sábado, 17 de março de 2012

Escassez de água pode gerar conflitos no futuro, dizem especialistas

A escassez de água no futuro poderá aumentar os riscos de conflitos no mundo, afirmam especialistas que participam do Fórum Mundial da Água, em Marselha, na França.
Apesar da quantidade de água disponível ser constante, a demanda crescente em razão do aumento da população e da produção agrícola cria um cenário de incertezas e conflito, segundo os especialistas ouvidos pela BBC Brasil.
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) diz que a demanda mundial de água aumentará 55% até 2050.
A previsão é que nesse ano, 2,3 bilhões de pessoas suplementares – mais de 40% da população mundial – não terão acesso à água se medidas não forem tomadas.


"O aumento da demanda torna a situação mais complicada. As dificuldades hoje são mais visíveis e há mais conflitos regionais", afirma Gérard Payen, consultor do secretário-geral da ONU e presidente da Aquafed, federação internacional dos operadores privados de água.
Ele diz que os conflitos normalmente ocorrem dentro de um mesmo país, já que a população tem necessidades diferentes em relação à utilização da água (para a agricultura ou o consumo, por exemplo) e isso gera disputas.
Problemas também são recorrentes entre países com rios transfronteiriços, que compartilham recursos hídricos, como ocorre entre o Egito e o Sudão ou ainda entre a Turquia e a Síria e o Iraque.

Brasil x Bolívia

O Brasil também está em conflito atualmente com a Bolívia em razão do projeto de construção de usinas hidrelétricas no rio Madeira, contestado pelo governo boliviano, que alega impactos ambientais.
Tanto no caso de disputas locais, que ocorrem em um mesmo país, ou internacionais, a única forma de solucionar os problemas "é a vontade política", segundo o consultor da ONU.
O presidente da Agência Nacional de Águas (ANA) Vicente Andreu, que também participa do fórum em Marselha, acredita que hoje existe maior preocupação por parte dos governos em buscar soluções para as disputas.
"O problema dos rios transfronteiriços é discutido regularmente nos fóruns internacionais. Aposto na capacidade dos governos de antecipar os potenciais conflitos."
Durante o fórum, que termina neste sábado, o Brasil defendeu uma governança global para a água e a criação de um conselho de desenvolvimento sustentável onde a água seria um dos temas tratados de maneira específica.
"A água está sempre vinculada a algum outro setor, como meteorologia, agricultura ou energia. Achamos que ela tem de ter uma casa própria para discutir suas questões", diz Andreu.

Direito universal

Na declaração ministerial realizada no fórum em Marselha, aprovada por unanimidade, os ministros e chefes de delegações de 130 países se comprometeram a acelerar a aplicação do direito universal à água potável e ao saneamento básico, reconhecido pela ONU em 2010.
No fórum internacional da água realizado na Turquia em 2009, esse direito universal ainda era contestado por alguns países.
Os números divulgados por ocasião do fórum mundial em Marselha são alarmantes. Segundo estudos de diferentes organizações, 800 milhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável e 2,5 bilhões não têm saneamento básico.
Houve, no entanto alguns progressos: o objetivo de que 88% da população mundial tenha acesso à água potável em 2015, segundo a chamada meta do milênio, já foi alcançado e mesmo superado em 2010, atingindo 89% dos habitantes do planeta.
Mas Gérard Payen alerta que o avanço nos números globais ocultam uma situação ainda preocupante.
"Entre 3 bilhões e 4 bilhões de pessoas não têm acesso à água de maneira perene e elas utilizam todos os dias uma água de qualidade duvidosa. É mais da metade da população mundial", afirma.
Ele diz que pelo menos 1 bilhão de pessoas que têm acesso à água encanada só dispõem do serviço algumas horas por dia e que a água não é potável devido ao mau estado das redes de distribuição.
Segundo Payen, 11% da população mundial ainda compartilha água com animais em leitos de rios.
De acordo com a OMS, sete pessoas morrem por minuto no mundo por ingerir água insalubre e mais de 1 bilhão de pessoas ainda defecam ao ar livre.

Daniela Fernandes
De Paris para a BBC Brasil

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120316_agua_escassez_df.shtml

 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Análise: Síria e Líbia trilham caminhos distintos na luta por mudança

Tanto sírios como líbios se rebelaram contra décadas de governos ditatoriais em seus países. Passado um ano desde que essa revolução começou, por que os dois países árabes vivem realidades tão diferentes?
Houve um momento, durante o levante na Líbia, em que a população local assistiu com preocupação aos desdobramentos transmitidos pela TV.
Ao mesmo tempo, eles assistiam aos sírios repetindo em casa o levante contra um presidente que os reprime há décadas.


Os líbios pensaram que suas próprias necessidades seriam esquecidas enquanto a Síria se tornaria a prioridade internacional. Agora vemos o quanto eles estavam errados.
Será que era simplesmente mais fácil para a comunidade internacional se unir contra o coronel líbio Muamar Khadafi, um homem que aparentava ser um maluco desgrenhado perante os olhos do mundo, do que contra o presidente sírio, Bashar al-Assad, de aparência suave e um tom público mais comedido?
Certamente isso facilitou a aprovação, no Conselho de Segurança, de uma resolução que pavimentou a intervenção internacional na Líbia. No entanto, havia outros fatores mais importantes em jogo.

Jogo de poder

Em comparação com a Síria, a Líbia era um caso simples. Não havia ali divisões sectárias, e a maioria dos líbios estava unida em torno de uma causa comum.
Na Síria, em contraste, qualquer consideração sobre uma intervenção militar externa tem que levar em conta tudo o que deu errado no Iraque - também conhecido por suas divisões sectárias - e na longa e sangrenta guerra civil no vizinho Líbano.
O chanceler francês, Alain Juppé, citou a possibilidade de uma "guerra civil catastrófica" se a comunidade internacional armar a oposição síria.
Também há que se levar em conta as vastas reservas de petróleo da Líbia. Será que o Ocidente poderia se dar ao luxo de esperar mais tempo pelos desdobramentos, vistos como inevitáveis, do levante líbio?
Além disso, há as diferenças políticas e geográficas. A Síria é um campo minado diplomático tanto para os que tentam derrubar o regime quanto para as potências ocidentais que debatem como ajudá-los. O governo de Assad tem aliados no Irã e entre o grupo radical libanês Hezbollah.
O Líbano, por sua vez, tem muito a temer quanto à ameaça de guerra civil no país vizinho. Trípoli já está tendo que lidar com enormes quantidades de refugiados vindos da Síria, e a opinião pública libanesa se divide quanto a apoiar o Exército Livre da Síria (formado por dissidentes do Exército) ou simplesmente se distanciar de sua luta, por medo de que ela respingue no Líbano.
Em contrapartida, na Líbia, Muamar Khadafi havia se isolado de boa parte do mundo. Líderes de países vizinhos e de boa parte do mundo árabe desprezavam o coronel líbio, aberta ou discretamente.

Caminho sem volta

No caso da Síria, o que aconteceu com as pessoas que, um ano atrás, tomaram as ruas pedindo liberdades básicas e a queda do regime de Assad?
Muitos deles foram mortos. Mas deixaram para trás parentes obstinados e manifestantes destemidos certos de que, agora que sua oposição ao regime se tornou pública, eles de qualquer forma morrerão se caírem nas mãos das forças de segurança sírias.
Para eles e para os que deixaram o Exército para se unir à oposição, não há como voltar para trás.
Isso deixa tanto o Ocidente quanto o regime de Assad em um aparente ciclo sem fim de incertezas quanto ao que fazer a seguir.

Rana Jawad
Da BBC News em Trípoli (Líbano)

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120316_anlise_sirialibia_pai.shtml

quinta-feira, 15 de março de 2012

ATUALIDADES / CONCURSO DA SAÚDE 2012 - Parte 3


Estado palestino
Autoridade Nacional propõe reconhecimento na ONU
Sem sucesso em acordos de paz com Israel, a Autoridade Nacional Palestina decidiu mudar de estratégia e propor na 66ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) o reconhecimento do Estado Palestino nas fronteiras pré-1967, situando a capital na parte oriental de Jerusalém. A proposta é recusada por Israel e Estados Unidos.

Mesmo que seja aprovada, uma resolução em favor da Palestina não garantirá o fim dos conflitos com os israelenses. As negociações de paz estão paralisadas há um ano devido à resistência de Israel em desocupar territórios árabes.

Mas ser aceito como o 194º. Estado da ONU teria um efeito político importante para os palestinos. Eles teriam acesso, por exemplo, a tribunais internacionais, onde poderiam abrir processos contra o governo israelense por conta das áreas invadidas.

Há décadas
árabes e judeus disputam as mesmas terras no Oriente Médio. No século 19, colonos judeus foram incentivados a migrarem da Europa para a Palestina. O objetivo era constituir o Estado de Israel. Os árabes, contudo, já habitavam a região há séculos.

Durante a perseguição nazista, na
Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o fluxo migratório de judeus se intensificou. Em 1947, a ONU propôs a divisão da Palestina, formando dois Estados independentes. Jerusalém, cidade considerada sagrada por cristãos, judeus e muçulmanos, foi colocada sob controle internacional, para evitar conflitos. Os árabes não aceitaram o acordo e, no ano seguinte, Israel se tornou um Estado independente.

A tensão entre Israel e países árabes culminou na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Ao fim dos combates, os israelenses assumiram o controle da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, então pertencentes à Jordânia; da Faixa de Gaza e da Península do Sinai, domínios do
Egito; e das Colinas de Golã, território da Síria.

Os árabes que viviam nessas terras foram expulsos ou se retiraram para campos de refugiados. Os judeus, estimulados pelo governo, começaram a criar assentamentos em Gaza e na Cisjordânia. Nos anos seguintes, ocorreram guerras, massacres e atentados terroristas. A Península do Sinai foi finalmente devolvida ao Egito em 1982, e a Faixa de Gaza, entregue aos árabes em 2005.
Em 23 de setembro, o presidente da autoridade palestina, Mahmoud Abbas, entregou ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, uma carta com o  pedido de inclusão da Palestina como membro pleno da organização,  nas fronteiras definidas antes das ocupações. Países como o Brasil já reconheceram o Estado Palestino.
A reivindicação tem respaldo na Resolução 242 da ONU, de 1967, que determina a desocupação das áreas palestinas. O documento, contudo, nunca foi seguido por Israel.

Votação

Israel não aceita a proposta, pois ela significaria a dissolução dos assentamentos da Cisjordânia, onde vivem cerca de 300 mil judeus (e 2,5 milhões de palestinos), além de abrir mão de Jerusalém Oriental, dividindo novamente a capital. Haveria riscos, de acordo com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de expor o país à ação de radicais islâmicos.

Em maio, quando o presidente americano,
Barack Obama, pediu para que as negociações de paz se pautassem pelas fronteiras traçadas em 1967, Netanyahu considerou o pedido "irreal" e "indefensável".

Agora, o governo americano, principal aliado de Israel, deve ser o maior obstáculo para a admissão do Estado Palestino na ONU. Isso porque a proposta deve ser antes aprovada por nove dos 15 países membros do Conselho de Segurança, sem sofrer nenhum veto. Cinco membros permanentes têm poder de veto: Estados Unidos,
França, Reino Unido, Rússia e China. Washington sinalizou que, se preciso, vetará a medida para pressionar os palestinos a retomarem as negociações com Israel.
Por outro lado, se a candidatura palestina receber aprovação do Conselho, deverá ser votada na Assembleia Geral, onde precisará do voto de dois terços dos 193 países membros.Uma decisão da ONU como esta poderá isolar ainda mais Israel no cenário internacional. Hoje, revoltas em curso em países como Síria e Egito, junto com o apoio de países ocidentais à causa palestina, fortalecem os árabes na geopolítica do Oriente Médio.

Plebiscito: 11 de dezembro
Se aprovada, divisão do Pará criará mais dois Estados
Dois novos Estados podem surgir na região norte do Brasil, dependendo da decisão de um plebiscito para a separação do Pará em três, formando os estados de Carajás e Tapajós. A proposta é rejeitada por grupos que apontam nela interesses políticos, sem benefícios para a população.

O plebiscito foi aprovado pelo Congresso em maio e será realizado em 11 de dezembro. O Brasil possui hoje 27 unidades federativas, sendo 26 Estados e o Distrito Federal. Se a divisão for aceita pelos paraenses, será a primeira vez que um Estado brasileiro surgirá das urnas, de uma decisão popular.

A campanha pelo plebiscito começou em 13 de setembro. Para os defensores da medida, ela levará progresso para o interior do Estado, onde a ausência do governo dificulta o desenvolvimento econômico.

O Pará é o segundo maior Estado do país, atrás somente do
Amazonas. Santarém, por exemplo, fica a 700 Km de Belém em linha reta (por rodovia essa distância é de 1500 Km e por transporte fluvial 800 Km). Com a estrutura política que acompanha a formação de um Estado, será mais fácil, segundo os separatistas, direcionar recursos federais para as regiões mais distantes da capital.

Já os opositores acreditam que a separação, ao contrário, vai piorar os indicadores sociais das cidades paraenses, que estão entre as mais violentas e pobres do país. Além disso, eles apontam interesses políticos e econômicos na repartição.

De acordo com o projeto, o Pará ficaria com 78 cidades (17% do território), 4,6 milhões de habitantes e 56% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 32,5 bilhões. Tapajós, na região oeste, teria como capital Santarém, incluindo 27 cidades (58% do território), 1,2 milhões de habitantes e 11% do PIB (R$ 6,4 bilhões). Carajás, ao sul, cuja capital seria Marabá, contaria com 39 cidades (25% do território), 1,6 milhões de habitantes e 33% do PIB (R$ 19,6 bilhões).

Desde o século 19 há movimentos em defesa da criação do Tapajós, que quase chegou a ser oficializado na
Assembleia Constituinte de 1988, junto com Tocantins. A separação de Carajás tem à frente pecuaristas e empresários do setor de mineração. Mas o fator decisivo para aprovação será o convencimento dos moradores de Belém. A capital concentra o maior foco de resistência à divisão do Estado.

O resultado do plebiscito será encaminhado ao Congresso. De acordo com a Constituição, a criação de Estados e territórios depende da aprovação de uma lei complementar.
 

Como nascem os Estados

Tramitam hoje no Congresso projetos de lei para a instituição de mais 16 Estados federativos. Os projetos podem ganhar novo fôlego, caso a população paraense aprove a divisão no Norte.

Entre os projetos está a criação do Estado do Triângulo, que separa o Triângulo Mineiro do restante de
Minas Gerias, com 37 municípios; Gurguéia, no sul do Piauí, com 87 cidades (60% do território); o Araguaia, com 32 municípios, e o Mato Grosso do Norte, com 47, desmembrados do Mato Grosso; o Rio São Francisco, com 34 municípios, localizado a oeste da Bahia; o Maranhão do Sul, com 49 municípios, dividindo o Maranhão; o Oiapoque, no Amapá; e os territórios do Rio Negro, Solimões e Juruá, no Amazonas.

A primeira divisão territorial brasileira aconteceu após o descobrimento, com a fundação de 15
capitanias hereditárias. No período colonial, as capitanias foram uma maneira encontrada pela Coroa Portuguesa para compensar a falta de recursos para colonizar o país, transferindo terras para particulares.

A hereditariedade foi extinta em 1759 pelo
Marquês de Pombal, mas as capitanias foram mantidas até 1821. Nessa época, a maior parte delas se tornou províncias, que deram origem a quase todos os Estados brasileiros.

No período imperial havia 19 províncias, duas delas oriundas do desmembramento do Pará (Amazonas) e de
São Paulo (Paraná). Em 1828, a província de Cisplatina, no sul, se tornou independente e originou o Uruguai. Com a Proclamação da República, em 1889, as províncias se transformaram em Estados.

Em 1903, o governo comprou da
Bolívia três territórios que, em 1920, seriam unificados para formar o Acre. Durante a Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas desmembrou seis territórios estratégicos do país: Amapá, Fernando de Noronha, Guaporé, Iguaçu, Ponta Porã e Rio Branco.

Com o fim da guerra, Ponta Porã e Iguaçu foram reincorporados aos Estados de Mato Grosso (hoje, Mato Grosso do Sul),
Santa Catarina e Paraná. Os demais viraram Estados: Rio Branco virou Roraima e Guaporé, Rondônia. Fernando de Noronha voltou a pertencer a Pernambuco.

Em 1960 o território de
Goiás passou a abrigar o Distrito Federal, enquanto a antiga capital do país, a cidade do Rio de Janeiro, se tornou o Estado da Guanabara, de 1960 a 1975. Em 1977 parte de Mato Grosso virou o Mato Grosso do Sul e, na Constituinte de 1988, foi criado o Tocantins, ao norte de Goiás.
 
Fome na África
Na Somália, problema atinge quase metade da população
Seca, guerras civis, restrições à ajuda humanitária e caos político resultaram numa crise de fome que afeta 12,5 milhões de pessoas que vivem na região conhecida como Chifre da África, que inclui Djibuti, Etiópia, Quênia, Somália e Uganda. A epidemia de fome já é considerada a pior deste século.

A situação é mais grave na Somália, onde 29 mil crianças morreram nos últimos três meses – uma média de 300 por dia – e 640 mil estão subnutridas, podendo morrer nos próximos meses. Cerca de 3,2 milhões de somalianos (quase metade da população) dependem de doações de alimentos para sobreviver.

A
ONU (Organização das Nações Unidas) decretou crise de fome no país em 20 de julho. O estado de emergência é declarado quando a fome atinge 20% das famílias e o índice de subnutrição ultrapassa 30% da população infantil. Na região de Bay, uma das seis em estado crítico na Somália, a taxa de desnutrição entre crianças é de 58%, a mais alta no país.

Desde os anos 1980, foi a primeira vez que a ONU declarou crise de fome no continente africano. Todos os dias, centenas de pessoas partem de suas cidades em direção a acampamentos improvisados na capital, Mogadíscio, e nos arredores. As barracas já abrigam 400 mil somalianos.

Campos de refugiados mantidos pela ONU como o de Dadaab, na fronteira com o Quênia, tornaram-se refúgio para os exilados. O campo foi criado em 1991 para receber refugiados da guerra civil da Somália e hoje é o maior do mundo, com 440 mil pessoas. Desde o começo do ano, recebeu mais 170 mil refugiados por conta da fome, e o número aumenta a cada dia.

A estiagem no Chifre da África é a mais severa dos últimos 60 anos. A seca prejudicou a produção de alimentos, reduzida a um quarto do necessário para alimentar a população. Estudos apontam que o aquecimento global teria agravado o período de seca, comum nessa região africana.

Entretanto, as condições climáticas não são responsáveis pelas mortes na Somália. Organização política, técnicas de irrigação e doações poderiam ter evitado a tragédia. A guerra civil, em curso no país há duas décadas, impediu que tais medidas fossem adotadas a tempo.
 

Sem governo

A Somália não possui governo desde 1991, quando o regime de Siad Barre foi derrubado por milícias armadas, dando início a uma guerra civil. Um governo provisório foi instaurado em 2004, mas não foi reconhecido pelas milícias e nem pela própria população. O país é considerado um dos mais pobres e violentos de todo o mundo.

Dois anos depois, o grupo islâmico Al Shabab, filiado à Al Qaeda, passou a controlar a região sul, hoje a mais atingida pela fome. Os guerrilheiros impedem que os somalianos recebam mantimentos de agências, como a Cruz Vermelha Internacional, e que saiam de suas cidades de origem. A guerra também destruiu a infraestrutura do país, dificultando o acesso às áreas mais críticas.

Além dos conflitos, questões políticas impediram a chegada de parte das doações aos refugiados. O governo dos Estados Unidos, maior fonte de financiamento de agências humanitárias, teme que verbas sejam desviadas para facções islâmicas que mantém relações com a Al Qaeda.

O governo brasileiro anunciou o envio de quase 72,5 mil toneladas de alimentos à Somália, Etiópia e Quênia. O
Brasil está entre os dez maiores doadores de fundos para os países africanos assolados pela fome.
 
Protestos no Chile
Onda de manifestações estudantis sacode o país
O governo do Chile enfrenta a maior onda de protestos estudantis desde o fim do regime militar (1973-1990). Iniciadas em 6 de junho, as manifestações vêm causando conflitos nas regiões metropolitanas de Santiago, capital de uma das economias mais prósperas da América Latina.

Os jovens querem melhorias na qualidade do ensino e acesso a universidades públicas. Eles conquistaram a adesão de sindicalistas, que convocaram greves gerais no país. Houve ocupações de escolas, universidades e greves de fome entre estudantes chilenos.

Em 2006, cerca de 790 mil alunos foram às ruas protestar contra o governo de Michelle Bachelet. O movimento ficou conhecido como a “revolução dos pinguins”, em referência aos uniformes usados por alunos do ensino secundário. A mobilização atual tem sido comparada com os movimentos estudantis em curso na Europa e no Oriente Médio.

No último dia 26 de agosto, o estudante Manuel Gutiérrez Reinoso, 16 anos, foi morto com um tiro no peito disparado por policiais durante uma marcha em Santiago. A tragédia comoveu a população e aumentou a tensão nas ruas.

A morte do jovem ocorreu no dia seguinte a uma greve geral de dois dias, convocada pela CUT (Central Única dos Trabalhadores). A paralisação em apoio aos estudantes atingiu 80 setores, entre eles a indústria de mineração, uma das maiores fontes de riqueza do Chile.

Apesar do crescimento econômico recorde de 8,4% no primeiro semestre, os chilenos estão insatisfeitos com a má distribuição da renda no país. O desenvolvimento da economia nos últimos vinte anos concentrou a riqueza nas mãos de poucos.

Outro fator que contrasta com as condições econômicas favoráveis é o sistema educacional, elaborado nos anos 1980 durante a ditadura de
Augusto Pinochet, uma das mais brutais do século 20.

No ensino superior, não há gratuidade nas universidades públicas e os estudantes terminam os cursos endividados e sem perspectivas quanto ao mercado de trabalho. Nas faculdades particulares, o ensino é caro e de má qualidade. Sem uma fiscalização mais rigorosa por parte do governo, os diplomas são comercializados indiscriminadamente nessas instituições.

Problemas semelhantes afetam o ensino secundário. A gestão das escolas foi passada do Estado para os municípios, resultando em escassos investimentos em infraestrutura. O terremoto do ano passado, um dos piores na história do Chile, agravou a situação. Escolas danificadas ainda não foram reconstruídas.
 

Reforma política

Para o ensino superior, a Confederação dos Estudantes do Chile (Confech) quer mais financiamentos para alunos de universidades públicas, mudanças no processo de admissão, ensino gratuito para os mais pobres e fiscalização em faculdades privadas, entre outras reivindicações.

As contrapropostas apresentadas pelo governo foram rejeitadas pela Confech, e as negociações seguem em impasse.

Com a população favorável aos estudantes, o governo do conservador
Sebastián Piñera enfrenta uma crise de legitimidade. Piñera foi eleito em março do ano passado, em uma disputa apertada com a então presidente Michelle Bachelet, encerrando duas décadas de uma coalizão de centro-esquerda no poder.

Na ocasião do resgate dos 33 mineiros, há um ano, o líder contava com altos índices de popularidade junto ao povo chileno. Com os protestos dos estudantes, o governo acumulou os piores índices desde a redemocratização em 1990 – 29% de aprovação e 62% de rejeição.

A oposição, representada pelo Concertación – coligação partidária de Bachelet que governou o Chile por 20 anos – também perdeu o prestígio dos tempos da presidente, que terminou o mandato com a maior taxa de popularidade na América Latina (81%).

Mais do que as questões referentes ao sistema educacional, o Chile precisa, portanto, solucionar uma crise política. As divisões entre esquerda e direita não foram superadas pelo governo atual e os políticos perderam a confiança junto ao eleitorado.

Por esta razão, além da reforma na Educação, os chilenos apontam a necessidade de uma reforma na Constituição do país, outra herança da ditadura militar. Espera-se que essa reforma possibilite mudanças na política.
 
Reformas em Cuba
Pacote deve permitir compra de casa própria e viagens ao exterior
Casa própria, carro e viagens ao exterior fazem parte do sonho de consumo de trabalhadores de todo o mundo. Em Cuba, desde a revolução socialista de 1959, bens e turismo eram restritos ou inacessíveis à população. Agora, um conjunto de medidas anunciadas pelo governo deve mudar o cotidiano dos cubanos.

As reformas econômicas em Cuba são as primeiras em mais de meio século de socialismo. Elas não significam, entretanto, uma abertura política e econômica do mesmo tipo realizado na antiga
União Soviética, em 1991.

As propostas do Partido Comunista, que governa a ilha, foram aprovadas pela Assembleia Nacional no dia 1º. de agosto. O objetivo das Diretrizes da Política Econômica e Social do Partido e da Revolução é estimular a economia do país, afetada pela crise de 2008.

O plano possui 313 itens que tiveram o aval do presidente
Raúl Castro em abril, no congresso partidário. Raúl substituiu o irmão, Fidel Castro, no cargo. Fidel foi afastado em fevereiro de 2008 depois de 49 anos no poder, por causa de problemas de saúde.

As medidas devem reduzir a interferência do Estado na economia – um dos pilares do socialismo – e estimular a iniciativa privada.

Elas incluem um “enxugamento” na máquina estatal, com a demissão de mais de um milhão de funcionários públicos e o corte gradual de subsídios, como alimentos e energia elétrica. Atualmente, 85% do contingente de trabalhadores estão na folha de pagamento do governo cubano.

O Estado, que hoje controla quase que totalmente a economia do país, também deve diminuir a participação em áreas como agricultura, transporte, construção civil e comércio, abrindo espaço para empresas. A previsão é de que as medidas sejam implantadas no prazo de cinco anos.
 

Viagens

As primeiras intervenções na economia já foram feitas no sistema de câmbio. Cuba possui duas moedas: o peso, com o qual são pagos os salários dos cubanos, e o peso conversível, usado principalmente por estrangeiros.

O peso conversível foi criado em 1994 e atrelado ao dólar até 2005. Em abril, o governo desvalorizou em 8% a moeda, que retornou à taxa original. Dessa forma, ficará mais barato viajar a Cuba, reaquecendo o turismo.

As mudanças mais emblemáticas, porém, devem afetar a vida do cidadão comum. Pela primeira vez, será permitido ao cubano comercializar imóveis e carros. Em Cuba, a propriedade privada, base do capitalismo, foi abolida pela revolução. Tudo pertence ao Estado. As famílias vivem por gerações na mesma casa: quando uma pessoa se casa, vai morar com a família do noivo ou da noiva. Somente é permitida a troca de imóveis, não a comercialização, fato que alimenta um comércio paralelo.

Também devem ser facilitadas as viagens ao exterior, que hoje dependem de uma difícil e burocrática aprovação do governo. O custo de tirar um passaporte e pagar as despesas de todo o processo é proibitivo para um trabalhador comum. Além disso, opositores do regime têm as autorizações para deixar o país sistematicamente negadas. É o caso do dissidente Guillermo Fariñas e da blogueira Yoani Sanchéz, que não puderam viajar para receber prêmios internacionais.
 

Socialismo

A Revolução Cubana depôs em 1º. de janeiro de 1959 o ditador Fulgencio Batista, que ocupava o cargo de presidente há 25 anos com o apoio dos Estados Unidos. No auge da Guerra Fria, nos anos 1960, a ilha passou a sofrer embargos do governo americano.

A situação econômica de Cuba começou a se deteriorar no começo dos anos 1990 com o fim da União Soviética, principal parceiro comercial. Nos anos seguintes, houve uma melhora, graças a intercâmbios com a
China e a Venezuela.

Cuba é o único Estado socialista da América Latina, e um dos poucos que restam no mundo, ao lado da China e da
Coreia do Norte. O país possui 11,4 milhões de habitantes e ocupa a 51ª posição no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que mede o grau de desenvolvimento dos países (à frente do Brasil, por exemplo, que está em 73º lugar).

Os serviços cubanos são conhecidos pela qualidade nas áreas de saúde e educação (a taxa de analfabetismo é quase zero). Por outro lado, a população sofre com a perseguição política, a falta de direitos civis e a censura.
 
China
Partido Comunista faz 90 anos, sustentado pelo capitalismo
O Partido Comunista chinês completou 90 anos de fundação no dia 1o de julho. No comando do país mais populoso do planeta, o partido sobreviveu ao colapso dos regimes comunistas do século 20 e continua mais forte do que nunca.

Vive, no entanto, um paradoxo que precisa ser solucionado: uma moderna e dinâmica economia de mercado aliada a um Estado repressor que limita as liberdades individuais e que destoa das democracias em vigor nos demais países desenvolvidos.

Para se adaptar ao mundo globalizado, o PC chinês precisou adotar o modelo econômico capitalista. As reformas começaram em 1978. Em três décadas, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu numa média anual de 10%, tirando 400 milhões de pessoas da pobreza.

O "milagre" chinês transformou um país agrário e analfabeto na atual segunda maior potência econômica do mundo, atrás somente dos Estados Unidos.

Na política, o governo mantém o controle total sobre a vida dos chineses. Não tolera oposição, reprime com violência os dissidentes e censura a imprensa e a internet. O país vivencia uma das maiores ondas de repressão dos últimos anos, tendo como alvo os ativistas pró-democracia (inspirados pelas revoltas no mundo árabe), tibetanos e outras minorias étnicas.

Hoje, o partido gasta mais com segurança interna, na censura e repressão ao povo, do que com a própria segurança externa.

O
regime ditatorial é o ponto fraco no domínio do partido, que sofre críticas de países ocidentais. Apesar disso, conta com o apoio da maior parte da população, beneficiada pelos avanços na área econômica.

O PC chinês foi fundado em 1921, numa reunião clandestina em Xangai, com apenas 53 integrantes (hoje possui 80,2 milhões de filiados, segundo dados oficiais). Entre os delegados presentes no primeiro encontro estava o líder revolucionário
Mao Tsé-tung, então com 27 anos. O líder é cultuado até hoje na China.
 

ATUALIDADES / CONCURSO DA SAÚDE 2012 - Parte 2


Crise do Euro

União monetária faz dez anos na Europa

Há dez anos, em 1o de janeiro de 2002, entrou oficialmente em circulação o euro, a moeda única corrente em países que compõem a União Europeia (UE). Na época, o lastro monetário simbolizava a integração do continente que, no século 20, enfrentou duas guerras mundiais e uma divisão ideológica que quase provocou uma terceira. Hoje, porém, o euro é sinônimo de incertezas, numa crise que ameaça a futuro da segunda maior economia do planeta.

A Eurozona é composta por 17 dos 27 Estados-membros da União Europeia:
Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Países Baixos e Portugal. Na ocasião em que o euro foi instituído, Dinamarca, Suécia e Reino Unido optaram por não aderir ao projeto e mantiveram suas moedas locais.

O euro é usado diariamente por 332 milhões de europeus. A moeda também é a segunda maior reserva monetária internacional e a segunda maior comercial, atrás somente do dólar americano.

Apesar disso, a Europa enfrenta desde 2009 uma crise de débitos que ameaça a estabilidade do bloco, obrigando os governos a fazer reformas impopulares. Em 2012, o desafio dos líderes europeus será manter todos os países integrantes da Zona do Euro, de modo a impedir o enfraquecimento da aliança.

Desde 1999, a moeda que passou a ser usada pelos europeus há uma década já era corrente entre os mercados financeiros. Nesse ano, os governos aboliram moedas locais como o marco alemão, a lira italiana, a peseta espanhola e o franco (belga e francês) nas transações comerciais entre países. O objetivo era unir mais as nações, em um bloco com maior representação política, e gerar mais desenvolvimento econômico, pois o sistema monetário integrado facilitaria o comércio e os negócios entre os países.

Nos primeiros anos, tudo caminhava bem e os europeus estavam entusiasmados com a novidade. E, mesmo não correspondendo às projeções mais otimistas, houve crescimento de até 15% na economia da UE. Outro benefício da adoção da moeda única foi o controle da inflação, que em média não ultrapassa os 2%. Empresas também pouparam dinheiro com os custos de transações cambiais – somente na indústria automobilística, a economia chegaria a 500 milhões de euros por ano.
 

Grécia

Os problemas começaram com a crise econômica de 2008, que atingiu o “calcanhar de Aquiles” da Zona do Euro. Em uma década de moeda única, não houve uma política fiscal comum que regulasse o mercado, deixando o sistema exposto a especulações de alto risco e endividamento desmedido dos Estados.

O colapso iniciou-se na Grécia, berço da democracia ocidental. O país gastou muito além do que seu orçamento permitia em programas sociais, na folha de pagamento dos servidores públicos, em pensões e outros benefícios. Para pagar as contas, o Estado adquiriu empréstimos junto a instituições bancárias.

A dívida pública grega atingiu 124,9% do
PIB (Produto Interno Bruto), mais do que o dobro permitido na Eurozona (60%). O déficit no orçamento, isto é, a diferença de quanto o país gasta e quanto arrecada, correspondia a 13,6% do PIB grego em 2009, índice mais de quatro vezes a porcentagem tolerada de 3%.

A crise atingiu outros países da Zona do Euro, que também estão em condições fiscais debilitadas, como Irlanda (déficit de 14,3% do PIB), Espanha (11,2%) e Portugal (9,4%). Os déficits orçamentários desses governos, que tiveram de socorrer a economia injetando recursos públicos durante a crise e sofreram queda de receitas, são os piores desde o período da
Segunda Guerra Mundial.

Além disso, a ameaça de anunciarem “calotes” em suas dívidas causou desconfiança nos mercados. Como consequência, tornou-se mais difícil para empresas e governos refinanciarem suas dívidas, aprofundando a recessão no bloco. Em 2010, no auge da crise, o euro acumulou perdas de 14% perante o dólar.

Os Estados enfrentaram a situação com programas e pacotes de estímulo ao mercado. Entre as medidas, algumas impopulares, como aumento dos impostos e corte em programas sociais, que afetaram o modelo de justiça social do capitalismo europeu.
 

Política

Atingida no bolso, a população reagiu com protestos em toda a Europa, alguns mais organizados, como o movimento dos “Indignados” na Espanha. Na esteira da crise, nove presidentes e primeiros-ministros foram destituídos do cargo, entre eles o premiê grego George Papandreou e o italiano Silvio Berlusconi.

No plano político, a Europa parece também ter regredido. A insatisfação com a economia fez também ressurgir partidos de direita e grupos de extrema direita, aprofundando divisões ideológicas. Ainda que compartilhem moeda, bandeira e instituições em comum, cisões entre governos mostram que falta unidade política aos europeus, pondo em risco o plano de integração.

A despeito de todos os problemas, o risco do fim do euro é mínimo, pois os prejuízos seriam compartilhados por todos. Se a moeda fosse abolida, poderia haver uma valorização muito grande de moedas nacionais fortes como o marco alemão. Isso prejudicaria as exportações da Alemanha, gerando desemprego em massa no país. Mesmo a saída de algum membro, como a Grécia, é algo que se tenta evitar a todo o custo, pois afetaria a estabilidade do bloco.
 

Retrospectiva 2011

Os protestos que abalaram o mundo

Mohamed Bouazizi, 26 anos, era um vendedor ambulante numa cidadezinha na zona rural de Túnis, capital da Tunísia. Na manhã de 17 de dezembro de 2010, teve a barraca de frutas confiscada pelas autoridades. Humilhado e sem meios de sustentar a família, ateou fogo ao próprio corpo em frente à sede do governo. Morreu no hospital 18 dias depois.

A morte do tunisiano foi o estopim de
revoltas que se espalharam no mundo árabe em 2011 e influenciaram outras revoltas na Europa, Estados Unidos e América Latina. A chamada “primavera árabe”, ainda em curso, foi um fato inédito na região. Pela primeira vez na história, ditadores e dinastias foram depostos do poder pela população, exasperada com a alta do preço dos alimentos e a falta de liberdade.

Quatro regimes autoritários chegaram ao fim, na Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, dando início a processos de transição em países sem partidos, Constituição ou sequer registros de eleições livres. Na Líbia, Muamar Kadafi, há 42 anos no poder, teve um final trágico: capturado por rebeldes em 20 de outubro, foi executado e exibido como troféu. Em outros países, manifestações têm sido reprimidas com violência. Na Síria, o governo de Bashar al-Assad teria matado entre 4 e 5 mil pessoas, reprimindo protestos ainda em curso que visam a sua deposição.

Protestos de rua também agitaram capitais do continente europeu, que enfrenta a pior recessão econômica desde o fim da
Segunda Guerra Mundial. Em maio, 58 cidades espanholas foram tomadas por manifestantes do grupo “Indignados”, às vésperas das eleições regionais. Nos dias seguintes, o movimento reuniu até 8 milhões de espanhóis no país e em outras 16 capitais estrangeiras.

Por motivos diversos,
Londres foi palco de uma onda de violência que deixou cinco mortos e mais de 3 mil detidos pela polícia. Tudo começou em 9 de agosto, quando 120 pessoas marchavam contra a morte de um rapaz de 29 anos, ocorrida durante uma ação da polícia londrina. Na madrugada, gangues iniciaram distúrbios que se estenderam até 10 de agosto por outras cidades do Reino Unido.

Na América Latina,
os chilenos foram às ruas para protestar contra o sistema de ensino. Em 26 de agosto, confrontos entre policiais e manifestantes causaram a morte de um jovem de 16 anos. Os sindicatos aderiam ao movimento, até que, em setembro, conseguiram forçar o governo a negociar as reivindicações dos grupos estudantis.

Porém, nenhum movimento inspirado na “primavera árabe” foi mais global que o “Ocupe Wall Street”. Iniciado em Nova York em 17 de setembro, logo se alastrou pelas principais cidades norte-americanas e outras metrópoles mundiais (incluindo Brasil). O alvo dos rebeldes são a especulação financeira e as políticas neoliberais, responsabilizadas pela crise de 2008.
 

Sustos nas bolsas

O ano de 2011 foi também aquele em que a população mundial atingiu a marca de 7 bilhões de habitantes, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas). O número representa desafios para viver nas cidades, que já concentram 70% da população.

China e Índia são os países mais populosos com, respectivamente, 1,35 bilhão e 1,2 bilhão de habitantes, posição que se inverterá até 2025; nesse ano, de acordo com as projeções, estaremos a
um quarto de século dos 9,3 bilhões de habitantes no planeta. E como será o mundo em 2050?

O olhar sobre 2011 oferece mais incertezas do que respostas. Mesmo na
zona do Euro, com potências econômicas como Alemanha, França e Reino Unido, o ano foi de abalos na economia e na política. Ameaçada pela recessão e a crise dos débitos fiscais, a Europa teve que aprovar pacotes de ajuda a países como a Grécia, que anunciou um calote de 50% da dívida pública para evitar a moratória. Como resultado da crise, líderes políticos, entre eles o polêmico premiê italiano Silvio Berlusconi, perderam o cargo junto com a confiança do mercado e dos eleitores.

Um dos momentos mais dramáticos aconteceu em 5 de agosto, quando a agência de classificação de risco S&P rebaixou a nota da dívida americana para AA+ (fato que não acontecia desde 1917). O motivo foi a insegurança deixada pela disputa entre os partidos Democrata e Republicano sobre a elevação do teto da dívida, para evitar um calote histórico do governo americano.

Contudo, o presidente norte-americano
Barack Obama teve uma importante vitória no ano que lembrou uma década dos ataques do 11 de Setembro. Em 1o de maio, Osama Bin Laden foi morto em uma operação militar nos arredores de Islamabad, capital paquistanesa. A guerra contra o terrorismo custou US$ 1,18 trilhão aos cofres americanos, em gastos militares com duas guerras, no Afeganistão e no Iraque.
 

Tsunami

Na Ásia, uma das piores tragédias de 2011 foi o terremoto no Japão, ocorrido em 11 de março. O tremor de 8.9 de magnitude provocou um tsunami no Oceano Pacífico que devastou a região noroeste do país, matando 20 mil pessoas e causando vazamento na usina nuclear de Fukushima.

Já no continente africano, as tragédias, como é usual, têm causas humanas. Em 20 de julho, a ONU anunciou crise de
fome no Chifre da África, que inclui Djibuti, Etiópia, Quênia, Somália e Uganda. A epidemia de fome afeta 12,5 milhões de pessoas e já é considerada a pior do século. A situação é mais grave na Somália, onde metade da população passa fome e 15 crianças morrem por hora.

No Brasil, o primeiro ano do mandato da presidente
Dilma Rousseff foi caracterizado pela queda de sete ministros, em razão de denúncias de irregularidades, e pelo aumento do prestígio internacional do país, que deve superar o Reino Unido e se tornar a sexta maior potência econômica do mundo, atrás dos Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França.

Kim Jong-il

Líder norte-coreano ameaçou o mundo com confronto nuclear

O ditador norte-coreano Kim Jong-il, morto no dia 17 de dezembro, transformou seu país em uma potência militar que, nos últimos cinco anos, ameaçou o planeta com um programa nuclear com fins militares. A dinastia de Jong-il comanda há meio século a Coreia do Norte, um dos países mais pobres e fechados do mundo.

O líder comunista morreu de ataque cardíaco enquanto viajava de trem, próximo à capital Pyongyang. O anúncio foi feito pela TV estatal na segunda-feira (19), dois dias depois da morte. Ele estava com 69 anos e doente desde 2008, quando o serviço de inteligência norte-americano informou que havia sofrido um derrame cerebral.

A notícia da morte de Jong-il levou apreensão aos países vizinhos na Ásia. A Coreia do Norte continua tecnicamente em guerra com a vizinha
Coreia do Sul, quase 60 anos após assinado o armistício (cessar-fogo).

Por conta do risco de instabilidades na transição de poder, a Coreia do Sul colocou suas Forças Armadas em estado de alerta máximo, e afirmou que a vizinha do Norte fez testes com mísseis, logo depois do comunicado da morte do ditador.

Jong-il comandava há 17 anos a república fundada por seu pai, Kim Il-sung, após a divisão das Coreias, ao fim da
Segunda Guerra Mundial. Ele era chamado de “querido líder” e cultuado como uma espécie de divindade por seu povo, com imagens suas espalhadas por todo o país. Para os ocidentais, era visto como uma figura de aparência exótica, com óculos escuros enormes e penteados extravagantes.

O Partido Trabalhista anunciou que o filho mais novo do ditador, Kim Jong-un, substituiu o pai no cargo. Pouco se sabe sobre o sucessor. Jong-un estudou na
Suíça e estima-se que tenha 28 anos (nasceu em 1983 ou 1984). Ele foi escolhido ano passado para suceder o pai em 2012. A inexperiência política de Jong-un, entretanto, poderá dificultar a manutenção do regime comunista norte-coreano.
 

Armas atômicas

A Coreia do Norte possui um PIB de US$ 28 bilhões, menor do que países africanos e 36 vezes menor do que a Coreia do Sul, de US$ 1, 007 trilhões. Apesar disso, possui o quarto maior exército do mundo, com 1,1 milhão de soldados na ativa (ou 20% da população masculina com idade entre 17 e 54 anos). O número só é menor que os efetivos dos exércitos da China (2,3 milhões), Estados Unidos (1,5 milhões) e Índia (1,3 milhões).

O Estado norte-coreano conta ainda com armas nucleares – entre 2 e 9 – e mísseis de médio alcance, que permitem atingir países vizinhos como Coreia do Sul e
Japão.

A militarização da Coreia do Norte começou após a Guerra Fria. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão desocupou a Coreia, que foi dividia em dois países: a do Sul ficou sob o controle dos Estados Unidos, enquanto a do Norte foi ocupada pela antiga
União Soviética.

Entre 1950 e 1953, as duas Coreias travaram guerra. Os confrontos foram suspensos por um cessar-fogo que dura até hoje, sem que um acordo de paz fosse assinado.

Com o fim da União Soviética e a derrocada dos regimes comunistas no Leste Europeu, a Coreia do Norte sofreu abalos econômicos. Sem os antigos parceiros comerciais, mergulhou num período de escassez de alimentos que, aliado aos desastres naturais, teria causado a morte de cerca de dois milhões de norte-coreanos nos anos de 1990.

Mesmo assim, Jong-il aplicou a maior parte dos recursos econômicos na área militar, e passou a chantagear países ocidentais com um programa atômico. Em 2006 e 2009, Pyongyang realizou dois testes com armas nucleares, violando a resolução 1.718 do Conselho de Segurança da ONU (
Organização das Nações Unidas). Desde então, a ONU vem pressionado o país comunista para que suspenda os testes e abandone o programa.

10 anos de Brics

A força dos emergentes

Há dez anos o economista inglês Jim O’Neill cunhou o acrônimo Bric para se referir a quatro países de economias em desenvolvimento – Brasil, Rússia, Índia e China – que desempenhariam, nos próximos anos, um papel central na geopolítica e nos negócios internacionais.

O acrônimo ganhou uso corrente entre economistas e se tornou um dos maiores símbolos da nova economia globalizada. Neste quadro, os países emergentes ganharam maior projeção política e econômica, desafiando a hegemonia do grupo de nações industrializadas, o G7 (formado por
Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Japão).

Desde 2009, os líderes dos países membros do Bric realizam conferências anuais. Em abril do ano passado, a
África do Sul foi admitida no grupo, adicionando-se um “s” ao acrônimo, que passou a ser Brics.

No grupo estão 42% da população e 30% do território mundiais. Nos últimos dez anos, os países do Bric apresentaram crescimento além da média mundial. Estima-se que, em 2015, o
PIB (Produto Interno Bruto) do Brics corresponda a 22% do PIB mundial; e que, em 2027, ultrapasse as economias do G7.

A China é o “gigante” do grupo. A abertura da economia chinesa, mediante um conjunto de reformas, tornou o país a segunda maior economia do planeta, atrás somente dos Estados Unidos e ultrapassando Japão e países da Europa.

A economia chinesa é maior do que a soma de todas as outras quatro que compõem o grupo. O PIB chinês, em 2010, foi de US$ 5,8 trilhões, superior aos US$ 5,5 da soma de todas as outras – Brasil (US$ 2 trilhões), Rússia (US$ 1,5), Índia (US$ 1,6) e África do Sul (US$ 364 bilhões).

Mas os chineses enfrentam hoje desafios em áreas como meio ambiente e política, alvos da pressão internacional.
 

Brasil

A inclusão do Brasil no Brics trouxe uma projeção internacional positiva, que dificilmente seria alcançada de outro modo e em um curto período. Como resultado, o país tem hoje representação nas principais cúpulas internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) e o G20.

O Brasil entrou no grupo em razão do crescimento econômico, ocorrido principalmente a partir de 2005. Esse crescimento foi possível por causa do controle da inflação, com a implantação do Plano Real, em 1994, e o aumento das exportações para países como China, principal parceiro comercial, a partir de 2001.

Com a estabilidade econômica, veio a confiança do mercado e o aumento do crédito para empresas e consumidores. O setor privado contratou mais gente, gerando mais empregos, e houve aumento de salários, fazendo que, entre 2005 e 2006, 30 milhões de brasileiros migrassem das classes D e E para a C, a classe média. Contribuíam também, para isso, programas sociais como o Bolsa Família. Assim, mais pessoas passaram a consumir, aquecendo o mercado de varejo.
 

Desigualdade

Os programas do governo Lula também tiveram reflexos no âmbito da justiça social. Na última década e meia, o país foi o único entre os Brics a reduzir a desigualdade, de acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Porém, mesmo assim, a distância entre ricos e pobres no Brasil ainda é a maior entre os países emergentes.

A desigualdade é medida pelo índice Gini, que caiu de 0,61 para 0,55 entre 1993 e 2008 (quanto menor o valor, melhor o índice). Nos demais países do Brics, houve aumento. Mesmo assim, o Gini do Brasil é o maior entre eles e o dobro da média dos países ricos: no Brasil, 10% dos mais ricos ganham 50 vezes mais do que os 10% mais pobres.

Outro desafio para o país é fazer ajustes na política econômica. A divulgação do resultado do PIB do terceiro trimestre deste ano, que registrou uma variação zero em relação ao trimestre anterior, apontou a desaceleração da economia. Para sair da estagnação, o governo terá que fazer reformas, inclusive no sistema de tributação, para estimular o investimento por parte do setor privado.

Primavera árabe

Egípcios vão às urnas, mas repressão continua na Síria

Quase um ano após o início dos protestos no Oriente Médio, o Egito realiza as primeiras eleições livres de sua história. Porém, enquanto os egípcios dão o primeiro passo rumo à democracia, as revoltas continuam em países como a Síria, onde a repressão fez milhares de vítimas, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas).

Até agora, a “primavera árabe” derrubou três ditadores, na
Tunísia, no Egito e na Líbia. Em outros países, como Jordânia, Bahrein, Iêmen e Síria, manifestações populares levaram ao anúncio de reformas ou violentas reações do Estado.

Nações árabes, tradicionalmente, são governadas por monarquias absolutistas, ditaduras militares ou teocracias, que controlam algumas das maiores reservas de petróleo do planeta. Os protestos pró-democracia se espalharam pelo Norte da África e Oriente Médio, em razão da alta do preço dos alimentos, do desemprego e da insatisfação de uma geração jovem com a falta de liberdade.

A
primeira queda de um ditador aconteceu na Tunísia, em 14 de janeiro. O presidente Zine El Abidine Ben Ali renunciou depois de 23 anos no cargo. Em 23 de outubro foi eleita a Assembleia Nacional Constituinte, na primeira eleição livre ocorrida no país.

Na
Líbia, Muammar Gaddafi foi expulso do Palácio por forças rebeldes em agosto, ao final de seis meses de guerra civil. Dois meses mais tarde, foi capturado e morto pelos revoltosos. Entre os líderes árabes, era o que estava há mais tempo no poder – 41 anos.

O Conselho Nacional de Transição (CNT), que assumiu o controle da Líbia, prometeu realizar eleições no prazo de oito meses.
 

Egito

No Egito, mais influente e populoso país árabe (82 milhões de habitantes), o presidente Hosni Mubarak renunciou em 11 de fevereiro, encerrando três décadas de ditadura. Mesmo assim, os protestos recomeçaram em 19 de novembro, desta vez contra a junta militar que constituiu o governo provisório. Os manifestantes exigem a transição para um governo civil.

Na tentativa de conter os levantes, que já mataram 42 pessoas nas últimas semanas, as eleições parlamentares foram antecipadas. A votação começou em 28 de novembro e o processo terminará em 11 de janeiro.

Serão eleitos 498 deputados para a Assembleia do Povo ou Câmara Baixa do Parlamento. Um terço dos cargos será preenchido pelos candidatos mais votados, e o restante, eleito pelo sistema proporcional (por exemplo, se um partido tiver 10% dos votos, terá direito a ocupar 10% das cadeiras).

A despeito da precariedade política – os partidos de oposição eram proibidos durante a ditadura – a população compareceu às urnas para escolher entre 10 mil candidatos e 40 partidos diferentes. Dados preliminares apontam vitória da Irmandade Muçulmana, do recém-fundado Partido Liberdade e Justiça (PLJ).

Se isso se confirmar, grupos fundamentalistas islâmicos, que venceram também as eleições na Tunísia e no Marrocos, serão a principal força no cenário político pós-ditatorial no Oriente. O sucesso eleitoral desses partidos religiosos preocupa sobretudo Israel, devido ao seu conflito histórico com o mundo islâmico.
 

Massacre

Em outros países, revoltas e reformas estão em curso. O caso mais dramático ocorre na Síria, onde a repressão do governo de Bashar al-Assad (há 11 anos na Presidência) estaria promovendo o maior massacre contra opositores do regime desde o começo da “primavera árabe”.

Segundo um relatório da ONU, divulgado no dia 28 de novembro, 3,5 mil pessoas foram assassinadas, incluindo 256 crianças, e mais de 20 mil foram presas. A violência afetaria 3 milhões de pessoas na Síria, que possui 22,5 milhões de habitantes.

O governo estaria impedindo a população de fugir do país, colocando minas terrestres e soldados armados nas fronteiras. O relatório conclui que a Síria cometeu crimes contra a humanidade durante a repressão aos manifestantes, desde março deste ano.

No começo do mês, o governo sírio firmou um acordo com a Liga Árabe para o término da repressão, a libertação de presos políticos e a promoção de reformas políticas. As medidas, contudo, não entraram em vigor, e aumentaram a pressão internacional e as sanções contra o governo de al-Assad.

No Iêmen, uma das nações mais pobres do mundo árabe, o ditador Ali Abdullah Saleh assinou um acordo, em 23 de novembro, que prevê sua renúncia e eleições livres. Saleh, que escapou ferido de um atentado em junho, governa há 33 anos.

A pressão popular também resultou em reformas na Jordânia, anunciadas pelo rei Abdullah 2º. Já no Bahrein, o rei sunita Hamad al Khalifa resiste com violência aos opositores da monarquia.

Pré-sal

Vazamento no Rio revela despreparo de autoridades

O vazamento de milhares de litros de petróleo na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, evidenciou o quanto o governo brasileiro está despreparado para lidar com acidentes dessa natureza.

O acidente aconteceu no Campo do Frade, localizado a 120 km do litoral fluminense, no dia 8 de novembro. Ainda não se sabe ao certo a extensão do desastre e nem o impacto à biodiversidade marinha e à pesca na região.

A multinacional Chevron do Brasil, que explora o campo, assumiu a responsabilidade pelo derramamento de óleo. No dia 23 de novembro, a ANP (Agência Nacional do Petróleo) determinou a suspensão das atividades da empresa no país até que sejam explicadas as causas e identificados os responsáveis pelo acidente.

A ANP também negou o pedido de abertura de um novo poço no Campo do Frade, que teria como objetivo atingir a camada pré-sal. A empresa americana explora 12 poços na Bacia de Campos e produz 79 mil barris diários.

A Chevron já recebeu multas de R$ 50 milhões e de R$ 100 milhões, aplicadas, respectivamente, pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e pela ANP. O Estado do Rio de Janeiro também entrou com uma ação civil pública para pedir indenizações de R$ 100 milhões.

Especialistas, no entanto, acham baixos os valores das multas: para as empresas, dizem, é mais barato correr o risco de poluir o ambiente do que investir em equipamentos caros de prevenção.

Para se ter uma ideia, o valor da multa do Ibama representa menos de 1% do plano de investimento de US$ 5 bilhões da Chevron no país, no prazo de dez anos.

O desastre aconteceu durante a perfuração de um poço de petróleo no fundo do mar. Segundo a petroleira, o derramamento durou quatro dias ? o poço começou a ser fechado dia 13 ?, e o óleo que continua vazando é ?residual? (20 barris de petróleo por dia).

A mancha de óleo se estendeu por uma área de 163 quilômetros quadrados, o equivalente a 16,3 mil campos de futebol. No último dia 22, a ANP informou que a mancha havia sido reduzida a dois quilômetros quadrados.

O volume vazado seria o correspondente a 2,4 mil barris (381,6 mil litros), de acordo com a Chevron. Dezenas de espécies de baleias, golfinhos e pequenos cetáceos que usam a Bacia de Campos como rota de migração podem ser afetados pelo óleo.

Em janeiro de 2000, 1,3 milhão de litros de óleo vazaram na Refinaria Duque de Caxias, da Petrobras, na Baía de Guanabara. Em julho do mesmo ano, outros 4 milhões de litros de óleo cru foram derramados da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, em Araucária (PR).

Despreparo

A Bacia de Campos possui as maiores reservas de petróleo do Brasil e responde por 80% de toda a produção nacional do minério. Há quatro anos foi anunciada as descoberta de uma imensa reserva na camada pré-sal, o que tornaria o Brasil um dos principais produtores e exportadores mundiais de petróleo e derivados.

Há hoje 140 plataformas marítimas em atividades nas bacias de Campos, Santos e Espírito Santo, a maioria pertencente à Petrobras.

O vazamento no Campo do Frade serviu de alerta para a falta de fiscalização e de preparo do Estado em prevenir e conter desastres ambientais provocados por derramamento de óleo, na exploração de petróleo na camada pré-sal.

Como o pré-sal fica distante da costa, medidas de segurança envolvem custos mais altos e complexa logística na sua adoção.

No ano passado, após o desastre ocorrido no Golfo do México, um dos maiores vazamentos do mundo, o governo brasileiro se comprometeu em criar um Plano Nacional de Contingência para Derramamento de Óleo.

O objetivo do plano seria preparar uma estratégia de contenção de vazamentos de grandes proporções, evitando a degradação ambiental, contaminação da fauna e da flora marinhas e prejuízos à pesca e turismo. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o projeto está em fase de conclusão e será enviado ao Congresso para ser votado.

Revolta na USP

Protestos vão além da questão da segurança

Setenta e dois estudantes foram detidos no último dia 8 de novembro durante a desocupação da reitoria da USP (Universidade de São Paulo), a mais prestigiada universidade do país, realizada pela Tropa de Choque da Polícia Militar.

Eles foram liberados após o pagamento de fiança e podem responder a crimes de desobediência à ordem judicial (em razão de não terem respeitado o prazo dado pela Justiça para desocuparem o imóvel), e dano ao patrimônio público.

Foi o episódio mais dramático de uma crise política na universidade, motivada por um convênio firmado entre a USP e a PM para aumentar a segurança na Cidade Universitária, situada no bairro Butantã, zona oeste de São Paulo.

Os alunos ocupavam o prédio desde o dia 2 de novembro, em protesto contra a presença da PM no campus e processos administrativos envolvendo funcionários e estudantes da instituição. Segundo os manifestantes, os processos teriam o objetivo de intimidar o movimento estudantil.

A USP é a maior universidade pública do Brasil, com aproximadamente 75 mil estudantes matriculados, e é considerada a melhor da América Latina. O exame de admissão é o maior e um dos mais concorridos do país.

O estopim das manifestações foi um conflito entre estudantes e policiais ocorrido em 27 de outubro, após a detenção de três alunos, por posse de maconha, no estacionamento da faculdade de História e Geografia. Viaturas policiais foram depredadas e os policiais reagiram lançando bombas de gás lacrimogêneo.

No dia seguinte, estudantes invadiram um prédio administrativo da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) e, uma semana depois, ocuparam a reitoria.

A segurança da universidade era feita por empresas privadas contratadas pela USP. Em 8 de setembro, porém, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o reitor João Grandino Rodas assinaram um convênio com a PM para assegurar a presença mais frequente de rondas policiais.

A medida foi adotada depois do assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva, 24 anos, no estacionamento da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade), durante uma tentativa de roubo.

Cidades universitárias são espaços públicos onde circulam milhares de pessoas, não somente estudantes e funcionários. O problema na USP é que a falta de iluminação, a presença de bosques e a longa distância entre os prédios prejudicam a segurança.
 

Interesses políticos

Parte dos estudantes é contrária à presença da Polícia Militar na Cidade Universitária por acreditarem que a policia coíbe manifestações e contraria o princípio de autonomia da universidade. Confrontos entre policiais e estudantes aconteceram em outras ocasiões, em 2007 e 2009.

O DCE (Diretório Central dos Estudantes) defende que a segurança fique a cargo da Guarda do Campus. Uma pesquisa recente feita pelo Datafolha, entretanto, apontou que 58% dos alunos são favoráveis à presença da PM.

Já a reitoria alega que os manifestantes, que representam uma minoria dos estudantes da USP, são manipulados por partidos políticos de esquerda e sindicatos. De fato, os jovens são ligados ou influenciados por partidos como o PSOL e o PSTU e a central sindical CSP-Comlutas, à qual o Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) é filiado.

A insatisfação dos alunos, porém, vai além das questões de segurança. Eles reivindicam eleições diretas para a reitoria (o que depende da mudança do estatuto). Atualmente, o reitor é indicado pelo governador de São Paulo a partir de uma lista de três nomes de professores titulares escolhida pelo Conselho Universitário.

Após a detenção dos manifestantes, alunos das faculdades de Comunicação e Artes (ECA) e Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP entraram em greve. Houve também passeatas dentro do campus e nas ruas do centro de São Paulo. Entre os dias 22 e 24 de novembro acontecem eleições do DCE da USP, que deve decidir o futuro do movimento.

Demografia

Os desafios de um planeta com 7 bilhões de pessoas

 A população mundial atingiu os 7 bilhões de habitantes no dia 31 de outubro, segundo estimativas da ONU (Organização das Nações Unidas). O ritmo acelerado de crescimento populacional impõe desafios para garantir uma convivência mais equilibrada nos centros urbanos, nas próximas décadas.

Durante séculos, o número de pessoas na
Terra aumentou muito pouco. A marca de 1 bilhão de habitantes foi alcançada em 1800. A partir dos anos 1950, porém, melhorias nas condições de vida em regiões mais pobres provocaram uma rápida expansão. Em apenas meio século, a população mais do que dobrou de tamanho, chegando a 6 bilhões em 2000.

As projeções indicam que, em 2050, serão 9,3 bilhões de habitantes no planeta, índice que atingirá os 10 bilhões até o final do século, antes de estabilizar. O aumento ocorrerá principalmente em países africanos que registram altas taxas de fertilidade.

A
China é hoje o país mais populoso do mundo, com 1,35 bilhão de pessoas, seguida da Índia, com 1,24 bilhão. Mas, segundo a ONU, em 2025 a Índia terá 1,46 bilhão de habitantes, ultrapassando os estimados 1,39 bilhão de chineses nesta data.

O problema não é acomodar tanta gente: há espaço de sobra. As questões envolvem o balanço entre população idosa e jovem, uso de recursos naturais, fluxo migratório e desenvolvimento sustentável em zonas urbanas, que concentrarão 70% da população mundial.

Em 2008, pela primeira vez na historia, havia mais gente morando em cidades que no campo. Em 1975, havia três megacidades (aglomerados urbanos com mais de 10 milhões de pessoas) no mundo: Nova York, Tóquio e Cidade do México. Hoje, são 21, entre elas São Paulo e Rio de Janeiro. Essas cidades demandam soluções para problemas como trânsito, violência, saneamento básico e desemprego.

O aumento populacional cria também disparidades sociais. Nos países mais pobres, como no continente africano, as altas taxas de fecundidade e o crescimento da população mais jovem dificultam o desenvolvimento. Não há emprego para todos e nem acesso à educação de qualidade.
Já em nações ricas, como o
Japão e países europeus, o problema é o envelhecimento do povo. O maior número de pessoas idosas reduz a força de trabalho e sobrecarrega os sistemas previdenciários, onerando o Estado.

Por isso, governos usam estratégias opostas: campanhas de controle da natalidade no primeiro caso, como prevenção de gravidez na adolescência, e estímulo econômico às mulheres para que tenham mais filhos, no segundo.

Em geral, as taxas de fecundidade (número médio de filhos por mulher) caíram de 6 filhos para cada mulher para 2,5, desde os anos 1970. As causas foram os avanços sociais e econômicos, que permitiram às mulheres acesso à educação, trabalho e métodos contraceptivos.

Mas, ao mesmo tempo, a expectativa de vida passou de 48 anos, no início da década de 1950, para 68 anos na primeira década do século. E a mortalidade infantil, que era de 133 mortes para cada 1 mil nascimentos, na década de 1950, caiu para 46 mortes em cada 1 mil, no período entre 2005-2010.

Jovens com menos de 25 anos compõem 43% da população mundial. Eles representam uma importante mão de obra para estimular economias, sobretudo aquelas em crise; mas, para isso, precisam ter educação, saúde e emprego.
 

Brasil

No Brasil, há uma tendência para o envelhecimento da população, que é hoje de 192 milhões de habitantes. Em 1960, cada mulher tinha uma média de 6 filhos, taxa reduzida para 2,4 no começo deste século.

Na última década, projeções apontam uma tendência de queda para índices entre 1,8 e 1,9, abaixo da taxa de reposição de 2,1 filhos. São taxas de fecundidade próxima a países como
Alemanha, Espanha, ItáliaJapão e Rússia.

O aspecto positivo é que isso contribui para a diminuição da pobreza, pois o Estado tem menos crianças para assistir e há mais mulheres no mercado de trabalho. Contudo, nesse ritmo, o país terá que lidar em breve com gastos causados pelo envelhecimento populacional. Estima-se que, em 2100, os idosos com mais de 80 anos serão 13,3% da população brasileira, superando a parcela de pessoas economicamente ativas.

Enquanto isso, o país aproveita uma característica demográfica que favorece o crescimento econômico: há um número maior de adultos, ou seja, de pessoas em idade produtiva que não dependem do Estado. É o chamado “bônus demográfico”, que dura um tempo determinado e deve ser aproveitado.

Por esta razão, especialistas afirmam que agora é o momento de pensar políticas públicas para lidar com o envelhecimento dos brasileiros. Outro ponto importante é o planejamento urbano. O Brasil, com 85% pessoas vivendo nas cidades, é um dos países mais urbanizados do mundo, e, com mais gente vivendo nas cidades, há mais demanda por habitação, saneamento e transporte público, postos de trabalho, saúde e educação.

Eleição na Argentina

Economia garante reeleição de Cristina Kirchner

Crescimento econômico e programas sociais asseguraram a reeleição da presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner no domingo (23 de outubro), com 54% dos votos contra 17% do segundo colocado, o socialista Hermes Binner.

Foi o resultado mais expressivo nas urnas desde a redemocratização do país em 1983, quando Raúl Alfonsin foi eleito com 51% dos votos. Cristina também se tornou a primeira mulher reeleita na história da
Argentina.

O resultado confirma a popularidade da ex-senadora, que possui as maiores taxas de aprovação entre os eleitores desde o governo de
Juan Domingos Perón (também eleito para dois mandatos sucessivos).

Há quatro anos, contudo, Cristina não tinha o mesmo apelo junto à população argentina. Quando assumiu o cargo, em 2007, era apenas a primeira dama que governaria à sombra do marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (1950-2010).

Na época, o baixo índice de popularidade (23%) apontava somente um mandato, sem expressão e debilitado, ao final de 2009, com a perda da maioria aliada na Câmara dos Deputados.

Entretanto, com a morte do marido, há quase um ano, Cristina assumiu a frente das políticas sociais e econômicas e revelou força política, mesmo em ações polêmicas. Na Casa Rosada, perseguiu adversários e iniciou uma campanha contra o jornal Clarín, o maior grupo midiático argentino, ao mesmo tempo em que promoveu julgamentos de crimes da ditadura (1976-1983).

Para os 40 milhões de argentinos, porém, os bons rumos na economia foram decisivos nessas eleições. Para eles, a crise econômica que o país enfrentou entre 1998 e 2002 é um pesadelo ainda recente. Na virada do século, o PIB (Produto Interno Bruto) havia encolhido quase 20%, mais do que a
Grécia atualmente.

Em resposta, Néstor Kirchner declarou moratória na dívida externa e revitalizou a indústria, impulsionada pelas exportações para a
China e o Brasil, de quem a Argentina é o principal parceiro comercial.

Crescimento

Assim, em plena crise financeira mundial, em 2008, o país crescia em ritmo asiático – mais de 8% desde 2003. No primeiro mandato, Cristina e o marido adotaram uma agenda de programas sociais, semelhante ao governo Lula, voltada para as camadas mais pobres da população.

Foram criados 3,5 milhões de postos de trabalho com carteira assinada e o índice de pobreza caiu de 50% em 2002 para uma média atual de 20% (dados oficiais, duvidosos, apontam 8%).

Outras medidas populares incluíram o pagamento de aposentadorias para trabalhadores informais, que não contribuem com a Previdência Social, e políticas de estímulo ao consumo, o que aumentou a venda de veículos e eletrodomésticos.

E os desafios do novo mandato de Cristina, que vai até 2015, são justamente nessa área. Um dos problemas é o desaquecimento de economias como a brasileira, que sustentam os programas sociais argentinos por meio das exportações. Os gastos públicos com o bem-estar social desequilibram as contas fiscais do governo argentino (a relação entre o dinheiro arrecadado com impostos e gasto pelo Estado).

Além disso, a inflação cresce e afeta, sobretudo, as regiões mais pobres do país. Dados oficiais indicam um índice de inflação de 11%, mas especialistas sustentam taxas entre 20% e 25% nas províncias.

Juntos, esses dois fatores, somados à recessão econômica no cenário internacional, formam um panorama incerto para o segundo mandato da presidente, que deve fazer ajustes na economia que a ajudou a se eleger.
 

Indignados

Crise econômica motiva protestos pelo mundo

Uma onda de manifestações contra o sistema financeiro mundial se espalhou por dezenas de países no último dia 15 de outubro. O movimento, chamado na Europa de “Indignados” e, nos Estados Unidos, de “Ocupe Wall Street”, é uma reação contra os cortes de gastos públicos feitos pelos governos para combater a recessão.

Os ativistas culpam os governos e as instituições financeiras pelo crescimento das taxas de desemprego e da desigualdade em países atingidos pela
crise de 2008. Na época, para impedir um colapso no mercado, bancos tiveram que ser “salvos” com recursos públicos, aumentando a dívida dos Estados. Agora, para equilibrar as contas, foi preciso reduzir despesas, com o corte de benefícios sociais, e elevar os impostos.

Na zona do Euro, países como
Portugal, Espanha e Grécia enfrentam os piores déficits no orçamento (a diferença entre o quanto o país gasta e quanto arrecada) desde o período da Segunda Guerra Mundial. Em resposta, foram lançados “pacotes” de austeridade fiscal que atingiram o modelo de Estado de Bem Estar Social europeu.

Desde o ano passado são registrados protestos na
Europa. No entanto, essa foi a primeira vez que houve uma reação em escala global contra a política econômica. Segundo os organizadores, foram anunciadas marchas contra a “ganância corporativa” em 951 cidades de 82 países, incluindo o Brasil, que teve participação inexpressiva (no Rio de Janeiro, por exemplo, a ato reuniu apenas 37 pessoas).

Nos
Estados Unidos, milhares de pessoas ocuparam a Times Square, cartão postal de Nova York. Alguns clientes do Citibank – segundo maior banco do país, que recebeu recursos federais para evitar a falência – protestaram retirando dinheiro ou fechando suas contas.

Ruas e praças das capitais de países europeus, como
Reino Unido, Alemanha, Espanha, Portugal, Grécia e França, foram tomadas por milhares de manifestantes, com registros isolados de prisões. Em Roma, porém, um grupo de jovens encapuzados atacou prédios, lojas e carros. Os confrontos com a polícia deixaram 70 feridos.

Multidões também foram às ruas no
Chile (onde desde junho estudantes pedem reformas no ensino), Lima, Cidade do México, Sydney e Tóquio. Mesmo em países asiáticos onde atos públicos são raros ou proibidos, houve marchas, como em Taiwan e Cingapura.

As manifestações aconteceram na mesma semana em que os ministros das Finanças do G20 se reuniram na França para discutir a crise das dívidas públicas na Europa e nos Estados Unidos.

Indignados

As revoltas começaram em 15 de maio em Madri, na Espanha, onde o movimento ficou conhecido como “Indignados” ou 15M (em referência à data dos primeiros protestos). Os espanhóis se queixam do alto índice de desemprego no país (20%) e da influência das instituições financeiras nos rumos da política. O país enfrenta uma das piores recessões econômicas de sua história.

Em 17 de setembro, surgiu nos Estados Unidos o “Ocupe Wall Street” (Occupy Wall Street), inspirado no movimento espanhol. Os integrantes do grupo montaram acampamento na praça Zuccotti, no centro financeiro de Nova York, e criaram um site para divulgar suas ações (http://occupywallst.org ).

Logo, as marchas se espalharam por dezenas de cidades americanas, como Los Angeles, São Francisco, Boston e Washington. Os jovens ganharam a adesão de sindicatos e a simpatia do Partido Democrata, do presidente
Barack Obama.

No começo do mês, 700 pessoas foram detidas pela polícia quando rumavam à praça Zuccotti. Apesar disso, o movimento se fortaleceu em um mês de atividade, arrecadando doações através da internet.

A diferença, de acordo com especialistas, é que os “indignados” possuem reivindicações mais específicas na Espanha, ao passo que este último tem uma agenda mais vaga, contra os bancos de seguros e hipotecas e a desigualdade social.

É incerto se esse movimento será capaz de provocar mudanças concretas como acontece, em outro contexto, no Oriente Médio, nas chamadas “
primaveras árabes”. Mas os “indignados” conseguiram pelo menos chamar a atenção da imprensa e das autoridades.

Steve Jobs (1955-2011)

O gênio que "humanizou" a tecnologia

Nas últimas três décadas, o computador pessoal permitiu acesso a serviços em rede que mudaram os hábitos de pessoas em todo o mundo, tornando-se um utensílio indispensável nos lares. Mais recentemente, dispositivos móveis como smartphones e tablets conferiram mobilidade aos recursos oferecidos na internet, unindo-os à telefonia e à editoração.

Por trás dessas inovações estava o talento de Steve Jobs. Morto no último 5 de outubro aos 56 anos, vítima de uma forma rara de câncer no pâncreas, o fundador da Apple transformou as indústrias de computação, música, telefonia, publicação e animação digitais.

A originalidade do executivo consistia em melhorar os produtos eletrônicos, de modo a proporcionar funcionalidade, viabilidade comercial e popularidade aos aparelhos. À frente da empresa que criou e presidia desde 1997, desenvolveu uma linha de produtos com o prefixo “i” que viraram sinônimos de tecnologia e design.

No começo do século, a Apple lançou o tocador de música iPod, que mudou a maneira de se consumir música e, juntamente com a loja virtual iTunes, apontou caminhos para a indústria fonográfica, debilitada por conta da pirataria.

Com o iPhone, que substituiu os teclados pela tela sensível ao toque, a empresa popularizou os telefones com acesso à internet, os chamados smartphones. Por fim, o iPad revolucionou os tablets e inaugurou uma era pós-PC.

No ramo dos negócios, Jobs desenvolveu um padrão de sucesso. No período em que ficou afastado da firma, entre 1985 e 1996, a Apple quase foi à falência diante de seu maior concorrente: a Microsoft, de Bill Gates. Com o retorno de Jobs, o valor das ações cresceu de US$ 5 para mais de US$ 370. Sob seu comando, a Apple se tornou uma das corporações com maior valor de mercado do mundo.

Em tratamento médico desde 2004, ele somente deixou a presidência em agosto deste ano, para ficar ao lado da mulher e dos quatro filhos.
 

Computadores

Steven Paul Jobs nasceu em 24 de fevereiro de 1955 em São Francisco, Califórnia, filho de dois estudantes universitários que o colocaram para adoção. Em meio ao ambiente hippie dos anos 1960, experimentou drogas psicodélicas e abandonou a faculdade aos 17 anos para fazer um curso de caligrafia e uma viagem à Índia.

Quando retornou aos
Estados Unidos, criou, junto com o amigo Steve Wozniak, o primeiro computador pessoal do mundo, o Apple 2. Nascia ali, na garagem dos pais, em 1976, a empresa que faria do computador um produto de massa, um eletrodoméstico tão comum quanto TV e geladeira.

Na área da computação, a maior contribuição de Jobs foi o Macintosh, desenvolvido em 1984. O Macintosh virou referência em computadores pessoais. Diferente dos demais à época, o aparelho tinha uma interface gráfica mais intuitiva, com ícones que facilitavam o acesso aos arquivos. Antes, era preciso digitar comandos para interagir com a máquina.

No ano seguinte, aos 30 anos de idade, Jobs foi afastado de sua própria companhia, numa disputa de poder com um executivo que ele mesmo contratara. Ao sair, fundou outra firma de computação, a NeXT, e comprou de George Lucas, por US$ 10 milhões, a produtora de animações Pixar. Duas décadas mais tarde, a Pixar, que tinha em seu cartel sucessos como “Toy Story” e “Procurando Nemo”, foi vendida por US$ 7,4 bilhões.

Em 1997, Jobs retornou à Apple para salvar a empresa da falência. Lançou, nos anos seguintes, o iPod (2001), o iPhone (2007) e o iPad (2010), fazendo da Apple uma das empresas mais lucrativas do planeta.
 

Design

Steve Jobs não era um engenheiro e não aperfeiçoou hardware ou software. Sua genialidade consistia em combinar um apurado senso estético com uma visão de mercado muito à frente de seus concorrentes.

Apesar de ter registrado 313 patentes, ele não inventou os maiores sucessos da Apple, mas os aprimorou e soube vendê-los aos consumidores.

O design da tecnologia está ligado à funcionalidade dos aparelhos e à interface entre o homem e a máquina. Neste campo, Jobs se tornou uma referência, com soluções simples e esteticamente perfeitas. Sem ele, os computadores ainda seriam uma tela com comandos.

Já como chefe, era conhecido por ser perfeccionista, rígido e até cruel com os funcionários. Ele não hesitava em demitir um empregado que não atendesse aos seus exigentes padrões de excelência.

Porém, foi assim que definiu um modelo de gestão que, hoje, permite à Apple formar lideranças entre seu quadro de empregados, garantindo, assim, a sobrevivência da corporação à morte de seu maior símbolo.

Teoria da relatividade

Será que Einstein errou?

Pode-se dizer, sem exagero, que as mudanças ocorridas no mundo neste último século, promovidas pela tecnologia, tiveram origem na mente de Albert Einstein (1879-1955). Da bomba atômica à TV, as teorias do físico alemão não somente transformaram o cotidiano como alteraram radicalmente a compreensão humana do universo.

Por este motivo, causou espanto o anúncio de um experimento que provaria que Einstein estava errado. Se esses cientistas estiverem corretos – por enquanto, o clima é de ceticismo entre os físicos – um dos pilares da ciência contemporânea pode ter sofrido seus primeiros abalos.

No começo do século 20, Einstein revolucionou a Física com as
teorias da relatividade especial (ou restrita) e geral. Ao lado da mecânica quântica, que estuda o universo das partículas subatômicas, a relatividade redefiniu os rumos da ciência.

A teoria da relatividade geral substituiu a lei da gravidade de
Newton. Enquanto em Newton a gravidade é uma força invisível que atua a distância, atraindo os corpos celestes, em Einstein, a matéria curva o espaço-tempo, de forma que os planetas “rolem” em suas bordas. É como se o espaço fosse uma superfície emborrachada, deformada pelo peso das estrelas, atraindo outros astros para os cantos da depressão.

Já a teoria da relatividade especial, expressa pela fórmula E=mc2, relaciona matéria e energia de uma maneira inteiramente nova. De acordo com a equação, a energia usada para acelerar alguma coisa (uma partícula ou um carro, por exemplo) altera a massa deste objeto. Quanto maior for a massa, portanto, mais energia será dispensada para a aceleração.

Por isso, a teoria implica que nada na natureza poderia mover-se mais rápido do que a velocidade da luz no vácuo (aproximadamente, 299.792 km por segundo). O motivo é que, para isso, seria necessária uma quantidade incalculável de energia!

Milhares de experimentos confirmaram a teoria da relatividade especial. Ela possibilitou a invenção de tecnologias como a bomba atômica, os televisores e os aparelhos de GPS, além de fornecer explicações a respeito da geração de energia em estrelas como o Sol.

Agora, cientistas do prestigiado Centro Europeu de Investigação Nuclear (Cern, na sigla em inglês), em Genebra, afirmam ter descoberto partículas subatômicas que se movem mais rápido do que a luz. Será que o físico mais famoso do mundo estava errado?

O experimento consistiu em enviar um feixe de um tipo de neutrinos, via o subsolo, das instalações do Cern até o laboratório de Gran Sasso, na Itália, localizado a 732 km de distância. Neutrinos são partículas subatômicas com uma tênue interação com a matéria: eles atravessam a Terra e os nossos corpos sem que percebamos.

De acordo com os cientistas, as partículas chegaram ao destino a 60 nanossegundos (1 nanossegundo é equivalente a 1 bilionésimo de um segundo) mais rápido do que a luz. O problema é que, de acordo com Einstein, isso é impossível de acontecer na natureza.

Já era sabido que os neutrinos podiam viajar a velocidades próximas da luz, mas foi a primeira vez que foi provado que podem ultrapassá-la. O experimento foi repetido e medido 15 mil vezes até que o laboratório divulgasse a descoberta para o parecer da comunidade acadêmica.
 

Ceticismo

Como toda teoria científica, essa também deve ser submetida a testes sucessivos antes de ser validada. A própria teoria da relatividade, quando formulada após anos de maturação, sofreu resistência e só foi aceita depois que experimentos a comprovaram.

A descoberta divulgada pelo Cern, portanto, depende de análise dos dados e repetição dos testes. Entre os possíveis erros que podem invalidar os resultados estão as próprias condições de realização da experiência e a calibragem dos instrumentos medidores. Como os neutrinos são muito instáveis, torna-se difícil prever com exatidão seu comportamento.

Os cientistas têm reagido com cautela. O físico brasileiro Marcelo Gleiser, por exemplo, acha pouco provável que a teoria da relatividade esteja errada, ainda que não seja imune a revisões.

Mesmo que algumas partes da teoria de Einstein sofram ajustes, dizem os especialistas, ela permanecerá válida no conjunto. Foi o que aconteceu com a física de Newton. Ela continua funcionando dentro dos limites do mundo tridimensional, ou seja, os cálculos permitem construir pontes e erguer paredes. Mas, para o universo dos átomos ou em velocidades próximas à da luz, o sistema newtoniano é abandonado.

Caso o experimento do Cern seja comprovado, este pode ser o início de uma nova revolução na física. Se Einstein estiver errado, o universo, tal como conhecemos, não será mais o mesmo. Coisas estranhas como viagens no tempo, antes restritas ao campo da ficção, serão possíveis – ao menos para os neutrinos.

Lixo espacial
Detritos em órbita oferecem risco à exploração do espaço
O lixo resultante da ação humana não polui somente terra, ar e oceanos. Desde que o primeiro satélite artificial entrou em órbita, há mais de meio século, os detritos espaciais acumulados em órbita do planeta se tornaram um problema para a vida na Terra.

Estima-se que mais de 19 mil objetos maiores de dez centímetros, além de outros 500 mil menores, compõem uma nuvem de lixo espacial ao redor da Terra. Eles provêm de foguetes e satélites desativados, fragmentos de naves e até ferramentas usadas por astronautas.

Os riscos de um destes objetos cair na Terra e atingir uma pessoa são remotos. Porém, os detritos podem colidir com satélites em operação e missões tripuladas, prejudicando a exploração do espaço.

Segundo a Nasa (agência espacial dos
Estados Unidos), cerca de 200 entram na atmosfera terrestre todos os anos e se desintegram após entrar em combustão. Alguns, no entanto, podem atingir o planeta. Foi o que aconteceu no dia 24 de setembro, quando restos de um satélite desativado caíram no Oceano Pacífico.

O UARS (Satélite de Pesquisa de Alta Atmosfera, na sigla em inglês) foi lançado em 1991, pelo ônibus espacial Discovery, com a missão de estudar a camada de ozônio. Ele foi “aposentado” em 2005, após ficar sem combustível. O satélite tinha o tamanho de um ônibus e pesava seis toneladas, sendo o maior a retornar à Terra em três décadas.

Na reentrada da atmosfera, o UARS se esfacelou. Mesmo assim, cerca de 500 kg de peças chegaram até o oceano.

Os cientistas haviam avisado que as chances de fragmentos atingirem áreas povoadas eram remotas. A razão disso é que 70% do planeta é coberto de água, sem contar as regiões desérticas.

De acordo com a Nasa, não há registros de ferimentos causados pela queda de detritos vindos do espaço. O único caso conhecido de uma pessoa atingida por entulho espacial aconteceu em 1997. A americana Lottie Williams foi alvejada no ombro por um pedaço de foguete, sem sofrer ferimentos.

O lixo espacial é produto do avanço tecnológico. Satélites de telecomunicações, mapeamento por GPS e previsão meteorológica possuem um tempo de vida útil que pode ser de até uma década. Após serem desligados, são deixados em órbita, devido ao alto custo de resgatá-los para governos e empresas. Tornam-se “ferro-velho” no espaço.

No começo do mês, um relatório do Conselho Nacional de Pesquisa alertou para os perigos do aumento de detritos, o que poderia danificar espaçonaves e satélites em funcionamento.
 

Acidentes

Apesar de nenhuma tragédia ter acontecido, incidentes ocorrem com certa regularidade. Em 1996, o satélite militar francês Cerise foi praticamente destruído por um pedaço de metal proveniente de um foguete lançado dez anos antes. Ônibus espaciais e até o telescópio Hubble já sofreram reparos por conta do problema.

Em 2009, o satélite russo Cosmos-2251, lançado em 1993 e, na época, desativado, colidiu com o satélite de comunicações americano Iridium 33. Foi a primeira maior colisão de satélites artificiais na órbita terrestre. Vários detritos foram gerados pelo choque, que destruiu o satélite russo.

No caso mais recente, em junho deste ano, seis astronautas foram obrigados a abandonar a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) em razão de um alerta de colisão com entulhos.

O pior cenário é a chamada Síndrome de Kessler. Segundo o consultor da Nasa, Donald J. Kessler, a colisão de detritos poderia causar uma reação em cadeia – uma peça fragmentando a outra em pedaços menores –, formando um cinturão de lixo que inviabilizaria a exploração espacial.

Hoje não existe nenhuma tecnologia que permita a “limpeza” do espaço. Os custos de uma operação de remoção dos materiais são muito altos. Além disso, há questões políticas, envolvendo propriedade e a responsabilidade de governos e empresas que colocam os aparelhos em órbita.

Em 2007, os chineses desenvolveram um satélite que destruiria outros, desativados, mas a experiência foi um fracasso: um deles se desintegrou em dois mil pedaços, agravando o problema.

Recentemente, cientistas propuseram o lançamento de um satélite que acoplaria motores propulsores aos resíduos para que eles fossem levados até a atmosfera, onde se desintegrariam. Outras propostas incluem redes metálicas gigantes, canhões lasers e fios condutores de cobre inseridos em satélites para que pudessem ser atraídos pelo campo magnético da Terra.

Mas talvez a maneira mais simples seja a programação para que os dispositivos, uma vez obsoletos, sigam as chamadas “órbitas-cemitérios”, permanecendo à deriva num espaço seguro, longe do planeta.

O
Brasil, que possui satélites de comunicações e científicos em órbita, também tem sua parcela de responsabilidade pelo lixo espacial.
 
Estado palestino
Autoridade Nacional propõe reconhecimento na ONU
Sem sucesso em acordos de paz com Israel, a Autoridade Nacional Palestina decidiu mudar de estratégia e propor na 66ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) o reconhecimento do Estado Palestino nas fronteiras pré-1967, situando a capital na parte oriental de Jerusalém. A proposta é recusada por Israel e Estados Unidos.

Mesmo que seja aprovada, uma resolução em favor da Palestina não garantirá o fim dos conflitos com os israelenses. As negociações de paz estão paralisadas há um ano devido à resistência de Israel em desocupar territórios árabes.

Mas ser aceito como o 194º. Estado da ONU teria um efeito político importante para os palestinos. Eles teriam acesso, por exemplo, a tribunais internacionais, onde poderiam abrir processos contra o governo israelense por conta das áreas invadidas.

Há décadas
árabes e judeus disputam as mesmas terras no Oriente Médio. No século 19, colonos judeus foram incentivados a migrarem da Europa para a Palestina. O objetivo era constituir o Estado de Israel. Os árabes, contudo, já habitavam a região há séculos.

Durante a perseguição nazista, na
Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o fluxo migratório de judeus se intensificou. Em 1947, a ONU propôs a divisão da Palestina, formando dois Estados independentes. Jerusalém, cidade considerada sagrada por cristãos, judeus e muçulmanos, foi colocada sob controle internacional, para evitar conflitos. Os árabes não aceitaram o acordo e, no ano seguinte, Israel se tornou um Estado independente.

A tensão entre Israel e países árabes culminou na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Ao fim dos combates, os israelenses assumiram o controle da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, então pertencentes à Jordânia; da Faixa de Gaza e da Península do Sinai, domínios do
Egito; e das Colinas de Golã, território da Síria.

Os árabes que viviam nessas terras foram expulsos ou se retiraram para campos de refugiados. Os judeus, estimulados pelo governo, começaram a criar assentamentos em Gaza e na Cisjordânia. Nos anos seguintes, ocorreram guerras, massacres e atentados terroristas. A Península do Sinai foi finalmente devolvida ao Egito em 1982, e a Faixa de Gaza, entregue aos árabes em 2005.
Em 23 de setembro, o presidente da autoridade palestina, Mahmoud Abbas, entregou ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, uma carta com o  pedido de inclusão da Palestina como membro pleno da organização,  nas fronteiras definidas antes das ocupações. Países como o Brasil já reconheceram o Estado Palestino.
A reivindicação tem respaldo na Resolução 242 da ONU, de 1967, que determina a desocupação das áreas palestinas. O documento, contudo, nunca foi seguido por Israel.

Votação

Israel não aceita a proposta, pois ela significaria a dissolução dos assentamentos da Cisjordânia, onde vivem cerca de 300 mil judeus (e 2,5 milhões de palestinos), além de abrir mão de Jerusalém Oriental, dividindo novamente a capital. Haveria riscos, de acordo com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de expor o país à ação de radicais islâmicos.

Em maio, quando o presidente americano,
Barack Obama, pediu para que as negociações de paz se pautassem pelas fronteiras traçadas em 1967, Netanyahu considerou o pedido "irreal" e "indefensável".

Agora, o governo americano, principal aliado de Israel, deve ser o maior obstáculo para a admissão do Estado Palestino na ONU. Isso porque a proposta deve ser antes aprovada por nove dos 15 países membros do Conselho de Segurança, sem sofrer nenhum veto. Cinco membros permanentes têm poder de veto: Estados Unidos,
França, Reino Unido, Rússia e China. Washington sinalizou que, se preciso, vetará a medida para pressionar os palestinos a retomarem as negociações com Israel.