O texto que segue foi publicado em 1903, sob o titulo "Nosso Programa", por um grupo de italianos dos Estados Unidos. Em 1920, ele foi inteiramente aceito pelo congresso da Unione Anarchica Italiana de 1 a 4 de julho. O primeiro parágrafo não aparece em 1920 e os subtítulos são, ao contrário, dessa época.
Nada temos a dizer de novo. A propaganda não é, e não pode ser, senão a repetição contínua, incansável, dos princípios que devem nos servir de guia na conduta que devemos seguir nas diferentes circunstâncias da vida.
Repetiremos, portanto, com termos mais ou menos diferentes, mas no fundo constantes, nosso velho programa socialista-anarquista-revolucionário.
O programa da União Anarquista Italiana é o programa anarquista-comunista-revolucionário. Há meio século ele foi proposto na Itália, no seio da internacional, sob o nome de programa socialista. Mais tarde, tomou o nome de socialista anarquista, como reação contra a degenerescência, autoritária e parlamentar, crescente do movimento socialista. Em seguida, finalmente, denominara-no anarquista.
1. O que queremos.
Acreditamos que a maioria dos males que afligem os homens decorre da má organização social; e que os homens, por sua vontade e seu saber, podem faze-los desaparecer.
A sociedade atual é o resultado das lutas seculares que os homens apreenderam entre si. Desconheceram as vantagens que poderiam resultar para todos da cooperação e da solidariedade. Viram em cada um de seus semelhantes (exceto, no Maximo, os membros de sua família) um concorrente e um inimigo. E procuraram açambarcar, cada um por si, a maior quantidade de prazeres possível, sem se preocuparem com os interesses alheios.
Nesta luta, é óbvios, os mais fortes e os mais afortunados deviam vencer, e, de diferentes maneiras, explorar e oprimir os vencidos.
Enquanto o homem não foi capaz de produzir mais do que o estritamente necessário para sua sobrevivência, os vencedores só podiam afugentar e massacrar os vencidos, e se apoderar dos alimentos colhidos.
Em seguida – quando, com a descoberta da pecuária e da agricultura, o homem soube produzir mais do que precisava para viver - os vencedores acharam mais cômodo reduzir os vencidos à servidão e faze-los trabalhar para eles.
Mais tarde, os vencedores acharam mais vantajoso, mais eficaz e mais seguro explorar o trabalho alheio por outro sistema: conservar para si a propriedade exclusiva da terra e de todos os instrumentos de trabalho, e conceder uma liberdade aparente aos deserdados. Estes, não tendo os meios para viver, eram obrigados a recorrer aos proprietários e a trabalhar para eles, sob as condições que eles lhes fixavam.
Deste modo, pouco a pouco, através de uma rede complicada de lutas de todos os tipos, invasões, guerras, rebeliões, repressões, concessões feitas e retomadas, associação dos vencidos, unidos para se defenderem, e dos vencedores, para atacarem, chegou-se ao estado atual da sociedade, em que alguns detêm hereditariamente a terra e todas as riquezas sociais, enquanto a grande massa, privada de tudo, é frustrada e oprimida por um punhado de proprietários.
Disto depende estado de miséria em que se encontram geralmente os trabalhadores, e todos os males decorrentes: ignorância, crime, prostituição, definhamento físico, abjeção moral, morte prematura. Daí a constituição de uma classe especial (o governo) que, provida dos meios materiais de repressão, tem por missão legalizar e defender os proprietários contra as reivindicações do proletariado. Ele se serve, em seguida, da força que possui para arrogar-se privilégios e submeter, se ela pode faze-lo, à sua própria supremacia, a classe dos proprietários. Disso decorre a formação de outra especial (o clero), que por uma serie de fabulas relativas à vontade de Deus, à vida futura etc, procura conduzir os oprimidos a suportarem docilmente o opressor, o governo, os interesses dos proprietários e os seus próprios. Daí decorre a formação de uma ciência oficial que é, em tudo que pode servir os interesses dos dominadores, a negação da verdadeira ciência. Daí os espíritos patrióticos, os ódios raciais, as guerras e as pazes armadas, mais desastrosas do que a próprias guerras. O amor transformado em negocio ignóbil. O ódio mais ou menos latente, a rivalidade, a desconfiança, a incerteza e o medo entre os seres humanos.
Queremos mudar radicalmente tal estado de coisas. E visto que todos estes males derivam da busca do bem-estar perseguido por cada um por si e contra todos, queremos dar-lhe uma solução, substituindo o ódio pelo amor, a concorrência pela solidariedade, a busca exclusiva do bem-estar pela cooperação, a opressão pela liberdade, mentira religiosa e pseudo-cientifica pela verdade.
Em conseqüência:
1) Abolição da propriedade privada da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho_ para que ninguém disponha de meio de viver pela exploração do trabalho alheio_, e que todos, assegurados dos meios de produzir e de viver, sejam de fato independente e possam associar-se livremente, uns aos outros, no interesse comum e conforme as simpatias pessoais.
2) abolição do governo e de todos poder que faça a lei para impô-la aos outros: portanto, abolição das monarquias, republicas, parlamentos, exércitos, policias, magistraturas e toda instituição que possua meios coercitivos.
3) organização da vida social por meio de associações livres e das federações de produtores e consumidores, criadas e modificadas segundo a vontade dos membros, guiadas pela ciência e pela experiência, liberta de toda obrigação que não derive das necessidades naturais, às quais todos se submetem de bom grado quando reconhecem seu caráter inelutável.
4) garantia dos meios de vida, de desenvolvimento, de bem-estar às crianças e a todos aqueles que são incapazes de prover sua existência.
5) guerra às religiões e todas as mentiras, mesmo que elas se ocultem sob o manto da ciência. Instrução cientifica para todos, até os graus mais elevados.
6) guerra ao patriotismo. Abolição das fronteiras, fraternidade entre os povos.
7) reconstrução da família, de tal forma que ela resulte da pratica do amor, liberto de todo laço legal, de toda opressão econômica ou física, de todo preconceito religioso.
Tal é nosso ideal.
2. Vias e Meios.
Até agora expusemos qual é o objetivo que queremos atingir, o ideal pelo qual lutamos.
Mas não basta desejar uma coisa: se seque obtê-la, é preciso, sem duvida, empregar os meios adaptados à realização. E esses meios não são arbitrários: derivam da necessidade dos fins a que nos propomos e das circunstancias nas quais lutamos. Enganando-nos na escolha dos meios, não alcançamos o objetivo contemplado, mas ao contrario, afastamo-nos dele rumo a realidades freqüentemente opostas, e que são a conseqüência natural e necessária aos métodos que empregamos. Quem se põe a caminho e se engana de estrada, não vai aonde quer, mas aonde o conduz o caminho tomado.
É preciso dizer, portanto, quais são os meios que, segundo nossa opinião, conduzem ao nosso ideal, e que intencionamos empregar.
Nosso ideal não é daqueles cuja plena realização depende do individuo considerado de modo isolado. Trata-se de mudar o modo de viver em sociedade: estabelecer entre os homens relações de amor e de solidariedade, realizar a plenitude do desenvolvimento material, moral e intelectual, não para individuo, não para os membros de certa classe ou de certo partido, mas para todos os seres humanos. Esta transformação não é medida que se possa impor pela força; deve surgir da consciência esclarecida de cada um, para se manifestar, de fato, pelo consentimento de todos.
Nossa primeira tarefa deve ser, portanto, persuadir as pessoas.
É necessário atrair a atenção dos homens para os males que sofrem, e para a possibilidade de destruí-los. É preciso que suscitemos em cada um a simpatia pelos sofrimentos alheios, e o vivo desejo pelo bem de todos.
A quem tem fome e frio, mostraremos que seria possível e fácil assegurar a todos a satisfação das necessidades materiais. A quem é oprimido e desprezado, diremos como se pode viver de modo feliz em uma sociedade de livres e iguais. A quem é atormentado pelo ódio e pelo rancor, indicarmos o caminho para encontrar o amor pelos seus semelhantes, a paz e a alegria do coração.
E quando tivermos obtido êxito em disseminar na alma dos homens o sentimento da revolta contra os males injustos e inevitáveis, dos quais se sofre na sociedade atual, e em fazer compreender quais são suas causas e como depende da vontade humana elimina-las; quando tivermos inspirado o desejo vivo e ardente de transformar para o bem de todos, então convictos por impulso próprio e pela persuasão daqueles que os precederam na convicção, se unirão, desejarão e poderão por em pratica o ideal comum.
Seria – já o dissemos – absurdo e em contradição com nosso objetivo querer impor a liberdade, o amor entre os homens, o desenvolvimento integral de todas as faculdades humanas pela força. É preciso contar com a livre vontade dos outros, e a única coisa que podemos fazer é provocar é provocar a formação e a manifestação dessa vontade. Mas seria da mesma forma absurdo e em contradição com nosso objetivo admitir que aqueles que não pensam como nós impedem-nos de realizar nossa vontade, visto que não os privamos do direito de uma liberdade igual à nossa.
Liberdade, portanto, para todos, de propagar e experimentar suas próprias idéias, sem outros limites senão os que resultam naturalmente da igual liberdade de todos.
Mas a isto se opõem, pela força brutal, os beneficiários dos privilégios atuais, que dominam e regulam toda a vida social presente.
Eles controlam todos os meios de produção: suprimem, assim, não somente as possibilidades de aplicar novas formas de vida social, o direito dos trabalhadores de viverem livremente de seu trabalho, mas também, o próprio direito à existência. Obrigam os não-proprietários a se deixarem explorar e oprimir, se não quiser morrer de fome.
Os privilegiados têm as policias, as magistraturas, os exércitos, criados de propósito para defende-los, e para perseguir, encarcerar, massacrar os oponentes.
Mesmo deixando de lado a experiência histórica, que nos demonstra que nunca uma classe privilegiada despojou-se, total ou parcialmente, de seus privilégios e que nunca um governo abandonou o poder sem ser obrigado a faze-lo pela força, os fatos contemporâneos bastam para convencer quem quer que seja de que os governos e os burgueses procuram usar a força material para a sua defesa, não somente contra a expropriação total, mas contra as mínimas reivindicações populares, e estão sempre prontos a recorrer às perseguições mais atrozes, aos massacres mais sangrentos.
Ao povo que quer se emancipar, só resta uma saída: opor violência à violência.
Disso resulta que devemos trabalhar para despertar nos oprimido o vivo desejo de transformação radical da sociedade, e persuadi-los de que, unindo-se possuem à força de vencer. Devemos propagar nosso ideal e preparar as forças morais e materiais necessárias para vencer as forças inimigas e organizar a nova sociedade. Quando tivermos força suficiente, deveremos, aproveitando as circunstâncias favoráveis que se produzirão, ou que nós mesmos provocaremos, fazer a revolução social: derrubar pela força o governo, expropriar pela força os proprietários, tornar comum os meios de subsistência e de produção, e impedir que novos governantes venham impor sua vontade e opor-se à reorganização social, feita diretamente pelos interessados.
Tudo isso é, entretanto, menos simples do que parece a primeira vista. Relacionamo-nos com homens tais na sociedade atual, em condições morais e materiais muito desfavoráveis; e nos enganaríamos ao pensar que a propaganda é suficiente para eleva-los ao nível de desenvolvimento intelectual e moral necessário à realização de nosso ideal.
Entre o homem e a ambiência social há uma ação recíproca. Os homens fazem a sociedade tal como é, e a sociedade faz os homens tais como são, resultando disso um tipo de circulo vicioso: para transformar a sociedade é preciso transformar os homens, e para transformar os homens é preciso transformar a sociedade.
A miséria embrutece o homem e, para destruir a miséria, é preciso que os homens possuam a consciência e a vontade. A escravidão ensina os homens a serem servis, e para se libertarem da escravidão é preciso homens que aspirem a liberdade. A ignorância faz com que os homens não conheçam as causas de seus males e não saibam remediar esta situação; para destruir a ignorância, seria necessário que os homens tivessem tempo e meios de se instruírem.
O governo habitua as pessoas a sofrerem a lei e a crerem que ela é necessária à sociedade; para abolir o governo é preciso que os homens estejam persuadidos da inutilidade e da nocividade dele.
Como sair deste impasse?
Felizmente, a sociedade atual não foi formada pela clara vontade de uma classe que teria sabido reduzir todos os dominados ao estado de instrumento passivo, inconscientes de seus interesses. A sociedade atual é resultante de mil lutas intestinas, de mil fatores naturais e humanos, agindo ao acaso, sem direção consciente; enfim, não há'nenhuma divisão clara, absoluta, entre indivíduos, nem entre classes.
As variedades das condições materiais são infinitas; infinitos os graus de desenvolvimento moral e intelectual. É até mesmo muito raro que a função de cada um na sociedade corresponda às suas faculdades e às suas aspirações. Com freqüência, homens caem em condições inferiores àquelas que eram as suas; outros, por circunstâncias particularmente favoráveis, conseguem elevar-se acima do nível em que nasceram. Uma parte considerável do proletariado já sair do estado de miséria absoluta, embrutecedora, a que nunca deveria ter sido reduzido. Nenhum trabalhador, ou quase nenhum, encontra-se em estado de inconsciência completa, de aquiescência total às condições criadas pelos patrões. E as próprias instituições, que são produtos da historia, contem contradições orgânicas que são como germes letais, cujo desenvolvimento traz a dissolução da estrutura social e a necessidade de sua transformação.
Assim, a possibilidade de progresso existe. Mas não possibilidade de conduzir, somente pela propaganda, todos os homens ao nível necessário para que possamos realizar a anarquia, sem uma transformação gradual prévia do meio.
O progresso deve caminhar simultaneamente e paralelamente entre os indivíduos e o meio social. Devemos aproveitar todos os meios, todas as possibilidades, todas as ocasiões que o meio atual nos deixa para agir sobre os homens e desenvolver sua consciência e suas aspirações. Devemos utilizar todos os progressos realizados na consciência dos homens para leva-los a reclamar e a impor maiores transformações sociais hoje possíveis, ou aquelas que melhor servirão para abrir caminho a progressos ulteriores.
Não devemos somente esperar poder realizar a anarquia; e, enquanto esperamos, limitar-nos à propaganda pura e simples. Se agirmos assim, teremos, em breve esgotado nosso campo de ação. Teremos convencido, sem duvida, todos aqueles a que a circunstancia do meio atual tornam suscetíveis de compreender e aceitar nossas idéias, todavia, nossa propaganda ulterior permaneceria estéril. E, mesmo que as transformações do meio elevassem novas camadas populares à possibilidade de conceber novas idéias, isto aconteceria sem nosso trabalho, e mesmo contra, em prejuízo, como conseqüência de nossas idéias.
Devemos fazer com que o povo, em sua totalidade e em suas diferentes frações, exija, imponha e realize, ele próprio, todas as melhorias, todas as liberdades, que deseja na medida em que concebe a necessidade disso e que adquire força para impô-las. Assim, propagando sempre nosso programa integral e lutando de forma incessante por sua completa realização, devemos incitar o povo a reivindicar e a impor cada vez mais, até que ele consiga sua emancipação definitiva.
Para Saber mais, "A Luta Política e Economica dos Anarquistas"
3. A luta econômica
A opressão que hoje pesa de uma forma mais direta sobre os trabalhadores, e que é a causa principal de todas as sujeições morais e materiais que eles sofrem, é a opressão econômica, quer dizer, a exploração que os patrões e os comerciantes exercem sobre o trabalho, graças ao açambarcamento de todos grandes meios de produção e de troca.
Para suprimir radicalmente e sem retorno possível esta exploração, é preciso que o popovo, em seu conjunto, esteja convencido de que possui ouso dos meios de produção, e de que aplica este direito primordial explorando aqueles que monopolizam o solo e a riqueza social, para coloca-los à disposição de todos.
Todavia, é possível passar direto, sem graus intermediários, do inferno onde vive hoje o proletariado, ao paraíso da propriedade comum? A prova de que o povo ainda não é capaz, é que ele não o faz. O que fazer para chegar à expropriação?
Nosso objetivo é preparar o povo, moral e materialmente, para esta expropriação necessária; é tentar e renovar a tentativa, tantas vezes quantas a agitação revolucionária nos der a ocasião para fazê-lo, até o triunfo definitivo. Mas de que maneira podemos preparar o povo? De que maneira podemos realizar as condições que tornarão possível, não somente o fato material da expropriação, mas a utilização em vantagem de todos, da riqueza comum?
Nó dissemos mais acima (*) que a propaganda, oral ou sozinha, é impotente para conquistar para nossas idéias toda a grande massa popular. É preciso um,a educação pratica, que seja alternadamente causa e resultado da transformação gradual do meio. Deve-se desenvolver pouco a pouco nos trabalhadores o senso da rebelião contra as sujeições e os sofrimentos inúteis dos quais são vitimas, e o desejo de melhorar suas condições. Unidos e solidários, lutarão para obter o que desejam.
E nós, como anarquistas e como trabalhadores, devemos incita-los e encoraja-los à luta, e lutar com eles.
Mas estas melhorias são possíveis em regime capitalista? Elas são úteis do ponto de vista da futura emancipação integral pela revolução?
Quaisquer que sejam os resultados práticos da luta pelas melhorias imediatas, sua principal utilidade reside na própria luta. É por ela que os trabalhadores aprendem a defender seus interesses de classe, compreendem que os patrões e os governantes têm interesses opostos aos seus, e que não podem melhorar suas condições, e ainda menos se emancipar, senão unindo-se entre si e tornando-se mais forte do que os patrões. Se conseguirem obter o que desejam, viverão melhor. Ganharam mais, trabalharão menos terão mais tempo e força para refletir sobre as coisas que os interessam; e eles sentiram de repente desejos e necessidades maiores. Se não obtiverem êxito, serão levados a estudar as causas de seu fracasso e a reconhecer a necessidade de uma união maior, de maior energia; e compreenderam, enfim, que para vencer, segura e definitivamente, é preciso destruir o capitalismo. A causa da revolução, a causa da elevação moral dos trabalhadores e de sua emancipação só pode ganhar, visto que os operários unem-se e lutam por seus interesses.
Todavia, uma vez mais, é possível que os trabalhadores consigam, no estado atual em que as coisas se encontram, melhorar de fato suas condições? Isto depende do concurso de uma infinidade de circunstancia. Apesar do que dizem alguns, não existe nenhuma lei natural (lei dos salários) que determine a parte que vai para o trabalhador sobre o produto de seu trabalho. Ou, se quiser formular uma lei, ela não poderia ser senão a seguinte: o salário não pode descer normalmente abaixo do que é necessário à conservação da vida, e não pode normalmente se elevar ao ponto de não dar mais lucro ao patrão. É obvio que, no primeiro caso, os operários morreriam, e, assim não receberiam mais salário; no segundo caso, os patrões deixariam de fazer trabalhar e, em conseqüência, não pagariam mais nada. Mas entre estes dois extremos impossíveis, há uma infinidade de graus, que vão das condições quase animais de muitos trabalhadores agrícolas, até aquelas quase decentes dos operários, em boas profissões, nas grandes cidades.
O salário, a duração da jornada de trabalho e todas as outras condições de trabalho são o resultado das lutas entre patrões e operários. Os primeiros procuram pagar aos trabalhadores o mínimo possível e faze-los trabalhar até o esgotamento completo; os outros se esforçam – ou deveriam se esforçar – em trabalhar o mínimo e ganhar o máximo possível. Onde os trabalhadores se contentam com qualquer coisa e, mesmo descontente, não sabem opor resistência valida aos patrões, são em pouco tempo reduzidos à condição de vida quase animal. Ao contrario, onde têm uma elevada do que deveriam ser as condições de existência dos seres humanos; onde sabem se unir e, pela recusa ao trabalho e pela ameaça latente ou explicita da revolta, impor que os patrões os respeitem, eles são tratados de maneira relativamente suportável. Assim, pode-se dizer que, em certa medida, o salário, é o que operário exige, não enquanto individuo, mas enquanto classe.
Lutando, portanto, resistindo aos patrões, os assalariados podem opor-se, até certo ponto, à agravação de sua situação, e, até mesmo, obter melhorias reais. A historia do movimento operário já demonstrou esta verdade.
Não se deve, entretanto exagerar o alcance das lutas destas lutas entre explorados e exploradores no terreno exclusivamente econômico. As classes dirigentes podem ceder, e cedem amiúde, às exigências operarias expressadas com energia, enquanto não são muito grandes. Contudo, quando os assalariados começam – e é urgente que eles o façam – a reivindicar aumentos tais que absorveriam todo o lucro patronal e constituiriam, assim, uma expropriação indireta, é certo que os patrões apelariam ao governo e procurariam reconduzir os operários, pela violência, às condições de todos os escravos assalariados.
E antes, bem antes que os operários possam reivindicar receber em compensação ao seu trabalho o equivalente a tudo que produziram, a luta econômica se torna impotente para assegurar um destino melhor.
Os operários produzem tudo, e sem seu trabalho não se pode viver. Parece, portanto, que recusando trabalhar, os trabalhadores poderiam impor todas as suas vontades. Mas a união de todos os trabalhadores, mesmo de uma única profissão em um único país, é dificilmente realizável: à união dos operários se opõe a união dos patrões. Os primeiros vivem com o mínimo para sobreviver no dia a dia e, se fazem greve, falta-lhes o pão logo a seguir. Os outros dispõem, por meio do dinheiro, de tudo o que foi produzido; podem esperar que a fome reduza os assalariados à sua mercê. A invenção ou a introdução de novas maquinas torna inútil o trabalho de grande numero de trabalhadores, aumentando o exercito dos desempregados, que a fome obriga a se venderem a qualquer preço. A imigração traz, de repente, nos países onde as condições são mais favoráveis, multidões de trabalhadores famintos que, bem ou mal, dão ao patronato o meio de reduzir os salários. E todos estes fatos, resultando necessariamente do sistema capitalista, conseguem contrabalançar o progresso da consciência e da solidariedade operaria. Com freqüência, eles têm efeito mais rápido, do que esse progresso que eles detêm e destroem. Desta forma, resta sempre este fato primordial segundo o qual a produção no sistema capitalista está organizada por cada empregador para seu proveito pessoal, não para satisfazer as necessidades dos trabalhadores.
A desordem, o desperdício das forças humanas a penúria organizada, os trabalhos nocivos e insalubres, o desemprego, o abandono das terras, a subutilização das maquinas etc, são tantos males que não se podem evitar senão retirando dos capitalistas os meios de produção, e, por via de conseqüência, a direção da produção.
Os operários que se esforçam em se emancipar, ou aqueles que de fato procuram melhorar suas condições devem rapidamente se defender do governo, ataca-lo, pois ele legitima e sustenta, pela força brutal, o direito de propriedade, ele 'e obstáculo ao progresso, obstáculo que deve ser destruído se não se quiser permanecer indefinidamente nas atuais condições, ou em outras ainda piores.
Da luta econômica deve-se passar à luta política, quer dizer, contra o governo. Ao invés de opor aos milhões dos capitalistas os poucos centavos reunidos penosamente pelos operários, é preciso opor aos fuzis e aos canhões que defendem a propriedade os melhores meios que o povo encontrar para vencer a força pela força.
4. A luta política
Por uma luta política entendemos a luta contra o governo. O governo é o conjunto de indivíduos que detêm o poder de fazer a lei e de impô-la aos governados, isto é, ao publico.
O governo é a conseqüência do espírito de dominação e de violência que homens impuseram a outros homens, e ao mesmo tempo, é a criatura e o criador dos privilégios, e também seu defensor natural.
É falso dizer que o governo desempenha hoje o papel de protetor do capitalismo, e que este ultimo tendo sido abolido, ele se tornaria o representante e o gerente dos interesses de todos. Antes de mais nada, o capitalismo não será destruído enquanto os trabalhadores, tendo se livrado do governo, não tiverem se apoderado de toda a riqueza social e organizado; eles próprios, a produção e o consumo, no interesse de todos, sem esperar que a iniciativa venha do governo, que, de resto, é incapaz de fazê-lo.
Se a exploração capitalista fosse destruída, e o principio governamental conservado, então, o governo, distribuindo todos os tipos de privilégios, não deixaria de restabelecer um novo capitalismo. Não podendo contentar todo o mundo, o governo necessitaria de uma classe economicamente poderosa para sustenta-lo, em troca da produção legal e material que ela receberia dele.
Não se pode, portanto, abolir os privilégios e estabelecer de modo definitivo a liberdade e a igualdade social sem por fim ao governo, mas à própria instituição governamental.
Nisso, assim como em tudo o que concerne ao interesse geral, e mais ainda a este ultimo, é preciso o consentimento de todos. Eis porque devemos nos esforçar em persuadir as pessoas de que o governo é inútil e nocivo, e de que se vive melhor sem ele. Mas, como já o dissemos, a propaganda sozinha é impotente para alcançar tudo isso; e se nós contentássemos em pregar contra o governo, esperando de braços cruzados, o dia em que as pessoas estariam convencidas da possibilidade e da utilidade de abolir por completo toda espécie de governo, este dia nunca chegaria.
Denunciando sempre esta espécie de governo, exigindo sempre a liberdade integral, devemos favorecer todo combate por liberdades parciais, convictos de que é pela luta que se aprende a lutar. Começando a provar a liberdade, acaba-se por deseja-la inteiramente. Devemos sempre estar com o povo; e quando não conseguirmos fazer com que queira muito, devemos fazer com que, pelo menos ele comece a exigir alguma coisa. Devemos nos esforçar a que aprenda a obter por si mesmo o que quer – pouco ou muito –, e a odiar e a desprezar quem quer que vá ou queira fazer parte do governo.
Visto que o governo detém, hoje, o poder de regular, por leis, a vida social, ampliar ou restringir a liberdade dos cidadãos, e visto que ainda não podemos arrancar-lhe esse poder, devemos procurar enfraquece-lo e obriga-lo a fazer uso dele o menos perigosamente. Mas, esta ação, devemos fazê-la sempre de fora e contra o governo, pela agitação na rua, ameaçando tomar pela força o que se exige. Jamais deveremos aceitar uma função legislativa, seja ela nacional ou local, pois, assim agindo, diminuiríamos a eficácia de nossa ação e trairíamos o futuro de nossa causa.
A luta contra o governo consiste, em ultima analise, em luta física e material.
O governo faz a lei. Deve, portanto, dispor de força material (exercito e policia) para impor a lei. De outra forma, obedeceria quem quisesse, e não existiria mais a lei, mas uma proposição, que qualquer um seria livre para aceitar ou recusar. Os governos possuem esta força e servem-se dela para reforçar sua dominação, no interesse das classes privilegiadas, oprimindo e explorando os trabalhadores.
O único limite à opressão governamental é a força que o povo se mostra capaz de lhe opor. Pode haver conflito, aberto ou latente, mas sempre há conflito. Isso se da porque o governo não para diante do descontentamento e da resistência populares senão quando sente o perigo de uma insurreição.
Quando o povo se submete docilmente à lei, ou o protesto permanece fraco e platônico, o governo se acomoda, sem se preocupar com as necessidades do povo. Quando o protesto é vivo, insiste e ameaça, o governo, segundo seu humor, cede ou reprime. Mas é preciso chegar à insurreição, porque, se o governo não cede, o povo acaba por se rebelar; e, se ele cede, o povo adquire confiança em si mesmo exige cada vez mais, até que a incompatibilidade entre a liberdade e a autoridade seja evidente e desencadeie o conflito.
É, portanto, necessário preparar-se moral e materialmente para que, quando a luta violenta eclodir, a vitória fique com o povo.
A insurreição vitoriosa é o fato mais eficaz para a emancipação popular, porque o povo, depois de ter destruído o jugo, torna-se livre para se entregar às instituições que ele crê serem as melhores. A distancia que existe entre a lei (sempre retardatária) e o nível de civismo que a massa da população alcançou, pode ser superada com um salto: a insurreição determina a revolução, isto é, a atividade rápida das forças latentes acumuladas durante a evolução precedente.
Tudo depende do que o povo é capaz de querer.
Nas insurreições passadas, o povo, inconsciente das verdadeiras causas de seus males, sempre quis bem pouco, e conseguiu bem pouco.
O que desejará nas próximas insurreições?
Isto depende em grande parte do valor de nossa propaganda e da energia que fomos capazes de mostrar.
Deveremos incitar o povo a expropriar os proprietários e a tornar comum seus bens, organizar, ele próprio, a vida social, por associações livremente constituídas, sem esperar ordens de ninguém, recusar nomear ou reconhecer qualquer governo ou qualquer corpo constituído (Assembléia, Ditadura etc) que se atribuíssem, mesmo a titulo provisório, o direito de fazer a lei e impor aos outros sua vontade, pela força. Se a massa popular não responde ao nosso apelo, devemos, em nome do direito que temos de ser livres, mesmo se os outros desejarem permanecer escravos, para dar o exemplo, aplicar o maximo possível nossas idéias: não reconhecer o novo governo, manter viva a resistência, fazer com que comunas, onde nossas idéias são recebidas com simpatia, rejeitem toda ingerência governamental e continuem a viver a seu modo.
Deveremos, sobretudo, nos opormos por todos os meios à reconstituição da policia e do exercito, e aproveitar toda a ocasião propicia para incitar os trabalhadores a utilizar a falta de forças repressivas para impor ao Maximo de reivindicações.
Qualquer que seja o resultado da luta, é preciso continuar a combater, sem trégua, os proprietários, os governos, tendo sempre em vista a completa emancipação econômica de toda a humanidade.
5. conclusão.
Desejamos, portanto, abolir de forma radical a dominação e a exploração do homem pelo homem. Queremos que os homens, unidos fraternalmente por uma solidariedade consciente, cooperem de modo voluntário com o bem estar de todos. Queremos que a sociedade seja constituída com o objetivo de fornecer a todos os meios de alcançar igual bem-estar possível, o maior desenvolvimento possível, moral e material. Desejamos para todos pão, liberdade, amor, e saber.
Para isso, estimamos necessário que os meios de produção estejam à disposição de todos e que nenhum homem, ou grupo de homens, possa obrigar outros a obedecerem à sua vontade, nem exercer sua influencia de outra forma senão pela argumentação e pelo exemplo.
Em conseqüência: expropriação dos detentores do solo e do capital em proveito de todos e abolição do governo.
Enquanto se espera: propaganda do ideal; organização das forças populares; combate continuo, pacifico ou violento, segundo as circunstancias, contra o governo e contra os proprietários, para conquistar o Maximo possível de liberdade e de bem-estar para todos.
Tradução
Plínio Augusto Coêlho
Escritos Revolucionários - Errico Malatesta - Ed. Imaginário
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Cuba: Os Anarquistas Esquecidos
No fundo de uma cela, numa das mais famosas prisões cubanas, se encontra um militante anarco-sindicalista que acredita ter sido esquecido para sempre. Angel Donato Martinez é um dos poucos membros que restam do GRUPO ZAPATA, um coletivo anarco-sindicalista que pareceu no início dos anos 80, para desafiar as práticas estalinistas do regime.
O grupo era seguidor da tradição dos grandes revolucionários mexicanos Emiliano Zapata e Ricardo Flores Magón, participando ativamente das agitações industriais e sindicalistas.
Como os sindicatos livres não são tolerados na Ilha, seus militantes viram-se obrigados a atuar clandestinamente. Em 1982 houveram várias greves de grande escala, quando as autoridades decidiram livrar-se dos ativistas. A polícia atuando sem estardalhaço, capturou 20 membros do GRUPO ZAPATA, acusando-os de organizar sindicatos independentes e de sabotagem industrial.
Um dos 20 detidos, Caridad Parón, morreu na prisão vítima de torturas aplicadas no temido Centro de interrogatórios de Villa Marista. Outros cinco ativistas foram condenados à morte.
Imediatamente, através de exilados cubanos, iniciou-se campanha internacional de protesto e solidariedade. Devido às pressões vindas de todo mundo, as penas foram comutadas, para longas penas de prisão.
Hoje é conhecido o destino de apenas um dos anarquistas, Donato, sendo que os outros podem estar presos ou mortos. Acredita-se que Donato pode estar no cárcere de Combinado Del Este, próximo de Havana. Sobre sua saúde, nada se sabe.
Em Cuba, os anarquistas e sindicalistas agrários que reivindicam Liberdade, Terra e Coletivização, vem sendo perseguidos, presos e, freqüentemente mortos. Vários anarquistas foram assassinados por esquadrões da morte e outros, como os irmãos Carlos, Jorge e David Cardo, Jesus Varda, Israel López Toledo e Timoteo Lugo, foram condenados a 30 anos de prisão. Tudo isso representa apenas uma pequena fração da luta anarquista e sindicalista em Cuba. As ações tem sido isoladas mas contínuas, havendo um esforço muito grande, principalmente através de exilados, em divulgar internacionalmente essa luta.
Redigido por BLACK FLAG (Inglaterra)
Extraído da revista EKINTZA ZUZENA (País Basco)
O grupo era seguidor da tradição dos grandes revolucionários mexicanos Emiliano Zapata e Ricardo Flores Magón, participando ativamente das agitações industriais e sindicalistas.
Como os sindicatos livres não são tolerados na Ilha, seus militantes viram-se obrigados a atuar clandestinamente. Em 1982 houveram várias greves de grande escala, quando as autoridades decidiram livrar-se dos ativistas. A polícia atuando sem estardalhaço, capturou 20 membros do GRUPO ZAPATA, acusando-os de organizar sindicatos independentes e de sabotagem industrial.
Um dos 20 detidos, Caridad Parón, morreu na prisão vítima de torturas aplicadas no temido Centro de interrogatórios de Villa Marista. Outros cinco ativistas foram condenados à morte.
Imediatamente, através de exilados cubanos, iniciou-se campanha internacional de protesto e solidariedade. Devido às pressões vindas de todo mundo, as penas foram comutadas, para longas penas de prisão.
Hoje é conhecido o destino de apenas um dos anarquistas, Donato, sendo que os outros podem estar presos ou mortos. Acredita-se que Donato pode estar no cárcere de Combinado Del Este, próximo de Havana. Sobre sua saúde, nada se sabe.
Em Cuba, os anarquistas e sindicalistas agrários que reivindicam Liberdade, Terra e Coletivização, vem sendo perseguidos, presos e, freqüentemente mortos. Vários anarquistas foram assassinados por esquadrões da morte e outros, como os irmãos Carlos, Jorge e David Cardo, Jesus Varda, Israel López Toledo e Timoteo Lugo, foram condenados a 30 anos de prisão. Tudo isso representa apenas uma pequena fração da luta anarquista e sindicalista em Cuba. As ações tem sido isoladas mas contínuas, havendo um esforço muito grande, principalmente através de exilados, em divulgar internacionalmente essa luta.
Redigido por BLACK FLAG (Inglaterra)
Extraído da revista EKINTZA ZUZENA (País Basco)
domingo, 24 de abril de 2011
Mohammad como Líder
Mohammad como Líder
Talvez a principal qualidade essencial à liderança seja a capacidade de a pessoa perceber e avaliar corretamente todos os fatores de uma determinada situação, decidir quanto ao objetivo desejável,projetar a melhor estratégia, para a execução desta e convencer os demais participantes da
viabilidade do esquema projetado e levá-los a integrá-lo com a mais decidida vontade de que sejam capazes.
Mohammad possuía essa qualidade no seu mais alto grau. Não fosse o Islam, ele ainda assim teria sido o estadista mais capaz que Makka jamais conhecera. O Islam alongou a sua visão universalista como um novo objetivo, e expandiu o âmbito da liderança a todo o mundo.
Um caso isolado da primeira sunna do Profeta comprova as suas qualidades de liderança. Enquanto os maquenses reconstruíam a Caaba, depois de uma inundação que fez rachar as suas paredes, os chefes tribais disputavam entre si a honra de colocar a pedra fundamental. Esta era a Pedra Negra, que os maquenses haviam venerado, por gerações seguidas. Como todos os chefes estivessem envolvidos na disputa, a sugestão de Abu Umaya de que eles se comprometessem, todos, a aceitar o arbítrio da primeira pessoa que viesse ao lugar, foi aceita, mas com certa apreensão. Aconteceu de a primeira pessoa a surgir ser Mohammad, e eles se sentiram seguros de que a decisão dele não seria parcial. Encarregado da tarefa, Mohammad resolveu fazer rolar a Pedra Negra para cima de um pano, fazendo com que cada um dos chefes segurasse em uma ponta do mesmo, e assim todos carregassem a pedra para o seu lugar. Todos os chefes ficaram satisfeitos e convictos de que a honra também lhes tinha pertencido, não menos do que a qualquer outro. Todos ficaram agradecidos a Mohammad, que transformara uma situação ameaçadora em uma ocasião de alegria geral.
A mesma percepção genial de Mohammad se fez presente, quando da sua chegada a Madina. Os muçulmanos deram-lhe calorosas boas-vindas. Cada um almejava a honra de receber Mohammad em sua casa; e com esta finalidade, os chefes competiam entre si. O Profeta disse que ele não tomaria nenhuma decisão; ao invés disso, ele ficaria onde o seu camelo parasse. Após vaguear pelas ruas de Madina por algum tempo, o camelo parou em um terreno vazio, que pertencia a Sahl e a Suhail, os filhos de 'Amr. O Profeta pagou pela terra e nela construiu a sua primeira mesquita.
Do mesmo modo que ele não favorecia qualquer chefe ou seção da comunidade em detrimento do outro(a), Mohammad tinha, também, o cuidado de não reivindicar qualquer privilégio para si próprio. Ele se considerava um qualquer, entre os seus pares. Quando se aproximava a hora das refeições, durante a marcha em uma campanha, os seus companheiros declararam que iam preparar a comida. Distribuíram as tarefas entre eles, não deixando nada para o Profeta fazer. Observando que eles se haviam esquecido da necessidade de alguém apanhar lenha para o fogo – a tarefa mais dura e menos agradável – Mohammad disse: "E eu apanharei a lenha." A opinião dos subordinados era que o chefe deveria ser sempre digno do seu amor e da sua estima. Isto ele manifestou na tradição (hadice), que conta: "A oração do imam (líder), que é odiado por sua gente, é inaceitável por Deus" e "quem quer que assuma a liderança de um povo contra a sua vontade, a sua oração jamais irá além das suas orelhas." Nem a sua condição de profeta, nem a de chefe de Estado impediam Mohammad de tratar aos outros como iguais. Aliás, foi ele que ensinou os muçulmanos a fazer os seus servos e escravos comerem à mesma mesa que eles, a dar-lhes as mesmas roupas para vestir, a chamá-los por "filhos", ao invés de "servos" ou "escravos", e a serem chamados, por eles, de "tios", ao invés de "senhores". Certo dia, na praça do mercado, um mercador, ao qual Mohammad dava preferência, pegou a sua mão e a beijou. Mohammad retirou a sua mão e disse: "Isto é o que fazem os persas ao rei deles. Eu não sou um rei, e tu não és um persa." Do mesmo modo, quando os muçulmanos foram convocados para cavar um fosso em frente ao ponto mais vulnerável de Madina, como defesa contra um ataque de cavalaria, Mohammad insistiu em juntar-se a eles, com as suas próprias mãos. Muito antes da sua condição de profeta acontecer, essa qualidade fizera-o ser amado por seus companheiros e conhecidos. Zaid era um escravo adulto, trazido para Makka para ser vendido. Khadija o comprou e deu de presente a Mohammad, que prontamente o alforriou e o tornou seu assistente. Não demorou a aparecer o pai de Zaid para resgatá-lo; mas, encontrando-o já liberto, ofereceu-se para levá-lo de volta para casa. Mohammad deu a Zaid liberdade para escolher se ficava ou voltava para a sua casa e a família, mas este preferiu ficar com ele.
Para sua segurança pessoal, em Makka, Mohammad dependia das lealdades tribais. A sua tribo, os Bani Háchim, era capaz de o proteger durante muitos anos contra o resto de Makka. Esta proteção não era sem preço em vituperação e ridículo, em prejuízos e boicote social e econômico. A oposição de Coraix ganhava ímpeto, enquanto os muçulmanos ainda eram poucos e fracos ali. Não demorou, e a situação se tornou crítica; e o chefe tribal de Mohammad teve de pedir ao seu sobrinho - Mohammad - para desistir da causa. Mas Mohammad se recusou, jurando, pela sua própria vida, continuar sua luta até o fim. Apesar do tio o ter apoiado e rejeitado o ultimatum de Makka, Mohammad sabia que a hora da decisão estava próxima, e que os homens de Banu Háchim não seriam páreo para todos os maquenses, que agora se uniam contra eles, por sua causa. Foi a sua pre-ciência dessa situação que o levou a entrar em negociações e a firmar dois tratados sucessivos com os muçulmanos de Madina. Assim ele substituiria a relação tribal, caso os Banu Háchim retirassem o seu apoio, e reforçaria as suas forças contra os maquenses com as de Madina, certo de que a sua premonição estava correta e de que a sua estratégia era muito oporturna. Ambas eram componentes preciosos da sua liderança.
Ao chegar a Madina, no verão do ano de 622, Mohammad reconciliou as duas principais tribos da cidade e as fundiu, para formarem o primeiro núcleo político islâmico. A sua alienação e mútuo antagonismo eram tradicionais. Mohammad substituiu o ódio pelo respeito, amor e estima; a malquerença pela solidariedade; e a separação pela unidade. Em seguida, fundiu os madinenses (al Ansar) com os maquenses (al Muhajirun), que haviam vindo para Madina, despossuídos e só com as roupas do corpo. Cada casa de Madina correspondeu ao apelo com a abertura do seu lar a algum indivíduo ou alguma família maquense. Era a primeira vez que chefes e aristocratas, plebeus e escravos, ricos e pobres, cidadãos e estrangeiros, se aliavam para formarem uma nova sociedade, na qual o liame da fé transcendia as diferenças de nascimento e de história; onde a lealdade religiosa criava para si uma unidade orgânica sócio-econômica, política e militar. A união não estava restrita aos muçulmanos. Mohammad persuadiu os judeus a se juntarem a eles, e se tornaram membros integrantes dessa nova ordem social. Eles também tinham divergências entre si, bem como os árabes e muçulmanos madinenses. Eles eram dependentes das duas tribos dominantes, Aws e Khazraj, e estavam envolvidos com estes últimos, em todas as suas disputas e conflitos. A liderança de Mohammad era suficientemente forte para reunir todos eles sob o mesmo teto e fundi-los na primeira sociedade ecumênica e pluralista. Para formalizar a união deles e registrar tal acordo, Mohammad ditou o Tratado de Madina – a primeira constituição escrita da história humana. A promulgação dessa constituição inaugurou o primeiro Estado Islâmico, a primeira ordem mundial multireligiosa.1
Mohammad gerou tudo isso com sua própria sabedoria e poder de persuasão. Ele não tinha nenhum poder para coagir quem quer que fosse. Ele sabia que uma união que não fosse realmente desejada pelos seus membros era inviável, assim como o governante indesejado por seu povo nunca seria bem-sucedido. A nova sociedade se baseou na chura (consulta entre os pares, com vistas a alcançar o consenso, tal como descrito no Alcorão 42:38), bem como em alguns princípios que continuam a servir como normas de atividade política ao longo da história muçulmana. Entre outros, esses princípios incluem: A ordem social é absolutamente necessária. "Se apenas três de vós saírem em uma missão, deverão designar um amir chefe, um primeiro sucessor e um segundo sucessor".² Esse é um antigo princípio mesopotâmico, que via a ordem social como uma condição imprescindível à vida; um grupo sem líder é como um rebanho de ovelhas sem pastor. A umma era um povo com uma causa, uma missão a ser realizada no espaço e no tempo e, por isso, devia ser organizada. "Mesmo um imam injusto", dizia Mohammad, "é melhor do que o caos ou nenhuma ordem… onde qualquer um pode tomar a lei nas próprias mãos… Naturalmente, nenhum desses casos, como tal, é feliz; e, no entanto, um governo que mantém a ordem realiza, pelo menos, um bem essencial para a sociedade". O melhor mesmo é o governo que proporciona tanto a ordem como a justiça. Em um Estado desses, a obediência ao governante é um dever religioso e civil, enquanto o que for ordenado não vier a conflitar com a lei de Deus. Sempre que o Estado se afasta da lei de Deus, não há necessidade de qualquer obediência. Devido ao potencial de abuso dessa condição, Mohammad alertou para que se prevenissem cuidadosamente contra tal situação. Jamais devemos questionar a legitimidade das ações de um governo, dizia ele, a não ser que elas sejam claramente kufran bawahan fihi burhan (um afastamento da lei de Deus, comprovado por evidências inquestionáveis).³ Dentro de tais limitações, todo muçulmano ou cidadão é um pastor responsável por seu rebanho, governante do seu Estado, tanto quanto chefe da sua casa, toda muçulmana é mãe dos seus filhos e dona do seu lar, e todo criado é empregado, para cuidar dos interesses do seu empregador.4 Além de orientar o navio do Estado para as metas que o Islam prescreveu para ele, o dever primaz da liderança é cuidar dos fracos, dos pobres e de todos aqueles que precisam ajudar a cumprir as metas supremas e pessoais. "Aqueles líderes que cumprem essa função", proclamava Mohammad, "tornam-se merecedores da imunidade contra o Fogo (do inferno)". Nem a história antiga tinha respeito pelas sociedades que não se preocupavam com os fracos da sua comunidade. "Na verdade", dizia o Profeta, "Deus proporcionará, ajuda e concederá a vitória, na medida em que as sociedades demonstrarem a sua solidariedade aos seus fracos… Qualquer um que não tiver misericórdia para com os pequenos, entre nós, e não respeitar os grandes, não pertencerá a nós". Acima de tudo, a ordem social deve ser justa para com todos. Respondermos ao clamor das vítimas de injustiças – sejam elas muçulmanas ou não – é de suma importância. "Nada isola esse clamor dos ouvidos de Deus", afirmava o Profeta.
A liderança da ordem social deve organizar a sua administração, de modo a otimizar o seu serviço ao povo e a minimizar o seu custo. Para atingir esse objetivo, o critério de contratação deve ser a competência. "Nomear qualquer líder para qualquer serviço público, por mais insignificante que seja, por qualquer outro critério", declarou o Profeta, "é um ato de traição a Deus, ao Seu Profeta e à umma". O governante deve outorgar a cada um a responsabilidade pelos seus atos e deixar a prestação de contas das intenções a Deus. Mas se ele começar a suspeitar das pessoas ou as induzir a suspeitarem umas das outras, a corrupção se estenderá naquele Estado e começará a arruiná-lo. O governante deve sempre almejar a reconciliação e a unidade. Quando surgir uma divergência entre duas facções, ele deverá conduzi-las a um acordo justo; e se alguém se rebelar contra tal acordo, a umma, como um todo, deverá opor-se aos rebeldes e fazê-los recobrar o bom senso.5 A justiça é, com toda a certeza, o principal ideal social do Islam. A indignação que a sua violação gera no muçulmano e o entusiasmo pela sua defesa e preservação desconhecem quaisquer limites, no coração comprometido ao tauhid. Entretanto, como qualquer virtude, também a busca da justiça pode-se tornar opressiva. É por isso que não nos devemos omitir de temperar essa busca com compaixão e misericórdia. O entendimento disto, junto com a sua sensibilidade normal para com a necessidade dos famintos, dos fracos e dos oprimidos, levou Mohammad a declarar: "Quando criou a humanidade, Deus comprometeu-Se em que sempre seria misericordioso. "Minha misericórdia é mais forte que a Minha ira" – disse Deus. Quanto à sua própria governança, Mohammad disse: "Deus não me enviou para ser um zelote, como governante, nem um fanático, mas sim um educador e guia, que tornasse a vida mais fácil para os seres humanos".
Todos os fatos que descrevemos da sunna, concretizam os valores que se relacionam com a ética social do Islam. Esta foi a realização do período maquense. A ética social externa do Islam, entretanto, não poderia vir à tona, senão depois da Hégira em Madina e do estabelecimento da umma como estado soberano. Antes desse acontecimento, a umma existia potencialmente. Mesmo assim, ela estava sujeita a perseguição tal, que lhe era impossível exercer as prerrogativas da umma. Conseqüentemente, a primeira preocupação do Profeta, depois da Hégira, tão logo se estabeleceu a ordem interna e todos estavam em suas posições, foi a de voltar-se para o mundo externo. Obviamente, o problema externo mais imediato era a hostilidade combativa de Makka, cuja liderança havia decidido assassinar Mohammad na véspera da Hégira. Naquela noite, informado do seu plano, o Profeta decidiu distrair a sua atenção colocando Áli, seu primo, em sua cama e o cobrindo com o seu próprio manto verde. Mohammad e Abu Bakr escaparam, na escuridão da noite. Os maquenses arrombaram a porta, puxaram o manto, com as espadas prontas, mas aí encontraram Áli, em lugar do homem que procuravam.
A maioria dos muçulmanos já havia, àquela altura, deixado Makka para irem a Madina. Eles haviam deixado para trás parentes e bens. Os maquenses passaram a incomodar aqueles, confiscando-lhes as propriedades. Os emigrantes muçulmanos de Makka ficaram desprovidos e tiveram de depender da hospitalidade dos seus anfitriões. Era natural que se cogitassem modos de se vingarem dos maquenses. As caravanas de Makka passavam por Madina, transportando mercadorias para o norte e para o sul. Os muçulmanos procuraram apoderar-se de tudo o que puderam, e Makka se mobilizou para a guerra, resultando daí que os muçulmanos foram arrastados para o seu primeiro confronto militar com os seus inimigos. Trezentos muçulmanos, chefiados pelo Profeta, encontraram-se com um exército maquense, de mil soldados, em Badr. Ambos os lados pensaram que o encontro seria definitivamente decisivo. Enquanto os maquenses preparavam a nata do seu exército para a batalha, o Profeta levantou a moral dos seus seguidores ao nível mais elevado possível. Ele orou em voz alta a Deus, dizendo: "Ó Deus, eis que vem Makka para arrasar com o Teu Profeta e erradicar os Teus servos. Se eles ganharem hoje, não serás mais adorado nestas terras. Concede-nos a Tua ajuda e a vitória. Só Tu és o nosso Senhor, nossa Ajuda e nosso Socorro". Então, voltou-se para os muçulmanos e lhes disse que Deus atenderia a sua prece e lhes concederia a vitória; que todo aquele que tombasse, no combate que se seguiria, alcançaria o Paraíso e teria a vida eterna.6
A estratégia militar do Profeta foi questionada pelos seus seguidores, quando ele declarou que, apesar da causa ser divina, a estratégia seria humana. Em consultas uns com os outros, os muçulmanos decidiram-se por uma distribuição diferente das suas forças. A batalha durou a tarde toda, e as perdas foram pesadas, para ambos os lados. Os muçulmanos saíram vitoriosos. Na verdade, foi uma infusão milagrosa, de energia incomum, que fez os muçulmanos lutarem tão valentemente, a ponto de derrotarem os seus inimigos, apesar da superioridade numérica e de armamento deles. Entretanto, os muçulmanos estavam exaustos e não tiveram forças para consolidar a sua vitória com uma perseguição aos maquenses. Voltaram para Madina, satisfeitos com a vitória naquela batalha, senão na guerra. Um ano mais tarde, os maquenses voltaram para um novo confronto, que teve lugar fora de Madina, ao pé do Monte Uhud. Desta vez, os muçulmanos perderam a batalha, mas infligiram pesadas perdas aos maquenses, que também não puderam dar continuidade à sua vitória, com a invasão e ocupação de Madina. Desesperados, bem como mais escolados pelos seus erros, os maquenses lançaram uma última tentativa contra Mohammad e o seu movimento. Desta vez, eles mobilizaram praticamente toda a Arábia e chegaram às portas de Madina para aniquilarem o Estado islâmico, erradicarem os muçulmanos e acabarem com o seu flagelo, de uma vez por todas. Com números tão enormemente superiores, os muçulmanos não poderiam defrontar-se, e por isso permaneceram dentro da sua cidade. Apressadamente, tiveram de cavar um fosso, em frente a um dos lados mais vulneráveis da cidade, o que deu o nome a essa batalha.7 Felizmente para os muçulmanos, eles não tiveram de lutar. Uma terrível tempestade de areia assolou a região. Ela não afetou os muçulmanos, que estavam dentro dos seus lares e fortalezas; mas provocou o caos entre os seus inimigos, que estavam acampados em tendas, ao longo de um amplo arco, no flanco sul de Madina, bem no caminho da tempestade. Esta arrancou as suas tendas, dispersou e matou a maioria das suas montarias e destruíu os seus suprimentos. Aqueles que conseguiram escapar, fugiram e fizeram com que a campanha fosse em vão.
A constituição do Estado Islâmico (o Tratado de Madina) respeitava os judeus, como uma comunidade autônoma, dentro do estado. Ela conferia à corte rabínica autoridade plena para adjudicar e resolver todos os assuntos dos judeus. Desde as suas derrotas e dispersões pelos romanos, esta era a primeira vez que a existência comunitária judaica e a lei da Tora eram reconhecidas como legítimas, por um Estado. Mesmo assim, a fidelidade dos judeus ao Estado Islâmico oscilava. Inicialmente, o Profeta fez-lhes uma advertência, depois baniu alguns deles, então baniu mais outros e confiscou as suas propriedades. Na Batalha do Fosso, eles tiveram mais uma vez um papel traidor; mas este foi frustrado pelo colapso do inimigo, diante da tempestade de areia. Desta vez, o Profeta se viu obrigado a executar alguns e a expulsar os demais de Madina. Do seu exílio, em Khaibar, eles continuaram a conspirar contra o Estado Islâmico. Não tardou que fosse necessária uma expedição para os desalojar e expulsar de vez da Península Arábica. O seu destino, na Bizâncio cristã não foi diferente. Entretanto, quando o Crescente Fértil foi conquistado pelas forças do Islam, novamente lhes foi oferecido o mesmo status que lhes havia sido conferido no Tratado de Madina, sem ser levado em conta o seu comportamento anterior com os muçulmanos na Península Arábica.
Alguns meses após a Batalha do Fosso, por ocasião da peregrinação (hajj), o Profeta decidiu realizar o ritual com os seus companheiros. Ele convidou todas as tribos árabes a se juntarem a ele, em parte para se prestar tributo à Caaba e à tradição abraâmica que ela representava, e em parte para negar a alegação maquense de que os muçulmanos não respeitavam nem Makka, nem a sua tradição. Ao chegarem aos arredores de Makka, os maquenses surgiram com força total, para defender a sua cidade contra o que eles imaginavam ser uma invasão muçulmana. O Profeta havia antes declarado a intenção religiosa da expedição; mas os maquenses não confiavam na sua declaração. Eles temiam que, uma vez dentro da cidade, os muçulmanos a tomassem. Em razão disso, decretaram que não seria permitida a entrada dos muçulmanos e que não haveria nenhuma peregrinação. As circunstâncias exigiram que se entabulassem negociações entre as duas partes, que alcançaram um entendimento, que passou a ser conhecido como o Tratado de Hudaibiya.
Os termos do tratado eram humilhantes para os muçulmanos. Primeiro, os muçulmanos não poderiam realizar a peregrinação naquele ano, mas poderiam voltar para fazê-lo no ano seguinte, desde que viessem desarmados e não permanecessem na cidade mais do que três dias. Segundo, qualquer maquense que se juntasse a eles deveria ser devolvido a Makka, mas qualquer muçulmano que desertasse em favor de Makka não seria devolvido a Madina. Terceiro, os árabes de fora de Makka que quisessem, poderiam juntar-se à cidade, e os que quisessem, poderiam juntar-se a Mohammad. Quarto, nenhum dos dois lados atacaria o outro nos dez anos seguintes. O Profeta concordou com estes termos. Ele calculava que, uma vez que o Islam era uma questão de convicção e de fé pessoal, o convertido maquense não cometeria apostasia, mesmo que fosse compelido a residir em Makka; que a presença de apóstatas muçulmanos em Madina seria inútil e até prejudicial. Ele também compreendeu que as tribos eram entidades independentes. Se elas quisessem aliar-se a Makka, ninguém poderia impedi-las pela força; mas a possibilidade de persuadi-las a se juntarem às hostes do Islam poderia provar-se uma clara vantagem. Quanto aos dez anos de paz, o Profeta considerou-os uma grande vantagem, porque a paz era exatamente do que ele precisava para levar a mensagem do Islam a toda a Arábia. Ele também concordou em adiar a peregrinação por um ano, para que pudesse realizá-la numa atmosfera pacífica, na qual todos os árabes se congregariam e seriam informados da mensagem do Islam em primeira mão. Ele concordava, portanto, em assinar esse tratado. Mas não concordavam com isso os seus companheiros mais antigos, que viam o tratado como um insulto, merecedor de uma reação violenta. Aquilo era uma ameaça de irrupção de uma divisão e rebeldia nas hostes muçulmanas. Além do mais, o passado traiçoeiro de Makka não dava margem para a confiança dos muçulmanos. Os maquenses retiveram em demasia o representante muçulmano, Otman Ibn Affan, e se espalhou o boato de que eles o haviam morto. E se eles tomassem os muçulmanos de surpresa naquele mesmo instante e começassem uma batalha, cujo momento, lugar e condições eram da sua escolha exclusiva? Como poderiam confiar em que eles fizessem um tratado de paz?
Enquanto os representantes de ambos os campos aguardavam, o Profeta reuniu os seus companheiros mais intimos ao pé de uma árvore e sentou-se para debater a questão com eles. Ele lhes pediu para confiar em Deus, nele e na paz. Ao mesmo tempo, ele lhes pediu para estarem prontos para lutar, no caso de os maquenses trapacearem. Finalmente, Mohammad reafirmou a sua autoridade como Profeta e lhes lembrou o seu pacto de obedecerem a ele em todos os assuntos, incluindo no tocante ao sacrifício das suas próprias vidas. Como em todas as outras crises, o primeiro a renovar o seu juramento de fidelidade foi Abu Bakr, o qual também exortou Ômar Ibn Khattab a não renegar o dele, aquele que ele fizera quando ingressara nas hostes do Islam. Diante disso, Ômar reafirmou a sua obediência, também, e os demais companheiros seguiram o seu exemplo. Tendo restaurado a unidade no seu campo, com este novo acordo – mais tarde chamado de Bay'at Ridwan ou o Tratado do Contentamento –, o Profeta assinou o tratado com Makka. Os representantes voltaram em segurança aos seus campos, e os muçulmanos retomaram o caminho de volta para Madina.
A caminho de casa, foi revelada a surata Al Fath, que começa com o seguinte versículo: "Em verdade, temos-te predestinado um evidente triunfo, para que Deus perdoe as tuas faltas, passadas e futuras, agraciando-te e guiando-te pela senda reta."8 Esta revelação dissipou quaisquer dúvidas que ainda restavam nas mentes dos muçulmanos sobre a validade do Tratado de Hudaibiya. E os anos que se seguiram provaram que eles estavam certos.
Pela primeira vez, o Islam, o seu Profeta, e a sua umma, como Estado soberano, não eram mais vistos, nem pelos maquenses, nem pelos seus aliados, como desprezíveis ou fugitivos da tribo de Coraix, mas como iguais, com um título reconhecido, com legitimidade e direitos e como uma entidade política tão eminente quanto o de Makka. Segundo, o tratado reconhecera o direito de acesso dos muçulmanos à Caaba e o direito de realizarem a peregrinação e rezarem, dentro do santuário de Makka. Terceiro, a paz permitiu a Mohammad enviar os seus mensageiros às tribos da Arábia, sem recear pelas suas vidas. Em dois anos de missão Islâmica na Arábia, após o Tratado de Hudaibiya, foi convertida quase a maioria das tribos. Quando Mohammad conclamou os muçulmanos para a marcha sobre Makka, em seguida à violação, por esta, do Tratado de Hudaibiya, a multidão que atendeu ao chamado era tal, que Makka se viu sobrepujada, sem combate. A paz, proporcionada por aquele tratado, dera a Mohammad confiança para enviar representantes até para fora da Arábia, para a Abissínia, o Egito, Bizâncio, a Pérsia e para as tribos às margens da Península. Sem Hudaibiya, a conquista de Makka não teria ocorrido tão rapidamente, nem teria sido tão exangue.
Ao instituir a paz, o Tratado de Hudaibiya permitiu aos muçulmanos apresentarem o Islam, sem que este fosse visto como um ameaça. Uma vez que estavam descontadas a guerra e as hostilidades, o conflito se transformou em ideacional, colocado diante da razão e da consciência, a cada pessoa como indivíduo. Deus é Deus ou não? Se Ele é o Único Criador, não deveria Ele ser o único Senhor ou Juiz? Não deveriam, então, a adoração e o culto, a obediência e o serviço, a lealdade e a fé pertencer somente a Ele? Se a justiça, a misericórdia e a moderação são virtudes, não são mandamentos de Deus que, portanto, devem ser obedecidas, sob quaisquer circunstâncias? E se a eloqüência literária é o valor mais nobre e mais importante, não é o Alcorão tão sublime, que só pode ser revelação de Deus, ser uma obra sobrenatural do Autor divino? Esta lógica calma do Islam convenceu rapidamente os árabes da Península, do mesmo modo que viria a convencer os milhões de outros, aos quais seria apresentada mais tarde. As fileiras da umma engrossavam, com os novos recrutas, a cada dia, e logo o Islam tornou-se a voz predominante, na maior parte da Arábia.
Abu Basir, um maquense, converteu-se ao Islam e fugiu para Madina. O povo de Makka pediu a sua extradição, de acordo com os termos do tratado. Mohammad chamou Abu Basir e lhe disse: "Nós muçulmanos não enganamos. Juramos devolver os fugitivos, e portanto, devemos devolver-te a Makka. Sê forte e volta. Deus cuidará de ti". Abu Basir entregou-se ao representante de Makka e foi com ele. A caminho para Makka, Abu Basir lutou com o seu captor, tomou a sua espada, matou-o e fugiu. O número de conversões dos maquenses ao Islam continuou a crescer. Uma vez que permanecendo em Makka expunham as suas vidas ao risco, eles fugiam para o deserto e ficavam esperando, de tocaia, a passagem de caravanas de Makka. Eles interromperam de tal modo o tráfego, que Makka, vendo-se incapaz de os conter, pediu ao Profeta que os termos do tratado fossem revistos, de modo que os convertidos maquenses ao Islam ficassem sujeitos à responsabilidade de Mohammad, o qual teria de contê-los, de acordo com tais termos. Que irônico o fato de que a condição do tratado que os muçulmanos consideraram, na época, humilhante e recusável, viesse a ser tão vantajosa para eles e prejudicial a Makka. Os maquenses enviaram Suhail Ibn 'Amr, o delegado que havia redigido o termo original, para pedir a sua revisão.
Logo chegou a época da peregrinação do ano seguinte, e Mohammad chamou todos os muçulmanos a fazerem o hajj com ele. Milhares convergiram e se aprontaram para a viagem. Mohammad ensinou-os a se vestirem para a peregrinação e a entrarem em Makka, vestidos com o ihram, que consiste de duas peças de tecido brancas e sem costura. O seu cântico uníssono, entoando Labbaika Allahum-ma Labbaik (Ao Teu chamado ó Deus, estou atendendo), deve ter sido uma visão surpreendente, para todos os árabes que o ouviram. Ele gerou um profundo respeito por eles e reverência pela sua nova religião, o Islam. Os maquenses evacuaram a sua cidade, e colocaram-se sobre uma montanha, que permitia uma visão completa do santuário. À medida que os muçulmanos davam volta à Caaba, Mohammad lhes ensinava a entoar:
Allahu Akbar, Allahu Akbar, Allahu Akbar
(Deus é o Maior, Deus é o Maior, Deus é o Maior)
Allahu Akbar, Allahu Akbar, Wa Lillahil-hamd
(Deus é o maior, Deus é o maior, a Deus pertence o louvor)
Allahu Akbaru Kabira, wal hamdu lillahi kacira
(Deus é o maior, realmente o Maior; a Deus pertence todo o louvor)
Wa subhana Allahu bukratan wa asila
(A Deus pertence a glória de cada amanhecer e anoitecer)
La ilaha illa Allahu wahdah
(Não existe outra divindade além de Deus, Único)
Sadaca wa'dah, wa a'azza jundah
(Sua promessa era verdadeira; Ele reforçou o Seu exército)
Wa hazama al ahzaba wahdah
(E somente Ele derrotou os partidos)
La ilaha illa Allah wa la na'budu illa iyyah
(Não há outra divindade além de Deus. Nós não adoraremos ninguém além d'Ele)
Mukhlicina Lahuddina walaw kariha al mushrikun
(Seremos sinceros em nossa religião para com Ele, por mais que se nos oponham os politeístas).
Esta confissão de fé era tão sincera, quanto atemorizante e fascinante. Seu tom desafiador inspirava pavor no coração do inimigo, mesmo sem a demonstração dos armamentos; mesmo assim, comovia aqueles mesmos corações e os fazia concordar com ela, justamente pela sua sinceridade absoluta, pela sua firme decisão de adorarem somente a um único Deus, pela sua reafirmação e confiança em que Deus daria ao Islam a vitória final. Do mesmo modo, o ritual do hajj confirmava o elevado respeito que o muçulmano tinha pela Caaba, por Makka e pela sua tradição abraâmica. Tudo isto tornava o Islam irresistível, pelo menos para os dois maiores generais de Makka, Khalid Ibn al Walid e 'Amr Ibn al 'As, que abandonaram os seus colegas maquenses e à sua frente, adiantaram-se, para proclamar a sua conversão ao Islam. Mohammad recebeu-os de braços abertos e os convidou a se juntarem à cerimônia.
Foi alguns meses depois dessa peregrinação que uma tribo aliada de Makka agrediu um aliado de Madina. Os muçulmanos pediram aos maquenses para cumprirem a sua obrigação, estabelecida no Tratado de Hudaibiya, mas os maquenses se recusaram a fazê-lo. Os muçulmanos se mobilizaram e lhes declararam guerra. Dez mil ou mais cavaleiros e mais alguns milhares de cameleiros e a infantaria, atrás destes, puseram-se diante das portas de Makka em poucos dias, prontos a entregar as suas vidas, por ordem do Profeta. Sobrepujados, os maquenses se renderam. O Profeta entrou na cidade e foi direto à Caaba. Com as suas próprias mãos ele destruíu os ídolos, removeu os entulhos do recinto sagrado, limpou e reconsagrou a Caaba ao Deus único, Senhor e Criador de todos. Enquanto trabalhava, ele recitava: "Chegou a verdade, e a falsidade desvaneceu-se, porque a falsidade é pouco durável".9 Os líderes de Makka ficaram ali perto, observando e tremendo de medo, por suas vidas. Então, o Profeta mandou-os aproximar-se, para ouvirem o seu veredito. Eles se adiantaram e se ajoelharam diante dele. O Profeta, então, disse: "Levantai-vos e ide! estais livres", concedendo o seu perdão geral a eles e a todos os maquenses. Esta magnanimidade de Mohammad, no momento do seu maior triunfo, dissipou a última resistência dos seus corações. Primeiro os líderes e, em seguida, colunas e filas inteiras foram proclamar a sua conversão ao Islam. Makka tornou-se uma cidade muçulmana; seu santuário tornou-se o lugar mais sagrado do Islam, e o seu povo tornou-se um dos seus maiores defensores.
Finalmente, a sunna era a concretização da relevância do Islam para a ordem e as relações internacionais. O tratato de Madina havia reconhecido os judeus como uma comunidade e lhes tinha concedido autonomia constitucional, para organizarem as suas vidas como lhes ditava a Tora e como ela era interpretada pelas suas próprias cortes judiciais e por outras instituições. Essa provisão constitucional não mudou quando alguns judeus cometeram atos de traição contra o Estado Islâmico, porque o Islam rejeita qualquer teoria de culpa vicária. Os atos de traição foram os atos daqueles que os praticaram e não dos seus descendentes. A mesma provisão foi estendida pelo Profeta aos cristãos de Najran. Estes haviam enviado uma delegação a Madina, buscando uma confirmação do seu status e inquirindo sobre o Islam. A delegação cristã foi recebida e entretida pelo Profeta, que também lhe fez a apresentação do Islam. Alguns dos seus membros se converteram e se juntaram às fileiras da umma muçulmana. Aqueles que não se converteram, foram estabelecidos pelo Profeta como uma outra comunidade, dentro do Estado Islâmico e sob a sua constituição. Ele enviou os delegados de volta ao seu povo, no Iêmen, protegidos dos perigos da estrada por muçulmanos e acompanhados por Abu Ubaida, que ele nomeou representante do Estado, entre outros.
O Estado Islâmico, portanto, tornou-se uma ordem multireligiosa, por desejo e instituição do próprio Profeta, que assim uniu, em uma ordem de paz e legitimidade, muçulmanos, judeus e cristãos. Este pluralismo não era uma questão de cortesia, mas sim um artigo constitucional; não era uma questão de tolerância de costumes estrangeiros de alimentação, vestuário, ou música, mas de códigos completos de leis que governavam a vida das comunidades religiosas não-muçulmanas. O pluralismo do Estado Islâmico era um pluralismo de leis, uma inovação jamais vista alhures, em toda a história da humanidade. O Estado Islâmico de Madina era um microcosmo da ordem mundial por vir. O ato de inserir os cristãos de Najran na constituição viria a ser repetido por seus companheiros, a favor dos persas adeptos do zoroastrismo, e pelos sucessores destes, a favor dos hindus, dos budistas e de todas as outras religiões.
Depois da paz com Makka, Mohammad havia enviado delegações aos reis, ao redor da Arábia, convidando-os a se aliarem ao Islam. Se eles não aceitassem se converter, após ouvir a apresentação dos delegados, eram convidados a partilhar da Pax Islamica, a ordem de paz internacional, na qual as idéias deveriam ser livres para se desenvolverem e os homens livres para se convencerem e serem convencidos da verdade, preservando, ao mesmo tempo, intactas as suas instituições políticas, econômicas, sociais, culturais e até as militares. O Estado islâmico buscava a oportunidade para apresentar o Islam a todos os seres humanos, de todos os cantos, e honravam as suas decisões pessoais de aceitá-lo ou rejeitá-lo. O Islam não estava interessado em subjugá-los, nem em explorá-los, de qualquer forma que fosse. Ele buscava a promoção, não do seu próprio bem, mas do deles, como seres humanos iguais, como criaturas de Deus, tanto quanto os muçulmanos, possuidores do direito de ter, também, a revelação que lhes fora dada. A missão do Estado islâmico cingia-se à transmissão da mensagem de Deus. A decisão de aceitá-la ou rejeitá-la cabia somente ao homem, tal qual o dissera Deus (Alcorão 18:29). Mas nenhum poder, nenhuma instituição ou tradição pode impedir os homens de ouvirem e considerarem o chamado divino. Isto seria o mesmo que presumir serem eles incapazes de julgar por si mesmos, o que além de ser falso e injurioso, é uma espécie de tirania espiritual.
Eis porque os delegados do Profeta estavam instruídos para dizer aos reis e chefes que cada governante deve arcar com a responsabilidade do bem-estar espiritual dos seus súditos. O imperador de Bizâncio, o governante do Egito, e Negus, da Abissínia, responderam de maneira bondosa. O imperador da Pérsia e os chefes dos estados fantoches da Arábia do Norte rejeitaram o chamado, com desprezo e desafio. O governante de Dhat al Talh, vassalo de Bizâncio, matou os quinze companheiros do Profeta que foram enviados para apresentar o Islam, a ele e à sua gente. O governador de Basra, outro agente de Bizâncio, matou o delegado muçulmano, enquanto o ouvia relatar a sua mensagem. Alguns historiadores muçulmanos relataram que o próprio Imperador Heráclito deu ordem aos seus governadores provinciais para se mobilizarem e iniciarem a hostilidade.10 Esta reação de Bizâncio e dos seus estados satélites levou os muçulmanos a tentarem romper a autoridade que obstruía a proclamação da mensagem divina. As opções desses governantes desafiadores eram ainda mais limitadas pelos seus atos tolos. Os exércitos muçulmanos, que se reuniam às sua portas, ofereciam-lhes três possibilidades: a de aceitar o Islam; a de aceitar a ordem mundial do Islam, na qual eles continuariam a exisitir como uma comunidade constituinte, livre para exercer a sua religião, tendo garantidos os seus direitos humanos e jurídicos; ou então, a guerra. Quanto aos próprios muçulmanos, o seu espírito era exemplificado por 'Abdullah ibn Rawaha, um companheiro do Profeta, que detinha o comando do exército em Ma'an, a sudeste do Mar Morto. Antes de engalfinhar-se com o inimigo, ele dizia aos seus homens: "Irmãos! Aquilo que algumas pessoas temem pode acontecer a nós, e esta é a razão de nos encontrarmos aqui; precisamente, o martírio. Nós, muçulmanos, não combatemos nem com números, nem com armas. Nossa única força é a nossa fé, que Deus graciosamente nos concedeu. Levantai-vos para o combate e marchai para a frente! Uma das duas maiores graças será nossa: ou a vitória ou o martírio. Em qualquer dos casos, seremos os vencedores". Um espírito parecido movia os muçulmanos que enfrentavam o Império Persa. O supremo comandante persa, com roupas de grande resplandecência, revestidas de tanto ouro que mal ele podia-se mexer, mandou chamar o comandante muçulmano, que vestia a sua roupa normal do deserto, e disse: "O que é que trazes para nos combater aqui?", perguntou o persa. O comandante muçulmano respondeu:
"Para que os homens não possam mais adorar outros homens, mas oferecer a sua reverência ao Criador dos seres humanos; para cumprir esse objetivo, os nossos homens estão dispostos a morrer, com a mesma ânsia que os teus homens tem de viver". No décimo ano da Hégira (632 d.C.), o Profeta liderou uma procissão de mais de 100.000 muçulmanos, de Madina para Makka, em peregrinação. Essas milhares de pessoas vinham de todos os lados da Península, para acompanhar o Profeta, em seu hajj. Outros milhares foram-se juntando pelo caminho, e outro tanto havia ido diretamente para Makka. Nessa ocasião, o Profeta fez um sermão, que viria a ser o seu último. Nele, reassumiu a mensagem da qual ele fora divinamente nomeado guardião.
Montado no seu camelo, e com Rabi'ah Ibn Umaiya ao seu lado, em outro camelo, para repetir as suas palavras, de maneira que todos os ouvissem, o Profeta disse:
"Ó homens, ouvi bem as minhas palavras, pois eu não sei se nos encontraremos novamente, em ocasião igual. Até vos encontrardes com o vosso Senhor, a segurança das vossas vidas e dos vossos bens serão tão invioláveis, quanto o são este dia sagrado e este mês santo… Encontrareis deveras o vosso Senhor e Ele medirá os vossos atos. Aquele que estiver conservando algo que não seja seu deve devolvê-lo ao seu legítimo dono… Todo o juro está abolido; e todo o juro auferido está dispensado; somente o vosso capital vos pertence… Não praticareis, nem sofrereis qualquer injustiça ou iniqüi-dade… Deus ordenou que todos os juros devidos a 'Abbas Ibn 'Abd al Muttalib e ao seu clã (do qual Mohammad era herdeiro), nos dias pré-islâmicos, estão pagos… Ó homens, Satanás perdeu a esperança de ser adorado em vossa terra. Mesmo assim, ele ainda é capaz de determinar os menores dos vossos atos… Ó homens, tendes sobre as vossas mulheres, e as vossas mulheres direito, sobre vós, mais a vossa bondade… Tratai-as bem e sede bondosos com elas, pois elas são as vossas parceiras e ajudantes comprometidas… Eu estou deixando para vós o Livro de Deus e a sunna do vosso Profeta. Se os seguirdes, jamais vos desviareis."11
Oitenta e um dias após ter feito esse sermão, o Profeta faleceu. Ele estava doente havia dez dias, sofrendo de uma forte febre. Antes de ser enterrado, os seus companheiros reuniram-se para considerar o futuro deles, depois da partida do Profeta. Sua morte foi um choque terrível, que fez alguns deles perderem o bom senso. Em sua dor, eles estavam propensos a aceitar a afirmação de Ômar, do que ele havia feito naquele encontro, e que Mohammad não tinha morrido, mas que Deus o levara para os Céus, como havia feito antes com Jesus, e que ele continuava a viver. Abu Bakr chegou tarde para a reunião. Ouvindo Ômar, Abu Bakr instou-o a sentar-se e a ficar quieto. Mas Ômar insistiu e falou até mais alto. Abu Bakr, então, levantou-se e dirigiu-se aos muçulmanos ali reunidos: "Ó homens, se adorais Mohammad, sabei então que Mohammad está morto, morto, morto. Mas se tendes estado a adorar Deus, sabei então que Deus é eterno e nunca morre. Deus disse, no Seu Livro Sagrado: "Mohammad não é senão um mensageiro a quem outros mensageiros precederam. Porventura se morresse ou fosse morto, voltaríeis à incredulidade?"- Alcorão 3:144). Esta foi a última vez que o mundo muçulmano ouviu qualquer tentativa de deificar Mohammad, ou de atribuir a ele quaisquer das qualidades sobrenaturais que pertencem exclusivamente a Deus.
Antes daquela ocasião, quando da morte do seu filho Ibrahim, gerado para ele por sua esposa egípcia, Mariam, Mohammad foi acometido de profundo pesar. Uma vez que não tinha prole masculina, o nascimento de Ibrahim significara uma grande esperança para ele, tanto que ele se manifestara na escolha do nome ancestral para a criança. Sua morte prematura, na infância, com poucos meses de vida, deprimiu Mohammad seriamente. Naquele momento, um companheiro sugeriu que a criança não havia morrido, mas tinha sido levada por Deus e morava com Ele. Olhando para o infante morto em seus braços, Mohammad disse: "Ó Ibrahim, o fato de que tu és o filho de Mohammad, o Profeta de Deus, de nada te servirá, quando te encontrares com o teu Criador. O sol e a lua são sinais de Deus. Eles não brilham, nem se põem, para atender a alguém; nem são eclipsados, pela morte de alguém. Nada eleva um ser humano, a não ser os seus atos".
Notas
1. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. II, págs. 348-357; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 180-183.
2. Narrado em nome de 'Abdullah Ibn 'Amr Ibn al 'As, por Ahmad Ibn Hanbal no Al Musnad. (Cairo: Dar al Ma'arif, s/d), Vol. 2, pág. 176. A mesma tradição foi narrada, também, por Abu Dawud em Al Sunan.
3. Tal como relatado por al Bukhari, Muslim e Ahmad Ibn Hanbal.
4. Este hadice foi relatado por Muslim.
5. Alcorão 49:9.
6. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 2, pág. 457; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 226-227.
7. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 3, págs. 699, seguintes; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), pág. 299, seg.
8. Alcorão 48:1, seg.
9. Alcorão 17:81.
10. Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 338-389.
11. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 4, pág. 1022, seg.; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), pág. 486-488.
Fonte: http://www.alcorao.com.br/mohammad.asp
Talvez a principal qualidade essencial à liderança seja a capacidade de a pessoa perceber e avaliar corretamente todos os fatores de uma determinada situação, decidir quanto ao objetivo desejável,projetar a melhor estratégia, para a execução desta e convencer os demais participantes da
viabilidade do esquema projetado e levá-los a integrá-lo com a mais decidida vontade de que sejam capazes.
Mohammad possuía essa qualidade no seu mais alto grau. Não fosse o Islam, ele ainda assim teria sido o estadista mais capaz que Makka jamais conhecera. O Islam alongou a sua visão universalista como um novo objetivo, e expandiu o âmbito da liderança a todo o mundo.
Um caso isolado da primeira sunna do Profeta comprova as suas qualidades de liderança. Enquanto os maquenses reconstruíam a Caaba, depois de uma inundação que fez rachar as suas paredes, os chefes tribais disputavam entre si a honra de colocar a pedra fundamental. Esta era a Pedra Negra, que os maquenses haviam venerado, por gerações seguidas. Como todos os chefes estivessem envolvidos na disputa, a sugestão de Abu Umaya de que eles se comprometessem, todos, a aceitar o arbítrio da primeira pessoa que viesse ao lugar, foi aceita, mas com certa apreensão. Aconteceu de a primeira pessoa a surgir ser Mohammad, e eles se sentiram seguros de que a decisão dele não seria parcial. Encarregado da tarefa, Mohammad resolveu fazer rolar a Pedra Negra para cima de um pano, fazendo com que cada um dos chefes segurasse em uma ponta do mesmo, e assim todos carregassem a pedra para o seu lugar. Todos os chefes ficaram satisfeitos e convictos de que a honra também lhes tinha pertencido, não menos do que a qualquer outro. Todos ficaram agradecidos a Mohammad, que transformara uma situação ameaçadora em uma ocasião de alegria geral.
A mesma percepção genial de Mohammad se fez presente, quando da sua chegada a Madina. Os muçulmanos deram-lhe calorosas boas-vindas. Cada um almejava a honra de receber Mohammad em sua casa; e com esta finalidade, os chefes competiam entre si. O Profeta disse que ele não tomaria nenhuma decisão; ao invés disso, ele ficaria onde o seu camelo parasse. Após vaguear pelas ruas de Madina por algum tempo, o camelo parou em um terreno vazio, que pertencia a Sahl e a Suhail, os filhos de 'Amr. O Profeta pagou pela terra e nela construiu a sua primeira mesquita.
Do mesmo modo que ele não favorecia qualquer chefe ou seção da comunidade em detrimento do outro(a), Mohammad tinha, também, o cuidado de não reivindicar qualquer privilégio para si próprio. Ele se considerava um qualquer, entre os seus pares. Quando se aproximava a hora das refeições, durante a marcha em uma campanha, os seus companheiros declararam que iam preparar a comida. Distribuíram as tarefas entre eles, não deixando nada para o Profeta fazer. Observando que eles se haviam esquecido da necessidade de alguém apanhar lenha para o fogo – a tarefa mais dura e menos agradável – Mohammad disse: "E eu apanharei a lenha." A opinião dos subordinados era que o chefe deveria ser sempre digno do seu amor e da sua estima. Isto ele manifestou na tradição (hadice), que conta: "A oração do imam (líder), que é odiado por sua gente, é inaceitável por Deus" e "quem quer que assuma a liderança de um povo contra a sua vontade, a sua oração jamais irá além das suas orelhas." Nem a sua condição de profeta, nem a de chefe de Estado impediam Mohammad de tratar aos outros como iguais. Aliás, foi ele que ensinou os muçulmanos a fazer os seus servos e escravos comerem à mesma mesa que eles, a dar-lhes as mesmas roupas para vestir, a chamá-los por "filhos", ao invés de "servos" ou "escravos", e a serem chamados, por eles, de "tios", ao invés de "senhores". Certo dia, na praça do mercado, um mercador, ao qual Mohammad dava preferência, pegou a sua mão e a beijou. Mohammad retirou a sua mão e disse: "Isto é o que fazem os persas ao rei deles. Eu não sou um rei, e tu não és um persa." Do mesmo modo, quando os muçulmanos foram convocados para cavar um fosso em frente ao ponto mais vulnerável de Madina, como defesa contra um ataque de cavalaria, Mohammad insistiu em juntar-se a eles, com as suas próprias mãos. Muito antes da sua condição de profeta acontecer, essa qualidade fizera-o ser amado por seus companheiros e conhecidos. Zaid era um escravo adulto, trazido para Makka para ser vendido. Khadija o comprou e deu de presente a Mohammad, que prontamente o alforriou e o tornou seu assistente. Não demorou a aparecer o pai de Zaid para resgatá-lo; mas, encontrando-o já liberto, ofereceu-se para levá-lo de volta para casa. Mohammad deu a Zaid liberdade para escolher se ficava ou voltava para a sua casa e a família, mas este preferiu ficar com ele.
Para sua segurança pessoal, em Makka, Mohammad dependia das lealdades tribais. A sua tribo, os Bani Háchim, era capaz de o proteger durante muitos anos contra o resto de Makka. Esta proteção não era sem preço em vituperação e ridículo, em prejuízos e boicote social e econômico. A oposição de Coraix ganhava ímpeto, enquanto os muçulmanos ainda eram poucos e fracos ali. Não demorou, e a situação se tornou crítica; e o chefe tribal de Mohammad teve de pedir ao seu sobrinho - Mohammad - para desistir da causa. Mas Mohammad se recusou, jurando, pela sua própria vida, continuar sua luta até o fim. Apesar do tio o ter apoiado e rejeitado o ultimatum de Makka, Mohammad sabia que a hora da decisão estava próxima, e que os homens de Banu Háchim não seriam páreo para todos os maquenses, que agora se uniam contra eles, por sua causa. Foi a sua pre-ciência dessa situação que o levou a entrar em negociações e a firmar dois tratados sucessivos com os muçulmanos de Madina. Assim ele substituiria a relação tribal, caso os Banu Háchim retirassem o seu apoio, e reforçaria as suas forças contra os maquenses com as de Madina, certo de que a sua premonição estava correta e de que a sua estratégia era muito oporturna. Ambas eram componentes preciosos da sua liderança.
Ao chegar a Madina, no verão do ano de 622, Mohammad reconciliou as duas principais tribos da cidade e as fundiu, para formarem o primeiro núcleo político islâmico. A sua alienação e mútuo antagonismo eram tradicionais. Mohammad substituiu o ódio pelo respeito, amor e estima; a malquerença pela solidariedade; e a separação pela unidade. Em seguida, fundiu os madinenses (al Ansar) com os maquenses (al Muhajirun), que haviam vindo para Madina, despossuídos e só com as roupas do corpo. Cada casa de Madina correspondeu ao apelo com a abertura do seu lar a algum indivíduo ou alguma família maquense. Era a primeira vez que chefes e aristocratas, plebeus e escravos, ricos e pobres, cidadãos e estrangeiros, se aliavam para formarem uma nova sociedade, na qual o liame da fé transcendia as diferenças de nascimento e de história; onde a lealdade religiosa criava para si uma unidade orgânica sócio-econômica, política e militar. A união não estava restrita aos muçulmanos. Mohammad persuadiu os judeus a se juntarem a eles, e se tornaram membros integrantes dessa nova ordem social. Eles também tinham divergências entre si, bem como os árabes e muçulmanos madinenses. Eles eram dependentes das duas tribos dominantes, Aws e Khazraj, e estavam envolvidos com estes últimos, em todas as suas disputas e conflitos. A liderança de Mohammad era suficientemente forte para reunir todos eles sob o mesmo teto e fundi-los na primeira sociedade ecumênica e pluralista. Para formalizar a união deles e registrar tal acordo, Mohammad ditou o Tratado de Madina – a primeira constituição escrita da história humana. A promulgação dessa constituição inaugurou o primeiro Estado Islâmico, a primeira ordem mundial multireligiosa.1
Mohammad gerou tudo isso com sua própria sabedoria e poder de persuasão. Ele não tinha nenhum poder para coagir quem quer que fosse. Ele sabia que uma união que não fosse realmente desejada pelos seus membros era inviável, assim como o governante indesejado por seu povo nunca seria bem-sucedido. A nova sociedade se baseou na chura (consulta entre os pares, com vistas a alcançar o consenso, tal como descrito no Alcorão 42:38), bem como em alguns princípios que continuam a servir como normas de atividade política ao longo da história muçulmana. Entre outros, esses princípios incluem: A ordem social é absolutamente necessária. "Se apenas três de vós saírem em uma missão, deverão designar um amir chefe, um primeiro sucessor e um segundo sucessor".² Esse é um antigo princípio mesopotâmico, que via a ordem social como uma condição imprescindível à vida; um grupo sem líder é como um rebanho de ovelhas sem pastor. A umma era um povo com uma causa, uma missão a ser realizada no espaço e no tempo e, por isso, devia ser organizada. "Mesmo um imam injusto", dizia Mohammad, "é melhor do que o caos ou nenhuma ordem… onde qualquer um pode tomar a lei nas próprias mãos… Naturalmente, nenhum desses casos, como tal, é feliz; e, no entanto, um governo que mantém a ordem realiza, pelo menos, um bem essencial para a sociedade". O melhor mesmo é o governo que proporciona tanto a ordem como a justiça. Em um Estado desses, a obediência ao governante é um dever religioso e civil, enquanto o que for ordenado não vier a conflitar com a lei de Deus. Sempre que o Estado se afasta da lei de Deus, não há necessidade de qualquer obediência. Devido ao potencial de abuso dessa condição, Mohammad alertou para que se prevenissem cuidadosamente contra tal situação. Jamais devemos questionar a legitimidade das ações de um governo, dizia ele, a não ser que elas sejam claramente kufran bawahan fihi burhan (um afastamento da lei de Deus, comprovado por evidências inquestionáveis).³ Dentro de tais limitações, todo muçulmano ou cidadão é um pastor responsável por seu rebanho, governante do seu Estado, tanto quanto chefe da sua casa, toda muçulmana é mãe dos seus filhos e dona do seu lar, e todo criado é empregado, para cuidar dos interesses do seu empregador.4 Além de orientar o navio do Estado para as metas que o Islam prescreveu para ele, o dever primaz da liderança é cuidar dos fracos, dos pobres e de todos aqueles que precisam ajudar a cumprir as metas supremas e pessoais. "Aqueles líderes que cumprem essa função", proclamava Mohammad, "tornam-se merecedores da imunidade contra o Fogo (do inferno)". Nem a história antiga tinha respeito pelas sociedades que não se preocupavam com os fracos da sua comunidade. "Na verdade", dizia o Profeta, "Deus proporcionará, ajuda e concederá a vitória, na medida em que as sociedades demonstrarem a sua solidariedade aos seus fracos… Qualquer um que não tiver misericórdia para com os pequenos, entre nós, e não respeitar os grandes, não pertencerá a nós". Acima de tudo, a ordem social deve ser justa para com todos. Respondermos ao clamor das vítimas de injustiças – sejam elas muçulmanas ou não – é de suma importância. "Nada isola esse clamor dos ouvidos de Deus", afirmava o Profeta.
A liderança da ordem social deve organizar a sua administração, de modo a otimizar o seu serviço ao povo e a minimizar o seu custo. Para atingir esse objetivo, o critério de contratação deve ser a competência. "Nomear qualquer líder para qualquer serviço público, por mais insignificante que seja, por qualquer outro critério", declarou o Profeta, "é um ato de traição a Deus, ao Seu Profeta e à umma". O governante deve outorgar a cada um a responsabilidade pelos seus atos e deixar a prestação de contas das intenções a Deus. Mas se ele começar a suspeitar das pessoas ou as induzir a suspeitarem umas das outras, a corrupção se estenderá naquele Estado e começará a arruiná-lo. O governante deve sempre almejar a reconciliação e a unidade. Quando surgir uma divergência entre duas facções, ele deverá conduzi-las a um acordo justo; e se alguém se rebelar contra tal acordo, a umma, como um todo, deverá opor-se aos rebeldes e fazê-los recobrar o bom senso.5 A justiça é, com toda a certeza, o principal ideal social do Islam. A indignação que a sua violação gera no muçulmano e o entusiasmo pela sua defesa e preservação desconhecem quaisquer limites, no coração comprometido ao tauhid. Entretanto, como qualquer virtude, também a busca da justiça pode-se tornar opressiva. É por isso que não nos devemos omitir de temperar essa busca com compaixão e misericórdia. O entendimento disto, junto com a sua sensibilidade normal para com a necessidade dos famintos, dos fracos e dos oprimidos, levou Mohammad a declarar: "Quando criou a humanidade, Deus comprometeu-Se em que sempre seria misericordioso. "Minha misericórdia é mais forte que a Minha ira" – disse Deus. Quanto à sua própria governança, Mohammad disse: "Deus não me enviou para ser um zelote, como governante, nem um fanático, mas sim um educador e guia, que tornasse a vida mais fácil para os seres humanos".
Todos os fatos que descrevemos da sunna, concretizam os valores que se relacionam com a ética social do Islam. Esta foi a realização do período maquense. A ética social externa do Islam, entretanto, não poderia vir à tona, senão depois da Hégira em Madina e do estabelecimento da umma como estado soberano. Antes desse acontecimento, a umma existia potencialmente. Mesmo assim, ela estava sujeita a perseguição tal, que lhe era impossível exercer as prerrogativas da umma. Conseqüentemente, a primeira preocupação do Profeta, depois da Hégira, tão logo se estabeleceu a ordem interna e todos estavam em suas posições, foi a de voltar-se para o mundo externo. Obviamente, o problema externo mais imediato era a hostilidade combativa de Makka, cuja liderança havia decidido assassinar Mohammad na véspera da Hégira. Naquela noite, informado do seu plano, o Profeta decidiu distrair a sua atenção colocando Áli, seu primo, em sua cama e o cobrindo com o seu próprio manto verde. Mohammad e Abu Bakr escaparam, na escuridão da noite. Os maquenses arrombaram a porta, puxaram o manto, com as espadas prontas, mas aí encontraram Áli, em lugar do homem que procuravam.
A maioria dos muçulmanos já havia, àquela altura, deixado Makka para irem a Madina. Eles haviam deixado para trás parentes e bens. Os maquenses passaram a incomodar aqueles, confiscando-lhes as propriedades. Os emigrantes muçulmanos de Makka ficaram desprovidos e tiveram de depender da hospitalidade dos seus anfitriões. Era natural que se cogitassem modos de se vingarem dos maquenses. As caravanas de Makka passavam por Madina, transportando mercadorias para o norte e para o sul. Os muçulmanos procuraram apoderar-se de tudo o que puderam, e Makka se mobilizou para a guerra, resultando daí que os muçulmanos foram arrastados para o seu primeiro confronto militar com os seus inimigos. Trezentos muçulmanos, chefiados pelo Profeta, encontraram-se com um exército maquense, de mil soldados, em Badr. Ambos os lados pensaram que o encontro seria definitivamente decisivo. Enquanto os maquenses preparavam a nata do seu exército para a batalha, o Profeta levantou a moral dos seus seguidores ao nível mais elevado possível. Ele orou em voz alta a Deus, dizendo: "Ó Deus, eis que vem Makka para arrasar com o Teu Profeta e erradicar os Teus servos. Se eles ganharem hoje, não serás mais adorado nestas terras. Concede-nos a Tua ajuda e a vitória. Só Tu és o nosso Senhor, nossa Ajuda e nosso Socorro". Então, voltou-se para os muçulmanos e lhes disse que Deus atenderia a sua prece e lhes concederia a vitória; que todo aquele que tombasse, no combate que se seguiria, alcançaria o Paraíso e teria a vida eterna.6
A estratégia militar do Profeta foi questionada pelos seus seguidores, quando ele declarou que, apesar da causa ser divina, a estratégia seria humana. Em consultas uns com os outros, os muçulmanos decidiram-se por uma distribuição diferente das suas forças. A batalha durou a tarde toda, e as perdas foram pesadas, para ambos os lados. Os muçulmanos saíram vitoriosos. Na verdade, foi uma infusão milagrosa, de energia incomum, que fez os muçulmanos lutarem tão valentemente, a ponto de derrotarem os seus inimigos, apesar da superioridade numérica e de armamento deles. Entretanto, os muçulmanos estavam exaustos e não tiveram forças para consolidar a sua vitória com uma perseguição aos maquenses. Voltaram para Madina, satisfeitos com a vitória naquela batalha, senão na guerra. Um ano mais tarde, os maquenses voltaram para um novo confronto, que teve lugar fora de Madina, ao pé do Monte Uhud. Desta vez, os muçulmanos perderam a batalha, mas infligiram pesadas perdas aos maquenses, que também não puderam dar continuidade à sua vitória, com a invasão e ocupação de Madina. Desesperados, bem como mais escolados pelos seus erros, os maquenses lançaram uma última tentativa contra Mohammad e o seu movimento. Desta vez, eles mobilizaram praticamente toda a Arábia e chegaram às portas de Madina para aniquilarem o Estado islâmico, erradicarem os muçulmanos e acabarem com o seu flagelo, de uma vez por todas. Com números tão enormemente superiores, os muçulmanos não poderiam defrontar-se, e por isso permaneceram dentro da sua cidade. Apressadamente, tiveram de cavar um fosso, em frente a um dos lados mais vulneráveis da cidade, o que deu o nome a essa batalha.7 Felizmente para os muçulmanos, eles não tiveram de lutar. Uma terrível tempestade de areia assolou a região. Ela não afetou os muçulmanos, que estavam dentro dos seus lares e fortalezas; mas provocou o caos entre os seus inimigos, que estavam acampados em tendas, ao longo de um amplo arco, no flanco sul de Madina, bem no caminho da tempestade. Esta arrancou as suas tendas, dispersou e matou a maioria das suas montarias e destruíu os seus suprimentos. Aqueles que conseguiram escapar, fugiram e fizeram com que a campanha fosse em vão.
A constituição do Estado Islâmico (o Tratado de Madina) respeitava os judeus, como uma comunidade autônoma, dentro do estado. Ela conferia à corte rabínica autoridade plena para adjudicar e resolver todos os assuntos dos judeus. Desde as suas derrotas e dispersões pelos romanos, esta era a primeira vez que a existência comunitária judaica e a lei da Tora eram reconhecidas como legítimas, por um Estado. Mesmo assim, a fidelidade dos judeus ao Estado Islâmico oscilava. Inicialmente, o Profeta fez-lhes uma advertência, depois baniu alguns deles, então baniu mais outros e confiscou as suas propriedades. Na Batalha do Fosso, eles tiveram mais uma vez um papel traidor; mas este foi frustrado pelo colapso do inimigo, diante da tempestade de areia. Desta vez, o Profeta se viu obrigado a executar alguns e a expulsar os demais de Madina. Do seu exílio, em Khaibar, eles continuaram a conspirar contra o Estado Islâmico. Não tardou que fosse necessária uma expedição para os desalojar e expulsar de vez da Península Arábica. O seu destino, na Bizâncio cristã não foi diferente. Entretanto, quando o Crescente Fértil foi conquistado pelas forças do Islam, novamente lhes foi oferecido o mesmo status que lhes havia sido conferido no Tratado de Madina, sem ser levado em conta o seu comportamento anterior com os muçulmanos na Península Arábica.
Alguns meses após a Batalha do Fosso, por ocasião da peregrinação (hajj), o Profeta decidiu realizar o ritual com os seus companheiros. Ele convidou todas as tribos árabes a se juntarem a ele, em parte para se prestar tributo à Caaba e à tradição abraâmica que ela representava, e em parte para negar a alegação maquense de que os muçulmanos não respeitavam nem Makka, nem a sua tradição. Ao chegarem aos arredores de Makka, os maquenses surgiram com força total, para defender a sua cidade contra o que eles imaginavam ser uma invasão muçulmana. O Profeta havia antes declarado a intenção religiosa da expedição; mas os maquenses não confiavam na sua declaração. Eles temiam que, uma vez dentro da cidade, os muçulmanos a tomassem. Em razão disso, decretaram que não seria permitida a entrada dos muçulmanos e que não haveria nenhuma peregrinação. As circunstâncias exigiram que se entabulassem negociações entre as duas partes, que alcançaram um entendimento, que passou a ser conhecido como o Tratado de Hudaibiya.
Os termos do tratado eram humilhantes para os muçulmanos. Primeiro, os muçulmanos não poderiam realizar a peregrinação naquele ano, mas poderiam voltar para fazê-lo no ano seguinte, desde que viessem desarmados e não permanecessem na cidade mais do que três dias. Segundo, qualquer maquense que se juntasse a eles deveria ser devolvido a Makka, mas qualquer muçulmano que desertasse em favor de Makka não seria devolvido a Madina. Terceiro, os árabes de fora de Makka que quisessem, poderiam juntar-se à cidade, e os que quisessem, poderiam juntar-se a Mohammad. Quarto, nenhum dos dois lados atacaria o outro nos dez anos seguintes. O Profeta concordou com estes termos. Ele calculava que, uma vez que o Islam era uma questão de convicção e de fé pessoal, o convertido maquense não cometeria apostasia, mesmo que fosse compelido a residir em Makka; que a presença de apóstatas muçulmanos em Madina seria inútil e até prejudicial. Ele também compreendeu que as tribos eram entidades independentes. Se elas quisessem aliar-se a Makka, ninguém poderia impedi-las pela força; mas a possibilidade de persuadi-las a se juntarem às hostes do Islam poderia provar-se uma clara vantagem. Quanto aos dez anos de paz, o Profeta considerou-os uma grande vantagem, porque a paz era exatamente do que ele precisava para levar a mensagem do Islam a toda a Arábia. Ele também concordou em adiar a peregrinação por um ano, para que pudesse realizá-la numa atmosfera pacífica, na qual todos os árabes se congregariam e seriam informados da mensagem do Islam em primeira mão. Ele concordava, portanto, em assinar esse tratado. Mas não concordavam com isso os seus companheiros mais antigos, que viam o tratado como um insulto, merecedor de uma reação violenta. Aquilo era uma ameaça de irrupção de uma divisão e rebeldia nas hostes muçulmanas. Além do mais, o passado traiçoeiro de Makka não dava margem para a confiança dos muçulmanos. Os maquenses retiveram em demasia o representante muçulmano, Otman Ibn Affan, e se espalhou o boato de que eles o haviam morto. E se eles tomassem os muçulmanos de surpresa naquele mesmo instante e começassem uma batalha, cujo momento, lugar e condições eram da sua escolha exclusiva? Como poderiam confiar em que eles fizessem um tratado de paz?
Enquanto os representantes de ambos os campos aguardavam, o Profeta reuniu os seus companheiros mais intimos ao pé de uma árvore e sentou-se para debater a questão com eles. Ele lhes pediu para confiar em Deus, nele e na paz. Ao mesmo tempo, ele lhes pediu para estarem prontos para lutar, no caso de os maquenses trapacearem. Finalmente, Mohammad reafirmou a sua autoridade como Profeta e lhes lembrou o seu pacto de obedecerem a ele em todos os assuntos, incluindo no tocante ao sacrifício das suas próprias vidas. Como em todas as outras crises, o primeiro a renovar o seu juramento de fidelidade foi Abu Bakr, o qual também exortou Ômar Ibn Khattab a não renegar o dele, aquele que ele fizera quando ingressara nas hostes do Islam. Diante disso, Ômar reafirmou a sua obediência, também, e os demais companheiros seguiram o seu exemplo. Tendo restaurado a unidade no seu campo, com este novo acordo – mais tarde chamado de Bay'at Ridwan ou o Tratado do Contentamento –, o Profeta assinou o tratado com Makka. Os representantes voltaram em segurança aos seus campos, e os muçulmanos retomaram o caminho de volta para Madina.
A caminho de casa, foi revelada a surata Al Fath, que começa com o seguinte versículo: "Em verdade, temos-te predestinado um evidente triunfo, para que Deus perdoe as tuas faltas, passadas e futuras, agraciando-te e guiando-te pela senda reta."8 Esta revelação dissipou quaisquer dúvidas que ainda restavam nas mentes dos muçulmanos sobre a validade do Tratado de Hudaibiya. E os anos que se seguiram provaram que eles estavam certos.
Pela primeira vez, o Islam, o seu Profeta, e a sua umma, como Estado soberano, não eram mais vistos, nem pelos maquenses, nem pelos seus aliados, como desprezíveis ou fugitivos da tribo de Coraix, mas como iguais, com um título reconhecido, com legitimidade e direitos e como uma entidade política tão eminente quanto o de Makka. Segundo, o tratado reconhecera o direito de acesso dos muçulmanos à Caaba e o direito de realizarem a peregrinação e rezarem, dentro do santuário de Makka. Terceiro, a paz permitiu a Mohammad enviar os seus mensageiros às tribos da Arábia, sem recear pelas suas vidas. Em dois anos de missão Islâmica na Arábia, após o Tratado de Hudaibiya, foi convertida quase a maioria das tribos. Quando Mohammad conclamou os muçulmanos para a marcha sobre Makka, em seguida à violação, por esta, do Tratado de Hudaibiya, a multidão que atendeu ao chamado era tal, que Makka se viu sobrepujada, sem combate. A paz, proporcionada por aquele tratado, dera a Mohammad confiança para enviar representantes até para fora da Arábia, para a Abissínia, o Egito, Bizâncio, a Pérsia e para as tribos às margens da Península. Sem Hudaibiya, a conquista de Makka não teria ocorrido tão rapidamente, nem teria sido tão exangue.
Ao instituir a paz, o Tratado de Hudaibiya permitiu aos muçulmanos apresentarem o Islam, sem que este fosse visto como um ameaça. Uma vez que estavam descontadas a guerra e as hostilidades, o conflito se transformou em ideacional, colocado diante da razão e da consciência, a cada pessoa como indivíduo. Deus é Deus ou não? Se Ele é o Único Criador, não deveria Ele ser o único Senhor ou Juiz? Não deveriam, então, a adoração e o culto, a obediência e o serviço, a lealdade e a fé pertencer somente a Ele? Se a justiça, a misericórdia e a moderação são virtudes, não são mandamentos de Deus que, portanto, devem ser obedecidas, sob quaisquer circunstâncias? E se a eloqüência literária é o valor mais nobre e mais importante, não é o Alcorão tão sublime, que só pode ser revelação de Deus, ser uma obra sobrenatural do Autor divino? Esta lógica calma do Islam convenceu rapidamente os árabes da Península, do mesmo modo que viria a convencer os milhões de outros, aos quais seria apresentada mais tarde. As fileiras da umma engrossavam, com os novos recrutas, a cada dia, e logo o Islam tornou-se a voz predominante, na maior parte da Arábia.
Abu Basir, um maquense, converteu-se ao Islam e fugiu para Madina. O povo de Makka pediu a sua extradição, de acordo com os termos do tratado. Mohammad chamou Abu Basir e lhe disse: "Nós muçulmanos não enganamos. Juramos devolver os fugitivos, e portanto, devemos devolver-te a Makka. Sê forte e volta. Deus cuidará de ti". Abu Basir entregou-se ao representante de Makka e foi com ele. A caminho para Makka, Abu Basir lutou com o seu captor, tomou a sua espada, matou-o e fugiu. O número de conversões dos maquenses ao Islam continuou a crescer. Uma vez que permanecendo em Makka expunham as suas vidas ao risco, eles fugiam para o deserto e ficavam esperando, de tocaia, a passagem de caravanas de Makka. Eles interromperam de tal modo o tráfego, que Makka, vendo-se incapaz de os conter, pediu ao Profeta que os termos do tratado fossem revistos, de modo que os convertidos maquenses ao Islam ficassem sujeitos à responsabilidade de Mohammad, o qual teria de contê-los, de acordo com tais termos. Que irônico o fato de que a condição do tratado que os muçulmanos consideraram, na época, humilhante e recusável, viesse a ser tão vantajosa para eles e prejudicial a Makka. Os maquenses enviaram Suhail Ibn 'Amr, o delegado que havia redigido o termo original, para pedir a sua revisão.
Logo chegou a época da peregrinação do ano seguinte, e Mohammad chamou todos os muçulmanos a fazerem o hajj com ele. Milhares convergiram e se aprontaram para a viagem. Mohammad ensinou-os a se vestirem para a peregrinação e a entrarem em Makka, vestidos com o ihram, que consiste de duas peças de tecido brancas e sem costura. O seu cântico uníssono, entoando Labbaika Allahum-ma Labbaik (Ao Teu chamado ó Deus, estou atendendo), deve ter sido uma visão surpreendente, para todos os árabes que o ouviram. Ele gerou um profundo respeito por eles e reverência pela sua nova religião, o Islam. Os maquenses evacuaram a sua cidade, e colocaram-se sobre uma montanha, que permitia uma visão completa do santuário. À medida que os muçulmanos davam volta à Caaba, Mohammad lhes ensinava a entoar:
Allahu Akbar, Allahu Akbar, Allahu Akbar
(Deus é o Maior, Deus é o Maior, Deus é o Maior)
Allahu Akbar, Allahu Akbar, Wa Lillahil-hamd
(Deus é o maior, Deus é o maior, a Deus pertence o louvor)
Allahu Akbaru Kabira, wal hamdu lillahi kacira
(Deus é o maior, realmente o Maior; a Deus pertence todo o louvor)
Wa subhana Allahu bukratan wa asila
(A Deus pertence a glória de cada amanhecer e anoitecer)
La ilaha illa Allahu wahdah
(Não existe outra divindade além de Deus, Único)
Sadaca wa'dah, wa a'azza jundah
(Sua promessa era verdadeira; Ele reforçou o Seu exército)
Wa hazama al ahzaba wahdah
(E somente Ele derrotou os partidos)
La ilaha illa Allah wa la na'budu illa iyyah
(Não há outra divindade além de Deus. Nós não adoraremos ninguém além d'Ele)
Mukhlicina Lahuddina walaw kariha al mushrikun
(Seremos sinceros em nossa religião para com Ele, por mais que se nos oponham os politeístas).
Esta confissão de fé era tão sincera, quanto atemorizante e fascinante. Seu tom desafiador inspirava pavor no coração do inimigo, mesmo sem a demonstração dos armamentos; mesmo assim, comovia aqueles mesmos corações e os fazia concordar com ela, justamente pela sua sinceridade absoluta, pela sua firme decisão de adorarem somente a um único Deus, pela sua reafirmação e confiança em que Deus daria ao Islam a vitória final. Do mesmo modo, o ritual do hajj confirmava o elevado respeito que o muçulmano tinha pela Caaba, por Makka e pela sua tradição abraâmica. Tudo isto tornava o Islam irresistível, pelo menos para os dois maiores generais de Makka, Khalid Ibn al Walid e 'Amr Ibn al 'As, que abandonaram os seus colegas maquenses e à sua frente, adiantaram-se, para proclamar a sua conversão ao Islam. Mohammad recebeu-os de braços abertos e os convidou a se juntarem à cerimônia.
Foi alguns meses depois dessa peregrinação que uma tribo aliada de Makka agrediu um aliado de Madina. Os muçulmanos pediram aos maquenses para cumprirem a sua obrigação, estabelecida no Tratado de Hudaibiya, mas os maquenses se recusaram a fazê-lo. Os muçulmanos se mobilizaram e lhes declararam guerra. Dez mil ou mais cavaleiros e mais alguns milhares de cameleiros e a infantaria, atrás destes, puseram-se diante das portas de Makka em poucos dias, prontos a entregar as suas vidas, por ordem do Profeta. Sobrepujados, os maquenses se renderam. O Profeta entrou na cidade e foi direto à Caaba. Com as suas próprias mãos ele destruíu os ídolos, removeu os entulhos do recinto sagrado, limpou e reconsagrou a Caaba ao Deus único, Senhor e Criador de todos. Enquanto trabalhava, ele recitava: "Chegou a verdade, e a falsidade desvaneceu-se, porque a falsidade é pouco durável".9 Os líderes de Makka ficaram ali perto, observando e tremendo de medo, por suas vidas. Então, o Profeta mandou-os aproximar-se, para ouvirem o seu veredito. Eles se adiantaram e se ajoelharam diante dele. O Profeta, então, disse: "Levantai-vos e ide! estais livres", concedendo o seu perdão geral a eles e a todos os maquenses. Esta magnanimidade de Mohammad, no momento do seu maior triunfo, dissipou a última resistência dos seus corações. Primeiro os líderes e, em seguida, colunas e filas inteiras foram proclamar a sua conversão ao Islam. Makka tornou-se uma cidade muçulmana; seu santuário tornou-se o lugar mais sagrado do Islam, e o seu povo tornou-se um dos seus maiores defensores.
Finalmente, a sunna era a concretização da relevância do Islam para a ordem e as relações internacionais. O tratato de Madina havia reconhecido os judeus como uma comunidade e lhes tinha concedido autonomia constitucional, para organizarem as suas vidas como lhes ditava a Tora e como ela era interpretada pelas suas próprias cortes judiciais e por outras instituições. Essa provisão constitucional não mudou quando alguns judeus cometeram atos de traição contra o Estado Islâmico, porque o Islam rejeita qualquer teoria de culpa vicária. Os atos de traição foram os atos daqueles que os praticaram e não dos seus descendentes. A mesma provisão foi estendida pelo Profeta aos cristãos de Najran. Estes haviam enviado uma delegação a Madina, buscando uma confirmação do seu status e inquirindo sobre o Islam. A delegação cristã foi recebida e entretida pelo Profeta, que também lhe fez a apresentação do Islam. Alguns dos seus membros se converteram e se juntaram às fileiras da umma muçulmana. Aqueles que não se converteram, foram estabelecidos pelo Profeta como uma outra comunidade, dentro do Estado Islâmico e sob a sua constituição. Ele enviou os delegados de volta ao seu povo, no Iêmen, protegidos dos perigos da estrada por muçulmanos e acompanhados por Abu Ubaida, que ele nomeou representante do Estado, entre outros.
O Estado Islâmico, portanto, tornou-se uma ordem multireligiosa, por desejo e instituição do próprio Profeta, que assim uniu, em uma ordem de paz e legitimidade, muçulmanos, judeus e cristãos. Este pluralismo não era uma questão de cortesia, mas sim um artigo constitucional; não era uma questão de tolerância de costumes estrangeiros de alimentação, vestuário, ou música, mas de códigos completos de leis que governavam a vida das comunidades religiosas não-muçulmanas. O pluralismo do Estado Islâmico era um pluralismo de leis, uma inovação jamais vista alhures, em toda a história da humanidade. O Estado Islâmico de Madina era um microcosmo da ordem mundial por vir. O ato de inserir os cristãos de Najran na constituição viria a ser repetido por seus companheiros, a favor dos persas adeptos do zoroastrismo, e pelos sucessores destes, a favor dos hindus, dos budistas e de todas as outras religiões.
Depois da paz com Makka, Mohammad havia enviado delegações aos reis, ao redor da Arábia, convidando-os a se aliarem ao Islam. Se eles não aceitassem se converter, após ouvir a apresentação dos delegados, eram convidados a partilhar da Pax Islamica, a ordem de paz internacional, na qual as idéias deveriam ser livres para se desenvolverem e os homens livres para se convencerem e serem convencidos da verdade, preservando, ao mesmo tempo, intactas as suas instituições políticas, econômicas, sociais, culturais e até as militares. O Estado islâmico buscava a oportunidade para apresentar o Islam a todos os seres humanos, de todos os cantos, e honravam as suas decisões pessoais de aceitá-lo ou rejeitá-lo. O Islam não estava interessado em subjugá-los, nem em explorá-los, de qualquer forma que fosse. Ele buscava a promoção, não do seu próprio bem, mas do deles, como seres humanos iguais, como criaturas de Deus, tanto quanto os muçulmanos, possuidores do direito de ter, também, a revelação que lhes fora dada. A missão do Estado islâmico cingia-se à transmissão da mensagem de Deus. A decisão de aceitá-la ou rejeitá-la cabia somente ao homem, tal qual o dissera Deus (Alcorão 18:29). Mas nenhum poder, nenhuma instituição ou tradição pode impedir os homens de ouvirem e considerarem o chamado divino. Isto seria o mesmo que presumir serem eles incapazes de julgar por si mesmos, o que além de ser falso e injurioso, é uma espécie de tirania espiritual.
Eis porque os delegados do Profeta estavam instruídos para dizer aos reis e chefes que cada governante deve arcar com a responsabilidade do bem-estar espiritual dos seus súditos. O imperador de Bizâncio, o governante do Egito, e Negus, da Abissínia, responderam de maneira bondosa. O imperador da Pérsia e os chefes dos estados fantoches da Arábia do Norte rejeitaram o chamado, com desprezo e desafio. O governante de Dhat al Talh, vassalo de Bizâncio, matou os quinze companheiros do Profeta que foram enviados para apresentar o Islam, a ele e à sua gente. O governador de Basra, outro agente de Bizâncio, matou o delegado muçulmano, enquanto o ouvia relatar a sua mensagem. Alguns historiadores muçulmanos relataram que o próprio Imperador Heráclito deu ordem aos seus governadores provinciais para se mobilizarem e iniciarem a hostilidade.10 Esta reação de Bizâncio e dos seus estados satélites levou os muçulmanos a tentarem romper a autoridade que obstruía a proclamação da mensagem divina. As opções desses governantes desafiadores eram ainda mais limitadas pelos seus atos tolos. Os exércitos muçulmanos, que se reuniam às sua portas, ofereciam-lhes três possibilidades: a de aceitar o Islam; a de aceitar a ordem mundial do Islam, na qual eles continuariam a exisitir como uma comunidade constituinte, livre para exercer a sua religião, tendo garantidos os seus direitos humanos e jurídicos; ou então, a guerra. Quanto aos próprios muçulmanos, o seu espírito era exemplificado por 'Abdullah ibn Rawaha, um companheiro do Profeta, que detinha o comando do exército em Ma'an, a sudeste do Mar Morto. Antes de engalfinhar-se com o inimigo, ele dizia aos seus homens: "Irmãos! Aquilo que algumas pessoas temem pode acontecer a nós, e esta é a razão de nos encontrarmos aqui; precisamente, o martírio. Nós, muçulmanos, não combatemos nem com números, nem com armas. Nossa única força é a nossa fé, que Deus graciosamente nos concedeu. Levantai-vos para o combate e marchai para a frente! Uma das duas maiores graças será nossa: ou a vitória ou o martírio. Em qualquer dos casos, seremos os vencedores". Um espírito parecido movia os muçulmanos que enfrentavam o Império Persa. O supremo comandante persa, com roupas de grande resplandecência, revestidas de tanto ouro que mal ele podia-se mexer, mandou chamar o comandante muçulmano, que vestia a sua roupa normal do deserto, e disse: "O que é que trazes para nos combater aqui?", perguntou o persa. O comandante muçulmano respondeu:
"Para que os homens não possam mais adorar outros homens, mas oferecer a sua reverência ao Criador dos seres humanos; para cumprir esse objetivo, os nossos homens estão dispostos a morrer, com a mesma ânsia que os teus homens tem de viver". No décimo ano da Hégira (632 d.C.), o Profeta liderou uma procissão de mais de 100.000 muçulmanos, de Madina para Makka, em peregrinação. Essas milhares de pessoas vinham de todos os lados da Península, para acompanhar o Profeta, em seu hajj. Outros milhares foram-se juntando pelo caminho, e outro tanto havia ido diretamente para Makka. Nessa ocasião, o Profeta fez um sermão, que viria a ser o seu último. Nele, reassumiu a mensagem da qual ele fora divinamente nomeado guardião.
Montado no seu camelo, e com Rabi'ah Ibn Umaiya ao seu lado, em outro camelo, para repetir as suas palavras, de maneira que todos os ouvissem, o Profeta disse:
"Ó homens, ouvi bem as minhas palavras, pois eu não sei se nos encontraremos novamente, em ocasião igual. Até vos encontrardes com o vosso Senhor, a segurança das vossas vidas e dos vossos bens serão tão invioláveis, quanto o são este dia sagrado e este mês santo… Encontrareis deveras o vosso Senhor e Ele medirá os vossos atos. Aquele que estiver conservando algo que não seja seu deve devolvê-lo ao seu legítimo dono… Todo o juro está abolido; e todo o juro auferido está dispensado; somente o vosso capital vos pertence… Não praticareis, nem sofrereis qualquer injustiça ou iniqüi-dade… Deus ordenou que todos os juros devidos a 'Abbas Ibn 'Abd al Muttalib e ao seu clã (do qual Mohammad era herdeiro), nos dias pré-islâmicos, estão pagos… Ó homens, Satanás perdeu a esperança de ser adorado em vossa terra. Mesmo assim, ele ainda é capaz de determinar os menores dos vossos atos… Ó homens, tendes sobre as vossas mulheres, e as vossas mulheres direito, sobre vós, mais a vossa bondade… Tratai-as bem e sede bondosos com elas, pois elas são as vossas parceiras e ajudantes comprometidas… Eu estou deixando para vós o Livro de Deus e a sunna do vosso Profeta. Se os seguirdes, jamais vos desviareis."11
Oitenta e um dias após ter feito esse sermão, o Profeta faleceu. Ele estava doente havia dez dias, sofrendo de uma forte febre. Antes de ser enterrado, os seus companheiros reuniram-se para considerar o futuro deles, depois da partida do Profeta. Sua morte foi um choque terrível, que fez alguns deles perderem o bom senso. Em sua dor, eles estavam propensos a aceitar a afirmação de Ômar, do que ele havia feito naquele encontro, e que Mohammad não tinha morrido, mas que Deus o levara para os Céus, como havia feito antes com Jesus, e que ele continuava a viver. Abu Bakr chegou tarde para a reunião. Ouvindo Ômar, Abu Bakr instou-o a sentar-se e a ficar quieto. Mas Ômar insistiu e falou até mais alto. Abu Bakr, então, levantou-se e dirigiu-se aos muçulmanos ali reunidos: "Ó homens, se adorais Mohammad, sabei então que Mohammad está morto, morto, morto. Mas se tendes estado a adorar Deus, sabei então que Deus é eterno e nunca morre. Deus disse, no Seu Livro Sagrado: "Mohammad não é senão um mensageiro a quem outros mensageiros precederam. Porventura se morresse ou fosse morto, voltaríeis à incredulidade?"- Alcorão 3:144). Esta foi a última vez que o mundo muçulmano ouviu qualquer tentativa de deificar Mohammad, ou de atribuir a ele quaisquer das qualidades sobrenaturais que pertencem exclusivamente a Deus.
Antes daquela ocasião, quando da morte do seu filho Ibrahim, gerado para ele por sua esposa egípcia, Mariam, Mohammad foi acometido de profundo pesar. Uma vez que não tinha prole masculina, o nascimento de Ibrahim significara uma grande esperança para ele, tanto que ele se manifestara na escolha do nome ancestral para a criança. Sua morte prematura, na infância, com poucos meses de vida, deprimiu Mohammad seriamente. Naquele momento, um companheiro sugeriu que a criança não havia morrido, mas tinha sido levada por Deus e morava com Ele. Olhando para o infante morto em seus braços, Mohammad disse: "Ó Ibrahim, o fato de que tu és o filho de Mohammad, o Profeta de Deus, de nada te servirá, quando te encontrares com o teu Criador. O sol e a lua são sinais de Deus. Eles não brilham, nem se põem, para atender a alguém; nem são eclipsados, pela morte de alguém. Nada eleva um ser humano, a não ser os seus atos".
Notas
1. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. II, págs. 348-357; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 180-183.
2. Narrado em nome de 'Abdullah Ibn 'Amr Ibn al 'As, por Ahmad Ibn Hanbal no Al Musnad. (Cairo: Dar al Ma'arif, s/d), Vol. 2, pág. 176. A mesma tradição foi narrada, também, por Abu Dawud em Al Sunan.
3. Tal como relatado por al Bukhari, Muslim e Ahmad Ibn Hanbal.
4. Este hadice foi relatado por Muslim.
5. Alcorão 49:9.
6. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 2, pág. 457; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 226-227.
7. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 3, págs. 699, seguintes; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), pág. 299, seg.
8. Alcorão 48:1, seg.
9. Alcorão 17:81.
10. Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 338-389.
11. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 4, pág. 1022, seg.; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), pág. 486-488.
Fonte: http://www.alcorao.com.br/mohammad.asp
Os Vedas: um livro aberto
Entenda por que os Vedas, escrituras sagradas mais antigas da história, são ao mesmo tempo origem da unidade e da diversidade das múltiplas correntes do hinduísmo
por Texto André Santoro e André Victor Sartorelli
Há cerca de 3 500 anos, as comunidades na região do vale do Indo, atual norte da Índia, começaram a organizar um dos sistemas religiosos mais antigos de que temos notícia: o hinduísmo. Suas crenças foram transmitidas oralmente de geração em geração por muitos séculos até serem transcritas nos Vedas, compilação de hinos e preces considerada como o primeiro livro sagrado da história. O conteúdo dessa literatura sagrada, composta de 4 volumes de texto em versos, explica ao mesmo tempo a unidade e a variedade das múltiplas correntes do hinduísmo. Graças a alguns de seus ensinamentos mais importantes, esse conjunto de livros é sagrado para mais de 1 bilhão de pessoas que seguem seitas tão diferentes a ponto de serem monoteístas, politeístas ou panteístas – e ainda assim integrarem a mesma religião.
Os historiadores acreditam que a primeira versão dos Vedas em papel seja do século 2 a.C., quando o povo hindu desenvolveu um sistema de escrita. Segundo a lenda, eles teriam sido organizados por Vyasa, um sábio que seria a encarnação de Vishnu, deus que em todos os ciclos de criação e destruição do Universo elabora as escrituras em 4 livros, para garantir que os cânticos se propaguem e se eternizem. O mesmo Vyasa seria responsável por outros textos sagrados do hinduísmo, como o Mahabharata, ditado por ele a Ganesh, o deus com cabeça de elefante, que teria passado as palavras para o papel. Lendas à parte, os historiadores estimam que os 4 Vedas – RigVeda, Yajurveda, Samaveda e Atharvaveda – teriam sido compilados entre 1500 e 900 a.C. Mas, seja qual for sua origem, é nos textos védicos que estão os principais conceitos e símbolos do hinduísmo, os deuses, lendas e ensinamentos que dão forma e unidade à religião.
“A essência da tradição dos Vedas é o respeito aos ancestrais e a vinculação aos deuses”, afirma Carlos Eduardo Barbosa. “Essas condições pautaram e pautam todas as correntes do hinduísmo. Por isso, esses livros são aceitos como textos sagrados por todos os seguidores de todas as correntes”, afirma o cientista da religião Joachim Andrade, autor de uma tese de doutorado sobre a cultura hindu. Os Vedas foram cruciais no período inicial do hinduísmo, porque ajudaram a aglutinar várias crenças pré-históricas em um mesmo sistema religioso. Mais tarde, no século 9, a religião passou por um processo organizado de unificação, e os textos védicos foram igualmente importantes para garantir a reunião de várias crenças diferentes em um mesmo sistema religioso. Na época, por influência de um sacerdote hindu chamado Adi Shankara, várias correntes do hinduísmo que não acreditavam nos antigos textos sagrados reconduziram os 4 livros ao seu espaço privilegiado nos rituais. Até porque seu conteúdo era aberto o suficiente para cada grupo tirar dele sua própria interpretação e multiplicar ainda mais as correntes hinduístas.
A multiplicação de crenças
“Os Vedas são textos ritualísticos, e não uma enciclopédia de procedimentos religiosos”, diz Carlos Eduardo Barbosa, especialista em cultura hindu e professor do Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala, em São Paulo. Além disso, todos os textos incorporam um conceito filosófico que está na origem de todo o sistema de crenças hinduísta e permanece vivo na maioria das correntes existentes hoje em dia: o monismo. “Segundo essa filosofia, somos todos partes de uma coisa só, que é uma espécie de inteligência divina”, diz o historiador Edgard Ferreira Neto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Esse princípio de tolerância a outros credos presente nos Vedas distingue a religião hindu de muitas outras, em que a fé alheia não é vista com bons olhos, e permite uma convivência pacífica entre as correntes que nascem de cada interpretação diferente que ele permite. Carlos Eduardo Barbosa, que já foi à Índia várias vezes, dá um exemplo da unidade que existe entre os hindus, apesar da diversidade de crenças. “Nas ruas, em todos os cantos, você encontra devotos do deus Ganesh, por exemplo, convivendo em harmonia com devotos de Shiva. Pessoas que cultuam divindades diferentes se respeitam mutuamente, pois todos se reconhecem como hindus autênticos, apesar das diferenças.”
E aqui vale dar uma idéia do que é a variedade de crenças do hinduísmo. Em relação aos cultos, existem 4 principais: vaishnavas, shaivas, shaktas e smartas. Entre outras particularidades, cada uma concentra seus rituais de devoção em deuses específicos – no shaivismo, por exemplo, a divindade mais respeitada é Shiva. Outro tipo de classificação leva em conta a filosofia de vida e a interpretação dos textos sagrados. Nesse campo há pelo menos 6 escolas principais: sankhya, yoga, nyaya, vaisheshika, purva mimamsa e vedanta – todas têm, igualmente, suas respectivas subdivisões. “Trata-se de uma religião que incorpora a sabedoria de vários mestres, e que, por isso, abre espaço para inúmeras interpretações”, afirma Joachim Andrade.
A variedade é tão grande que seguidores de crenças monoteístas, politeístas ou panteístas – que acreditam em um deus universal, em vários ou na presença deles em todas as coisas – tomam banho juntos no mesmo rio Ganges, todos debaixo do grande guarda-chuva hinduísta. Os shaivistas adoram Shiva, mas reconhecem a existência de outros deuses, logo, são politeístas. Os vaishnavas gaudias são devotos exclusivos de Krishna, e são considerados monoteístas. Já os vedantas acreditam que todo o Universo e a realidade são expressões de Brahma, princípio infinito, sem passado nem futuro, e se encaixam na categoria dos panteístas. Apesar das diferenças fundamentais, essas correntes têm pelo menos uma coisa em comum: “Todas as correntes aceitam os Vedas como escrituras sagradas”, diz Carlos Eduardo Barbosa.
Para muitos, a descentralização da doutrina é a grande responsável pela sua riqueza. Mas diante de tanta diversidade é natural que surjam correntes que se distanciam e, em alguns casos, acabam se transformando em religiões independentes. É o caso do budismo e do jainismo, que surgiram do seio do hinduísmo antigo e reúnem seguidores até hoje. O budismo surgiu por volta do século 6 a.C., por causa do descontentamento de alguns sábios e sacerdotes com os rituais e sacrifícios difundidos nos Vedas, entre outras características dos textos hindus. O jainismo, que se organizou a partir do século 7 a.C., tem como base doutrinária o princípio da não-violência contra todos os seres vivos como forma de alcançar a elevação espiritual. Outra corrente que ganhou contornos de religião independente foi o sikhismo, que surgiu no século 15 e defende a impossibilidade de encarnação e representação de Deus, entre outros princípios. De uma forma ou de outra, todas beberam da mesma fonte ancestral, antes de assumirem sua própria identidade. Seguindo seus caminhos como religiões independentes, elas também preservaram o ideal de tolerância cultivado nas civilizações do vale do Indo. Numa região em que tantas religiões nasceram, isso provavelmente foi uma condição fundamental para sua existência.
Divinas tetas
Na história do culto ao gado, bois podiam ser sacrificados. Vacas leiteiras, não
No ocidente, o culto às vacas é tido como um dos principais símbolos do hinduísmo. E, de fato, o animal tem um status diferenciado na maioria das correntes da religião hindu. A origem dessa adoração remonta ao período em que os Vedas foram compostos, a partir de 1.500 a.C. “Uma das explicações é o fato de os habitantes da antiga Índia serem pastores nômades, que dependiam do gado para a sobrevivência e, portanto, precisavam proteger seus rebanhos”, diz o especialista Carlos Eduardo Barbosa. Ainda assim, no entanto, os animais eram sacrificados em rituais – mas as vacas leiteiras eram poupadas. Esse salvo-conduto das fêmeas é citado em algumas passagens do próprio Rigveda, do Mahabharata e de um importante código de conduta dos hindus, o Manu-smirti (também conhecido como As Leis de Manu), escrito a partir de 200 a.C.. Com o tempo, as vacas foram ganhando importância e, cada vez mais, passaram a ser associadas às principais divindades do hinduísmo. Hoje, em algumas seitas, a agressão contra o animal equivale a um atentado contra um sacerdote.
fonte: http://super.abril.com.br/religiao/vedas-livro-aberto-447671.shtml
por Texto André Santoro e André Victor Sartorelli
Há cerca de 3 500 anos, as comunidades na região do vale do Indo, atual norte da Índia, começaram a organizar um dos sistemas religiosos mais antigos de que temos notícia: o hinduísmo. Suas crenças foram transmitidas oralmente de geração em geração por muitos séculos até serem transcritas nos Vedas, compilação de hinos e preces considerada como o primeiro livro sagrado da história. O conteúdo dessa literatura sagrada, composta de 4 volumes de texto em versos, explica ao mesmo tempo a unidade e a variedade das múltiplas correntes do hinduísmo. Graças a alguns de seus ensinamentos mais importantes, esse conjunto de livros é sagrado para mais de 1 bilhão de pessoas que seguem seitas tão diferentes a ponto de serem monoteístas, politeístas ou panteístas – e ainda assim integrarem a mesma religião.
Os historiadores acreditam que a primeira versão dos Vedas em papel seja do século 2 a.C., quando o povo hindu desenvolveu um sistema de escrita. Segundo a lenda, eles teriam sido organizados por Vyasa, um sábio que seria a encarnação de Vishnu, deus que em todos os ciclos de criação e destruição do Universo elabora as escrituras em 4 livros, para garantir que os cânticos se propaguem e se eternizem. O mesmo Vyasa seria responsável por outros textos sagrados do hinduísmo, como o Mahabharata, ditado por ele a Ganesh, o deus com cabeça de elefante, que teria passado as palavras para o papel. Lendas à parte, os historiadores estimam que os 4 Vedas – RigVeda, Yajurveda, Samaveda e Atharvaveda – teriam sido compilados entre 1500 e 900 a.C. Mas, seja qual for sua origem, é nos textos védicos que estão os principais conceitos e símbolos do hinduísmo, os deuses, lendas e ensinamentos que dão forma e unidade à religião.
“A essência da tradição dos Vedas é o respeito aos ancestrais e a vinculação aos deuses”, afirma Carlos Eduardo Barbosa. “Essas condições pautaram e pautam todas as correntes do hinduísmo. Por isso, esses livros são aceitos como textos sagrados por todos os seguidores de todas as correntes”, afirma o cientista da religião Joachim Andrade, autor de uma tese de doutorado sobre a cultura hindu. Os Vedas foram cruciais no período inicial do hinduísmo, porque ajudaram a aglutinar várias crenças pré-históricas em um mesmo sistema religioso. Mais tarde, no século 9, a religião passou por um processo organizado de unificação, e os textos védicos foram igualmente importantes para garantir a reunião de várias crenças diferentes em um mesmo sistema religioso. Na época, por influência de um sacerdote hindu chamado Adi Shankara, várias correntes do hinduísmo que não acreditavam nos antigos textos sagrados reconduziram os 4 livros ao seu espaço privilegiado nos rituais. Até porque seu conteúdo era aberto o suficiente para cada grupo tirar dele sua própria interpretação e multiplicar ainda mais as correntes hinduístas.
A multiplicação de crenças
“Os Vedas são textos ritualísticos, e não uma enciclopédia de procedimentos religiosos”, diz Carlos Eduardo Barbosa, especialista em cultura hindu e professor do Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala, em São Paulo. Além disso, todos os textos incorporam um conceito filosófico que está na origem de todo o sistema de crenças hinduísta e permanece vivo na maioria das correntes existentes hoje em dia: o monismo. “Segundo essa filosofia, somos todos partes de uma coisa só, que é uma espécie de inteligência divina”, diz o historiador Edgard Ferreira Neto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Esse princípio de tolerância a outros credos presente nos Vedas distingue a religião hindu de muitas outras, em que a fé alheia não é vista com bons olhos, e permite uma convivência pacífica entre as correntes que nascem de cada interpretação diferente que ele permite. Carlos Eduardo Barbosa, que já foi à Índia várias vezes, dá um exemplo da unidade que existe entre os hindus, apesar da diversidade de crenças. “Nas ruas, em todos os cantos, você encontra devotos do deus Ganesh, por exemplo, convivendo em harmonia com devotos de Shiva. Pessoas que cultuam divindades diferentes se respeitam mutuamente, pois todos se reconhecem como hindus autênticos, apesar das diferenças.”
E aqui vale dar uma idéia do que é a variedade de crenças do hinduísmo. Em relação aos cultos, existem 4 principais: vaishnavas, shaivas, shaktas e smartas. Entre outras particularidades, cada uma concentra seus rituais de devoção em deuses específicos – no shaivismo, por exemplo, a divindade mais respeitada é Shiva. Outro tipo de classificação leva em conta a filosofia de vida e a interpretação dos textos sagrados. Nesse campo há pelo menos 6 escolas principais: sankhya, yoga, nyaya, vaisheshika, purva mimamsa e vedanta – todas têm, igualmente, suas respectivas subdivisões. “Trata-se de uma religião que incorpora a sabedoria de vários mestres, e que, por isso, abre espaço para inúmeras interpretações”, afirma Joachim Andrade.
A variedade é tão grande que seguidores de crenças monoteístas, politeístas ou panteístas – que acreditam em um deus universal, em vários ou na presença deles em todas as coisas – tomam banho juntos no mesmo rio Ganges, todos debaixo do grande guarda-chuva hinduísta. Os shaivistas adoram Shiva, mas reconhecem a existência de outros deuses, logo, são politeístas. Os vaishnavas gaudias são devotos exclusivos de Krishna, e são considerados monoteístas. Já os vedantas acreditam que todo o Universo e a realidade são expressões de Brahma, princípio infinito, sem passado nem futuro, e se encaixam na categoria dos panteístas. Apesar das diferenças fundamentais, essas correntes têm pelo menos uma coisa em comum: “Todas as correntes aceitam os Vedas como escrituras sagradas”, diz Carlos Eduardo Barbosa.
Para muitos, a descentralização da doutrina é a grande responsável pela sua riqueza. Mas diante de tanta diversidade é natural que surjam correntes que se distanciam e, em alguns casos, acabam se transformando em religiões independentes. É o caso do budismo e do jainismo, que surgiram do seio do hinduísmo antigo e reúnem seguidores até hoje. O budismo surgiu por volta do século 6 a.C., por causa do descontentamento de alguns sábios e sacerdotes com os rituais e sacrifícios difundidos nos Vedas, entre outras características dos textos hindus. O jainismo, que se organizou a partir do século 7 a.C., tem como base doutrinária o princípio da não-violência contra todos os seres vivos como forma de alcançar a elevação espiritual. Outra corrente que ganhou contornos de religião independente foi o sikhismo, que surgiu no século 15 e defende a impossibilidade de encarnação e representação de Deus, entre outros princípios. De uma forma ou de outra, todas beberam da mesma fonte ancestral, antes de assumirem sua própria identidade. Seguindo seus caminhos como religiões independentes, elas também preservaram o ideal de tolerância cultivado nas civilizações do vale do Indo. Numa região em que tantas religiões nasceram, isso provavelmente foi uma condição fundamental para sua existência.
Divinas tetas
Na história do culto ao gado, bois podiam ser sacrificados. Vacas leiteiras, não
No ocidente, o culto às vacas é tido como um dos principais símbolos do hinduísmo. E, de fato, o animal tem um status diferenciado na maioria das correntes da religião hindu. A origem dessa adoração remonta ao período em que os Vedas foram compostos, a partir de 1.500 a.C. “Uma das explicações é o fato de os habitantes da antiga Índia serem pastores nômades, que dependiam do gado para a sobrevivência e, portanto, precisavam proteger seus rebanhos”, diz o especialista Carlos Eduardo Barbosa. Ainda assim, no entanto, os animais eram sacrificados em rituais – mas as vacas leiteiras eram poupadas. Esse salvo-conduto das fêmeas é citado em algumas passagens do próprio Rigveda, do Mahabharata e de um importante código de conduta dos hindus, o Manu-smirti (também conhecido como As Leis de Manu), escrito a partir de 200 a.C.. Com o tempo, as vacas foram ganhando importância e, cada vez mais, passaram a ser associadas às principais divindades do hinduísmo. Hoje, em algumas seitas, a agressão contra o animal equivale a um atentado contra um sacerdote.
fonte: http://super.abril.com.br/religiao/vedas-livro-aberto-447671.shtml
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Tecnoesfera, Pscioesfera: A publicidade como um elemento do espaço.
Lídia Antongiovanni
Este estudo é uma primeira aproximação do par dialético de conceitos propostos por Milton Santos (1994a, 1994b), mediante o qual podemos entrever o espaço: tecnoesfera e psicoesfera.
As inovações tec nológicas configuram, cada vez mais, o espaço como um meio técnico-científico-informacional (Santos, 1994a). Ciência e técnica, de maneira muito intricada, sobrepõem-se, reconfigurando o meio técnico preexistente. E com as mais recentes inovações tecnológicas, em especial na área das telecomunicações e da informática, assistimos à configuração de um meio técnico-científico-informacional, que inclui objetos (técnicos) e ações.
Tecnoesfera e Psicoesfera, juntas, compõem tal meio. A primeira é a artificialização crescente do meio. É a sua intensa racionalização e tecnificação. A psicoesfera é também produto do artifício, no âmbito dos desejos, hábitos, vontades. É a captação e a apropriação, até mesmo criação de subjetividades.
Nossa intenção, é, por meio da análise da atividade publicitária, operacionalizar tais conceitos: tecnoesfera, psicoesfera. Perguntamos: qual é o entrelaçamento da publicidade com a organização e produção do espaço? Faz-se necessário, porém, compreender um pouco o universo publicitário no mundo contemporâneo para, posteriormente, resgatar aqueles conceitos.
Segundo Ribeiro (1988), "a palavra propaganda (de propagare, do latim, significando multiplicar, por reprodução ou por geração, estender, propagar) teria sido introduzida pela Igreja Católica no século XVI (Papa Clemente - fundação da Congregação da Propaganda); mantendo seu significado eclesial até o século XIX quando adquiri significado também político (disseminação de ideologias). Já a palavra publicidade (publicité)(do latim publicus - público), teve, no início, um sentido jurídico, de tornar público; adquirindo no século XIX, também um sentido comercial (anúncios).
"Reencontramos, desta maneira, na sintomática simbiose crescente entre estas duas palavras, a duplicidade de sentido político-ideológico presente nas práticas que caracterizam os processos modernos de comunicação e intercãmbio"(p.183-4).
É nesse sentido, das práticas que caracterizam os processos modernos de comunicação e intercâmbio que procuramos entender a publicidade. Como um ramo da produção a serviço da sociedade de consumo e da sua crescente exacerbação. A forma atual da atividade publicitária vem compondo-se sobretudo no pós-segunda guerra mundial, com a aceleração da industrialização e a transformação da imprensa em meio de comunicação de massa além da crescente introdução no cotidiano de outros meios. estes são centrais na sociedade de consumo e são os veículos por excelência da publicidade.
De encontro com a idéia de que a publicidade é parte essencial da crescente exacerbação da sociedade de consumo, vêm ideias como a de Roberto Menna Barreto (1978). Segundo ele: "A propaganda nasce como solução para a indústria, e a criatividade como solução para a propaganda"(p.108)(apud Ana Clara Torres Ribeiro, 1988, p.137). Assim, pensamos que a publicidade funciona, hoje, como um lubrificante do mercado. Amenizadora da fricção entre mercadoria, tempo (como etapa do capitalismo) e espaço (formações socioespaciais e lugar), possibilitando uma aceleração do consumo.
Como um lubrificante do mercado, da sociedade de consumo, a atividade publicitária é um dos vetores da vertiginosa aceleração contemporânea em que um dos elementos centrais é o império das imagens. Na produção da imagem, recurso por excelência da publicidade, estão envolvidos, de forma complexa, elementos técnicos e subjetivos, assim como se dá em relação ao produto publicitário. Segundo Daniel Bougnoux, a publicidade não pode ser subestimada tamanha sua complexidade pois está "situada na intersecção da problemática marxista (o fetichismo da mercadoria) e freudiana (a máquina do desejo) da sociologia (os modos de vida) e dos estudos de semiologia e de retórica (política do texto e da imagem, arte de persuadir e manipulação do imaginário em geral)... A publicidade é o estágio estético da mercadoria"(p.167).
A complexidade da publicidade se traduz, então, na concepção e produção das imagens, do discurso, bem como na sua veiculação.
Segundo Ribeiro(1988) "o período histórico de constituição da rede moderna de comunicação é, também, o período de expansão de novos circuitos de intercâmbio que encontram-se situados entre a produção e o consumo final. Estes circuitos constituem, por sua vez, esferas de produção posicionados nos campos da comunicação e cultura, ou melhor, na produção e na circulação de mensagens, imagens e informação"(p.128).
Para Milton Santos (1985) à segmentação tradicional do processo produtivo (produção propriamente dita, circulação, distribuição e consumo pode-se acrescentar, "em lugar de destaque, como ramos automatizados do processo produtivo propriamente dito, a concepção, o controle, a coordenação, a previsão, paralelamente à mercadologia (marketing) e à propaganda"(p.3).
Voltamos, assim, à ideia de publicidade como lubrificante do mercado, fazendo parte do processo produtivo nas esferas mais racionalizantes da produção no mundo atual. Pois, além de sofisticar o discurso, construindo a metamercadoria, utiliza e solicita as mais novas tecnologias. Retomando Ana Clara Torres Ribeiro (1988), "podemos dizer que umproduto, hoje, contém camadas superpostas de re-produção, correspondentes na novas decomposições da divisão social e territorial do trabalho, que significam a incorporação de ideias e conceitos aos seus limites físicos e composição intrínsecas"(132). Assim, os produtos são volatilizados em imagens (re-produtos), campo específico da publicidade, executado, sobretudo, pelas agências de propaganda.
O produto da concepção e produção publicitária tanto é materialidade com sua base técnica quanto é concepção estética e discursiva, introduzido de forma quase que naturalizada no nosso cotidiano. Segundo Jean Baudrillard (1993), a mensagem publicitária está tão inserida no cotidiano que se torna até familiar, convertendo-se mesmo em identidade e referência.
Conforme Milton Santos(1994a, 1994b) propõe, o espaço geográfico é formado por um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Os objetos não têm existência real, valorativa, sem as ações(1994b:6). A tecnoesfera é o muno dos objetos, a psicoesfera, das ações e estas, funcionando de modo unitário, definem cada subespaço que contém frações dos sistemas de objetos e sistemas de ações, cuja totalidade é o Mundo.
Nesse contexto, a publicidade compõe o espaço à medida que cria e necessita de tecnoesfera(s) e psicoesfera(s) densificadas e profundamente entrelaçadas, com os aportes de ciência, tecnologia e informação ao território funcionando sob comandos unificados. Ela é mesmo um dos organizadores destes comandos. Navega nestas esferas, através do uso intenso da ciência, da técnica e da produção de imagens simbólicas, compondo e direcionando o nosso entendimento do mundo. A grande cidade vista por Milton Santos (1994) como o mais representativo fenômeno do meio técnico-científico é, hoje, também, intensamente artificializada pelos objetos-discursos da publicidade.
A tecnoesfera, que é o âmbito da técnica e da organização normada, tende a ser homogênea em grandes porções do território justamente porque há temporalidades hegemênicas. Por isso, são implantadas verdadeiras próteses aos territórios que devem funcionar eficientemente e portanto apresentam uma linguagem rígida e dirigida. Para agir no território torna-se necessário traduzir e reproduzir os códigos sob os quais ele funciona. É desse modo que tecnoesfera produz psicoesfera.
Embora a psicoesfera também seja fruto do artifício, por operar no âmbito das subjetividades e dos desejos, permite ações cotidianas e usos do território não padronizados, flexíveis.
Tecnoesfera e psicoesfera são, pois, indutoras de movimento. São inseparáveis. Quando, porém, procedemos analiticamente e as separamos, nos é permitido pensar o meio técnico-científico-informacional tanto na dimensão material quanto na intermaterial e suas múltiplas interconexões possibilitando apreender suas vocações.
A publicidade atua por conta de agentes hegem~enicos, cuja ação corresponde a interesses específicos que podem não ser do indivíduo nem da sociedade, mas são eficazes. Assim, diante de uma psicoesfera a publicidade propõe outra ao trazer elementos novos que redimensionam o meio-técnico-científico-informacional, gerando um novo movimento no todo. As diferentes psicoesferas são alimentadas pelos objetos publicitários - frutos do casamento entre ciência e técnica - que constituem parte da base material que permite as ações racionalizadas esperadas por aqueles agentes.
Configurando-se como conjunto de imagens simbólicas das subjetividades contemporâneas, a publicidade ocupa lugar de destaque na produção da vida hoje, já que penetra os diferentes locais diluída em ações associadas aos objetos informados.
A publicidade é uma verdadeira mediação entre as instãncias coaisi: espaço, cultura, política, economia. E, ao entendermos o espaço conforme Milton Santos (1994a), como conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações, pensamos poder revelá-lo através da análise da atividade publicitária, recorrendo ao par dialético de conceitos tecnoesfera e psicoesfera, ao considerarmos que a base de trabalho da publicidade é um conjunto de obejtos fetichizados e ações direcionadas para o consumo.
Este estudo é uma primeira aproximação do par dialético de conceitos propostos por Milton Santos (1994a, 1994b), mediante o qual podemos entrever o espaço: tecnoesfera e psicoesfera.
As inovações tec nológicas configuram, cada vez mais, o espaço como um meio técnico-científico-informacional (Santos, 1994a). Ciência e técnica, de maneira muito intricada, sobrepõem-se, reconfigurando o meio técnico preexistente. E com as mais recentes inovações tecnológicas, em especial na área das telecomunicações e da informática, assistimos à configuração de um meio técnico-científico-informacional, que inclui objetos (técnicos) e ações.
Tecnoesfera e Psicoesfera, juntas, compõem tal meio. A primeira é a artificialização crescente do meio. É a sua intensa racionalização e tecnificação. A psicoesfera é também produto do artifício, no âmbito dos desejos, hábitos, vontades. É a captação e a apropriação, até mesmo criação de subjetividades.
Nossa intenção, é, por meio da análise da atividade publicitária, operacionalizar tais conceitos: tecnoesfera, psicoesfera. Perguntamos: qual é o entrelaçamento da publicidade com a organização e produção do espaço? Faz-se necessário, porém, compreender um pouco o universo publicitário no mundo contemporâneo para, posteriormente, resgatar aqueles conceitos.
Segundo Ribeiro (1988), "a palavra propaganda (de propagare, do latim, significando multiplicar, por reprodução ou por geração, estender, propagar) teria sido introduzida pela Igreja Católica no século XVI (Papa Clemente - fundação da Congregação da Propaganda); mantendo seu significado eclesial até o século XIX quando adquiri significado também político (disseminação de ideologias). Já a palavra publicidade (publicité)(do latim publicus - público), teve, no início, um sentido jurídico, de tornar público; adquirindo no século XIX, também um sentido comercial (anúncios).
"Reencontramos, desta maneira, na sintomática simbiose crescente entre estas duas palavras, a duplicidade de sentido político-ideológico presente nas práticas que caracterizam os processos modernos de comunicação e intercãmbio"(p.183-4).
É nesse sentido, das práticas que caracterizam os processos modernos de comunicação e intercâmbio que procuramos entender a publicidade. Como um ramo da produção a serviço da sociedade de consumo e da sua crescente exacerbação. A forma atual da atividade publicitária vem compondo-se sobretudo no pós-segunda guerra mundial, com a aceleração da industrialização e a transformação da imprensa em meio de comunicação de massa além da crescente introdução no cotidiano de outros meios. estes são centrais na sociedade de consumo e são os veículos por excelência da publicidade.
De encontro com a idéia de que a publicidade é parte essencial da crescente exacerbação da sociedade de consumo, vêm ideias como a de Roberto Menna Barreto (1978). Segundo ele: "A propaganda nasce como solução para a indústria, e a criatividade como solução para a propaganda"(p.108)(apud Ana Clara Torres Ribeiro, 1988, p.137). Assim, pensamos que a publicidade funciona, hoje, como um lubrificante do mercado. Amenizadora da fricção entre mercadoria, tempo (como etapa do capitalismo) e espaço (formações socioespaciais e lugar), possibilitando uma aceleração do consumo.
Como um lubrificante do mercado, da sociedade de consumo, a atividade publicitária é um dos vetores da vertiginosa aceleração contemporânea em que um dos elementos centrais é o império das imagens. Na produção da imagem, recurso por excelência da publicidade, estão envolvidos, de forma complexa, elementos técnicos e subjetivos, assim como se dá em relação ao produto publicitário. Segundo Daniel Bougnoux, a publicidade não pode ser subestimada tamanha sua complexidade pois está "situada na intersecção da problemática marxista (o fetichismo da mercadoria) e freudiana (a máquina do desejo) da sociologia (os modos de vida) e dos estudos de semiologia e de retórica (política do texto e da imagem, arte de persuadir e manipulação do imaginário em geral)... A publicidade é o estágio estético da mercadoria"(p.167).
A complexidade da publicidade se traduz, então, na concepção e produção das imagens, do discurso, bem como na sua veiculação.
Segundo Ribeiro(1988) "o período histórico de constituição da rede moderna de comunicação é, também, o período de expansão de novos circuitos de intercâmbio que encontram-se situados entre a produção e o consumo final. Estes circuitos constituem, por sua vez, esferas de produção posicionados nos campos da comunicação e cultura, ou melhor, na produção e na circulação de mensagens, imagens e informação"(p.128).
Para Milton Santos (1985) à segmentação tradicional do processo produtivo (produção propriamente dita, circulação, distribuição e consumo pode-se acrescentar, "em lugar de destaque, como ramos automatizados do processo produtivo propriamente dito, a concepção, o controle, a coordenação, a previsão, paralelamente à mercadologia (marketing) e à propaganda"(p.3).
Voltamos, assim, à ideia de publicidade como lubrificante do mercado, fazendo parte do processo produtivo nas esferas mais racionalizantes da produção no mundo atual. Pois, além de sofisticar o discurso, construindo a metamercadoria, utiliza e solicita as mais novas tecnologias. Retomando Ana Clara Torres Ribeiro (1988), "podemos dizer que umproduto, hoje, contém camadas superpostas de re-produção, correspondentes na novas decomposições da divisão social e territorial do trabalho, que significam a incorporação de ideias e conceitos aos seus limites físicos e composição intrínsecas"(132). Assim, os produtos são volatilizados em imagens (re-produtos), campo específico da publicidade, executado, sobretudo, pelas agências de propaganda.
O produto da concepção e produção publicitária tanto é materialidade com sua base técnica quanto é concepção estética e discursiva, introduzido de forma quase que naturalizada no nosso cotidiano. Segundo Jean Baudrillard (1993), a mensagem publicitária está tão inserida no cotidiano que se torna até familiar, convertendo-se mesmo em identidade e referência.
Conforme Milton Santos(1994a, 1994b) propõe, o espaço geográfico é formado por um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Os objetos não têm existência real, valorativa, sem as ações(1994b:6). A tecnoesfera é o muno dos objetos, a psicoesfera, das ações e estas, funcionando de modo unitário, definem cada subespaço que contém frações dos sistemas de objetos e sistemas de ações, cuja totalidade é o Mundo.
Nesse contexto, a publicidade compõe o espaço à medida que cria e necessita de tecnoesfera(s) e psicoesfera(s) densificadas e profundamente entrelaçadas, com os aportes de ciência, tecnologia e informação ao território funcionando sob comandos unificados. Ela é mesmo um dos organizadores destes comandos. Navega nestas esferas, através do uso intenso da ciência, da técnica e da produção de imagens simbólicas, compondo e direcionando o nosso entendimento do mundo. A grande cidade vista por Milton Santos (1994) como o mais representativo fenômeno do meio técnico-científico é, hoje, também, intensamente artificializada pelos objetos-discursos da publicidade.
A tecnoesfera, que é o âmbito da técnica e da organização normada, tende a ser homogênea em grandes porções do território justamente porque há temporalidades hegemênicas. Por isso, são implantadas verdadeiras próteses aos territórios que devem funcionar eficientemente e portanto apresentam uma linguagem rígida e dirigida. Para agir no território torna-se necessário traduzir e reproduzir os códigos sob os quais ele funciona. É desse modo que tecnoesfera produz psicoesfera.
Embora a psicoesfera também seja fruto do artifício, por operar no âmbito das subjetividades e dos desejos, permite ações cotidianas e usos do território não padronizados, flexíveis.
Tecnoesfera e psicoesfera são, pois, indutoras de movimento. São inseparáveis. Quando, porém, procedemos analiticamente e as separamos, nos é permitido pensar o meio técnico-científico-informacional tanto na dimensão material quanto na intermaterial e suas múltiplas interconexões possibilitando apreender suas vocações.
A publicidade atua por conta de agentes hegem~enicos, cuja ação corresponde a interesses específicos que podem não ser do indivíduo nem da sociedade, mas são eficazes. Assim, diante de uma psicoesfera a publicidade propõe outra ao trazer elementos novos que redimensionam o meio-técnico-científico-informacional, gerando um novo movimento no todo. As diferentes psicoesferas são alimentadas pelos objetos publicitários - frutos do casamento entre ciência e técnica - que constituem parte da base material que permite as ações racionalizadas esperadas por aqueles agentes.
Configurando-se como conjunto de imagens simbólicas das subjetividades contemporâneas, a publicidade ocupa lugar de destaque na produção da vida hoje, já que penetra os diferentes locais diluída em ações associadas aos objetos informados.
A publicidade é uma verdadeira mediação entre as instãncias coaisi: espaço, cultura, política, economia. E, ao entendermos o espaço conforme Milton Santos (1994a), como conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações, pensamos poder revelá-lo através da análise da atividade publicitária, recorrendo ao par dialético de conceitos tecnoesfera e psicoesfera, ao considerarmos que a base de trabalho da publicidade é um conjunto de obejtos fetichizados e ações direcionadas para o consumo.
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