quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O Anarquismo como Método de Análise Geográfica: uma breve reflexão epistemológica

Alexandre Peixoto Faria Nogueira

Introdução

            O anarquismo tem sido historicamente, colocado à margem das discussões científicas e, consequentemente, das produções acadêmicas. Essa exclusão não só acontece no âmbito da geografia, mas em todas as ciências sociais, nas quais as correntes de pensamento hegemônicas menosprezam a importância e contribuição do anarquismo para com o desenvolvimento e organização social em determinados momentos da história, tanto em escala mundial como, por exemplo, a importância dos grupos anarquistas na Revolução Russa e na Guerra Civil Espanhola; quanto no Brasil, com a chegada dos imigrantes, principalmente italianos, formando os primeiros sindicatos brasileiros. No entanto, ressurgem grupos de estudos na linha anarquista, como por exemplo, o Grupo de Estudo Anarquista (GEA) da Universidade Federal Fluminense e também alguns encontros nacionais, como o I Simpósio de História do Anarquismo no Brasil, ocorrido entre os dias 20 e 21 de agosto de 2003, na Universidade Federal Fluminense, Niterói/RJ.
            A palavra anarquia vem do grego e significa “sem governante”, sendo assim esta palavra, segundo Woodcock (2002) “pode ser usada para expressar tanto a condição negativa de ausência de governo, quanto a condição positiva de não haver governo por ser ele desnecessário à preservação da ordem” (p.08). Outra explicação histórica do termo é dada por Leuenroth (1963) segundo este na Grécia, por volta do ano de 478 A.c., existiu um homem chamado Arquias, que escravizava e barbarizava o povo. Este, em oposição aos seus métodos se reuniu para protestar contra ele. Os integrantes desse movimento de contestação foram chamados de An-Arquias, já que o prefixo “An” significa negação (“não/sem”) na língua grega.

            No entanto, a melhor definição e explicação sobre o que é o anarquismo vem de um dos seus maiores pensadores. Na Enciclopódia Britânica, Kropotkin (1910) define anarquismo como:
É o nome dado ao princípio ou teoria de vida e conduta em que a sociedade é concebida sem governo -- a harmonia em tal sociedade é obtida, não pela submissão a leis, ou pela obediência a alguma autoridade, mas pela livre concordância estabelecida entre vários grupos, territoriais e profissionais, livremente constituídos em favor da produção e do consumo, e também para a satisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado. Em uma sociedade desenvolvida nessas linhas, as associações voluntárias que estarão presentes em todos os campos da atividade humana se estenderão de tal forma que substituirão o estado em todas suas funções. Elas constituirão uma rede composta por uma variedade infinita de grupos e federações de todos os tamanhos e graus, locais, regionais, nacionais e internacionais temporárias ou mais ou menos permanentes -- para todos os possíveis propósitos: produção, consumo e troca, comunicações, arranjos sanitários, educação, proteção mútua, defesa do território, e assim por diante; e, por outro lado, para a satisfação de um número crescente de necessidades científicas, artísticas, literárias e sociais.
  
O Anarquismo como movimento, segundo Fausto (1977) é caracterizado como:

(...) sistema de pensamento social visando as modificações fundamentais na estrutura da sociedade, com o objetivo de substituir a autoridade do Estado por alguma forma de cooperação não governamental entre indivíduos livres (p.63).

            Segundo Woodcock (2002) embora Gerard Winstanley (1649) e William Godwin (1793) tenham sido os pioneiros na exposição da filosofia do anarquismo nos séculos XVII e XVIII, foi apenas na segunda metade do século XIX que o anarquismo emergiu como uma teoria coerente, com uma sistemática e um programa desenvolvido. Este trabalho foi iniciado primeiramente por quatro pensadores, um alemão, Max Stirner (1806-1856), um francês, Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), e dois russos, Michael Bakunin (1814-1876) e Piotr Kropotkin (1842-1921).
O movimento anarquista possui três variantes mais conhecidas: o coletivismo, o anarco-comunismo, e o anarco-sindicalismo[1]. O coletivismo substitui a propriedade individual pela idéia de propriedade gerida por instituições voluntárias, que dariam a cada operário o direito sobre o produto de seu trabalho. O anarco–comunismo tem como lema: “De cada um, de acordo com seus meios; a cada um de acordo com suas necessidades” (WOODCOCK, 2002, p.21) e os anarco-sindicalistas dão valor aos sindicatos de classes como instrumento revolucionário, tendo na greve sua mais poderosa arma de luta para a construção de uma sociedade livre.
As várias teorias apresentadas não são, contudo, mutuamente excludentes: elas se interligam de muitas maneiras, e algumas partes se referem à diferentes níveis da vida social.
No entanto, dentro do pensamento anarquista existem divergências entre as teorias apresentadas nas linhas anteriores. Essas divergências referem-se, essencialmente, à maneira de como atingir seus objetivos. Tais tendências são representadas por seus defensores, os quais são considerados por Woodcock (2002) como os maiores pensadores do anarquismo[1], a saber: Tolstoi, Godwin, Proudhon e Kropotkin. Segundo este, vem deles as principais divergências do anarquismo onde Tolstoi não admitia a violência; Godwin procurava alcançar a mudança através da palavra; Proudhon acreditava que a proliferação pacífica de organizações cooperativas os levaria a vitória; e, somente Kropotkin aceitava a violência, mesmo assim com relutância, pois via nela uma ação inevitável para aqueles que buscavam uma revolução social.
As idéias anarquistas naturalmente não pararam de se desenvolver, nem tampouco elas foram produto de apenas quatro homens. O anarquismo é pela sua própria natureza uma teoria em evolução, com muitos ativistas e pensadores diferentes uns dos outros.
Pretendemos aqui relatar a importância do anarquismo para o desenvolvimento da ciência geográfica, partindo da importância de dois dos principais geógrafos que tinham no anarquismo o seu método de análise: Èlisée Reclus e Piotr Kropotkin.
    
O debate anarquista e a geografia

As ligações entre o anarquismo e a geografia são evidentes a partir do reconhecimento de que, dois dos principais militantes anarco-comunista do final do século XIX, o francês Èlisée Reclus e o russo P. Kropotkin eram geógrafos destacados. Logo, a inserção do pensamento anarquista no âmbito da ciência geográfica acontece a partir das contribuições desses dois geógrafos, pois, o fato é de que, os trabalhos acadêmicos dos mesmos, no campo da geografia, estavam profundamente influenciados pelas idéias políticas anarquistas.
Suas contribuições são muito diferentes daquelas de os antecederam, como por exemplo, as contribuições de Alexandre Von Humboldt, Karl Ritter e as de Friedrich Ratzel. Esses últimos alinharam-se às classes dominantes, conquistaram postos acadêmicos e serviram a soberanos e presidentes, já os dois geógrafos anarquistas contestaram a estrutura de poder, desqualificaram a existência do Estado, professaram idéias radicais de mudança social e saíram em defesa da classe trabalhadora.
Positivistas e adversários de Karl Marx na militância política principalmente durante a Iª Internacional, eles incorporaram, todavia, algumas categorias marxistas em suas obras e anunciaram um caminho libertário tanto para a sociedade quanto para a geografia.
Segundo Woodcock (2002), ambos geógrafos anarquistas eram oriundos de classes sociais distintas, onde È. Reclus provinha de uma família francesa modesta, era filho de pastor protestante, colocando-o, assim, na pré-destinação ao sacerdócio. P. Kropotkin, por sua vez, era de ascendência nobre, filho de latifundiário russo, predestinado a seguir carreira militar, integrando-se aos batalhões de elite que protegiam o Czar. Kropotkin chegou a freqüentar a corte e posteriormente foi matriculado em uma escola preparatória de oficiais.
No entanto, ambos pensadores combateram pelas mesmas idéias e cooperaram em trabalhos de natureza tanto política quanto científica na construção de uma sociedade libertária.
Èlisée Reclus (1830-1905) foi um francês que marcou sobremaneira os rumos tomados pela geografia mundial. Ao contrário dos chamados clássicos da geografia de seu tempo, ele advogava a idéia de uma “geografia unitária”, propondo elaborar estudos de maneira a abranger tanto os aspectos e implicações físicas como também os de cunho social. É desta maneira que ele também designava sua proposta de “geografia social”. Para ele a geografia deveria exercer um papel maior do que o habitualmente atribuído dentro da perspectiva disciplinar que constitui a abordagem estritamente especializada.
Suas dificuldades em desenvolver estudos e de publicá-los foram enormes, uma vez que, os próprios editores rejeitaram esta nova proposta de abordagem dos estudos geográficos, comportando uma atitude de desrespeito aos postulados até então estabelecidos.  
È. Reclus tem como suas principais obras, “A Terra”, em dois volumes, editada em 1869, a “Nova geografia universal”, que veio à público de 1875 a 1892, em dezenove volumes, e o “Homem e a terra”, publicada de 1905 a 1908, em seis volumes, todas essas obras foram frutos de minuciosa pesquisa bibliográfica realizada durante inúmeras viagens, principalmente em seus períodos de exílio. Cuidadoso e valorizando os detalhes, ressaltava as descrições e as ilustrações cartográficas, o que tornava suas obras acessíveis a um grande público. Diversamente dos seus contemporâneos, Reclus não segmentava a geografia entre física e humana, mas estudava, em detalhes, fenômenos físicos, apontando suas conexões com a ação antrópica.
Segundo Anuchin (1965), a pesquisa do meio natural era uma tarefa que facilitava a compreensão do progresso da humanidade. Eis porque È. Reclus escreveu primeiro uma “Geografia Universal” na qual estabelecia um corte horizontal da superfície terrestre, com suas fronteiras políticas, sociais e culturais, e logo após, no livro “O homem e a terra”, efetuava um corte vertical, em profundidade, estudando a ação humana desde a pré-história até a época em que ele viveu.
Assim como Èlisée Reclus, outro geógrafo fazia parte do grupo das exceções: o russo Piotr Alekseievitch Kropotkin (1842-1921), escritor, filósofo e também militante anarquista, ele foi um dos maiores defensores/pensadores do anarco-comunismo no mundo.
P. Kropotkin fundou e editou em Genebra, Suíça, juntamente com È. Reclus e os anarquistas suíços, em 1879, o jornal Lé Révolté. Foi colaborador da Geographical Society na Inglaterra e da Geografia Universal, que era de Reclus. O seu verbete sobre o anarquismo publicado na edição da Encyclopaedia Britânica de 1910 é, até hoje, uma das mais bem elaboradas definições. Kropotkin dedicou-se às investigações geográficas, geológicas e etnológicas, atividades pelas quais sempre sentira forte atração — os informes sobre suas pesquisas foram publicadas pela Sociedade Geográfica Russa entre os anos de 1871 e 1874 (Costa, 1996).
Na época em que era secretário da Sociedade Geográfica Russa, em 1874, ele foi preso e conseguiu escapar e se refugiar na Inglaterra em 1876. Ele desenvolveu teorias sobre a ajuda mútua e associações de trabalhadores, o que norteou praticamente todas as suas obras.
Kropotkin difundiu as idéias de "não-governo", de defesa dos direitos das pessoas, das associações locais, das autonomias locais e contra a centralização estatal. Kropotkin preocupava-se com a descentralização, a cooperação e também com a emancipação humana.
Sobre a geografia, P. Kropotkin afirmava que:
A Geografia deve ser em primeiro lugar, um estudo das leis que modificam a superfície terrestre: as leis que determinam o crescimento e desaparição dos continentes, suas configurações passadas e presente (...). A Geografia deve, em segundo lugar, estudar as conseqüências da distribuição dos continentes e mares, das elevações e depressões, dos efeitos da penetração do mar e das grandes massas de água no clima. Ela deve ainda explicar a distribuição geográfica dos seres vivos, animais e vegetais. E a quarta função da Geografia refere-se aos grupos humanos sobre a superfície da Terra. Suas distribuições, seus traços distintos, a distribuição geográfica das etnias, dos credos, dos costumes, das formas de propriedade e as relações disso tudo com o meio ambiente (...). O ensino da Geografia deve perseguir um triplo objetivo. Deve despertar nos alunos a afeição pela natureza. Deve ensinar-lhes que todos os seres humanos são irmãos qualquer que seja a sua nacionalidade ou a sua 'raça'. E deve inculcar o respeito pelas culturas ditas 'inferiores' (KROPOTKIN, 1885, p. 26).

Kropotkin sempre teve preocupações sobre o papel da geografia na formação crítica das pessoas e principalmente das crianças, a partir do ensino da mesma na escola elementar. Sobre essa questão ele diz:
O papel da geografia na escola elementar é motivar a criança pelo grande fenômeno da natureza, despertando o desejo de conhecer e explicar. A geografia deve prestar, além disso, um serviço ainda mais importante, que é o de nos ensinar (...) que todos nós somos irmãos qual quer que seja a nossa nacionalidade (...). A geografia deve contrabalançar a influência hostil dos preconceitos e criar outros sentimentos mais humanísticos. Ela deve mostrar que cada nacionalidade trouxe a sua própria contribuição para o desenvolvimento geral da humanidade e que somente uma pequena parte de cada nação está interessada em manter as hostilidades e os preconceitos (KROPOTKIN, 1885, p. 30).

Èlisée Reclus: por uma anarco-geografia

Assim o homem que quer realmente desenvolver-se como ser moral deve defender exatamente o contrário do que recomendam a Igreja e o Estado: ele deve pensar, falar, agir livremente.
(RECLUS, 2002).

O geógrafo e militante anarquista Jean Jacques Èlisée Reclus, nasceu em 15 de março de 1830, na cidade de Sainte-Foy-la-Grande na França e faleceu em 4 de julho de 1905. Participou da Iª Internacional ao lado dos libertários Kropotkin e Bakunin contra os, segundo ele, comunistas autoritários K. Marx e F. Engels em 1865, ele participou também da Comuna de Paris em 1871, fazendo frente ao evolucionismo e ao marxismo.
Por ser contemporâneo do século XIX, a sua formação ideológica teve influência de pessoas de sua época, como de seu colega de classe, Friedrich Ratzel e de seu professor de geografia na Universidade de Berlim, Karl Ritter.
Èlisée Reclus começou a ler desde cedo os socialistas utópicos como, Saint-Simon, Fourier e Proudhon. Tornou-se ateu com 22 anos ao abandonar as crenças protestantes.
Na área da geografia, lecionou na Nova Universidade de Bruxelas, onde produziu obras geográficas populares e de qualidade, com ideais de humanismo e de solidariedade entre os povos. Sobre a atuação de Reclus, Fernandes e Andrade afirmam:

Pode-se mesmo afirmar que a sua vida foi dividida em duas direções: a política, dedicada ao pensamento e à ação anarquista, e a científica, dedicada ao conhecimento geográfico. Atuando ou escrevendo, utilizou sempre as duas vertentes: a do cidadão, revolucionário e libertário, e a do cientista, consciencioso e competente (1985, p. 07).

È. Reclus fez uma exposição geral a respeito da evolução da humanidade — ao mesmo tempo em que a diferenciava de revolução. Em sua obra O homem e a Terra, mostrou que as condições sociais do meio modificam as condições naturais, além de julgar necessário que se devam ter certas doses de pressão algumas vezes, a fim de se preparar o terreno para uma futura revolução social, sempre levando em consideração a análise dialética das relações homem/natureza.

Reclus usou um método descritivo que consistiu em dividir a superfície da Terra em grupos de estados e analisar cada área ou região que compunha os estados, detendo-se exaustivamente tanto nos aspectos físicos — relevo, clima, hidrografia, formação geológica, vegetação natural — quanto nos aspectos humanos, como organização do povoamento, utilização do espaço, formas de exploração econômica, relações de classe, sistemas de transporte e organização da rede urbana (FERNANDES & ANDRADE, 1985, p. 18).

Ele salientou também, que a geografia deveria se preocupar mais com o que ele denominava de leis fundamentais da História, a saber: a luta de classes, em que se encontra dividida a sociedade; o equilíbrio através da revolução social; e a contribuição predominante do indivíduo, que somente com sua qualidade e seu aprimoramento intelectual seria possível o progresso.

Reclus chamou atenção ainda para o fato de haver sempre no mundo colonial — o que hoje chamamos de Terceiro Mundo — uma classe ou grupo dominante local que se beneficia com a dominação e que se alia ao dominador estrangeiro, oprimindo o povo. Os mecanismos da dominação são manejados pelo país dominador com o apoio de parcelas minoritárias do país dominado que traem os interesses de sua pátria e se põe à serviço do invasor (FERNANDES & ANDRADE, 1985, p. 18).

            Grande parte de sua obra, que tem explícita conotação crítica ao governo da França e que mostrava que os anseios do povo divergiam dos anseios das classes dominantes, foi escrita no exílio, devido à sua recusa em apoiar e em escrever de acordo com os interesses do poder, do Estado, da burguesia francesa e de suas aliadas, além dos próprios geógrafos contemporâneos a ele, bem como os que viriam depois, sendo por isso boicotado muitas vezes.
            Numa época em que os geógrafos dificilmente abordavam o assunto do cotidiano urbano e da industrialização em andamento, Reclus mostrou que todo esse processo estava caminhando junto com a miséria que crescia cada vez mais e que tinha como um dos agravantes, o êxodo rural.

Reclus não se submeteu as censuras de quaisquer espécies e procurou dar uma visão vertical da ação do homem na superfície da Terra, cobrindo duas categorias: espaço e tempo. Em L’homme et la Terre, a problemática é apresentada de forma muito ampla, e Reclus corrobora a sua afirmativa de que ‘a geografia é a História do espaço, enquanto a História é a geografia do tempo’, propondo-se a fazer uma geografia social. São analisados com profundidade os temas mais diversos e atuais, como: a origem do homem, a distribuição das populações, a evolução históricas da humanidade, as formas de Estado e de governo, o problema das etnias, das religiões, das culturas, do trabalho, da colonização, do progresso, da educação etc. (FERNANDES & ANDRADE, 1985, p. 19).


As preocupações de Èlisée Reclus com a Geografia

·      Quanto à natureza da geografia:

Ele se preocupava com o rumo que a sociedade estava tomando, utilizando a geografia para denunciar a desigualdade econômica, política, cultural e social entre os indivíduos; a divisão de classes com interesses opostos que acabam com o equilíbrio “através de luta entre os dominadores, que procuram manter e defender os seus privilégios, e os dominados, que procuram, por meio de pressões ou de luta armada, romper o equilíbrio e ocupar a posição de classe dominante” (FERNANDES & ANDRADE, 1985, p. 20); e a evolução social sem o esforço e o aperfeiçoamento individual, podando a liberdade. Com isso vêm as guerras por onde “os dominados, se vencem, modificam as estruturas sociais em seu benefício e, se perdem, são submetidos a um controle mais severo e tirânico por parte dos grupos dominantes” (FERNANDES & ANDRADE, 1985, p. 20).

·      Quanto à unidade da geografia:

Èlisée Reclus era contra a divisão entre geografia física e geografia humana, pois tal atrito atraía as atenções para uma briga sem fundamento, perdendo-se de vista a preocupação da divisão de classes, da miséria e da dominação burguesa até então em curso, além de quebrar a harmonia da geografia como ciência.

Reclus também se punha contra as idéias dominantes do determinismo geográfico, desenvolvido, com alguma moderação, por Ratzel e levado a exageros por discípulos como Huntington e Helen Simple. Não caiu, porém, no possibilismo de Vidal de la Blache que, fundamentalmente ambientalista, é, na verdade, um determinismo moderado (FERNANDES & ANDRADE, 1985, p.21).

·      Quanto ao comprometimento político da geografia:

O que interessava para È. Reclus era como a geografia poderia ser útil para explicar e resolver a questão dos problemas e das diferenças sociais. É neste sentido que norteia a obra de Reclus, como afirmam Fernandes e Andrade:

A obra de Reclus levantara uma série de problemas, como o problema do crescimento urbano, o do desenvolvimento industrial, o da análise das estruturas econômicas, políticas e sociais, o da colonização e o das formas de dominação, demonstrando até mesmo o caráter imperialista da expansão colonial, no momento em que os geógrafos, em geral, procuravam justificar essa expansão como necessária ao progresso e à civilização. Reclus demonstrava, sobretudo para as colônias de exploração, como o colonizador era mobilizado pelo interesse da exploração das populações nativas e dos recursos existentes, e não pelo desejo de levar a religião e a fé da civilização ocidental aos povos considerados selvagens e bárbaros (1985, p. 26).

Élisée Reclus e o determinismo
Èlisée Reclus consegue facilmente a unanimidade para a amplitude de sua obra: quantidade considerável de escritos, de informações levantadas para a época e de trabalho realizado em condições materiais muitas vezes delicadas. Sobre a qualidade, além de seu estilo literário igualmente reconhecido, um núcleo duro se destaca que está longe de ter enrugado. Reclus inicialmente levou certo número de ferramentas para a Geografia. Segundo Anuchin (1965) foi ele quem criou a expressão “ambiente geográfico” e, segundo Dunbar (1981), “geografia social”. Mas nem por isso Reclus procurou fazer um corte de sua disciplina. Tratava-se de introduzir claramente no domínio da “geograficidade”, como destaca Lacoste (1989), o conjunto das questões (econômicas, políticas, ecológicas, etc.) que ficavam até então mais ou menos separadas, e isso numa perspectiva de inter-relações que sublinhavam a problemática natureza/sociedade.
O que parece evidente hoje em dia (como, por exemplo, a influência das políticas estatais sobre o arranjo do território) estava longe de ser óbvio ainda nessa época. È. Reclus evocou sem rodeios as colonizações, os imperialismos, as guerras.
De uma ontologia científica exemplar, ele rejeitava todos os preconceitos. Kropotkin (1987) lembra:
Seu profundo respeito pelas nacionalidades, clãs ou tribos, civilizados ou não. Não somente sua obra está livre de toda vaidade nacional absurda ou de preconceito nacional ou racial, como ele conseguiu, além disso, mostrar (...) aquilo que todos os homens têm em comum, o que os une e não aquilo que os divide (p. 63).

Ainda hoje, a problemática natureza/sociedade continua sempre igualmente discutida. Neste contexto surgem alguns questionamentos, tais como: em que o homem é influenciado ou modificado pelo ambiente físico? Qual é a participação dos comportamentos adquiridos (pela educação, o entorno social, etc.) e dos comportamentos inatos?
Em Geografia, todas essas questões gravitam em volta do “determinismo”. Este pode chegar a conclusões tão parciais quanto falsas sobre o vínculo entre a distribuição da população e a freqüência dos pontos de água ou entre o estado das civilizações e a natureza de seu clima.
Sobre o determinismo, Reclus tem uma posição muito firme: ele se opôs, em princípio, àqueles que privilegiam um único fator na explicação de um fato:

É por um esforço de abstração pura que as pessoas tentam apresentar esse traço particular como se ele existisse distintamente e que se busca isolá-lo de todos os outros para estudar a influência do mesmo (...). O meio é sempre infinitamente complexo (FERNANDES & ANDRADE, 1985, p. 108).

Para Èlisée Reclus, o homem é uma parte desse meio e de sua dimensão física, a Natureza (“o homem é a natureza tomando consciência de si mesma”); como Kropotkin, ele sublinha isso constantemente em seus escritos.
O homem é suficientemente poderoso para dominar a natureza. Mas ele não pode esquecer as leis da mesma, a não ser em detrimento delas. Sobre esse poder humano sobre a natureza, em sua conclusão de O Homem e a Terra, Reclus ironiza assim a ideologia do super-homem, esses “aristocratas do pensamento” ou da riqueza.
Isso não surpreende, pois, os anarquistas, ecologistas pioneiros, reconhecem as leis naturais como as únicas contra as quais o homem nada pode e os colocam aquém das leis que os homens podem se dar livremente a eles mesmos (Bakunin, o qual Reclus encontrou em plena Iª Internacional, declara: “nenhuma rebelião contra a Natureza é possível”).
Isso significa, portanto, que o homem, indivíduo e sociedade, permanecem submetidos aos elementos físicos?
Não, pois para È. Reclus a variação desses elementos no espaço e no tempo e a modificação constante de nossas percepções impedem qualquer hierarquia metódica das causalidades. Ele também emprega o termo “dinâmico" para definir o modo das inter-relações, noção que será retomada por seus sucessores, o que lembra o termo “cinética” empregado por P. Kropotkin.
Em toda parte, o homem pode se adaptar às condições naturais, portanto pode modificá-las, se tiver os meios para tanto. Segundo Dunbar (1981), Èlisée Reclus mostra isso com a ajuda de múltiplos exemplos e de mapas, sem se contentar com diatribes contra o Estado ou burguesia e sem se esconder atrás dos conceitos forjados e propositais como fazem os marxistas com o “modo de produção” ou o “materialismo histórico”. Ele procura estabelecer todas as conexões e demonstrar os processos para captar a complexidade do real. O que a posição de Reclus subtende é essa opção lúcida, inabalável, cruel e visceral, ou seja, a liberdade, esse sentimento no qual tudo é, tudo continua, onde tudo deve ser possível.
Com razão, Dunbar (1981, p. 12) lembra que È. Reclus declarava: “sou geógrafo, mas acima de tudo sou anarquista” e comenta que “assim como sua geografia era necessária ao seu anarquismo, também seu anarquismo enriquecia sua geografia; não podemos entender Reclus se olharmos um sem o outro”. A orientação libertária de Reclus é exatamente a garantia da independência, do julgamento crítico e da honestidade indispensável a toda busca sincera. E ela vai muito mais longe que o possibilismo clássico desenvolvido por certos geógrafos contra o determinismo corrente, pois ela não ignora a existência de leis geográficas.

Piotr Kropotkin: “o príncipe anarquista”

Os Estados caminham a todo vapor para a ruína, para a bancarrota; e não está longe o dia em que os povos, cansados de pagar anualmente quatro bilhões de juros aos banqueiros, proclamarão a falência dos Estados e mandarão estes banqueiros lavrarem a terra, se tiverem fome. (KROPOTKIN, 2005)


Piotr Kropotkin foi um dos principais anarquistas da Rússia do final do século XIX e início do século XX e um dos defensores do que ele mesmo chamava de comunismo libertário[1]. Como já vimos em linhas anteriores, Kropotkin foi o principal pensador/defenssor da corrente de pensamento anarquista denominada de anarco-comunismo. 
A base de tal concepção encontra-se na idéia de que o critério para o consumo (tanto de bens quanto de serviços) dos indivíduos não seja o trabalho, mas a necessidade. Kropotkin propagava assim, um sistema de distribuição livre da produção, conceito este que está ligado ao raciocínio de que, não é possível medir a contribuição isolada de um indivíduo na produção social, e que, portanto, uma vez realizada, toda ela deva ser desfrutada socialmente.
Kropotkin vê na coletivização dos meios de produção o objetivo da transformação social, mas, diferentemente de alguns, infere que a este fenômeno seguiriam como consequência inevitável a distribuição livre e a extinção de qualquer sistema de salários.
Numa tal sociedade a produção seria orientada para o consumo e não para o lucro. Kropotkin vai além em suas considerações sobre esta outra forma de sociabilidade ao vislumbrar uma ciência dedicada a descobrir meios para conciliar e satisfazer as necessidades de todos.
O problema que se levanta quando se pensa em uma distribuição livre, Kropotkin não vê aí uma abertura para a instauração de um governo revolucionário, pelo contrário, diz ser a cooperação voluntária o substituto tanto para a propriedade privada quanto para a desigualdade, categorias nas quais se fundamentam o Estado.
Neste sentido, Kropotkin defende um sistema de administração pública fundada na idéia de comuna não apenas enquanto unidade administrativa mais próxima do povo e de suas preocupações imediatas, mas também enquanto associação voluntária que reúne os interesses sociais representados por grupos de indivíduos diretamente ligado a eles. Logo, a união destas comunas produziria uma rede de cooperações que substituiria o Estado.
Devido a sua influência política, seu título e sua proeminência como um anarquista no final do século XIX e começo do XX, P. Kropotkin ficou conhecido como "o Príncipe Anarquista".

Considerações Finais
Decididamente, caminhamos a passos largos para a revolução, para uma comoção que, ao eclodirem um país, vai-se propagar como em 1848, a todos os países vizinhos e, ao abalar a sociedade atual até suas entranhas, virá renovar as fontes da vida. (KROPOTKIN, 2005, p. 21)


A proposta de uma geografia libertária não se remete apenas ao campo das ciências, mas sim, ela ocorre juntamente com a formulação de uma proposta de um modelo societal divergente com o atual modelo de organização social, político e econômico, pois, onde, respectivamente, um é caracterizado pela produção coletiva, organização de coletivos e federações de trabalhadores, distribuição livre da produção a partir das necessidades de cada um, abolição da propriedade privada e pelo fim do Estado; o outro é caracterizado pela exploração dos trabalhadores, geração de lucro, miséria, fome, desemprego, propriedade privada e por uma classe política burocrática que absorve toda a riqueza produzida.     
É a partir do exposto no decorrer do texto que consideramos relevante a análise anarquista para o estudo da geografia, principalmente no que tange a relação homem/natureza e todas as problemáticas sociais existentes agravadas com o desenvolvimento do capitalismo.


BIBLIOGRAFIA

ANUCHIN, E. A.: Teoría de la Geografía en Nuevas Tendencias en Geografía, Inst. Est. Admon. Local, Madrid, 1965.

COSTA, Caio Túlio. O que é anarquismo. 15ª ed. Coleção Primeiros Passos, n. 5. São Paulo: Brasiliense, 1996.

CAMUS, Albert. O homem revoltado. 6ª ed. Record. Rio de Janeiro. 2005.

DE MARCO. Valéria. Comunidade Sinsei (u)topia e territorialidade. Dissertação defendida para obtenção do título de mestre em Geografia na Universidade de São Paulo. USP - SP 1996

DUNBAR, Gary S. Elisée Reclus, an anarchist in geography. En: Geography, ideology and social concern, ed. D. R. Stoddart, 1981.

FAUSTO, B. Trabalho urbano e conflito social.. Rio de Janeiro: Ed. Difel, 1977.

FERNANDES, Florestan (Coord.) & ANDRADE, Manuel Correia de (Org.). Èlisée Reclus: Geografia. Coleção Grandes Cientistas Sociais, vol. 49. São Paulo: Ática, 1985.

HILSDORF, M.L.S. História da Educação Brasileira: leituras. São Paulo: Ed.Thompson, 2003.

KROPOTKIN, P. Palavras de um revoltado; tradução: Plínio Augusto Coelho. – São Paulo: Imaginário Ed., 2005.

KROPOTKIN, P. Aos jovens. In Palavras de Um Revoltado. s.d. (Disponível no site: http://geocities.yahoo.com.br/ativismoclave/textos/jovens.htm em 10/10/2005).

KROPOTKIN, P.; TRAGTENBERG, Mauricio. Kropotkin. Porto Alegre: L & PM Editores, 1987.

KROPOTKIN P. "What Geography Ought to Be." The Nineteenth Century .V.18, (1885). (Disponível no site: http://dwardmac.pitzer.edu/anarchist_Archives/kropotkin/whatgeobe.html).

LACOSTE, Yves. A geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Tradução de Maria Cecília França. 2a. edição. Campinas: Papirus, 1989.

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro de libertação social.. Rio de Janeiro: Ed. Mundo Livre, 1963.

___________. Os Anarquistas, Trabalhadores Italianos no Brasil. São Paulo: Global Editora, 1989.

RECLUS, Élisée. A evolução, a revolução e o ideal anarquista. São Paulo: Imaginário 2002.

WOODCOCK, G. História das idéias e movimentos Anarquistas.. Porto Alegre: Ed. L & PM Pocket, RS, 2002.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Grito dos Excluídos 2013 convoca jovens ao protagonismo social

O lema do Grito dos excluídos de 2013 foi definido na última semana de fevereiro, e esse ano a Juventude está no centro dessa manifestação que acontece em 7 de setembro.
“Juventude que ousa lutar, constrói o projeto popular” é o lema do 19º Grito dos Excluídos definido pela a coordenação do Grito  que acolheu sugestões de vários grupos, comunidades, dioceses, movimentos, sindicatos, para a escolha.
 O Grito dos Excluídos é uma manifestação popular carregada de simbolismo, é um espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos excluídos. É realizado em um conjunto de manifestações que acontece  no Dia da Pátria, 7 de setembro, tentando chamar à atenção da sociedade para as condições de  exclusão social que persiste na sociedade brasileira.
O Grito é parte do processo da 5ª Semana Social Brasileira e no ano passado trouxe o lema: Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população!
 Grito dos excluídos fará coletiva com a imprensa
A Coordenação do Grito dos Excluídos dará coletiva à imprensa no dia 30 de agosto, as 14h, na sede da CNBB Regional, em São Paulo, para falar sobre a sua 19ª edição – “Juventude que ousa lutar, constrói o projeto popular”.
A entrevista será concedida por Dom Pedro Luiz Stringhini, membro da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, além de representantes de movimentos sociais e juvenis, entre eles,  Liciane Andrioli do MAB e da Coordenação Nacional dos Grito dos Excluídos e Eduardo Paludette, da 26ª Romaria dos Trabalhadores, que este ano terá como lema: “Mãe Aparecida, ajude a libertar a juventude esquecida!”.
De 1º a 7 de setembro serão realizadas ações, cainhadas, Romarias, atos públicos, seminários e manifestações em todo o país, a fim de afirmar  a importância da luta e da unidade da juventude nesta conjuntura, exigindo mudanças e participação.
 SERVIÇO:
 Data: 30 de agosto de 2013
Horário: 14 horas
Local: CNBB REGIONAL SUL I
Endereço: Rua Conselheiro Ramalho, 726 – Bairro Bela Vista
 MAIS INFORMAÇÕES:
Secretaria Nacional do Grito dos Excluídos:
Ari Alberti (11) 2272-0627
Karina da Silva Pereira (11) 9372-3919
 Com informações da Pascom Arquidiocesena de SP e da Secretaria do Grito dos excluídos.

POR UMA GEOGRAFIA ANARQUISTA

trabalho apresentado no Encontro Nacional de Geógrafos em Belo Horizonte, 2012

RESUMO

Pretende-se refletir sobre os rumos do pensamento geográfico na atualidade, frente aos desafios da crise da ciência moderna e da crise ambiental, que evidenciam a crise do paradigma e do padrão burguês de racionalidade. Esses processos trouxeram uma serie de desafios para a Geografia, principalmente, porque ao estudar o espaço geográfico, tomam-se como base da reflexão as relações entre humanos e natureza. O momento de crise apresenta-se como um momento privilegiado para evidenciar e debater a ética e a política na ciência. Nesse sentido procura-se debater as possibilidades abertas pela ideia de uma (ou várias) Geografia(s) Anarquista(s). Esse trabalho dá continuidade a uma pesquisa iniciada em 2008 na UFF a partir das discussões do Grupo de Estudos sobre Geografia e Anarquismo e está ligado a outros trabalhos, principalmente o Trabalho de Conclusão de Curso “A Atualidade do pensamento de Elisée Reclus e Peter Kropotkin frente à crise da ciência moderna”, apresentado, em 2010, para a conclusão do curso de Bacharelado em Geografia da UFF. Objetiva-se valorizar o pensamento do geógrafo frances Elisée Reclus (1830-1905) e do geógrafo russo Piotr Kropotkin (1842-1921) como matrizes da Geografia, do Anarquismo e de uma Geografia Anarquista e evidenciar a relevância e a atualidade de sua abordagem científica além de estimular os debates sobre Geografia e Anarquismo, Geografia Anarquista e sobre rumos e caminhos para a superação da crise da ciência na Geografia. Para desenvolver esse debate foram selecionadas algumas propostas e ideias de pensadores preocupados com a epistemologia da ciência como o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, e os físicos Thomas Kuhn e Paul Feyeraband relacionando-as com as principais ideias dos geógrafos anarquistas Elisée Reclus e Piotr Kropotkin. Portanto busca-se em primeiro lugar caracterizar rapidamente a crise da ciência moderna e a partir daí debater a ideia de uma epistemologia anarquista para a ciência tomando por base as ideias e considerações propostas por Thomas Kuhn, no livro “A estrutura das revoluções científicas”, e Paul Feyeraband, no livro “Contra o Método”. A seguir será discutida a contribuição de Reclus e Kropotkin para a ciência e para a Geografia apresentando suas ideias fundamentais: a ajuda mútua, o comunismo libertário e as três “leis” ou princípios gerais de desenvolvimento dos povos, para então relaciona-las com as propostas de uma epistemologia anarquista para a ciência e apontar caminhos para a construção de uma epistemologia anarquista para a Geografia e consequentemente uma Geografia Anarquista.

INTRODUÇÃO

Pretende-se refletir sobre os rumos do pensamento geográfico na atualidade, frente aos desafios da crise da ciência moderna e da crise ambiental, que evidenciam a crise do paradigma e do padrão burguês de racionalidade. Esses processos trouxeram uma serie de desafios para a Geografia, principalmente porque, ao estudar o espaço geográfico, tomam-se como base da reflexão as relações entre humanos e natureza. O momento de crise apresenta-se como um momento privilegiado para evidenciar e debater a ética e a política na ciência. Nesse sentido procura-se debater as possibilidades abertas pela ideia de uma (ou várias) Geografia(s) Anarquista(s). Esse trabalho dá continuidade a uma pesquisa iniciada em 2008 na UFF a partir das discussões do Grupo de Estudos sobre Geografia e Anarquismo e está ligado a outros trabalhos, principalmente o Trabalho de Conclusão de Curso “A Atualidade do pensamento de Elisée Reclus e Peter Kropotkin frente à crise da ciência moderna”, apresentado, em 2010, para a conclusão do curso de Bacharelado em Geografia da UFF.
O texto está organizado de maneira que, em primeiro lugar, busca-se caracterizar brevemente a crise da ciência moderna e a partir daí debater a ideia de uma epistemologia anarquista para a ciência, tomando por base as ideias e considerações propostas por Thomas Kuhn e Paul Feyeraband. A seguir será discutida a contribuição de Reclus e Kropotkin para a ciência e para a Geografia, apresentando suas ideias fundamentais: a ajuda mútua, o comunismo libertário e as três “leis” ou princípios gerais de desenvolvimento dos povos, para então relacioná-las com as propostas de uma epistemologia anarquista para a ciência e vislumbrar caminhos para a construção de uma epistemologia anarquista para a Geografia.

OBJETIVOS E METODOLOGIA

 Objetiva-se valorizar o pensamento do geógrafo francês Elisée Reclus (1830-1905) e do geógrafo russo Piotr Kropotkin (1842-1921) como matrizes da Geografia, do Anarquismo e de uma Geografia Anarquista e evidenciar a relevância e a atualidade de sua abordagem científica, além de estimular os debates sobre Geografia e Anarquismo, Geografia Anarquista e sobre rumos e caminhos para a superação da crise da ciência na Geografia. Para desenvolver esse debate foram selecionadas algumas propostas e ideias de pensadores preocupados com a epistemologia da ciência como o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, e os físicos Thomas Kuhn e Paul Feyeraband relacionando-as com as principais ideias dos geógrafos anarquistas Elisée Reclus e Piotr Kropotkin.

A CRISE DA CIÊNCIA MODERNA

            O modelo de ciência iniciado por Galileu Galilei (1564-1642), desenvolvido principalmente por Descartes (1596-1650) e Newton (1643-1727), institucionalizado pelos mecanismos de estado, principalmente universidades e escolas, no formato do positivismo durante o século XIX e início do século XX, é ainda hoje o padrão hegemônico de construção/produção de conhecimento da sociedade capitalista. Esse modelo de ciência se fundamenta na fragmentação do real, na separação entre os ramos científicos e entre as diferentes formas de contrução/produção de conhecimento, e em uma serie de dicotomias; dentre elas a mais importante é a dicotomia entre ser humano e natureza. Essa ciência pode ser chamada de ciência moderna porque ela surge e se instaura como padrão hegemônico juntamente com o capitalismo e o Estado-nacional, características fundamentais do período histórico chamado de modernidade.
Mas esse modelo de ciência, apesar de ainda ser hegemônico, se encontra em uma crise aguda na atualidade. Segundo Boaventura de Sousa Santos (2002), a crise da ciência moderna fica exposta através de seus aspectos socioambientais e teóricos. As condições socioambientais da crise estão colocadas pelos problemas ambientais a cada dia mais graves, tanto no campo quanto na cidade. Santos organiza as condições teóricas da crise em quatro conjuntos. Essas condições se instalaram devido aos avanços e desenvolvimentos na física, na química, na matemática e na biologia. É importante ressaltar que a crise da ciência ficou em evidencia devido aos avanços e desenvolvimentos que ocorreram dentro do próprio campo científico.
Coloca-se então a questão de que a crise atual é uma crise do paradigma da ciência moderna. Tomas Kuhn considera paradigmas como realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência. (2007, p. 13).
Em seu livro “A estrutura das revoluções científicas”, Kuhn vai fazer uma crítica à forma como se faz a história da ciência e ao “conceito de desenvolvimento por acumulação” (KUHN, 2007, p. 20). Para ele o conhecimento se desenvolve por acumulação, por pesquisadores comprometidos com as mesmas regras e padrões para a prática científica, ou seja, dentro de determinado paradigma, até certo ponto. Mas em alguns momentos ocorrem acontecimentos que levam a uma mudança na posição e nos compromissos dos pesquisadores; esses momentos são chamados de “revoluções científicas”.
 Os episódios extraordinários nos quais ocorre essa alteração de compromissos profissionais são denominados, neste ensaio, de revoluções científicas. (Ibid, p. 24)
            Esses são momentos privilegiados para a disputa política entre diferentes formas de construção e/ou produção de conhecimento.
A competição entre segmentos da comunidade científica é o único processo histórico que realmente resulta na rejeição de uma teoria ou na adoção de uma outra. (Ibid, p. 27)
A proposta de uma epistemologia anarquista para a ciência partiu do epistemólogo Paul Feyerabend:

A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teorético é mais humanitário e mais suscetível de estimular o progresso do que suas alternativas representadas por lei e ordem. (FEYERABEND, 1989, p. 17)

  Dessa maneira, delineia-se uma proposta de pluralidade metodológica, que não exclui nenhuma hipótese ou teoria, podendo trabalhar com todo tipo de hipóteses e teorias a partir da comparação, pois “os preconceitos são descobertos graças a contraste e não graças à análise” (Ibid, p.42). É necessário então “um padrão externo de crítica” (Ibid, p.42) para que se possa melhorar a teoria em foco, levando a um avanço do conhecimento de maneira geral. 

ELISEÉ RECLUS E PIOTR KROPOTKIN COMO MATRIZES DA GEOGRAFIA, DO ANARQUISMO E DE UMA GEOGRAFIA ANARQUISTA

  A Geografia, ao estudar a organização do espaço geográfico, se vê obrigada a trabalhar com as inter-relações entre diferentes fenômenos que são abordados por diferentes ramos científicos; além disso, as relações entre humanos e natureza, que se dão principalmente através da técnica, estão na base da construção e da organização do espaço. Por isso, a crise da ciência tem sérias consequências para a Geografia, mas os momentos de crise podem ser entendidos como momentos privilegiados para o avanço de determinada forma de construção de conhecimento e também como momentos privilegiados para a disputa política entre diferentes concepções de como se deve realizar a construção do conhecimento e a quem deve servir o conhecimento construído.
   Nesse sentido, busca-se inserir nesse debate a proposta de uma (ou várias) Geografia(s) Anarquista(s) a partir da valorização do pensamento dos Geógrafos Eliseé Reclus e Piotr Kropotkin e suas principais ideias.
  O fio condutor das concepções de Kropotkin é a ideia da Ajuda Mutua, desenvolvida por ele a partir das observações e estudos que fez como geógrafo e naturalista ao explorar a região da Sibéria. Essa ideia parte de uma crítica à concepção predominante no evolucionismo darwinista da competição como principal fator responsável pela evolução das espécies. Kropotkin (1989) considerava que as relações de Ajuda Mutua que se estabeleciam entre indivíduos da mesma espécie eram tão importantes quanto, ou até mais importantes para a evolução do que a competição. Toda sua obra está fundamentada nesse princípio, mas essa ideia é exposta de maneira clara no livro publicado em 1902, “Ajuda Mutua”. Essa foi também uma forma de expor uma argumentação científica contrária às ideias do darwinismo social, uma corrente de pensamento em evidencia na época, pois ajudava a justificar a dominação e a exploração do proletariado e das colônias e suas populações.
 A partir do principio da Ajuda Mutua, Kropotkin vai desenvolver sua concepção política, dentro do movimento anarquista. Essas ideias ficaram conhecidas como Comunismo Libertário, Anarco-comunismo ou comunismo anarquista. O Comunismo Libertário é uma proposta de organização da sociedade baseada na articulação de uma diversidade de agrupamentos sociais (grupos, sindicatos, associações de moradores, produtores, consumidores, etc) que seriam responsáveis por suprir as necessidades da população. A articulação se daria através da criação de federações e confederações desses agrupamentos. Dessa forma seria desnecessária a existência do estado para cumprir o papel de organizador geral do espaço e da sociedade. Uma proposta política que valoriza as organizações e soluções locais e suas articulações, fortemente baseada na Geografia.  
 O geógrafo francês Eliseé Reclus compartilhava com Kropotkin as ideias de Ajuda Mutua e Comunismo Libertário; devido a isso, desenvolveu ideias bem diferentes das principais vertentes de pensamento da época, sendo contrário ao darwinismo social, ao marxismo, ao positivismo, ao determinismo, ao Estado e a Igreja. A atualidade de seu pensamento frente à crise da ciência moderna está no fato de que ele rompe com dicotomias fundamentais da ciência moderna em suas principais obras. Assim, em o “Homem e a Terra”, “dissolve a dicotomia espaço-tempo, depois de ter feito com a dicotomia homem-natureza em A Terra e regional-sistemática em Nova Geografia Universal” (MOREIRA, 2008, p25-26).
Apesar de considerar a procura de leis gerais do funcionamento e da evolução dos povos uma tarefa infrutífera, Reclus afirma que os fatos da evolução histórica podem ser agrupados em três grandes categorias de acontecimentos: a primeira é fruto do desenvolvimento desigual dos indivíduos e das sociedades, assim 

(...) todas as coletividades humanas, com exceção dos povos que permanecem no naturismo primitivo, se desdobram por assim dizer, em classes e castas (...) (RECLUS, 1985, p. 39).

 Essas classes ou castas possuem interesses diversos ou até antagônicos e vão estar em constante luta, pois “o equilíbrio rompido de indivíduo a indivíduo, de classe à classe, oscila constantemente”(Ibid, p. 39).  Dessa forma, Reclus aceita a ideia de “luta de classes”, proposta por Marx, mas com restrições à forma como Marx considera esse conceito, sendo essa a segunda grande categoria de acontecimentos. Por fim, o terceiro grupo de acontecimentos se refere ao esforço e à criatividade dos indivíduos, pois “qualquer evolução na existência dos povos só pode ser criada pelo esforço individual” (Ibid, p. 40). Assim, o processo de formação dos grupos humanos a partir da sociabilidade vai evidenciar o fato de que as sociedades “agem e reagem sobre a maneira de sentir e de pensar, criando assim em grande parte, aquilo que se chama ‘civilização’” (Ibid, p. 56).
  A partir dessas considerações Reclus vai elaborar uma Geografia que, ao estudar a formação e as transformações do espaço geográfico, toma como foco os movimentos dos povos a partir dos movimentos das comunidades que compõem esses povos. Diferente da maioria dos geógrafos que costumam tomar as ações e movimentos dos Estados como foco de suas pesquisas. Pode-se considerar então que o aspecto central do pensamento de Reclus é sua teoria comunitária.
  Considera-se, portanto, que as principais ideias de Kropotkin e Reclus são: a Ajuda Mutua, o Comunismo Libertário, a consideração de que o elemento humano é parte integrante e consciente da natureza, as três ordens gerais em que os fatos da evolução histórica dos povos podem ser agrupados e a teoria comunitária.

POR UMA GEOGRAFIA ANARQUISTA

  Então, a fim de construir um conhecimento geográfico que seja capaz de contemplar “a complexidade dos fenômenos ativos”, os grupos humanos e as sociedades devem ser vistos através dos “fenômenos múltiplos e entrecruzados da vida” (RECLUS, 1985, p. 59). Uma vez que esses fenômenos “não se deixam classificar numa ordem metódica” (Ibid, 1985), Reclus propõe uma variedade de metodologias de estudo tão múltiplas quantos forem os povos a serem estudados, a partir do estudo comparado entre áreas, entendendo-se  por estudo comparado o estudo das generalidades e diferenças entre as diferentes áreas do planeta, sem a necessidade de uma hierarquização entre essas áreas.
Essa pode ser considerada uma proposta metodológica que parte de uma epistemologia anarquista e visa ao respeito à matriz cultural de cada povo ao ser estudado. Dessa forma, deve haver diversas epistemologias e metodologias, partindo das diferentes matrizes de pensamento e de ser humano; são matrizes de epistemologia e ontologia humana. Assim essas metodologias devem dialogar livremente entre si para poderem se desenvolver de acordo com as peculiaridades de cada sujeito estudado. Sujeito esse que irá reagir e influenciar o estudo e o sujeito que realiza o estudo.
  Essa é uma perspectiva da Geografia que parte de uma política de respeito e valorização da diversidade e da alteridade.

BIBLIOGRAFIA

 FEYERABEND, P. Contra o método. Rio de Janeiro:
KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. 9. Ed. São Paulo: Perspectiva, 260p., 2007.
KROPOTKIN, P. A anarquia: sua filosofia, seu ideal. São Paulo: Imaginário, 93p., 2001.
______________. El apoyo mutuo. 3ed. Espanha: Madre Tierra, 343p.,1989.
MOREIRA, R. O pensamento geográfico brasileiro, vol.1: as matrizes clássicas originárias. São Paulo: Contexto, 190p., 2008.
RECLUS, E. O homem é a natureza adquirindo consciência de si própria. In: ANDRADE, M.C. (org.). Elisée Reclus. São Paulo: Ática, 1985, p.38-40.
__________. A ação do homem como modificador das condições naturais, dominando e transformando a natureza. In: ANDRADE, M.C. (org.). Elisée Reclus. São Paulo: Ática, 1985, p.41-55.
SANTOS, B.S. Um discurso sobre as ciências. 13. ed. Porto: Edições Afrontamento, 59p., 20
                                                        

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Descubra a história dos ativistas Black Bloc no Brasil e no mundo

“Os ativistas Black Bloc não são manifestantes, eles não estão lá para protestar. Eles estão lá para promover uma intervenção direta contra os mecanismos de opressão, suas ações são concebidas para causar danos às instituições opressivas.” É dessa forma que a estratégia de ação do grupo que vem ganhando notoriedade devido às manifestações no País é definida por um vídeo, divulgado pela página do Facebook “Black Bloc Brasil”, que explica parte das motivações e forma de pensar dos seus adeptos.

A ação, ou estratégia de luta, pode ser reconhecida em grupos de pessoas vestidas de preto, com máscaras ou faixas cobrindo os rostos. Durante os protestos, eles andam sempre juntos e, usualmente, atacam de maneira agressiva bancos, grandes corporações ou qualquer outro símbolo das instituições Eles afirmam não temer o confronto com a polícia e defendem a destruição de “alvos capitalistas”. Conheça a história e a forma de luta que se popularizou com o movimento antiglobalização e ganha destaque no Brasil “capitalistas e opressoras”, além de, caso julguem necessário, resistirem ou contra-atacarem intervenções policiais.

Devido ao atual ciclo de protestos de rua, o Black Bloc entrou no centro do debate político nacional. Parte das análises e opiniões classifica as suas ações como “vandalismo” ou “violência gratuita”, e também são recorrentes as críticas ao anonimato produzido pelas máscaras ou panos cobrindo a face dos adeptos. Mas o Black Bloc não é uma organização ou entidade. Leo Vinicius, autor do livro Urgência das ruas – Black Bloc, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global, da Conrad, (sob o pseudônimo Ned Ludd), a define o como uma forma de agir, orientada por procedimentos e táticas, que podem ser usados para defesa ou ataque em uma manifestação pública.

Zuleide Silva (nome fictício), anarquista e adepta do Black Bloc no Ceará, frisa que eles têm como alvo as “instituições corporativas” e tentam defender os manifestantes fora do alcance das ações repressoras da polícia. “Fazemos o que os manifestantes não têm coragem de fazer. Botamos nossa cara a tapa por todo mundo”, afirma.

O jornalista e estudioso de movimentos anarquistas, Jairo Costa, no artigo “A tática Black Bloc”, publicado na Revista Mortal, lembra que o Black Bloc surgiu na Alemanha, na década de 1980, como uma forma utilizada por autonomistas e anarquistas para defenderem os squats (ocupações) e as universidades de ações da polícia e ataques de grupos nazistas e fascistas. “O Black Bloc foi resultado da busca emergencial por novas táticas de combate urbano contra as forças policiais e grupos nazifascistas. Diferentemente do que muitos pensam, o Black Bloc não é um tipo de organização anarquista, ONG libertária ou coisa parecida, é uma ação de guerrilha urbana”, contextualiza Costa.

De acordo com um dos “documentos informativos” disponíveis na página do Facebook, alguns dos elementos que os caracterizam são a horizontalidade interna, a ausência de lideranças, a autonomia para decidir onde e como agir, além da solidariedade entre os integrantes. Atualmente, há registros, por exemplo, de forças de ação Black Bloc nas recentes manifestações e levantes populares no Egito.

Black Bloc no Brasil

Para Leo Vinicius, é um “pouco surpreendente” que essa estratégia de manifestação urbana, bastante difundida ao redor do mundo, tenha demorado a chegar por aqui. “Essa forma de agir em protestos e manifestações ganhou muito destaque dentro dos movimentos antiglobalização, na virada da década de 1990 para 2000. Não é uma forma de ação política realmente nova”. No Brasil, existem páginas do movimento de quase todas as capitais e grandes cidades, a maior parte delas criadas durante o período de proliferação dos protestos. A maior é a Black Bloc Brasil, com quase 35 mil seguidores, seguida pela Black Bloc–RJ, com quase 20 mil membros.

A respeito da relação com o anarquismo, Vinicius faz uma ressalva. É preciso deixar claro que a noção de que “toda ação Black Bloc é feita por anarquistas e que todos anarquistas fazem Black Bloc” é falsa. “A história do Black Bloc tem uma ligação com o anarquismo, mas outras correntes como os autonomistas, comunistas e mesmo independentes também participavam. Nunca foi algo exclusivo do anarquismo. Na prática, o Black Bloc, por se tratar de uma estratégia de operação, pode ser utilizado até por movimentos da direita”, explica o escritor.

Para alguns ativistas, o processo de aceitação das manifestações de rua, feito pela grande mídia e por parte do público, de certa forma impôs que, para serem considerados legítimos, os protestos deveriam seguir um padrão: pacífico, organizado, com cartazes e faixas bem feitas e em perfeito acordo com as leis. Vinicius demonstra certa preocupação com a possibilidade do fortalecimento da ideia de que essa forma “pacífica” seja vista como o único meio possível ou legítimo de protestar. Ele afirma que não entende como violenta a ação Black Bloc de quebrar uma vidraça ou se defender de uma ação policial excessiva. “A violência é um conceito bastante subjetivo. Por isso, não dá pra taxar qualquer ato como violento, é preciso contextualizá-lo, entender as motivações por trás de cada gesto”, avalia.

Para ele, a eficácia de uma manifestação está em saber articular bem formas de ação “pacíficas” e “não pacíficas”. Foi esse equilíbrio, analisa, que fez com que o Movimento Passe Livre – São Paulo (MPL-SP) barrasse o aumento da tarifa na capital paulista. “Só com faixas e cartazes a tarifa não teria caído”, atesta. “Quem tem o poder político nas mãos só cede a uma reivindicação pelo medo, por sentir que as coisas podem sair da rotina, de que ele pode perder o controle do Estado”, sentencia.

Por outro lado, Vinicius alerta que é preciso perceber os limites para evitar que as ações mais “radicais” façam com que o movimento seja criminalizado ou se isole da sociedade e, com isso, perca o potencial de realizar qualquer mudança. Em sua obra, faz a seguinte definição daqueles que adotam a estratégia Black Bloc: “Eles praticam uma desobediência civil ativa e ação direta, afastando assim a política do teatro virtual perfeitamente doméstico, dentro do qual [a manifestação política tradicional] permanece encerrada. Os BB não se contentam com simples desfiles contestatórios, certamente importantes pela sua carga simbólica, mas incapazes de verdadeiramente sacudir a ordem das coisas”, aponta.

Outra crítica recorrente é o fato de os BB usarem máscaras ou panos para cobrirem os rostos. Os adeptos da ação explicam que as máscaras são um meio de proteger suas identidades para “evitar a perseguição policial” e outras formas de criminalização, como também criar um “sentimento de unidade” e impedir o surgimento de um “líder carismático”.

Luta antiglobalização

Com o passar do tempo, segundo Jairo Costa, as táticas Black Bloc passaram a ser reconhecidas como um meio de expressar a ira anticapitalista. Ele explica que geralmente as ações são planejadas para acontecer durante grandes manifestações de movimentos de esquerda.

O estudioso destaca como um dos momentos mais significativos da história Black Bloc a chamada “Batalha de Seattle”, em 1999, contra uma rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em 30 de novembro daquele ano, após uma tarde de confrontos com as forças policiais, uma frente móvel de black blockers conseguiu quebrar o isolamento criado entre os manifestantes e o centro comercial da cidade. Após vencer o cerco policial, os manifestantes promoveram a destruição de várias propriedades, limusines e viaturas policiais, e fizeram várias pichações com a mensagem “Zona Autônoma Temporária”. Estimativas apontam prejuízos de 10 milhões de dólares, além de centenas de feridos e 68 prisões.




Para Costa, um dos episódios mais impactantes – e duros – da história Black Bloc foi o assassinato de Carlo Giuliani, jovem anarquista de 23 anos, durante a realização simultânea do Fórum Social de Gênova e a reunião do G8 (Grupo dos oito países mais ricos), na Itália, em julho de 2001. Ele lembra que, após vários confrontos violentos – alguns deles vencidos pelos manifestantes, que chegaram a provocar a fuga dos policiais, que deixaram carros blindados para trás –, ocorreu o episódio que levou à morte de Giuliani.

“Ele partiu para cima de um carro de polícia tentando atirar nele um extintor de incêndio. Muitos fotógrafos estavam por lá e seus registros falam por si. Ao se aproximar do carro, Giuliani é atingido por dois tiros, um na cabeça. E, numa cena macabra, o carro da polícia dá marcha a ré e atropela-o várias vezes”, narra. Os assassinos de Carlo Giuliani não foram condenados. Dois anos após o fato, a Justiça italiana considerou que a ação policial se deu como “reação legítima” ao comportamento do militante.

Alvos capitalistas

Entre as formas de ação direta do Black Bloc destacam-se os ataques aos chamados “alvos simbólicos do capital”, que incluem joalherias, lanchonetes norte-americanas ou ainda a depredação de instituições oficiais e empresas multinacionais. Costa explica que essas ações “não têm como objetivo atingir pessoas, mas bens de capital”.

Zuleide justifica a destruição praticada contra multinacionais ou outros símbolos capitalistas, porque elas seriam mecanismo de “exploração e exclusão das pessoas”. “Queremos que esses meios que oprimem e desrespeitam um ser humano se explodam, vão embora, morram. Trabalhar dez horas por dia para não ganhar nada, isso é o que nos enfurece. Por isso, nossas ações diretas a eles, porque queremos causar prejuízos, para que percebam que há pessoas que rejeitam aquilo e que lutam pela população”, explica.

Ela reconhece que essas ações diretas podem deixá-los “mal vistos” na sociedade, já que há pessoas que pensam: “Droga, não vou poder mais comer no ***** porque destruíram tudo”. Porém, Zuleide afirma que o trabalhador, explorado por essas corporações, “adoraria fazer o que nós fazemos”, mas, por ter família para sustentar e contas a pagar, não faz. “Esse é mais um dos motivos que nos fazem do jeito que somos”, pontua.

Vinicius explica que, nas “ações diretas”, os black blockers atacam bens particulares por considerarem que “a propriedade privada – principalmente a propriedade privada corporativa – é em si própria muito mais violenta do que qualquer ação que possa ser tomada contra ela”. Quebrar vitrines de lojas, por exemplo, teria como função destruir “feitiços” criados pela ideologia capitalista. Esses “feitiços” seriam meios de “embalar o esquecimento” de todas as violências cometidas “em nome do direito de propriedade privada” e de “todo o potencial de uma sociedade sem ela [as vitrines]”.

Sem violência?

Em praticamente todas as manifestações, independentemente das causas e dos organizadores, tornou-se comum o grito: “Sem violência! Sem violência!”, que tinha como destinatários os policiais que, teoricamente, entenderiam o caráter “pacifista” do ato. Também seria uma tentativa de coibir a ação de “vândalos” ou “baderneiros”, que perceberiam não contar com o apoio do restante da massa.

Zuleide reconhece que, inicialmente, a ação Black Bloc era alvo desses gritos, mas, segundo ela, quando as pessoas entendem a forma como eles atuam, isso muda. “Os manifestantes perceberam que o Estado não iria nos deixar falar, nos deixar reivindicar algo, e começaram a nos reprimir. Quando há confronto [com a polícia], nós os ajudamos retardando a movimentação policial ou tirando eles de situações que ofereçam perigo, e alguns perceberam isso”, afirma.

Apesar de os confrontos com policiais não serem uma novidade durante as suas ações, os adeptos afirmam não ter como objetivo atacar policiais. Contudo, outro documento intitulado “Manifesto Black Bloc” deixa claro que, caso a polícia assuma um caráter “opressor ou repressor”, ela se torna, automaticamente, uma “inimiga”.

No “Manual de Ação Direta – Black Bloc”, também disponível na internet, a desobediência civil é definida como “a não aceitação” de uma regra, lei ou decisão imposta, “que não faça sentido e para não se curvar a quem a impõe. É este o princípio da desobediência civil, violenta ou não”. Entre as possibilidades de desobediência civil são citadas, por exemplo, a não aceitação da proibição da polícia que a manifestação siga por determinado caminho, a resistência à captura de algum manifestante ou, ainda, a tentativa de resgatar alguém detido pelos policiais.

Também são ensinadas táticas para resistir a gás lacrimogêneo, sprays de pimenta e outras formas de ação policial, além de dicas de primeiros socorros e direitos legais dos manifestantes. De acordo com o documento, as orientações desse manual tratam apenas da desobediência civil “não violenta”.

Outra orientação é que seja definido, antes da manifestação, se a desobediência civil será “violenta” ou “não violenta”. Caso se opte pela ação ‘não violenta’, essa decisão deve ser respeitada por todos, visto que não cumprir o combinado pode pôr “em risco” outros companheiros, além de ser um sinal de “desrespeito”.

Contudo, o mesmo manual deixa claro que o que “eles fazem conosco” todos os dias é uma violência, sendo assim, “a desobediência violenta é uma reação a isso e, portanto, não é gratuita, como eles tentam fazer parecer”.

Uma breve história

1980: O termo Black Bloc (Schwarzer Block) é usado pela primeira vez pela polícia alemã, como
forma de identificar grupos de esquerda na época denominados “autônomos, ou autonomistas”, que lutavam contra a repressão policial aos squats (ocupações).

1986: Fundada, em Hamburgo (Alemanha), a liga autonomista Black Bloc 1500, para defender o Hafenstrasse Squat.

1987: Anarquistas vestidos com roupas pretas protestam em Berlim Ocidental, por ocasião da presença de Ronald Reagan, então presidente dos EUA, na cidade.

1988: Em Berlim Ocidental, o Black Bloc confronta-se com a polícia durante uma manifestação
contra a reunião do Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

1992: Em São Francisco (EUA), na ocasião do 500º aniversário da descoberta da América por Cristóvão Colombo, o Black Bloc manifesta-se contra o genocídio de povos nativos das Américas.

1999: Seattle contra a Organização Mundial do Comércio (OMC). Estima-se em 500 o número de integrantes do Black Bloc que destruíram o centro econômico da cidade.

2000: Em Washington, durante reunião do FMI e Banco Mundial, cerca de mil black blockers anticapitalistas saíram às ruas e enfrentaram a polícia.

2000: Em Praga (República Tcheca), forma-se um dos maiores Black Blocs que se tem notícia, durante a reunião do FMI. Cerca de 3 mil anarquistas lutam contra a polícia tcheca.

2001: Quebec (Canadá). Membros do Black Bloc
são acusados de agredir um policial durante uma marcha pela paz nas ruas de Quebec. Após esse evento, a população local e vários manifestantes de esquerda distanciaram-se da tática Black Bloc e de seus métodos extremos.

2001: A cidade de Gênova (Itália), ao mesmo tempo, recebeu a cúpula do G8 e realizou o Fórum Social de Gênova, com um grande número de Black blockers, além de aproximadamente de 200 mil ativistas. A ação ficou marcada pela violenta morte do jovem Carlo Giuliani, de 23 anos.

2007: Em Heiligendamm (Alemanha), reunião do G8 foi alvo de uma ação com a participação de cerca de 5 mil blackblockers . Mobilização Black Bloc de cerca de 5.000 pessoas

2010: Toronto (Canadá), na reunião do G20. Neste confronto, mais de 500 manifestantes foram presos e dezenas de outros ativistas foram parar em hospitais com inúmeras fraturas.

2013: Cairo (Egito). O Black Bloc aparece com forte atuação nos protestos da Praça Tahir, no combate e resistência ao exército do então presidente Hosni Mubarak.
Pragmatismo Político

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Legalização da maconha cria oportunidades para vítimas da crise nos EUA


A legalização do uso recreativo da maconha no Estado americano de Washington (noroeste do país) está gerando a expectativa de oportunidades e lucro para muitos americanos atingidos pela crise econômica, que agora pensam em abrir lojas para vender a droga.
Em referendos realizados em novembro passado, tanto Washington quanto o Estado do Colorado (centro-oeste do país) se tornaram os primeiros nos EUA a aprovar esse uso para a maconha. Nos dois Estados, onde o consumo medicinal já era permitido, pessoas com mais de 21 anos passaram a ter direito à posse de 28 gramas.
Em Washington, as vendas começam em 2014, depois que a Agência de Controle de Bebidas Alcoólicas do Estado estabelecer as regras para os que vão cultivar, os que processam a maconha e os que vendem, uma tarefa que nunca foi feita antes.
Autoridades estaduais ainda não sabem a receita que será gerada pela maconha, pois o mercado nunca foi regulamentado. Mas analistas afirmam que o novo setor deve gerar até US$ 2 bilhões durante um período de cinco anos.
E esta perspectiva não inclui mercados secundários que a maconha legalizada poderá estimular como o de turismo, agricultura e indústria alimentícia.

 

Expectativa

Entre os moradores de Washington que pretendem lucrar com a legalização estão Kimberly Bliss e sua parceira, Kim Ridgway.
As duas mulheres perderam o emprego na capital de Washington, Olympia, quando o local onde trabalhavam, uma loja de venda de carne no atacado, foi vendido durante a recessão. Dois anos e meio depois, Ridgway ainda não encontrou um emprego fixo e Bliss conseguiu apenas um trabalho em meio período.

Mas, com a legalização da maconha, Bliss e Ridgway agora fazem planos para abrir uma loja pitoresca no centro da cidade usando suas economias de cerca de US$ 20 mil.
"Vou trabalhar pelo meu sonho americano que é abrir uma loja de venda de maconha", disse Ridgway. "Será um grande alívio financeiro. E temos amigos que estão com dificuldades, então isto também vai colocá-los para trabalhar."
Entre as pessoas interessadas no novo mercado estão desde novatas como Bliss e Ridgway até os vendedores mais experientes que agora poderão sair da ilegalidade.
Muitos negócios deste ramo já estão legalizados em Washington, sendo os mais visíveis os que vendem maconha há anos para uso médico.
"Parte da razão para a legalização ter sido aprovada é que isto ocorre há algum tempo", afirmou o porta-voz da Diretoria de Controle de Bebidas Alcoólicas do Estado, Brian Smith.
"Já está na hora de regular esta coisa e conseguir os lucros deste produto para o Estado."

 

Sem impostos

Os locais que distribuem maconha para fins medicinais surgiram e progrediram no oeste do Estado há anos, apesar de as autoridades não saberem qual a receita gerada pois, até dezembro, o uso da maconha era ilegal no Estado e permanece ilegal à luz das leis federais. Portanto, estes locais não podem ter uma conta bancária.
Apesar disto, pelo menos 60 destas lojas que vendem maconha para fins medicinais abriram apenas na cidade de Seattle, a maior cidade de Washington.
Em um deste locais, conhecido como The Joint, o ambiente é mais parecido com o de um dentista de cidade pequena e não com um covil de traficantes de drogas.
"Neste momento, patrocinamos um pequeno campeonado de futebol. Contribuímos com o Departamento de Polícia de Seattle, com (o time de beisebol) dos Fuzileiros Navais, com os Bombeiros de Seattle. Fazemos até uma arrecadação de brinquedos (para doação) todo ano", afirma Shy Sadis, gerente do The Joint.
O local tem uma sala de espera limpa, e o comportamento dos funcionários é profissional. Mas agora a companhia quer expandir suas vendas para o terreno recreativo.
"Seattle será uma Meca para a maconha e me orgulho de ser parte disto. Queremos pagar nossos impostos", disse Sadis.
Muitos que já estão no mercado temem que, com a legalização, as grandes empresas tomem o mercado das pequenas iniciativas antes mesmo que elas tenham tempo de se desenvolver.
No entanto, nenhuma grande corporação investiu diretamente neste mercado e não há previsão disso. Não antes que o governo federal decida se vai ou não tomar medidas contra o Estado de Washington por desobedecer leis federais.
Apesar de o referendo ter aprovado o uso recreativo de maconha em novembro, em março o secretário de Justiça dos Estados Unidos, Eric Holder, disse que o governo ainda está analisando a resposta às novas leis para maconha no Estado de Washington.

 http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/05/130508_maconha_eua_legalizacao_fn.shtml