quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O que é o Anarquismo

“Ninguém se deslustra com ser anarquista; são-no algumas das maiores individualidades da atualidade; H. Spencer, Kropotkine, Eliseu Reclus, Tolstoi, Ibsen. isto é, o maior sociólogo, o maior apóstolo da liberdade, o maior geógrafo, o maior cristão, o maior dramaturgo. De maneira que: ou o anarquismo é uma utopia formidável ou uma fatalidade social”. (Dr. Silva Mendes – tese de doutoramento na Universidade de Coimbra).
O anarquismo é antes de tudo uma idéia, uma doutrina, uma filosofia de vida, sem fronteiras, universal, que teve e tem entre os seus adeptos-defensores algumas das mais ilustradas e brilhantes figuras no campo da ciência, das artes, da literatura, da filosofia, da sociologia e firma-se principalmente nos princípios naturais e básicos da razão, da liberdade total e consciente, na Igualdade de direitos e de deveres, na Paz e no Amor fraterno, na solidariedade humana Universal~
É humanista toda a sua filosofia de vida, sua doutrina, porque coloca o Homem como o Centro do Universo, como a célula mais importante de tudo que existe para desenvolver e preservar!
O desenvolvimento e o bem estar, no seu mais amplo sentido, é o maior cavalo de batalha dos anarquistas que não aceitam fronteiras para o saber; não distinguem raças, cores, idades e partem da firme convicção de que se pode e deve conseguir o máximo de bem-estar, de conhecimentos para todos de forma a permitir ao indivíduo, ser ele mesmo, cidadão livre, em terra livre.
Para ele, é fundamental o saber e a busca da cultura, em todos os campos, a fim de confrontar idéias, corrigi-las, numa evolução constante, no caminho da conquista dos meios de coexistência racionais, igualitários, em comunhão de bens sociais, onde não mais se levante a mão do forte para castigar o fraco; onde o jovem não ria do velho, do inválido; o branco do negro; o mais lúcido e hábil do menos capaz.
Partem sempre do simples para o composto, da unidade para o grupo, da base para cima, no sentido de alcançar a felicidade total e coletiva para a Humanidade.
Suas normas básicas são de mais liberdade, menos opressão; mais autodeterminação, menos mandatários; mais autogestão, menos chefes; mais cultura racionalista; menos ensino convencional; mais autoridade racional, menos autoridade irracional; mais realidade terra-à-terra, menos fantasia, (nos setores religiosos, políticos, nos convencionalismos personalistas burgueses, nacionalistas, sanitário e literário); mais solidariedade humana, menos filantropia-esmola!
O anarquismo é uma idéia e uma filosofia bem antiga. Lao Tsé, Confúcio, Mo Ti e tantos outros filósofos antecederam a Cristo 500 anos e já então pregavam a Igualdade entre os homens, a conscientização como força motora da conduta, a devoção ao trabalho, como condição de bem estar social e, mais do que isso, advogavam a renúncia a violência, à exploração do homem pelo seu semelhante.
Nesse sentido manifestou-se Moro, Campanella e tantos outros pensadores cujas idéias romperam até ao nosso século. Lao Tsé negou mesmo a validade do Estado, expressões que S. Clemente, S. Jerônimo e Santo Ambrósio haveriam de perfilhar muitos anos depois, não só no que se refere ao Estado, mas também no que toca à propriedade privada e ao acumulo de fortunas de uns poucos às custas do trabalho de muitos.
No Brasil, o anarquismo também marcou época a teve seus apóstolos, seus pregadores. Desenvolveu sua trajetória por meio de movimentos humanitaristas de solidariedade humana e apoio, chegando a participar nas lutas de classe vendo tombar seus mártires. Marginalizados seus princípios e doutrinas, não é demais estudá-los no instante em que todas as correntes políticas e ideológicas se perdem num galopante desejo de desforra, quando a violência toma lugar do bom senso, da solidariedade.

Amapá pode entrar na rota da exportação de soja a partir de 2015

Grãos do Centro-Oeste poderão ser exportados para a Europa através do AP.
Docas de Santana diz que produção local também será escoada.



O Amapá poderá ser rota para o escoamento de soja produzida na região Centro-Oeste do Brasil, a partir de 2015. Um projeto da Companhia Docas de Santana pretende incluir o porto do município de Santana, distante 17 quilômetros de Macapá, no trajeto dos grãos que são exportados para a Europa.

Segundo a diretoria da Companhia, os estudos iniciaram há 12 anos. A ideia é transportar a soja através da BR-163 e fazer uma interligação fluvial até o município de Itaituba, no Pará, e posteriormente, aos grandes portos da região da bacia amazônica.
Os grãos chegariam ao estado através de barcaças para transportar o produto até o Porto de Santana. Três silos estão sendo construídos no local e terão capacidade para armazenar até 57 mil toneladas de grãos.

“Essa estrutura vai comportar soja e também ração que chegarão ao Amapá pelo município de Miritituba para posterior exportação”, disse o presidente das Docas de Santana, Edval Tork.

Atualmente, a exportação de grãos da região Centro-Oeste do país para a Europa é feita pelo Porto de Santos, em São Paulo e pelo Porto de Paranaguá, no Paraná.

Produção Local
A soja que é produzida no Amapá também será incluída na rota de exportação, segundo a companhia. A estimativa de produção do grão em 2014 é de 12 mil toneladas, mas com aumento da safra, o número poderá passar de 40 mil toneladas em 2015.
“A tendência é que o nosso porto ainda suporte por um ou dois anos a produção local e a que virá do Centro-Oeste, mas posteriormente, teremos a necessidade de ampliar o espaço colocando mais píeres para realizar a exportação”, concluiu o presidente da companhia.
Fonte: G1 Amapá

sábado, 9 de agosto de 2014

Um pouco de Fenomenologia

A redução Fenomenológica

A fenomenologia é o estudo da consciência e dos objetos da consciência. A redução fenomenológica, "epoche", é o processo pelo qual tudo que é informado pelos sentidos é mudado em uma experiência de consciência, em um fenômeno que consiste em se estar consciente de algo. Coisas, imagens, fantasias, atos, relações, pensamentos, eventos, memórias, sentimentos, etc. constituem nossas experiências de consciência.
Husserl propôs que no estudo das nossas vivências, dos nossos estados de consciência, dos objetos ideais, desse fenômeno que é estar consciente de algo, não devemos nos preocupar se ele corresponde ou não a objetos do mundo externo à nossa mente. O interesse para a Fenomenologia não é o mundo que existe, mas sim o modo como o conhecimento do mundo se realiza para cada pessoa. A redução fenomenológica requer a suspensão das atitudes, crenças, teorias, e colocar em suspenso o conhecimento das coisas do mundo exterior a fim de concentrar-se a pessoa exclusivamente na experiência em foco, porque esta é a realidade para ela.
Noesis é o ato de perceber e o Noema é o objeto da percepção – esses são os dois pólos da experiência. A coisa como fenômeno de consciência (noema) é a coisa que importa, e refere-se à conclamação "às coisas em si mesmas" que fizera Husserl. "Redução fenomenológica" significa, portanto, restringir o conhecimento ao fenômeno da experiência de consciência, desconsiderar o mundo real, colocá-lo "entre parênteses", o que no jargão fenomenológico não quer dizer que o filósofo deva duvidar da existência do mundo como os idealistas radicais duvidam, mas se preocupar com o conhecimento do mundo na forma que se realiza e na visão do mundo que o indivíduo tem.

Consciência e Intencionalidade

Vivência (Erlebnis) é todo o ato psíquico; a Fenomenologia, ao envolver o estudo de todas as vivências, tem que englobar o estudo dos objetos das vivências, porque as vivências são intencionais e é nelas essencial a referência a um objeto. A consciência é caracterizada pela intencionalidade, porque ela é sempre a consciência de alguma coisa. Essa intencionalidade é a essência da consciência que é representada pelo significado, o nome pelo qual a consciência se dirige a cada objeto.
Em “A Psicologia de um ponto de vista empírico"- 1874 - Franz Brentano afirma: "Podemos assim definir os fenômenos psíquicos dizendo que eles são aqueles fenômenos os quais, precisamente por serem intencionais, contêm neles próprios um objeto". Isto equivale afirmar, como Husserl, que os objetos dos fenômenos psíquicos independem da existência de sua réplica exata no mundo real porque contêm o próprio objeto. A descrição de atos mentais, assim, envolve a descrição de seus objetos, mas somente como fenômenos e sem assumir ou afirmar sua existência no mundo empírico. O objeto não precisa de fato existir. Foi um uso novo do termo "intencionalidade" que antes se aplicava apenas ao direcionamento da vontade.

A Redução Eidética

Reconhecido o objeto ideal, o noema, o passo seguinte é sua “redução eidética”, redução à ideia. Consiste na análise do noema para encontrar sua essência. Isto porque não podemos nos livrar da subjetividade e ver as coisas em si mesmas, pois em toda experiência de consciência estão envolvidos o que é informado pelos sentidos e o modo como a mente enfoca aquilo que é informado. Portanto, dando-se conta dos objetos ideais, uma realidade criada na consciência, não é suficiente - ao contrário: os vários atos da consciência precisam ser conhecidos nas suas essências, aquelas essências que a experiência de consciência de um indivíduo deverá ter em comum com experiências semelhantes nos outros.
A redução eidética é necessária para que a filosofia preencha os requisitos de uma ciência genuinamente rigorosa de claridade apodítica, a certeza absolutamente transparente e sem ambigüidade - requisitos antes mencionados por Descartes. Os objetos da ciência rigorosa têm que ser essências atemporais, cuja atemporalidade é garantida por sua idealidade, fora do mundo cambiável e transiente da ciência empírica.
Por exemplo, "um triângulo". Posso observar um triângulo maior, outro menor, outro de lados iguais, ou desiguais. Esses detalhes da observação - elementos empíricos - precisam ser deixados de lado a fim de encontrar a essência da ideia de triângulo - do objeto ideal que é o triângulo -, que é tratar-se de uma figura de três lados no mesmo plano. Essa redução à essência, ao triângulo como um objeto ideal, é a redução eidética.

A Intuição do Invariante

Não importa para a Fenomenologia como os sentidos são afetados pelo mundo real. Husserl distingue entre percepção e intuição. Alguém pode perceber e estar consciente de algo, porém sem intuir o seu significado. A intuição eidética é essencial para a redução eidética. Ela é o dar-se conta da essência, do significado do que foi percebido. O modo de apreender a essência, Wesensschau, é a intuição das essências e das estruturas essenciais. De comum, o homem forma uma multiplicidade de variações do que é dado. Porém, enquanto mantém a multiplicidade, o homem pode focalizar sua atenção naquilo que permanece imutável na multiplicidade, a essência - esse algo idêntico que continuamente se mantém durante o processo de variação, e que Husserl chamou "o Invariante".
No exemplo do triângulo, o "Invariante" do triângulo é aquilo que estará em todos os triângulos, e não vai variar de um triângulo para outro. A figura que tiver unicamente três lados em um mesmo plano, não será outra coisa, será um triângulo. Não podemos acreditar cegamente naquilo que o mundo nos oferece. No mundo, as essências estão acrescidas de acidentes enganosos. Por isso, é preciso fazer variar imaginariamente os pontos de vista sobre a essência para fazer aparecer o invariante.
O que importa não é a coisa existir ou não ou como ela existe no mundo, mas a maneira pela qual o conhecimento do mundo acontece como intuição, o ato pelo qual a pessoa apreende imediatamente o conhecimento de alguma coisa com que se depara – que também é um ato primordialmente dado sobre o qual todo o resto é para ser fundado. Husserl definiu a Fenomenologia em termos de um retorno à intuição, Anschauung, e a percepção da essência. Além do mais, a ênfase de Husserl sobre a intuição precisa ser entendida como uma refutação de qualquer abordagem meramente especulativa da filosofia. Sua abordagem é “concreta”, trata do fenômeno dos vários modos de consciência.
A Fenomenologia não restringe seus dados à faixa das experiências sensíveis, pois admite dados não sensíveis (categoriais) como as relações de valor, desde que se apresentem intuitivamente.

Redução Transcendental

Embora tenha trabalhado até o final de sua vida na definição do que chamou Redução Transcendental, Husserl não chegou a uma conclusão clara. Basicamente seria a redução fenomenológica aplicada ao próprio sujeito, que então se vê não como um ser real, empírico, mas como consciência pura, transcendental, geradora de todo significado.
Para o fenomenólogo, a função das palavras não é nomear tudo que nós vemos ou ouvimos, mas salientar os padrões recorrentes em nossa experiência. Identificam nossos dados dos sentidos atuais como sendo do mesmo grupo que outros que já tenhamos registrado antes. Uma palavra não descreve uma única experiência, mas um grupo ou um tipo de experiências; a palavra "mesa" descreve todos os vários dados dos sentidos que nós consultamos normalmente quanto às aparências ou às sensações de "mesa". Assim, tudo que o homem pensa, quer, ama ou teme, é intencional, isto é, refere-se a um desses universais (que são significados e, como tal, são fenômenos da consciência). E por sua vez, o conjunto dos fenômenos, o conjunto das significações, tem um significado maior, que abrange todos os outros, é o que a palavra "Mundo" significa.
Na "Crise", Husserl descreve metodicamente duas vias para a redução transcendental, sendo uma por meio da reconsideração do "mundo-da-vida" já dado1 , e outra pela "psicologia".

Fenomenologia e Fenomenalismo

A fenomenologia não pode ser confundida com o Fenomenalismo, pois este não leva em conta a complexidade da estrutura intencional da consciência que o homem tem dos fenômenos. A Fenomenologia examina a relação entre a consciência e o Ser. Para o Fenomenalismo, tudo que existe são as sensações ou possibilidades permanentes de sensações, que é aquilo a que chamam fenômeno. O fenomenólogo, diferentemente do fenomenalista, precisa prestar atenção cuidadosa ao que ocorre nos atos da consciência, que são o que ele chama fenômeno.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fenomenologia

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Por que os Anarquistas não votam?

 Por Élisée Reclus

Tudo o que pode ser dito a respeito do sufrágio pode ser resumido em uma frase: Votar significa abrir mão do próprio poder.
     Eleger um senhor, ou muitos senhores, seja por longo ou curto prazo, significa entregar a uma outra pessoa a própria liberdade.
     Chamado monarca absoluto, rei constitucional ou simplesmente primeiro ministro, o candidato que levamos ao trono, ao gabinete ou ao parlamento sempre será o nosso senhor. São pessoas que colocamos “acima” de todas as leis, já que são elas que as fazem, cabendo-lhes, nesta condição, a tarefa de verificar se estão sendo obedecidas.
      Votar é uma idiotice.
     É tão tolo quanto acreditar que os homens comuns como nós, sejam capazes, de uma hora para outra, num piscar de olhos, de adquirir todo o conhecimento e a compreensão a respeito de tudo. E é exatamente isso que acontece. As pessoas que elegemos são obrigadas a legislar a respeito de tudo o que se passa na face da terra: como uma caixa de fósforos deve ou não ser feita, ou mesmo se o país deve ou não guerrear; como melhorar a agricultura, ou qual deve ser a melhor maneira para matar alguns árabes ou negros. É muito provável que se acredite que a inteligência destas pessoas cresça na mesma proporção em que aumenta a variedade dos assuntos com os quais elas são obrigadas a tratar.
     Porém, a história e a experiência mostram-nos o contrário.
   O poder exerce uma influência enlouquecedora sobre quem o detém e os parlamentos só disseminam a infelicidade.
   Nas assembléias acaba sempre prevalecendo a vontade daqueles que estão, moral e intelectualmente, abaixo da média.
     Votar significa formar traidores, fomentar o pior tipo de deslealdade.
     Certamente os eleitores acreditam na honestidade dos candidatos e isto perdura enquanto durar o fervor e a paixão pela disputa.
     Todo dia tem seu amanhã. Da mesma forma que as condições se modificam, o homem também se modifica. Hoje seu candidato se curva à sua presença; amanhã ele o esnoba. Aquele que vivia pedindo votos, transforma-se em seu senhor.
     Como pode um trabalhador, que você colocou na classe dirigente, ser o mesmo que era antes já que agora ele fala de igual para igual com os opressores? Repare na subserviência tão evidente em cada um deles depois que visitam um importante industrial, ou mesmo o Rei em sua ante-sala na corte!
    A atmosfera do governo não é de harmonia, mas de corrupção. Se um de nós for enviado para um lugar tão sujo, não será surpreendente regressarmos em condições deploráveis.
     Por isso, não abandone sua liberdade.
     Não vote!
    Em vez de incumbir os outros pela defesa de seus próprios interesses, decida-se. Em vez de tentar escolher mentores que guiem suas ações futuras, seja seu próprio condutor. E faça isso agora! Homens convictos não esperam muito por uma oportunidade.
    Colocar nos ombros dos outros a responsabilidade pelas suas ações é covardia.
    Não vote! Vote Nulo!

segunda-feira, 31 de março de 2014

A maconha pode salvar o nosso mundo

A maconha é a única planta que pode salvar o planeta. Não é questão de fazer os mesmos produtos que outras matérias primas. Ela faz produtos de melhor qualidade e mais ecológicos.
Atualmente é proibido cultivar cânhamo no Brasil, o que é um grande prejuízo. O nosso Nordeste tem condições perfeitas para essa prática, com seu clima seco e sol abundante. Desmatamento de florestas, queima de combustíveis fósseis, pulverização de grandes quantidades de pesticidas, entre outros malefícios ao meio ambiente poderiam ser evitados a partir da produção de maconha para uso industrial.
Só para esclarecer, o produto é o cânhamo (hemp) e não a maconha de consumo recreativo ou medicinal de efeito psicoativo. O hemp não da brisa, pois não tem quantidades suficientes de THC para isso. Se você o fumar provavelmente só acabará com dor de cabeça e muita tosse.
Por conta de sua aparência semelhante à maconha tradicional, preconceito, proibição e muita ignorância, o cânhamo continua proibido no Brasil. Mas a informação ainda não está proibida, apesar de tentarem. Então aqui vão algumas maneiras de como o cânhamo pode nos ajudar.
Papel
O hemp se regenera em questão de meses e cresce muito rápido, o que é um ótima solução para a fabricação de papel. Ao contrário do eucalipto (árvore que pode levar mais de 30 anos para estar pronta para colheita), o cânhamo está pronto para ser usado em cerca de 4 meses. Um campo de cânhamo fornece a mesma quantidade de polpa que quatro campos de árvores.
Então porquê ainda continuamos a desmatar as florestas? Não há dúvidas de que o cânhamo é a melhor alternativa.
O trabalho realizado com Cânhamo não amarela nem se torna frágil, pois ele já é naturalmente livre de ácidos. O cânhamo pode ser reciclado até 7 vezes, enquanto o papel de polpa de madeira só pode ser reciclado 4 vezes no máximo. Sem mencionar que milhões toneladas de poluição tóxica são jogadas no ar e água todos os anos durante a produção de papel de madeira e celulose. O papel de cânhamo não precisa ser clareado com cloro, pode ser usado peróxido de hidrogênio para esse processo, o qual é muito mais seguro para a água e solo da terra.
Roupas e Tecidos
As primeiras calças jeans azul da Levis, foram trabalhadas em lona de vela de barco, 100% feita de cânhamo. A lona foi importada de Nim-França e assim surgiu o “de Nim” ou “denim”.
Para a fabricação de tecido, o cânhamo é uma ótima escolha, pois não se desgasta e torna-se mais suave a cada lavagem. A plantação requer um baixo nível de pesticidas e herbicidas, o que não só é ótimo para o meio ambiente, mas também para o uso do produto final (uma vez que não será prejudicial para a pele). Um hectare de cânhamo vai produzir tanto material quanto três hectares de algodão.
Ele é mesmo incrível! O tecido produzido a partir de sua fibra é capaz de manter você fresco no calor e quente no inverno, sendo conhecido por ser até 4 vezes mais quente que o material de algodão. E como se já não existissem fatos surpreendentes suficientes, ele ainda retarda o fogo. Dessa forma o cânhamo se diferencia da maioria dos outros tecidos, vestuários, roupas de cama, que necessitam ter adicionados produtos químicos repelentes de fogo – o que é um grande bônus.
Plástico e materiais de construção
Você sabia que Henry Ford fez um carro com material mais leve que aço capaz de suportar 10 vezes mais o impacto sem amassar? Pois é, foi feito de Cânhamo.
O Hemp pode ser utilizado em vários tipos de materiais de construção, como hempcrete, fiberboard, carpetes, conexões, isolamento, e plástico por exemplo. Não é apenas o meio ambiente que se beneficia com as construções de cânhamo, mas também o ser humano. As paredes feitas de cânhamo são resistentes a fogo e também a ácaros, pragas e mofo. Além disso, as construções feitas de cânhamo retiram CO2 do ar e endurecem conforme passa o tempo.
Paredes feitas de cânhamo podem durar até 500 anos! Uma grande contribuição para a sustentabilidade. Plásticos feitos de Hemp podem substituir totalmente os plásticos feitos de petróleo usados hoje em dia, que contém um alto nível de componentes químicos, como por exemplo o bisfenol.
Agora veja essa: se todos os nossos plásticos fossem feitos à partir do cânhamo, e você comprasse algo que veio com embalagem feita desse plástico, você poderia jogá-la na terra como composto, pois plásticos de cânhamo são completamente biodegradáveis.
Surge então a pergunta, por quê a indústria opta por utilizar materiais muito mais nocivos na produção de plástico?
Combustível
O Cânhamo pode ser utilizado para fazer combustível de duas formas: o óleo de sementes do cânhamo processada, podendo assim ser transformado em biodiesel ou o caule fermentado que pode ser transformado em etanol e metanol.
O biodiesel é totalmente biodegradável e um combustível muito mais limpo para o ar. Mesmo o escape produzidos pela queima do biodiesel de cânhamo tem um cheiro agradável. Embora o Cânhamo não seja a melhor alternativa ao combustível que se encontra disponível, ele pode ser usado temporariamente, pois pode ser utilizado em todos os veículos existentes hoje, sem fazer quaisquer alterações. Ambas as formas de combustível de Cânhamo não são tóxicas e são totalmente biodegradáveis.
Nutrição
Podemos afirmar com segurança que o cânhamo não só é bom para o meio ambiente, mas também para seu corpo. As sementes de Cânhamo são conhecidas por serem as mais nutritivas do planeta – Buda comeu apenas uma semente de cânhamo por dia, durante os seus 6 anos de jejum, para se disciplinar antes de alcançar a iluminação.
Junto com magnésio, potássio, fibras e quase todas as vitaminas que o corpo precisa, as sementes de cânhamo contém grandes quantidades de ômega 3 e 6, ácidos graxos essenciais – são as únicas a conter sozinha os dois juntos.
As sementes de cânhamo são muito ricas em proteínas (cerca de 25% ). Essas sementes possuem um sabor semelhante à noz, podendo ser usada em diversas receitas à seu gosto.
Produtos de limpeza e tintas
Quando limpamos as nossas casas com produtos convencionais, estamos a remover sujidade orgânica, poeira e óleos com químicos não biodegradáveis – químicos esses que nós inalamos antes de serem enviados pelos esgotos até aos Oceanos! O que há de limpo nisto?
Porque é que usamos produtos de limpeza baseados em petróleo? Serão eles melhores do que os produtos naturais? São mais baratos? Na maioria dos casos a resposta é não. Todos os produtos de limpeza contêm agentes que atuam em superfícies. Muitos destes agentes sintéticos, provêm do petróleo e outros químicos. Os agentes naturais provenientes dos óleos vegetais conseguem fazer o trabalho tão bem ou melhor do que os agentes baseados em químicos. Algumas companhias que usam os agentes químicos têm que pagar para tratar os resíduos tóxicos que poluem as águas, pois faz parte das Leis Ambientais.
Porque não usar apenas produtos naturais e biodegradáveis? Testes Europeus, indicam que os produtos de limpeza com agentes naturais baseados no óleo da semente de cânhamo trabalham de modo igual ou melhor do que outros baseados em óleos como: coco, soja e canola. Os produtos baseados em cânhamo podem limpar tudo desde janelas e mobílias, a motores de aviões a jacto. O óleo de cânhamo é um candidato para várias aplicações industriais onde é usado o óleo de linhaça.
O óleo de cânhamo contém agentes de secagem naturais usados nas tintas, nos vernizes e isolantes, que tornam a madeira altamente resistente á água. De facto, a partir de 1937, todas as pinturas de qualidade foram feitas com uma base de óleo de cânhamo.
Cosméticos
Os óleos originais usados em cosméticos como: cremes para bebes, cremes para a cara, creme de barbear, loções corporais são feitos a base de óleos minerais que – adivinhem – são um derivado do petróleo!
Muitas pessoas não fazem ideia que os produtos de maquilagem e cuidados pessoais que aplicam na cara e no corpo são baseados em petróleo. Para perceber porque é que os óleos minerais estão longe de ser uma contribuição para a saúde e beleza, primeiro temos que perceber que toda a vida na terra é baseada, essencialmente em carbono, oxigeno e hidrogênio. Plantas vivas e outros organismos são baseados em carbono vivo. A vida existente há milhões de anos ou está fossilizada ou tornou-se carbono “morto”. Quando usamos cosméticos que contêm óleos minerais estamos basicamente a tentar revitalizar os nossos corpos com materiais mortos. Isto não faz sentido. Apenas os óleos de plantas vivas –fontes de carbono vivo- contêm propriedades regenerativas. Então porque é que o óleo mineral existe em tantos produtos? Numa só palavra: Preço! À parte de ser um óleo incolor e inodoro, a sua principal vantagem é que poucos óleos vegetais conseguem competir economicamente com eles. No fim, a nós como consumidores é-nos oferecido uma notável linha de cosméticos que beneficia a nossa saúde tanto como uma caixa de Twinkees ou Maltesers.
Por outro lado, descobriu-se que o óleo de cânhamo, é altamente nutritivo, essencial para o cabelo e pele, promove o crescimento e retarda o envelhecimento. O cânhamo tem excelentes propriedades regenerativas e hidratantes para a recuperação de doenças de pele e é particularmente usado por pessoas que sofrem de eczema e psoríase.
No reino das plantas, o cânhamo contém a mais elevada quantidade de ácidos gordos essenciais para a saúde do nosso corpo e foi provado cientificamente, ter efeitos bioquímicos e terapêuticos quando aplicados. O óleo de cânhamo pode ser encontrado em shampoos, sabonetes, condicionadores, gel de banho, creme hidratante, batom e outras preparações de cosméticos.
Conheça alguns fatos sobre o cânhamo:
  • Até meados de 1880, mais de três quartos de todo o papel no mundo era feito de cânhamo.
  • Uma colheita de cânhamo produz 4 vezes mais fibra crua do que uma plantação de árvores de tamanho equivalente.
  • As árvores demoram 20 anos até serem adultas, o cânhamo demora 4 meses.
  • O cânhamo não precisa de pesticidas porque é intragável para os insetos.
  • O cânhamo não precisa de herbicidas porque cresce depressa demais para as ervas daninhas.
  • O cânhamo repele até 95% dos raios ultravioleta quando tecido numa malha apertada.
  • O cânhamo absorve mais água do que o algodão e tem uma força de tensão 3 vezes superior.
  • A produção de papel de cânhamo não usa tóxicos que podem poluir os rios próximos da fábrica.
  • O papel de cânhamo amigo do ambiente é mais forte e mais duradouro do que o papel feito da madeira.
  • O papel de cânhamo ainda é usado para fazer notas e arquivos.
  • Desde mais de mil anos antes de Cristo e até cerca de 1880 DC, o cânhamo foi o maior cultivo agrícola e indústria do planeta, produzindo a esmagadora maioria das fibras, tecidos, óleos, papel, incensos e produtos medicinais do planeta, assim como sendo a principal fonte de alimento para humanos e animais.
  • A guerra de 1812 entre a América e a Inglaterra foi sobretudo sobre o acesso ao cânhamo da Rússia.
  • Uma das razões principais para a invasão da Rússia por Napoleão em 1812 foi também as provisões de cânhamo Russas.
  • O cânhamo usa a luz do sol com mais eficácia do que qualquer outra planta no planeta.
  • O cânhamo cresce praticamente em qualquer tipo de solo e clima e é uma excelente razão para usar terrenos que de outra maneira estariam abandonados.
  • Até princípios de 1800 a palavra “linhos” referia-se a tecidos grosseiros feitos do cânhamo ou linho.
  • O óleo de cânhamo era referido na Bíblia pelo nome. Aparentemente, etimologistas na Universidade Hebraica em Jerusalém, confirmaram que a palavra “kineboisin” ( também escrita “kannabosm”) referia-se ao cânhamo usado numa pomada sagrada. Ver Exodus 30:23 onde a palavra foi mal traduzida para “cálamo”.
  • O óleo da semente de cânhamo dá a chama mais brilhante nas lamparinas a óleo e é usado desde Abraão. os Citas costumavam urificar-se com óleo de cânhamo que deixava as suas peles “brilhantes e limpas”.
  • Até 1850 muito do papel era feito de cânhamo. Desde 1900, a maioria dos jornais, livros e revistas passou a ser feito de papel de polpa da madeira. Papel barato e dispensável, conveniente de uma sociedade consumista.
  • As nossas florestas, ou o que sobra delas, estão a ser cortadas 3 vezes mais depressa do que elas conseguem crescer.
  • O cânhamo oferece uma fonte de combustível valiosa e sustentável para o futuro. O cânhamo rende cerca de 1000 galões de metanol (3785 litros) por acre ano (10 toneladas de biomassa/acre, cada um dando 100 galões de metanol/tonelada). O metanol usado hoje em dia é principalmente retirado do gás natural que é um combustível fóssil. O metanol está atualmente a ser considerado como o combustível principal para os automóveis, esperando assim reduzir os níveis de CO2.
  • Henry Ford sonhou um dia que os carros nascessem do solo. A companhia Ford, depois de anos de investigação, produziu um carro cuja carroceria era feita de plástico. Essa carroceria rija era feita em 70% de fibra celulose de cânhamo. Este plástico resistia a pancadas 10 vezes mais do que o aço sem ficar com marcas! O seu peso também era 2/3 do peso de um carro normal, sendo assim mais econômico. Henry Ford foi então obrigado a usar o petróleo devido à proibição do cânhamo.
  • Canapa em Italiano, Hanf em Alemão, Canamo em Espanhol, Chanvre em Francês, Kanoplya em Russo, Kender em Hungaro, Tal Ma em Chinês, o cânhamo é sem duvida internacional.
Como você pôde ver, o Cânhamo é uma excelente opção industrial por diversas razões. Quase tudo criado a partir do cânhamo é biodegradável , por isso, não só produtos de cânhamo parecem durar muito mais tempo , mas também quando é hora de substituí-los , eles podem retornar à Terra de maneira muito mais ecológica.
Quem projetou a maconha criou uma planta realmente perfeita. Já passou da hora de implementar esses novos recursos em nossas vidas. Nós temos a informação e temos a tecnologia, então o que nos impede?
Henry Ford gostava de dizer “Para quê usar as florestas que demoram séculos a serem criadas, e as minas que requerem épocas para se estabelecerem, se nós podemos ter produtos florestais e mineras equivalentes ao crescimento anual dos campos?”
George Washington Cover tinha uma resposta: “Eu acredito que o Grande Criador colocou minérios e óleos na terra para nos dar um “pequeno descanso”. Como nós os esgotamos devemos estar preparados para voltar às nossas quintas, que são o verdadeiro armazém de Deus, e que nunca se esgotará! Nós podemos aprender a sintetizar o material para cada necessidade humana a partir das coisas que crescem!”
Legalizar a maconha é respeitar a natureza, a vida e o planeta. O uso industrial do cânhamo é a melhor alternativa para termos um equilíbrio ambiental adequado, com uma fonte de matéria prima capaz de produzir combustível, papel, tecidos, casas, plástico, cosméticos… tudo da mais alta qualidade, muitas vezes superior aos produtos feitos com matéria prima convencional no mercado.
A maconha é a única planta que pode salvar o planeta. Se tudo correr como deve, o cânhamo servirá como pilar central de uma nova era de sustentabilidade e consciência ambiental.
http://projetocharas.com/a-maconha-industrial-pode-mudar-o-nosso-mundo/

Impacto do aquecimento global será 'grave e irreversível', diz ONU

O impacto do aquecimento global será "grave, abrangente e irreversível", segundo um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) divulgado nesta segunda-feira.
Autoridades e cientistas reunidos no Japão afirmam que o documento é a avaliação mais completa já feita sobre o impacto das mudanças climáticas no planeta.
Integrantes do IPCC dizem que até agora os efeitos do aquecimento são sentidos de forma mais acentuada pela natureza, mas que haverá um impacto cada vez maior sobre a humanidade.
Mudanças climáticas vão afetar a saúde, a habitação, a alimentação e a segurança da população no planeta, segundo o relatório.
O teor do documento foi alvo de intensas negociações em reuniões realizadas em Yokohama. Este é o segundo de uma série de relatórios do IPCC previstos para este ano.
O texto afirma que a quantidade de provas científicas do impacto do aquecimento global dobrou desde o último relatório, lançado em 2007.
"Ninguém neste planeta ficará imune aos impactos das mudanças climáticas", disse o diretor do IPCC, Rajendra Pachauri, a jornalistas nesta segunda-feira.
O secretário-geral da Associação Mundial de Meteorologia, Michel Jarraud, disse que se no passado as pessoas estavam destruindo o planeta por ignorância, agora já não existe mais esta "desculpa".

Enchentes e calor

O relatório foi baseado em mais de 12 mil estudos publicados em revistas científicas. Jarraud disse que o texto é "a mais sólida evidência que se pode ter em qualquer disciplina científica".


Nos próximos 20 a 30 anos, sistemas como o mar do Ártico estão ameaçados pelo aumento da temperatura em 2 graus Celsius. O ecossistema dos corais também pode ser prejudicado pela acidificação dos oceanos.
Na terra, animais, plantas e outras espécies vão começar a "se deslocar" para pontos mais altos, ou em direção aos polos.
Um ponto específico levantado pelo relatório é a insegurança alimentar. Algumas previsões indicam perdas de mais de 25% nas colheitas de milho, arroz e trigo até 2050.
Enquanto isso, a demanda por alimentos vai continuar aumentando com o crescimento da população, que pode atingir nove bilhões de pessoas até 2050.
"Na medida em que avançamos [as previsões] no futuro, os riscos só aumentam, e isso acontecerá com as pessoas, com as colheitas e com a disponibilidade de água", disse Neil Adger, da universidade britânica de Exeter – outro cientista que assina o relatório.
Enchentes e ondas de calor estarão entre os principais fatores causadores de mortes de pessoas. Trabalhadores que atuam ao ar livre – como operários da construção civil e fazendeiros – estarão entre os que mais sofrerão. Há também riscos de grandes movimentos migratórios relacionados ao clima, além de conflitos armados.

Quem paga?

Em lugares como a África, as pessoas estarão particularmente vulneráveis. Muitos que deixaram a pobreza nos últimos anos podem voltar a ter condições de vida miseráveis.


Mas o professor Saleemul Huq, outro coautor do relatório, disse que os países ricos não estarão imunes.
"Os ricos terão que se preparar para as mudanças climáticas. Estamos vendo isso agora na Grã-Bretanha, com as enchentes de poucos meses atrás, as tempestades nos Estados Unidos e a seca no Estado da Califórnia", disse Huq.
"Estes eventos são multibilionários, que precisam ser pagos pelos ricos, e existe um limite no que eles podem pagar."
Outro coautor, Chris Field, apontou que existem alguns lados positivos do relatório. Segundo ele, o mundo tem condições de administrar os riscos previstos no documento.
"Aquecimento global é algo muito importante, mas nós temos muitas ferramentas para lidar de forma eficiente com isso. Só é preciso lidar de forma inteligente com isso", diz Field.
Mas um dos problemas que ainda não tem resposta é: quem pagará a conta?
"Não cabe ao IPCC definir isso", disse José Marengo, cientista brasileiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que participou das negociações em Yokohama.
"O relatório fornece a base científica para dizer que aqui está a conta, alguém precisa pagar, e com essas bases científicas é relativamente mais fácil ir às negociações da UNFCCC [Convenção Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas] e começar a costurar acordos sobre quem pagará pela adaptação [do planeta]."

O que é o IPCC?

A função do Painel Intergovernamental da ONU para Mudanças Climáticas (IPCC), nas suas palavras é "suprir o mundo com visões científicas claras sobre o estado atual do conhecimento em mudanças climáticas e seus potenciais impactos ambientais e socioeconômicos".
Com o aval da ONU, a entidade já produziu quatro grandes relatórios até hoje.
O IPCC é uma organização pequena, sediada em Genebra e com uma equipe de 12 funcionários que trabalham em turno integral. Todos os cientistas que colaboram com o painel o fazem de forma voluntária.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/03/140331_ipcc_relatorio_dg.shtml

quarta-feira, 19 de março de 2014

Crise na Crimeia pode reacender conflitos adormecidos na Europa

A situação atual na Crimeia não apenas evidencia o que muitos veem como renovadas ambições expansionistas da Rússia de Vladimir Putin. Também desperta preocupação entre os vizinhos de Moscou no Leste Europeu e traz à tona conflitos "congelados" no tempo e originados após o desmantelamento da União Soviética, em 1991.
O avanço rumo à anexação da região autônoma ucraniana da Crimeia acontece apenas um mês após a destituição do presidente ucraniano Viktor Yanukovych - aliado de Moscou -, após violentos protestos contra ele.
O motivo por trás dos protestos foi a recusa de Yanukovych em assinar um tratado de aproximação com a União Europeia (UE), preferindo manter a relação próxima com a Rússia.
Muitos dizem que Putin quer conter a influência dos Estados Unidos e da UE com uma espécie de União da Eurásia.
Desde que ele chegou ao poder, em 2000, sua meta é voltar a fazer de Moscou uma grande potência global.
"A ideia não é recriar a União Soviética, mas sim rodear a Rússia com uma série de (países) satélites submissos - e não há maior prêmio nessa busca do que Ucrânia", disse Eugen Rumer, ex-oficial de inteligência dos Estados Unidos na Eurásia e hoje do Fundo Carnegie para a Paz Internacional.
Para o professor de direito internacional da Universidade de Cambridge Marc Weller, a Crimeia faz parte da "lista de conflitos congelados no Leste Europeu".
E a instabilidade já vista em conflitos nos territórios da Ossétia do Sul e Abkházia tornam mais urgente a necessidade de uma solução definitiva para a Crimeia, afirma Weller.

Cáucaso

A Ossétia do Sul e a Abkházia, cuja independência é apoiada pela Rússia, são territórios reivindicados pela Geórgia.
Em 2008, Moscou usou a maioria russa na Ossétia como justificativa para atacar as tropas da Geórgia, que tentavam recuperar o controle da região separatista.
O Exército russo também forçou a saída das tropas georgianas da Abkházia.

Agora, com argumento similar, a Rússia interveio na Crimeia. E, assim como no caso da Geórgia, Moscou ressente o interesse da União Europeia na Ucrânia.
Seis anos após o conflito com a Geórgia, a situação na região segue instável.
O plano de paz patrocinado pela UE para os dois territórios, negociado pelo ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, em 2008, foi o equivalente a pouco mais que a ratificação dos resultados da invasão russa, opina Weller.
Dois anos antes, a Ossétia do Sul havia realizado um referendo que alguns comparam ao da Crimeia. O resultado foi um amplo apoio à criação de um Estado independente. No entanto, apenas Rússia, Venezuela, Nicarágua, Nauru e Tuvalu reconheceram o resultado.

Transnístria

Outro caso que pode ter paralelos com a atual crise da Crimeia é o do enclave chamado Transnístria, território separatista entre a Moldávia e a Ucrânia.
Na prática, a Transnístria se separou da Moldávia e a maioria de sua população fala russo. Há relatos de que as autoridades locais pediram ao Parlamento russo por uma anexação, e um referendo em 2006 respaldou a intenção de pertencer à Rússia.
A comunidade internacional não reconhece sua independência, e o território, que mantém um tenso enfrentamento com a Moldávia, é tido como uma região dominada pelo crime organizado e pelo contrabando.

A Transnístria tem moeda, Constituição, hino, bandeira e Parlamento próprios. E, assim como na Crimeia, a Rússia tem milhares de soldados ali.
A relação de Moscou com a Moldávia é marcada pelo ponto fraco do pequeno país, a economia (semelhante à relação entre Moscou e Ucrânia).
A Moldávia é o país mais pobre da Europa, e sua economia depende em grande parte da exportação de vinho. A UE quer integrá-lo à Associação Oriental, programa do bloco de aproximação com ex-repúblicas soviéticas ao leste, como Belarus, Azerbaijão, Armênia, Geórgia e Ucrânia.
Mas, quando o país começou a se aproximar do Ocidente, a Rússia - seu principal mercado - vetou a importação do vinho moldávio.
Foi esse mesmo tipo de aproximação com a UE que foi rejeitada por Yanukovych na Ucrânia, desencadeando protestos da parte da população que é pró-Ocidente.

Presença russa no Báltico

Estônia, Letônia e Lituânia, as três repúblicas bálticas que pertenceram à União Soviética durante 51 anos, também acompanham de perto os desdobramentos na Crimeia.
Em 2004, os três se uniram à UE e à Otan (aliança militar ocidental), uma afronta a Putin.
A presença de uma significativa minoria étnica russa é um tema delicado nos países bálticos, que em grande medida dependem do gás russo.
Na Estônia, os russos representam até um terço da população, e muitos se queixam de preconceito. Na Letônia, 25% do povo fala russo, e seus direitos são um tema espinhoso no país.
A presidente lituana, Dalia Grybauskaite, disse recentemente que "graças a Deus (o país) tem mais de dez anos na Otan".
"A Rússia está tentando reestabelecer as fronteiras que tínhamos depois da Segunda Guerra Mundial", queixou-se a presente - alegando que, após a Ucrânia, Moscou se moveria em direção aos países Bálticos e à Polônia.
Os Estados Unidos mandaram reforços militares à região, e o vice-presidente Joe Biden visita Lituânia e Polônia nesta semana para discutir a crise ucraniana.

Temor polonês

Também na Polônia existe uma sensação generalizada de insegurança. Em pesquisa recente, 59% dos entrevistados opinaram que a política externa russa ameaça a segurança do país.
"Me sinto ameaçado pela Rússia porque estamos do lado", disse à BBC o polonês Michal, de 30 anos. "A Ucrânia foi a primeira, os países bálticos virão a seguir e logo Putin fará algo ruim aqui."
"Acho que há uma sensação de que certos limites foram ultrapassados, que precedentes foram abertos e que graças a isso não se sabe onde Putin vai parar", disse à BBC Marcin Zaborowski, diretor do Instituto Polonês de Assuntos Internacionais.

Avanço na Ucrânia?

Fora a Crimeia - região transferida por Moscou à Ucrânia em 1954, quando esta era parte da União Soviética -, nas cidades ucranianas de Donestk e Kharkiv, onde também há uma grande população de etnia russa, há debates sobre referendos semelhantes para se unir à Rússia.
"Se houver mais referendos relâmpagos, será que serão enviados para lá soldados russos - que agora estão nas fronteiras da Ucrânia em nome da proteção dos russos étnicos frente aos 'provocadores' de Kiev -, como aconteceu na Crimeia?", questiona na revista New Yorker o jornalista Jon Lee Anderson.
Alguns meios de comunicação russos começam a se referir a uma ampla zona do sul da Ucrânia como "Novorossiva", ou "Nova Rússia". Anos atrás, em 2008, Putin dissera a líderes da Otan que ali havia "apenas russos".
A consultoria política Eurasia Group calcula em 40% a probabilidade de que a Rússia invada o leste ucraniano.
Nesta terça, Putin declarou que essa não é sua intenção: "A Rússia não quer dividir a Ucrânia. Não precisamos disso".
No entanto, qualquer novo avanço russo certamente aumentará as tensões e e temores sobre o ressurgimento de um novo tipo de Guerra Fria - além de deixar o Ocidente em uma encruzilhada sobre como responder à situação.

Grupo de militares ucranianos resiste a invasão russa de base na Crimeia

Forças subordinadas à Rússia invadiram uma base naval ucraniana em Sevastopol. Autoridades da Ucrânia afirmaram nesta querta-feira que o comandante da instalação foi levado pelos invasores.
Segundo testemunhas, colunas de militares ucranianos foram vistos saindo da unidade militar levando seus pertences.
Contudo, uma fonte que está dentro da base disse à BBC pode telefone que cerca de 100 militares ucranianos fizeram barricadas com móveis e tentam resistir à invasão.
Até o início da tarde desta quarta-feira não havia registro de mortos ou feridos na ação.
Outra base naval ucraniana no oeste da península da Crimeia, Novoozerne, também foi atacada por forças ligadas à Rússia.
O governo de Kiev diz que dois de seus ministros foram impedidos de entrar na Crimeia para negociar.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/03/140318_crimeia_efeito_domino_pai.shtml