Bacon o método empírico-indutivo deve seguir os seguintes passos: experimentação, formulação de hipóteses, repetição, testagem das hipóteses, e formulação de generalizações e leis.
Segundo LAKATOS (1991, p.44), o tipo de experimentação proposto por Bacon é denominado de coincidências constantes onde:
Parte da constatação de que o aparecimento de um fenômeno tem uma causa necessária e suficiente, isto é, em cuja presença o fenômeno ocorrerá sempre e em cuja ausência nunca se produzirá. Por esse motivo, o antecedente causal de um fenômeno está unido a ele por intermédio de uma relação de sucessão, constante e invariável. Discernir o antecedente que está sendo unido ao fenômeno é determinar experimentalmente sua causa ou lei. Dessa forma, o método das coincidências constantes postula: aparecendo a causa, dá-se o fenômeno; retirando-se a causa, o efeito não ocorre; variando-se a causa, o efeito altera-se. Para garantir a anotação correta das fases da experimentação, Bacon sugere a utilização de três tábuas: tábua de presença, circunstâncias em que se produz o fenômeno; tábua de ausência, situações em que o fenômeno não se produz; tábua dos graus, casos em que o fenômeno varia de intensidade e variam também todos os antecedentes.
O francês René Descartes (1596-1650), ou Renatus Cartesius, seu nome latino, é conhecido como o “fundador da filosofia moderna”. É considerado Também um dos principais pensadores da história do pensamento ocidental, dele e de Isaac Newton, deriva o nome do paradigma dominante no mundo ocidental moderno conhecido como mecanicismo ou paradigma newtoniano cartesiano. Dele é também a responsabilidade pela separação entre mente (res cogitans) e a matéria (res extensa), que segundo TEIXEIRA (2005, p.97) “Com base nessa divisão, as ciências humanas dedicaram-se à mente; e as naturais à matéria”.
Em sua obra Discurso sobre o método, Descartes propõem diferentemente de pensadores como Bacon e Galileu, que propunham a indução, a utilização do método dedutivo, construção que parte do geral para o particular, “... é a argumentação que torna explícitas verdades particulares contidas em verdades universais...” (CERVO, 2007 p.46), tendo por base a matemática; e utiliza a análise, que constitui-se no processo de decomposição do objeto em seus componentes básicos, para posteriormente reconstruí-lo através da síntese, processo que leva à reconstituição do todo que foi decomposto pela análise.
O método cartesiano pode também ser chamado de método racionalista ou ainda hipotético dedutivo e nele são postuladas quatro regras fundamentais: a da evidência; a da análise; a da síntese; e a da enumeração.
A partir das ideias de Descartes a ciência, a filosofia, o mundo e os homens não seriam mais os mesmos. Como afirma CAPRA (2006, p.57):
Eis, pois a “maravilhosa ciência” anunciada por Descartes. Usando seu método de pensamento analítico, ele tentou apresentar uma descrição precisa de todos os fenômenos naturais num único sistema de princípios mecânicos. Sua ciência pretendia ser completa, e o conhecimento que ofereceu tinha a intenção de fornecer uma certeza matemática absoluta. Descartes, é claro, não pôde executar esse plano ambicioso, e ele próprio reconheceu que sua ciência era incompleta. Mas seu método de raciocínio e as linhas gerais da teoria dos fenômenos naturais que forneceu, embasaram o pensamento científico ocidental durante três séculos.
O inglês Isaac Newton (1643-1727) considerado um dos maiores gênios da história universal, publicou sua obra, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica ou Principia, em 1687, que é considerada uma das mais influentes em história da ciência. Nela descreve a lei da gravitação universal e as suas três leis que fundamentaram a mecânica clássica. Foi também aquele deu vida ao sonho de Descartes completando a Revolução Científica.
Newton foi o grande sintetizador das obras de Copérnico, Kepler, Bacon, Galileu e Descartes, desenvolvendo uma formulação matemática da concepção mecanicista da natureza. A partir dele estava plenamente estabelecido o paradigma mecanicista ou newtoniano-cartesiano.
Com relação ao método científico, Newton, agrega o método empírico-indutivo e o racionalista-analítico-dedutivo, e vai além.
Segundo CAPRA (2006, p.59):
Antes de Newton, duas tendências opostas orientavam a ciência seiscentista: o método empírico, indutivo, representado por Bacon, e o método racional, dedutivo, representado por Descartes. Newton, em seus Principia, introduziu a combinação apropriada de ambos os métodos, sublinhando que tanto os experimentos sem interpretação sistemática quanto a dedução a partir de princípios básicos sem evidência experimental não conduziriam a uma teoria confiável. Ultrapassando Bacon em sua experimentação sistemática e Descartes em sua análise matemática, Newton unificou as duas tendências e desenvolveu a metodologia em que a ciência natural passou a basear-se desde então.
Assim, estava montado o modelo de ciência que vigora até o presente momento, que foi um dos grandes responsáveis pelos avanços e retrocessos, pelas descobertas e esquecimentos, pelos benefícios e malefícios que a sociedade moderna atual vive até o presente momento. Sem a contribuição desses pensadores, é possível que o mundo fosse parecido com o que é hoje, mas é improvável que fosse o que ele é.

REFERÊNCIAS
ANDRADE, M. M. de. Introdução à metodologia do trabalho científico. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2009.
CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 2006.
CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; DA SILVA, R. Metodologia científica 6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.
KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. 5. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1998.
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Metodologia científica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1991.
TEIXEIRA, Elizabeth As três metodologias: acadêmica, da ciência e da pesquisa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

7 comentários:

beeatriz Carvalho ☆ disse...

Meus parabéns ! Sou estudante de psicologia e seu post me ajudou muitíssimo em um trabalho de metodologia, muito obrigada! tornarei-me sua seguidora :D

Anônimo disse...

Ajudou-me em um trabalho de didática! Sou estudante de Biologia-Licenciatura.

Anônimo disse...

valeu me ajudou muito em um trabalho do colegio..)

Anônimo disse...

Bacon!

Anônimo disse...

as informações apresentadas me ajudaram a compreender melhor sobre a história do paradigma mecanicista e a contribuição para a ciência dada por alguns estudiosos, tal como René Descartes.

Thales disse...

Muito bom esse texto sobre o processo que culminou na Revolução Científica... Faço História e a análise do pensamento mecanicista é fundamental. O pensamento holístico é a base da História Ambiental. Valeu!

Anônimo disse...

Tenho q fazer uma resenha crítica , e não estou conseguindo compreender para estar fazendo. Alguém poderia me ajudar