Mohammad como Líder
Talvez a principal qualidade essencial à liderança seja a capacidade de a pessoa perceber e avaliar corretamente todos os fatores de uma determinada situação, decidir quanto ao objetivo desejável,projetar a melhor estratégia, para a execução desta e convencer os demais participantes da
viabilidade do esquema projetado e levá-los a integrá-lo com a mais decidida vontade de que sejam capazes.
Mohammad possuía essa qualidade no seu mais alto grau. Não fosse o Islam, ele ainda assim teria sido o estadista mais capaz que Makka jamais conhecera. O Islam alongou a sua visão universalista como um novo objetivo, e expandiu o âmbito da liderança a todo o mundo.
Um caso isolado da primeira sunna do Profeta comprova as suas qualidades de liderança. Enquanto os maquenses reconstruíam a Caaba, depois de uma inundação que fez rachar as suas paredes, os chefes tribais disputavam entre si a honra de colocar a pedra fundamental. Esta era a Pedra Negra, que os maquenses haviam venerado, por gerações seguidas. Como todos os chefes estivessem envolvidos na disputa, a sugestão de Abu Umaya de que eles se comprometessem, todos, a aceitar o arbítrio da primeira pessoa que viesse ao lugar, foi aceita, mas com certa apreensão. Aconteceu de a primeira pessoa a surgir ser Mohammad, e eles se sentiram seguros de que a decisão dele não seria parcial. Encarregado da tarefa, Mohammad resolveu fazer rolar a Pedra Negra para cima de um pano, fazendo com que cada um dos chefes segurasse em uma ponta do mesmo, e assim todos carregassem a pedra para o seu lugar. Todos os chefes ficaram satisfeitos e convictos de que a honra também lhes tinha pertencido, não menos do que a qualquer outro. Todos ficaram agradecidos a Mohammad, que transformara uma situação ameaçadora em uma ocasião de alegria geral.
A mesma percepção genial de Mohammad se fez presente, quando da sua chegada a Madina. Os muçulmanos deram-lhe calorosas boas-vindas. Cada um almejava a honra de receber Mohammad em sua casa; e com esta finalidade, os chefes competiam entre si. O Profeta disse que ele não tomaria nenhuma decisão; ao invés disso, ele ficaria onde o seu camelo parasse. Após vaguear pelas ruas de Madina por algum tempo, o camelo parou em um terreno vazio, que pertencia a Sahl e a Suhail, os filhos de 'Amr. O Profeta pagou pela terra e nela construiu a sua primeira mesquita.
Do mesmo modo que ele não favorecia qualquer chefe ou seção da comunidade em detrimento do outro(a), Mohammad tinha, também, o cuidado de não reivindicar qualquer privilégio para si próprio. Ele se considerava um qualquer, entre os seus pares. Quando se aproximava a hora das refeições, durante a marcha em uma campanha, os seus companheiros declararam que iam preparar a comida. Distribuíram as tarefas entre eles, não deixando nada para o Profeta fazer. Observando que eles se haviam esquecido da necessidade de alguém apanhar lenha para o fogo – a tarefa mais dura e menos agradável – Mohammad disse: "E eu apanharei a lenha." A opinião dos subordinados era que o chefe deveria ser sempre digno do seu amor e da sua estima. Isto ele manifestou na tradição (hadice), que conta: "A oração do imam (líder), que é odiado por sua gente, é inaceitável por Deus" e "quem quer que assuma a liderança de um povo contra a sua vontade, a sua oração jamais irá além das suas orelhas." Nem a sua condição de profeta, nem a de chefe de Estado impediam Mohammad de tratar aos outros como iguais. Aliás, foi ele que ensinou os muçulmanos a fazer os seus servos e escravos comerem à mesma mesa que eles, a dar-lhes as mesmas roupas para vestir, a chamá-los por "filhos", ao invés de "servos" ou "escravos", e a serem chamados, por eles, de "tios", ao invés de "senhores". Certo dia, na praça do mercado, um mercador, ao qual Mohammad dava preferência, pegou a sua mão e a beijou. Mohammad retirou a sua mão e disse: "Isto é o que fazem os persas ao rei deles. Eu não sou um rei, e tu não és um persa." Do mesmo modo, quando os muçulmanos foram convocados para cavar um fosso em frente ao ponto mais vulnerável de Madina, como defesa contra um ataque de cavalaria, Mohammad insistiu em juntar-se a eles, com as suas próprias mãos. Muito antes da sua condição de profeta acontecer, essa qualidade fizera-o ser amado por seus companheiros e conhecidos. Zaid era um escravo adulto, trazido para Makka para ser vendido. Khadija o comprou e deu de presente a Mohammad, que prontamente o alforriou e o tornou seu assistente. Não demorou a aparecer o pai de Zaid para resgatá-lo; mas, encontrando-o já liberto, ofereceu-se para levá-lo de volta para casa. Mohammad deu a Zaid liberdade para escolher se ficava ou voltava para a sua casa e a família, mas este preferiu ficar com ele.
Para sua segurança pessoal, em Makka, Mohammad dependia das lealdades tribais. A sua tribo, os Bani Háchim, era capaz de o proteger durante muitos anos contra o resto de Makka. Esta proteção não era sem preço em vituperação e ridículo, em prejuízos e boicote social e econômico. A oposição de Coraix ganhava ímpeto, enquanto os muçulmanos ainda eram poucos e fracos ali. Não demorou, e a situação se tornou crítica; e o chefe tribal de Mohammad teve de pedir ao seu sobrinho - Mohammad - para desistir da causa. Mas Mohammad se recusou, jurando, pela sua própria vida, continuar sua luta até o fim. Apesar do tio o ter apoiado e rejeitado o ultimatum de Makka, Mohammad sabia que a hora da decisão estava próxima, e que os homens de Banu Háchim não seriam páreo para todos os maquenses, que agora se uniam contra eles, por sua causa. Foi a sua pre-ciência dessa situação que o levou a entrar em negociações e a firmar dois tratados sucessivos com os muçulmanos de Madina. Assim ele substituiria a relação tribal, caso os Banu Háchim retirassem o seu apoio, e reforçaria as suas forças contra os maquenses com as de Madina, certo de que a sua premonição estava correta e de que a sua estratégia era muito oporturna. Ambas eram componentes preciosos da sua liderança.
Ao chegar a Madina, no verão do ano de 622, Mohammad reconciliou as duas principais tribos da cidade e as fundiu, para formarem o primeiro núcleo político islâmico. A sua alienação e mútuo antagonismo eram tradicionais. Mohammad substituiu o ódio pelo respeito, amor e estima; a malquerença pela solidariedade; e a separação pela unidade. Em seguida, fundiu os madinenses (al Ansar) com os maquenses (al Muhajirun), que haviam vindo para Madina, despossuídos e só com as roupas do corpo. Cada casa de Madina correspondeu ao apelo com a abertura do seu lar a algum indivíduo ou alguma família maquense. Era a primeira vez que chefes e aristocratas, plebeus e escravos, ricos e pobres, cidadãos e estrangeiros, se aliavam para formarem uma nova sociedade, na qual o liame da fé transcendia as diferenças de nascimento e de história; onde a lealdade religiosa criava para si uma unidade orgânica sócio-econômica, política e militar. A união não estava restrita aos muçulmanos. Mohammad persuadiu os judeus a se juntarem a eles, e se tornaram membros integrantes dessa nova ordem social. Eles também tinham divergências entre si, bem como os árabes e muçulmanos madinenses. Eles eram dependentes das duas tribos dominantes, Aws e Khazraj, e estavam envolvidos com estes últimos, em todas as suas disputas e conflitos. A liderança de Mohammad era suficientemente forte para reunir todos eles sob o mesmo teto e fundi-los na primeira sociedade ecumênica e pluralista. Para formalizar a união deles e registrar tal acordo, Mohammad ditou o Tratado de Madina – a primeira constituição escrita da história humana. A promulgação dessa constituição inaugurou o primeiro Estado Islâmico, a primeira ordem mundial multireligiosa.1
Mohammad gerou tudo isso com sua própria sabedoria e poder de persuasão. Ele não tinha nenhum poder para coagir quem quer que fosse. Ele sabia que uma união que não fosse realmente desejada pelos seus membros era inviável, assim como o governante indesejado por seu povo nunca seria bem-sucedido. A nova sociedade se baseou na chura (consulta entre os pares, com vistas a alcançar o consenso, tal como descrito no Alcorão 42:38), bem como em alguns princípios que continuam a servir como normas de atividade política ao longo da história muçulmana. Entre outros, esses princípios incluem: A ordem social é absolutamente necessária. "Se apenas três de vós saírem em uma missão, deverão designar um amir chefe, um primeiro sucessor e um segundo sucessor".² Esse é um antigo princípio mesopotâmico, que via a ordem social como uma condição imprescindível à vida; um grupo sem líder é como um rebanho de ovelhas sem pastor. A umma era um povo com uma causa, uma missão a ser realizada no espaço e no tempo e, por isso, devia ser organizada. "Mesmo um imam injusto", dizia Mohammad, "é melhor do que o caos ou nenhuma ordem… onde qualquer um pode tomar a lei nas próprias mãos… Naturalmente, nenhum desses casos, como tal, é feliz; e, no entanto, um governo que mantém a ordem realiza, pelo menos, um bem essencial para a sociedade". O melhor mesmo é o governo que proporciona tanto a ordem como a justiça. Em um Estado desses, a obediência ao governante é um dever religioso e civil, enquanto o que for ordenado não vier a conflitar com a lei de Deus. Sempre que o Estado se afasta da lei de Deus, não há necessidade de qualquer obediência. Devido ao potencial de abuso dessa condição, Mohammad alertou para que se prevenissem cuidadosamente contra tal situação. Jamais devemos questionar a legitimidade das ações de um governo, dizia ele, a não ser que elas sejam claramente kufran bawahan fihi burhan (um afastamento da lei de Deus, comprovado por evidências inquestionáveis).³ Dentro de tais limitações, todo muçulmano ou cidadão é um pastor responsável por seu rebanho, governante do seu Estado, tanto quanto chefe da sua casa, toda muçulmana é mãe dos seus filhos e dona do seu lar, e todo criado é empregado, para cuidar dos interesses do seu empregador.4 Além de orientar o navio do Estado para as metas que o Islam prescreveu para ele, o dever primaz da liderança é cuidar dos fracos, dos pobres e de todos aqueles que precisam ajudar a cumprir as metas supremas e pessoais. "Aqueles líderes que cumprem essa função", proclamava Mohammad, "tornam-se merecedores da imunidade contra o Fogo (do inferno)". Nem a história antiga tinha respeito pelas sociedades que não se preocupavam com os fracos da sua comunidade. "Na verdade", dizia o Profeta, "Deus proporcionará, ajuda e concederá a vitória, na medida em que as sociedades demonstrarem a sua solidariedade aos seus fracos… Qualquer um que não tiver misericórdia para com os pequenos, entre nós, e não respeitar os grandes, não pertencerá a nós". Acima de tudo, a ordem social deve ser justa para com todos. Respondermos ao clamor das vítimas de injustiças – sejam elas muçulmanas ou não – é de suma importância. "Nada isola esse clamor dos ouvidos de Deus", afirmava o Profeta.
A liderança da ordem social deve organizar a sua administração, de modo a otimizar o seu serviço ao povo e a minimizar o seu custo. Para atingir esse objetivo, o critério de contratação deve ser a competência. "Nomear qualquer líder para qualquer serviço público, por mais insignificante que seja, por qualquer outro critério", declarou o Profeta, "é um ato de traição a Deus, ao Seu Profeta e à umma". O governante deve outorgar a cada um a responsabilidade pelos seus atos e deixar a prestação de contas das intenções a Deus. Mas se ele começar a suspeitar das pessoas ou as induzir a suspeitarem umas das outras, a corrupção se estenderá naquele Estado e começará a arruiná-lo. O governante deve sempre almejar a reconciliação e a unidade. Quando surgir uma divergência entre duas facções, ele deverá conduzi-las a um acordo justo; e se alguém se rebelar contra tal acordo, a umma, como um todo, deverá opor-se aos rebeldes e fazê-los recobrar o bom senso.5 A justiça é, com toda a certeza, o principal ideal social do Islam. A indignação que a sua violação gera no muçulmano e o entusiasmo pela sua defesa e preservação desconhecem quaisquer limites, no coração comprometido ao tauhid. Entretanto, como qualquer virtude, também a busca da justiça pode-se tornar opressiva. É por isso que não nos devemos omitir de temperar essa busca com compaixão e misericórdia. O entendimento disto, junto com a sua sensibilidade normal para com a necessidade dos famintos, dos fracos e dos oprimidos, levou Mohammad a declarar: "Quando criou a humanidade, Deus comprometeu-Se em que sempre seria misericordioso. "Minha misericórdia é mais forte que a Minha ira" – disse Deus. Quanto à sua própria governança, Mohammad disse: "Deus não me enviou para ser um zelote, como governante, nem um fanático, mas sim um educador e guia, que tornasse a vida mais fácil para os seres humanos".
Todos os fatos que descrevemos da sunna, concretizam os valores que se relacionam com a ética social do Islam. Esta foi a realização do período maquense. A ética social externa do Islam, entretanto, não poderia vir à tona, senão depois da Hégira em Madina e do estabelecimento da umma como estado soberano. Antes desse acontecimento, a umma existia potencialmente. Mesmo assim, ela estava sujeita a perseguição tal, que lhe era impossível exercer as prerrogativas da umma. Conseqüentemente, a primeira preocupação do Profeta, depois da Hégira, tão logo se estabeleceu a ordem interna e todos estavam em suas posições, foi a de voltar-se para o mundo externo. Obviamente, o problema externo mais imediato era a hostilidade combativa de Makka, cuja liderança havia decidido assassinar Mohammad na véspera da Hégira. Naquela noite, informado do seu plano, o Profeta decidiu distrair a sua atenção colocando Áli, seu primo, em sua cama e o cobrindo com o seu próprio manto verde. Mohammad e Abu Bakr escaparam, na escuridão da noite. Os maquenses arrombaram a porta, puxaram o manto, com as espadas prontas, mas aí encontraram Áli, em lugar do homem que procuravam.
A maioria dos muçulmanos já havia, àquela altura, deixado Makka para irem a Madina. Eles haviam deixado para trás parentes e bens. Os maquenses passaram a incomodar aqueles, confiscando-lhes as propriedades. Os emigrantes muçulmanos de Makka ficaram desprovidos e tiveram de depender da hospitalidade dos seus anfitriões. Era natural que se cogitassem modos de se vingarem dos maquenses. As caravanas de Makka passavam por Madina, transportando mercadorias para o norte e para o sul. Os muçulmanos procuraram apoderar-se de tudo o que puderam, e Makka se mobilizou para a guerra, resultando daí que os muçulmanos foram arrastados para o seu primeiro confronto militar com os seus inimigos. Trezentos muçulmanos, chefiados pelo Profeta, encontraram-se com um exército maquense, de mil soldados, em Badr. Ambos os lados pensaram que o encontro seria definitivamente decisivo. Enquanto os maquenses preparavam a nata do seu exército para a batalha, o Profeta levantou a moral dos seus seguidores ao nível mais elevado possível. Ele orou em voz alta a Deus, dizendo: "Ó Deus, eis que vem Makka para arrasar com o Teu Profeta e erradicar os Teus servos. Se eles ganharem hoje, não serás mais adorado nestas terras. Concede-nos a Tua ajuda e a vitória. Só Tu és o nosso Senhor, nossa Ajuda e nosso Socorro". Então, voltou-se para os muçulmanos e lhes disse que Deus atenderia a sua prece e lhes concederia a vitória; que todo aquele que tombasse, no combate que se seguiria, alcançaria o Paraíso e teria a vida eterna.6
A estratégia militar do Profeta foi questionada pelos seus seguidores, quando ele declarou que, apesar da causa ser divina, a estratégia seria humana. Em consultas uns com os outros, os muçulmanos decidiram-se por uma distribuição diferente das suas forças. A batalha durou a tarde toda, e as perdas foram pesadas, para ambos os lados. Os muçulmanos saíram vitoriosos. Na verdade, foi uma infusão milagrosa, de energia incomum, que fez os muçulmanos lutarem tão valentemente, a ponto de derrotarem os seus inimigos, apesar da superioridade numérica e de armamento deles. Entretanto, os muçulmanos estavam exaustos e não tiveram forças para consolidar a sua vitória com uma perseguição aos maquenses. Voltaram para Madina, satisfeitos com a vitória naquela batalha, senão na guerra. Um ano mais tarde, os maquenses voltaram para um novo confronto, que teve lugar fora de Madina, ao pé do Monte Uhud. Desta vez, os muçulmanos perderam a batalha, mas infligiram pesadas perdas aos maquenses, que também não puderam dar continuidade à sua vitória, com a invasão e ocupação de Madina. Desesperados, bem como mais escolados pelos seus erros, os maquenses lançaram uma última tentativa contra Mohammad e o seu movimento. Desta vez, eles mobilizaram praticamente toda a Arábia e chegaram às portas de Madina para aniquilarem o Estado islâmico, erradicarem os muçulmanos e acabarem com o seu flagelo, de uma vez por todas. Com números tão enormemente superiores, os muçulmanos não poderiam defrontar-se, e por isso permaneceram dentro da sua cidade. Apressadamente, tiveram de cavar um fosso, em frente a um dos lados mais vulneráveis da cidade, o que deu o nome a essa batalha.7 Felizmente para os muçulmanos, eles não tiveram de lutar. Uma terrível tempestade de areia assolou a região. Ela não afetou os muçulmanos, que estavam dentro dos seus lares e fortalezas; mas provocou o caos entre os seus inimigos, que estavam acampados em tendas, ao longo de um amplo arco, no flanco sul de Madina, bem no caminho da tempestade. Esta arrancou as suas tendas, dispersou e matou a maioria das suas montarias e destruíu os seus suprimentos. Aqueles que conseguiram escapar, fugiram e fizeram com que a campanha fosse em vão.
A constituição do Estado Islâmico (o Tratado de Madina) respeitava os judeus, como uma comunidade autônoma, dentro do estado. Ela conferia à corte rabínica autoridade plena para adjudicar e resolver todos os assuntos dos judeus. Desde as suas derrotas e dispersões pelos romanos, esta era a primeira vez que a existência comunitária judaica e a lei da Tora eram reconhecidas como legítimas, por um Estado. Mesmo assim, a fidelidade dos judeus ao Estado Islâmico oscilava. Inicialmente, o Profeta fez-lhes uma advertência, depois baniu alguns deles, então baniu mais outros e confiscou as suas propriedades. Na Batalha do Fosso, eles tiveram mais uma vez um papel traidor; mas este foi frustrado pelo colapso do inimigo, diante da tempestade de areia. Desta vez, o Profeta se viu obrigado a executar alguns e a expulsar os demais de Madina. Do seu exílio, em Khaibar, eles continuaram a conspirar contra o Estado Islâmico. Não tardou que fosse necessária uma expedição para os desalojar e expulsar de vez da Península Arábica. O seu destino, na Bizâncio cristã não foi diferente. Entretanto, quando o Crescente Fértil foi conquistado pelas forças do Islam, novamente lhes foi oferecido o mesmo status que lhes havia sido conferido no Tratado de Madina, sem ser levado em conta o seu comportamento anterior com os muçulmanos na Península Arábica.
Alguns meses após a Batalha do Fosso, por ocasião da peregrinação (hajj), o Profeta decidiu realizar o ritual com os seus companheiros. Ele convidou todas as tribos árabes a se juntarem a ele, em parte para se prestar tributo à Caaba e à tradição abraâmica que ela representava, e em parte para negar a alegação maquense de que os muçulmanos não respeitavam nem Makka, nem a sua tradição. Ao chegarem aos arredores de Makka, os maquenses surgiram com força total, para defender a sua cidade contra o que eles imaginavam ser uma invasão muçulmana. O Profeta havia antes declarado a intenção religiosa da expedição; mas os maquenses não confiavam na sua declaração. Eles temiam que, uma vez dentro da cidade, os muçulmanos a tomassem. Em razão disso, decretaram que não seria permitida a entrada dos muçulmanos e que não haveria nenhuma peregrinação. As circunstâncias exigiram que se entabulassem negociações entre as duas partes, que alcançaram um entendimento, que passou a ser conhecido como o Tratado de Hudaibiya.
Os termos do tratado eram humilhantes para os muçulmanos. Primeiro, os muçulmanos não poderiam realizar a peregrinação naquele ano, mas poderiam voltar para fazê-lo no ano seguinte, desde que viessem desarmados e não permanecessem na cidade mais do que três dias. Segundo, qualquer maquense que se juntasse a eles deveria ser devolvido a Makka, mas qualquer muçulmano que desertasse em favor de Makka não seria devolvido a Madina. Terceiro, os árabes de fora de Makka que quisessem, poderiam juntar-se à cidade, e os que quisessem, poderiam juntar-se a Mohammad. Quarto, nenhum dos dois lados atacaria o outro nos dez anos seguintes. O Profeta concordou com estes termos. Ele calculava que, uma vez que o Islam era uma questão de convicção e de fé pessoal, o convertido maquense não cometeria apostasia, mesmo que fosse compelido a residir em Makka; que a presença de apóstatas muçulmanos em Madina seria inútil e até prejudicial. Ele também compreendeu que as tribos eram entidades independentes. Se elas quisessem aliar-se a Makka, ninguém poderia impedi-las pela força; mas a possibilidade de persuadi-las a se juntarem às hostes do Islam poderia provar-se uma clara vantagem. Quanto aos dez anos de paz, o Profeta considerou-os uma grande vantagem, porque a paz era exatamente do que ele precisava para levar a mensagem do Islam a toda a Arábia. Ele também concordou em adiar a peregrinação por um ano, para que pudesse realizá-la numa atmosfera pacífica, na qual todos os árabes se congregariam e seriam informados da mensagem do Islam em primeira mão. Ele concordava, portanto, em assinar esse tratado. Mas não concordavam com isso os seus companheiros mais antigos, que viam o tratado como um insulto, merecedor de uma reação violenta. Aquilo era uma ameaça de irrupção de uma divisão e rebeldia nas hostes muçulmanas. Além do mais, o passado traiçoeiro de Makka não dava margem para a confiança dos muçulmanos. Os maquenses retiveram em demasia o representante muçulmano, Otman Ibn Affan, e se espalhou o boato de que eles o haviam morto. E se eles tomassem os muçulmanos de surpresa naquele mesmo instante e começassem uma batalha, cujo momento, lugar e condições eram da sua escolha exclusiva? Como poderiam confiar em que eles fizessem um tratado de paz?
Enquanto os representantes de ambos os campos aguardavam, o Profeta reuniu os seus companheiros mais intimos ao pé de uma árvore e sentou-se para debater a questão com eles. Ele lhes pediu para confiar em Deus, nele e na paz. Ao mesmo tempo, ele lhes pediu para estarem prontos para lutar, no caso de os maquenses trapacearem. Finalmente, Mohammad reafirmou a sua autoridade como Profeta e lhes lembrou o seu pacto de obedecerem a ele em todos os assuntos, incluindo no tocante ao sacrifício das suas próprias vidas. Como em todas as outras crises, o primeiro a renovar o seu juramento de fidelidade foi Abu Bakr, o qual também exortou Ômar Ibn Khattab a não renegar o dele, aquele que ele fizera quando ingressara nas hostes do Islam. Diante disso, Ômar reafirmou a sua obediência, também, e os demais companheiros seguiram o seu exemplo. Tendo restaurado a unidade no seu campo, com este novo acordo – mais tarde chamado de Bay'at Ridwan ou o Tratado do Contentamento –, o Profeta assinou o tratado com Makka. Os representantes voltaram em segurança aos seus campos, e os muçulmanos retomaram o caminho de volta para Madina.
A caminho de casa, foi revelada a surata Al Fath, que começa com o seguinte versículo: "Em verdade, temos-te predestinado um evidente triunfo, para que Deus perdoe as tuas faltas, passadas e futuras, agraciando-te e guiando-te pela senda reta."8 Esta revelação dissipou quaisquer dúvidas que ainda restavam nas mentes dos muçulmanos sobre a validade do Tratado de Hudaibiya. E os anos que se seguiram provaram que eles estavam certos.
Pela primeira vez, o Islam, o seu Profeta, e a sua umma, como Estado soberano, não eram mais vistos, nem pelos maquenses, nem pelos seus aliados, como desprezíveis ou fugitivos da tribo de Coraix, mas como iguais, com um título reconhecido, com legitimidade e direitos e como uma entidade política tão eminente quanto o de Makka. Segundo, o tratado reconhecera o direito de acesso dos muçulmanos à Caaba e o direito de realizarem a peregrinação e rezarem, dentro do santuário de Makka. Terceiro, a paz permitiu a Mohammad enviar os seus mensageiros às tribos da Arábia, sem recear pelas suas vidas. Em dois anos de missão Islâmica na Arábia, após o Tratado de Hudaibiya, foi convertida quase a maioria das tribos. Quando Mohammad conclamou os muçulmanos para a marcha sobre Makka, em seguida à violação, por esta, do Tratado de Hudaibiya, a multidão que atendeu ao chamado era tal, que Makka se viu sobrepujada, sem combate. A paz, proporcionada por aquele tratado, dera a Mohammad confiança para enviar representantes até para fora da Arábia, para a Abissínia, o Egito, Bizâncio, a Pérsia e para as tribos às margens da Península. Sem Hudaibiya, a conquista de Makka não teria ocorrido tão rapidamente, nem teria sido tão exangue.
Ao instituir a paz, o Tratado de Hudaibiya permitiu aos muçulmanos apresentarem o Islam, sem que este fosse visto como um ameaça. Uma vez que estavam descontadas a guerra e as hostilidades, o conflito se transformou em ideacional, colocado diante da razão e da consciência, a cada pessoa como indivíduo. Deus é Deus ou não? Se Ele é o Único Criador, não deveria Ele ser o único Senhor ou Juiz? Não deveriam, então, a adoração e o culto, a obediência e o serviço, a lealdade e a fé pertencer somente a Ele? Se a justiça, a misericórdia e a moderação são virtudes, não são mandamentos de Deus que, portanto, devem ser obedecidas, sob quaisquer circunstâncias? E se a eloqüência literária é o valor mais nobre e mais importante, não é o Alcorão tão sublime, que só pode ser revelação de Deus, ser uma obra sobrenatural do Autor divino? Esta lógica calma do Islam convenceu rapidamente os árabes da Península, do mesmo modo que viria a convencer os milhões de outros, aos quais seria apresentada mais tarde. As fileiras da umma engrossavam, com os novos recrutas, a cada dia, e logo o Islam tornou-se a voz predominante, na maior parte da Arábia.
Abu Basir, um maquense, converteu-se ao Islam e fugiu para Madina. O povo de Makka pediu a sua extradição, de acordo com os termos do tratado. Mohammad chamou Abu Basir e lhe disse: "Nós muçulmanos não enganamos. Juramos devolver os fugitivos, e portanto, devemos devolver-te a Makka. Sê forte e volta. Deus cuidará de ti". Abu Basir entregou-se ao representante de Makka e foi com ele. A caminho para Makka, Abu Basir lutou com o seu captor, tomou a sua espada, matou-o e fugiu. O número de conversões dos maquenses ao Islam continuou a crescer. Uma vez que permanecendo em Makka expunham as suas vidas ao risco, eles fugiam para o deserto e ficavam esperando, de tocaia, a passagem de caravanas de Makka. Eles interromperam de tal modo o tráfego, que Makka, vendo-se incapaz de os conter, pediu ao Profeta que os termos do tratado fossem revistos, de modo que os convertidos maquenses ao Islam ficassem sujeitos à responsabilidade de Mohammad, o qual teria de contê-los, de acordo com tais termos. Que irônico o fato de que a condição do tratado que os muçulmanos consideraram, na época, humilhante e recusável, viesse a ser tão vantajosa para eles e prejudicial a Makka. Os maquenses enviaram Suhail Ibn 'Amr, o delegado que havia redigido o termo original, para pedir a sua revisão.
Logo chegou a época da peregrinação do ano seguinte, e Mohammad chamou todos os muçulmanos a fazerem o hajj com ele. Milhares convergiram e se aprontaram para a viagem. Mohammad ensinou-os a se vestirem para a peregrinação e a entrarem em Makka, vestidos com o ihram, que consiste de duas peças de tecido brancas e sem costura. O seu cântico uníssono, entoando Labbaika Allahum-ma Labbaik (Ao Teu chamado ó Deus, estou atendendo), deve ter sido uma visão surpreendente, para todos os árabes que o ouviram. Ele gerou um profundo respeito por eles e reverência pela sua nova religião, o Islam. Os maquenses evacuaram a sua cidade, e colocaram-se sobre uma montanha, que permitia uma visão completa do santuário. À medida que os muçulmanos davam volta à Caaba, Mohammad lhes ensinava a entoar:
Allahu Akbar, Allahu Akbar, Allahu Akbar
(Deus é o Maior, Deus é o Maior, Deus é o Maior)
Allahu Akbar, Allahu Akbar, Wa Lillahil-hamd
(Deus é o maior, Deus é o maior, a Deus pertence o louvor)
Allahu Akbaru Kabira, wal hamdu lillahi kacira
(Deus é o maior, realmente o Maior; a Deus pertence todo o louvor)
Wa subhana Allahu bukratan wa asila
(A Deus pertence a glória de cada amanhecer e anoitecer)
La ilaha illa Allahu wahdah
(Não existe outra divindade além de Deus, Único)
Sadaca wa'dah, wa a'azza jundah
(Sua promessa era verdadeira; Ele reforçou o Seu exército)
Wa hazama al ahzaba wahdah
(E somente Ele derrotou os partidos)
La ilaha illa Allah wa la na'budu illa iyyah
(Não há outra divindade além de Deus. Nós não adoraremos ninguém além d'Ele)
Mukhlicina Lahuddina walaw kariha al mushrikun
(Seremos sinceros em nossa religião para com Ele, por mais que se nos oponham os politeístas).
Esta confissão de fé era tão sincera, quanto atemorizante e fascinante. Seu tom desafiador inspirava pavor no coração do inimigo, mesmo sem a demonstração dos armamentos; mesmo assim, comovia aqueles mesmos corações e os fazia concordar com ela, justamente pela sua sinceridade absoluta, pela sua firme decisão de adorarem somente a um único Deus, pela sua reafirmação e confiança em que Deus daria ao Islam a vitória final. Do mesmo modo, o ritual do hajj confirmava o elevado respeito que o muçulmano tinha pela Caaba, por Makka e pela sua tradição abraâmica. Tudo isto tornava o Islam irresistível, pelo menos para os dois maiores generais de Makka, Khalid Ibn al Walid e 'Amr Ibn al 'As, que abandonaram os seus colegas maquenses e à sua frente, adiantaram-se, para proclamar a sua conversão ao Islam. Mohammad recebeu-os de braços abertos e os convidou a se juntarem à cerimônia.
Foi alguns meses depois dessa peregrinação que uma tribo aliada de Makka agrediu um aliado de Madina. Os muçulmanos pediram aos maquenses para cumprirem a sua obrigação, estabelecida no Tratado de Hudaibiya, mas os maquenses se recusaram a fazê-lo. Os muçulmanos se mobilizaram e lhes declararam guerra. Dez mil ou mais cavaleiros e mais alguns milhares de cameleiros e a infantaria, atrás destes, puseram-se diante das portas de Makka em poucos dias, prontos a entregar as suas vidas, por ordem do Profeta. Sobrepujados, os maquenses se renderam. O Profeta entrou na cidade e foi direto à Caaba. Com as suas próprias mãos ele destruíu os ídolos, removeu os entulhos do recinto sagrado, limpou e reconsagrou a Caaba ao Deus único, Senhor e Criador de todos. Enquanto trabalhava, ele recitava: "Chegou a verdade, e a falsidade desvaneceu-se, porque a falsidade é pouco durável".9 Os líderes de Makka ficaram ali perto, observando e tremendo de medo, por suas vidas. Então, o Profeta mandou-os aproximar-se, para ouvirem o seu veredito. Eles se adiantaram e se ajoelharam diante dele. O Profeta, então, disse: "Levantai-vos e ide! estais livres", concedendo o seu perdão geral a eles e a todos os maquenses. Esta magnanimidade de Mohammad, no momento do seu maior triunfo, dissipou a última resistência dos seus corações. Primeiro os líderes e, em seguida, colunas e filas inteiras foram proclamar a sua conversão ao Islam. Makka tornou-se uma cidade muçulmana; seu santuário tornou-se o lugar mais sagrado do Islam, e o seu povo tornou-se um dos seus maiores defensores.
Finalmente, a sunna era a concretização da relevância do Islam para a ordem e as relações internacionais. O tratato de Madina havia reconhecido os judeus como uma comunidade e lhes tinha concedido autonomia constitucional, para organizarem as suas vidas como lhes ditava a Tora e como ela era interpretada pelas suas próprias cortes judiciais e por outras instituições. Essa provisão constitucional não mudou quando alguns judeus cometeram atos de traição contra o Estado Islâmico, porque o Islam rejeita qualquer teoria de culpa vicária. Os atos de traição foram os atos daqueles que os praticaram e não dos seus descendentes. A mesma provisão foi estendida pelo Profeta aos cristãos de Najran. Estes haviam enviado uma delegação a Madina, buscando uma confirmação do seu status e inquirindo sobre o Islam. A delegação cristã foi recebida e entretida pelo Profeta, que também lhe fez a apresentação do Islam. Alguns dos seus membros se converteram e se juntaram às fileiras da umma muçulmana. Aqueles que não se converteram, foram estabelecidos pelo Profeta como uma outra comunidade, dentro do Estado Islâmico e sob a sua constituição. Ele enviou os delegados de volta ao seu povo, no Iêmen, protegidos dos perigos da estrada por muçulmanos e acompanhados por Abu Ubaida, que ele nomeou representante do Estado, entre outros.
O Estado Islâmico, portanto, tornou-se uma ordem multireligiosa, por desejo e instituição do próprio Profeta, que assim uniu, em uma ordem de paz e legitimidade, muçulmanos, judeus e cristãos. Este pluralismo não era uma questão de cortesia, mas sim um artigo constitucional; não era uma questão de tolerância de costumes estrangeiros de alimentação, vestuário, ou música, mas de códigos completos de leis que governavam a vida das comunidades religiosas não-muçulmanas. O pluralismo do Estado Islâmico era um pluralismo de leis, uma inovação jamais vista alhures, em toda a história da humanidade. O Estado Islâmico de Madina era um microcosmo da ordem mundial por vir. O ato de inserir os cristãos de Najran na constituição viria a ser repetido por seus companheiros, a favor dos persas adeptos do zoroastrismo, e pelos sucessores destes, a favor dos hindus, dos budistas e de todas as outras religiões.
Depois da paz com Makka, Mohammad havia enviado delegações aos reis, ao redor da Arábia, convidando-os a se aliarem ao Islam. Se eles não aceitassem se converter, após ouvir a apresentação dos delegados, eram convidados a partilhar da Pax Islamica, a ordem de paz internacional, na qual as idéias deveriam ser livres para se desenvolverem e os homens livres para se convencerem e serem convencidos da verdade, preservando, ao mesmo tempo, intactas as suas instituições políticas, econômicas, sociais, culturais e até as militares. O Estado islâmico buscava a oportunidade para apresentar o Islam a todos os seres humanos, de todos os cantos, e honravam as suas decisões pessoais de aceitá-lo ou rejeitá-lo. O Islam não estava interessado em subjugá-los, nem em explorá-los, de qualquer forma que fosse. Ele buscava a promoção, não do seu próprio bem, mas do deles, como seres humanos iguais, como criaturas de Deus, tanto quanto os muçulmanos, possuidores do direito de ter, também, a revelação que lhes fora dada. A missão do Estado islâmico cingia-se à transmissão da mensagem de Deus. A decisão de aceitá-la ou rejeitá-la cabia somente ao homem, tal qual o dissera Deus (Alcorão 18:29). Mas nenhum poder, nenhuma instituição ou tradição pode impedir os homens de ouvirem e considerarem o chamado divino. Isto seria o mesmo que presumir serem eles incapazes de julgar por si mesmos, o que além de ser falso e injurioso, é uma espécie de tirania espiritual.
Eis porque os delegados do Profeta estavam instruídos para dizer aos reis e chefes que cada governante deve arcar com a responsabilidade do bem-estar espiritual dos seus súditos. O imperador de Bizâncio, o governante do Egito, e Negus, da Abissínia, responderam de maneira bondosa. O imperador da Pérsia e os chefes dos estados fantoches da Arábia do Norte rejeitaram o chamado, com desprezo e desafio. O governante de Dhat al Talh, vassalo de Bizâncio, matou os quinze companheiros do Profeta que foram enviados para apresentar o Islam, a ele e à sua gente. O governador de Basra, outro agente de Bizâncio, matou o delegado muçulmano, enquanto o ouvia relatar a sua mensagem. Alguns historiadores muçulmanos relataram que o próprio Imperador Heráclito deu ordem aos seus governadores provinciais para se mobilizarem e iniciarem a hostilidade.10 Esta reação de Bizâncio e dos seus estados satélites levou os muçulmanos a tentarem romper a autoridade que obstruía a proclamação da mensagem divina. As opções desses governantes desafiadores eram ainda mais limitadas pelos seus atos tolos. Os exércitos muçulmanos, que se reuniam às sua portas, ofereciam-lhes três possibilidades: a de aceitar o Islam; a de aceitar a ordem mundial do Islam, na qual eles continuariam a exisitir como uma comunidade constituinte, livre para exercer a sua religião, tendo garantidos os seus direitos humanos e jurídicos; ou então, a guerra. Quanto aos próprios muçulmanos, o seu espírito era exemplificado por 'Abdullah ibn Rawaha, um companheiro do Profeta, que detinha o comando do exército em Ma'an, a sudeste do Mar Morto. Antes de engalfinhar-se com o inimigo, ele dizia aos seus homens: "Irmãos! Aquilo que algumas pessoas temem pode acontecer a nós, e esta é a razão de nos encontrarmos aqui; precisamente, o martírio. Nós, muçulmanos, não combatemos nem com números, nem com armas. Nossa única força é a nossa fé, que Deus graciosamente nos concedeu. Levantai-vos para o combate e marchai para a frente! Uma das duas maiores graças será nossa: ou a vitória ou o martírio. Em qualquer dos casos, seremos os vencedores". Um espírito parecido movia os muçulmanos que enfrentavam o Império Persa. O supremo comandante persa, com roupas de grande resplandecência, revestidas de tanto ouro que mal ele podia-se mexer, mandou chamar o comandante muçulmano, que vestia a sua roupa normal do deserto, e disse: "O que é que trazes para nos combater aqui?", perguntou o persa. O comandante muçulmano respondeu:
"Para que os homens não possam mais adorar outros homens, mas oferecer a sua reverência ao Criador dos seres humanos; para cumprir esse objetivo, os nossos homens estão dispostos a morrer, com a mesma ânsia que os teus homens tem de viver". No décimo ano da Hégira (632 d.C.), o Profeta liderou uma procissão de mais de 100.000 muçulmanos, de Madina para Makka, em peregrinação. Essas milhares de pessoas vinham de todos os lados da Península, para acompanhar o Profeta, em seu hajj. Outros milhares foram-se juntando pelo caminho, e outro tanto havia ido diretamente para Makka. Nessa ocasião, o Profeta fez um sermão, que viria a ser o seu último. Nele, reassumiu a mensagem da qual ele fora divinamente nomeado guardião.
Montado no seu camelo, e com Rabi'ah Ibn Umaiya ao seu lado, em outro camelo, para repetir as suas palavras, de maneira que todos os ouvissem, o Profeta disse:
"Ó homens, ouvi bem as minhas palavras, pois eu não sei se nos encontraremos novamente, em ocasião igual. Até vos encontrardes com o vosso Senhor, a segurança das vossas vidas e dos vossos bens serão tão invioláveis, quanto o são este dia sagrado e este mês santo… Encontrareis deveras o vosso Senhor e Ele medirá os vossos atos. Aquele que estiver conservando algo que não seja seu deve devolvê-lo ao seu legítimo dono… Todo o juro está abolido; e todo o juro auferido está dispensado; somente o vosso capital vos pertence… Não praticareis, nem sofrereis qualquer injustiça ou iniqüi-dade… Deus ordenou que todos os juros devidos a 'Abbas Ibn 'Abd al Muttalib e ao seu clã (do qual Mohammad era herdeiro), nos dias pré-islâmicos, estão pagos… Ó homens, Satanás perdeu a esperança de ser adorado em vossa terra. Mesmo assim, ele ainda é capaz de determinar os menores dos vossos atos… Ó homens, tendes sobre as vossas mulheres, e as vossas mulheres direito, sobre vós, mais a vossa bondade… Tratai-as bem e sede bondosos com elas, pois elas são as vossas parceiras e ajudantes comprometidas… Eu estou deixando para vós o Livro de Deus e a sunna do vosso Profeta. Se os seguirdes, jamais vos desviareis."11
Oitenta e um dias após ter feito esse sermão, o Profeta faleceu. Ele estava doente havia dez dias, sofrendo de uma forte febre. Antes de ser enterrado, os seus companheiros reuniram-se para considerar o futuro deles, depois da partida do Profeta. Sua morte foi um choque terrível, que fez alguns deles perderem o bom senso. Em sua dor, eles estavam propensos a aceitar a afirmação de Ômar, do que ele havia feito naquele encontro, e que Mohammad não tinha morrido, mas que Deus o levara para os Céus, como havia feito antes com Jesus, e que ele continuava a viver. Abu Bakr chegou tarde para a reunião. Ouvindo Ômar, Abu Bakr instou-o a sentar-se e a ficar quieto. Mas Ômar insistiu e falou até mais alto. Abu Bakr, então, levantou-se e dirigiu-se aos muçulmanos ali reunidos: "Ó homens, se adorais Mohammad, sabei então que Mohammad está morto, morto, morto. Mas se tendes estado a adorar Deus, sabei então que Deus é eterno e nunca morre. Deus disse, no Seu Livro Sagrado: "Mohammad não é senão um mensageiro a quem outros mensageiros precederam. Porventura se morresse ou fosse morto, voltaríeis à incredulidade?"- Alcorão 3:144). Esta foi a última vez que o mundo muçulmano ouviu qualquer tentativa de deificar Mohammad, ou de atribuir a ele quaisquer das qualidades sobrenaturais que pertencem exclusivamente a Deus.
Antes daquela ocasião, quando da morte do seu filho Ibrahim, gerado para ele por sua esposa egípcia, Mariam, Mohammad foi acometido de profundo pesar. Uma vez que não tinha prole masculina, o nascimento de Ibrahim significara uma grande esperança para ele, tanto que ele se manifestara na escolha do nome ancestral para a criança. Sua morte prematura, na infância, com poucos meses de vida, deprimiu Mohammad seriamente. Naquele momento, um companheiro sugeriu que a criança não havia morrido, mas tinha sido levada por Deus e morava com Ele. Olhando para o infante morto em seus braços, Mohammad disse: "Ó Ibrahim, o fato de que tu és o filho de Mohammad, o Profeta de Deus, de nada te servirá, quando te encontrares com o teu Criador. O sol e a lua são sinais de Deus. Eles não brilham, nem se põem, para atender a alguém; nem são eclipsados, pela morte de alguém. Nada eleva um ser humano, a não ser os seus atos".
Notas
1. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. II, págs. 348-357; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 180-183.
2. Narrado em nome de 'Abdullah Ibn 'Amr Ibn al 'As, por Ahmad Ibn Hanbal no Al Musnad. (Cairo: Dar al Ma'arif, s/d), Vol. 2, pág. 176. A mesma tradição foi narrada, também, por Abu Dawud em Al Sunan.
3. Tal como relatado por al Bukhari, Muslim e Ahmad Ibn Hanbal.
4. Este hadice foi relatado por Muslim.
5. Alcorão 49:9.
6. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 2, pág. 457; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 226-227.
7. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 3, págs. 699, seguintes; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), pág. 299, seg.
8. Alcorão 48:1, seg.
9. Alcorão 17:81.
10. Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), págs. 338-389.
11. Ibn Ishac, Sirat (Biografia), Vol. 4, pág. 1022, seg.; Hayat Mohammad (A Vida de Mohammad), pág. 486-488.
Fonte: http://www.alcorao.com.br/mohammad.asp
domingo, 24 de abril de 2011
Os Vedas: um livro aberto
Entenda por que os Vedas, escrituras sagradas mais antigas da história, são ao mesmo tempo origem da unidade e da diversidade das múltiplas correntes do hinduísmo
por Texto André Santoro e André Victor Sartorelli
Há cerca de 3 500 anos, as comunidades na região do vale do Indo, atual norte da Índia, começaram a organizar um dos sistemas religiosos mais antigos de que temos notícia: o hinduísmo. Suas crenças foram transmitidas oralmente de geração em geração por muitos séculos até serem transcritas nos Vedas, compilação de hinos e preces considerada como o primeiro livro sagrado da história. O conteúdo dessa literatura sagrada, composta de 4 volumes de texto em versos, explica ao mesmo tempo a unidade e a variedade das múltiplas correntes do hinduísmo. Graças a alguns de seus ensinamentos mais importantes, esse conjunto de livros é sagrado para mais de 1 bilhão de pessoas que seguem seitas tão diferentes a ponto de serem monoteístas, politeístas ou panteístas – e ainda assim integrarem a mesma religião.
Os historiadores acreditam que a primeira versão dos Vedas em papel seja do século 2 a.C., quando o povo hindu desenvolveu um sistema de escrita. Segundo a lenda, eles teriam sido organizados por Vyasa, um sábio que seria a encarnação de Vishnu, deus que em todos os ciclos de criação e destruição do Universo elabora as escrituras em 4 livros, para garantir que os cânticos se propaguem e se eternizem. O mesmo Vyasa seria responsável por outros textos sagrados do hinduísmo, como o Mahabharata, ditado por ele a Ganesh, o deus com cabeça de elefante, que teria passado as palavras para o papel. Lendas à parte, os historiadores estimam que os 4 Vedas – RigVeda, Yajurveda, Samaveda e Atharvaveda – teriam sido compilados entre 1500 e 900 a.C. Mas, seja qual for sua origem, é nos textos védicos que estão os principais conceitos e símbolos do hinduísmo, os deuses, lendas e ensinamentos que dão forma e unidade à religião.
“A essência da tradição dos Vedas é o respeito aos ancestrais e a vinculação aos deuses”, afirma Carlos Eduardo Barbosa. “Essas condições pautaram e pautam todas as correntes do hinduísmo. Por isso, esses livros são aceitos como textos sagrados por todos os seguidores de todas as correntes”, afirma o cientista da religião Joachim Andrade, autor de uma tese de doutorado sobre a cultura hindu. Os Vedas foram cruciais no período inicial do hinduísmo, porque ajudaram a aglutinar várias crenças pré-históricas em um mesmo sistema religioso. Mais tarde, no século 9, a religião passou por um processo organizado de unificação, e os textos védicos foram igualmente importantes para garantir a reunião de várias crenças diferentes em um mesmo sistema religioso. Na época, por influência de um sacerdote hindu chamado Adi Shankara, várias correntes do hinduísmo que não acreditavam nos antigos textos sagrados reconduziram os 4 livros ao seu espaço privilegiado nos rituais. Até porque seu conteúdo era aberto o suficiente para cada grupo tirar dele sua própria interpretação e multiplicar ainda mais as correntes hinduístas.
A multiplicação de crenças
“Os Vedas são textos ritualísticos, e não uma enciclopédia de procedimentos religiosos”, diz Carlos Eduardo Barbosa, especialista em cultura hindu e professor do Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala, em São Paulo. Além disso, todos os textos incorporam um conceito filosófico que está na origem de todo o sistema de crenças hinduísta e permanece vivo na maioria das correntes existentes hoje em dia: o monismo. “Segundo essa filosofia, somos todos partes de uma coisa só, que é uma espécie de inteligência divina”, diz o historiador Edgard Ferreira Neto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Esse princípio de tolerância a outros credos presente nos Vedas distingue a religião hindu de muitas outras, em que a fé alheia não é vista com bons olhos, e permite uma convivência pacífica entre as correntes que nascem de cada interpretação diferente que ele permite. Carlos Eduardo Barbosa, que já foi à Índia várias vezes, dá um exemplo da unidade que existe entre os hindus, apesar da diversidade de crenças. “Nas ruas, em todos os cantos, você encontra devotos do deus Ganesh, por exemplo, convivendo em harmonia com devotos de Shiva. Pessoas que cultuam divindades diferentes se respeitam mutuamente, pois todos se reconhecem como hindus autênticos, apesar das diferenças.”
E aqui vale dar uma idéia do que é a variedade de crenças do hinduísmo. Em relação aos cultos, existem 4 principais: vaishnavas, shaivas, shaktas e smartas. Entre outras particularidades, cada uma concentra seus rituais de devoção em deuses específicos – no shaivismo, por exemplo, a divindade mais respeitada é Shiva. Outro tipo de classificação leva em conta a filosofia de vida e a interpretação dos textos sagrados. Nesse campo há pelo menos 6 escolas principais: sankhya, yoga, nyaya, vaisheshika, purva mimamsa e vedanta – todas têm, igualmente, suas respectivas subdivisões. “Trata-se de uma religião que incorpora a sabedoria de vários mestres, e que, por isso, abre espaço para inúmeras interpretações”, afirma Joachim Andrade.
A variedade é tão grande que seguidores de crenças monoteístas, politeístas ou panteístas – que acreditam em um deus universal, em vários ou na presença deles em todas as coisas – tomam banho juntos no mesmo rio Ganges, todos debaixo do grande guarda-chuva hinduísta. Os shaivistas adoram Shiva, mas reconhecem a existência de outros deuses, logo, são politeístas. Os vaishnavas gaudias são devotos exclusivos de Krishna, e são considerados monoteístas. Já os vedantas acreditam que todo o Universo e a realidade são expressões de Brahma, princípio infinito, sem passado nem futuro, e se encaixam na categoria dos panteístas. Apesar das diferenças fundamentais, essas correntes têm pelo menos uma coisa em comum: “Todas as correntes aceitam os Vedas como escrituras sagradas”, diz Carlos Eduardo Barbosa.
Para muitos, a descentralização da doutrina é a grande responsável pela sua riqueza. Mas diante de tanta diversidade é natural que surjam correntes que se distanciam e, em alguns casos, acabam se transformando em religiões independentes. É o caso do budismo e do jainismo, que surgiram do seio do hinduísmo antigo e reúnem seguidores até hoje. O budismo surgiu por volta do século 6 a.C., por causa do descontentamento de alguns sábios e sacerdotes com os rituais e sacrifícios difundidos nos Vedas, entre outras características dos textos hindus. O jainismo, que se organizou a partir do século 7 a.C., tem como base doutrinária o princípio da não-violência contra todos os seres vivos como forma de alcançar a elevação espiritual. Outra corrente que ganhou contornos de religião independente foi o sikhismo, que surgiu no século 15 e defende a impossibilidade de encarnação e representação de Deus, entre outros princípios. De uma forma ou de outra, todas beberam da mesma fonte ancestral, antes de assumirem sua própria identidade. Seguindo seus caminhos como religiões independentes, elas também preservaram o ideal de tolerância cultivado nas civilizações do vale do Indo. Numa região em que tantas religiões nasceram, isso provavelmente foi uma condição fundamental para sua existência.
Divinas tetas
Na história do culto ao gado, bois podiam ser sacrificados. Vacas leiteiras, não
No ocidente, o culto às vacas é tido como um dos principais símbolos do hinduísmo. E, de fato, o animal tem um status diferenciado na maioria das correntes da religião hindu. A origem dessa adoração remonta ao período em que os Vedas foram compostos, a partir de 1.500 a.C. “Uma das explicações é o fato de os habitantes da antiga Índia serem pastores nômades, que dependiam do gado para a sobrevivência e, portanto, precisavam proteger seus rebanhos”, diz o especialista Carlos Eduardo Barbosa. Ainda assim, no entanto, os animais eram sacrificados em rituais – mas as vacas leiteiras eram poupadas. Esse salvo-conduto das fêmeas é citado em algumas passagens do próprio Rigveda, do Mahabharata e de um importante código de conduta dos hindus, o Manu-smirti (também conhecido como As Leis de Manu), escrito a partir de 200 a.C.. Com o tempo, as vacas foram ganhando importância e, cada vez mais, passaram a ser associadas às principais divindades do hinduísmo. Hoje, em algumas seitas, a agressão contra o animal equivale a um atentado contra um sacerdote.
fonte: http://super.abril.com.br/religiao/vedas-livro-aberto-447671.shtml
por Texto André Santoro e André Victor Sartorelli
Há cerca de 3 500 anos, as comunidades na região do vale do Indo, atual norte da Índia, começaram a organizar um dos sistemas religiosos mais antigos de que temos notícia: o hinduísmo. Suas crenças foram transmitidas oralmente de geração em geração por muitos séculos até serem transcritas nos Vedas, compilação de hinos e preces considerada como o primeiro livro sagrado da história. O conteúdo dessa literatura sagrada, composta de 4 volumes de texto em versos, explica ao mesmo tempo a unidade e a variedade das múltiplas correntes do hinduísmo. Graças a alguns de seus ensinamentos mais importantes, esse conjunto de livros é sagrado para mais de 1 bilhão de pessoas que seguem seitas tão diferentes a ponto de serem monoteístas, politeístas ou panteístas – e ainda assim integrarem a mesma religião.
Os historiadores acreditam que a primeira versão dos Vedas em papel seja do século 2 a.C., quando o povo hindu desenvolveu um sistema de escrita. Segundo a lenda, eles teriam sido organizados por Vyasa, um sábio que seria a encarnação de Vishnu, deus que em todos os ciclos de criação e destruição do Universo elabora as escrituras em 4 livros, para garantir que os cânticos se propaguem e se eternizem. O mesmo Vyasa seria responsável por outros textos sagrados do hinduísmo, como o Mahabharata, ditado por ele a Ganesh, o deus com cabeça de elefante, que teria passado as palavras para o papel. Lendas à parte, os historiadores estimam que os 4 Vedas – RigVeda, Yajurveda, Samaveda e Atharvaveda – teriam sido compilados entre 1500 e 900 a.C. Mas, seja qual for sua origem, é nos textos védicos que estão os principais conceitos e símbolos do hinduísmo, os deuses, lendas e ensinamentos que dão forma e unidade à religião.
“A essência da tradição dos Vedas é o respeito aos ancestrais e a vinculação aos deuses”, afirma Carlos Eduardo Barbosa. “Essas condições pautaram e pautam todas as correntes do hinduísmo. Por isso, esses livros são aceitos como textos sagrados por todos os seguidores de todas as correntes”, afirma o cientista da religião Joachim Andrade, autor de uma tese de doutorado sobre a cultura hindu. Os Vedas foram cruciais no período inicial do hinduísmo, porque ajudaram a aglutinar várias crenças pré-históricas em um mesmo sistema religioso. Mais tarde, no século 9, a religião passou por um processo organizado de unificação, e os textos védicos foram igualmente importantes para garantir a reunião de várias crenças diferentes em um mesmo sistema religioso. Na época, por influência de um sacerdote hindu chamado Adi Shankara, várias correntes do hinduísmo que não acreditavam nos antigos textos sagrados reconduziram os 4 livros ao seu espaço privilegiado nos rituais. Até porque seu conteúdo era aberto o suficiente para cada grupo tirar dele sua própria interpretação e multiplicar ainda mais as correntes hinduístas.
A multiplicação de crenças
“Os Vedas são textos ritualísticos, e não uma enciclopédia de procedimentos religiosos”, diz Carlos Eduardo Barbosa, especialista em cultura hindu e professor do Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala, em São Paulo. Além disso, todos os textos incorporam um conceito filosófico que está na origem de todo o sistema de crenças hinduísta e permanece vivo na maioria das correntes existentes hoje em dia: o monismo. “Segundo essa filosofia, somos todos partes de uma coisa só, que é uma espécie de inteligência divina”, diz o historiador Edgard Ferreira Neto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Esse princípio de tolerância a outros credos presente nos Vedas distingue a religião hindu de muitas outras, em que a fé alheia não é vista com bons olhos, e permite uma convivência pacífica entre as correntes que nascem de cada interpretação diferente que ele permite. Carlos Eduardo Barbosa, que já foi à Índia várias vezes, dá um exemplo da unidade que existe entre os hindus, apesar da diversidade de crenças. “Nas ruas, em todos os cantos, você encontra devotos do deus Ganesh, por exemplo, convivendo em harmonia com devotos de Shiva. Pessoas que cultuam divindades diferentes se respeitam mutuamente, pois todos se reconhecem como hindus autênticos, apesar das diferenças.”
E aqui vale dar uma idéia do que é a variedade de crenças do hinduísmo. Em relação aos cultos, existem 4 principais: vaishnavas, shaivas, shaktas e smartas. Entre outras particularidades, cada uma concentra seus rituais de devoção em deuses específicos – no shaivismo, por exemplo, a divindade mais respeitada é Shiva. Outro tipo de classificação leva em conta a filosofia de vida e a interpretação dos textos sagrados. Nesse campo há pelo menos 6 escolas principais: sankhya, yoga, nyaya, vaisheshika, purva mimamsa e vedanta – todas têm, igualmente, suas respectivas subdivisões. “Trata-se de uma religião que incorpora a sabedoria de vários mestres, e que, por isso, abre espaço para inúmeras interpretações”, afirma Joachim Andrade.
A variedade é tão grande que seguidores de crenças monoteístas, politeístas ou panteístas – que acreditam em um deus universal, em vários ou na presença deles em todas as coisas – tomam banho juntos no mesmo rio Ganges, todos debaixo do grande guarda-chuva hinduísta. Os shaivistas adoram Shiva, mas reconhecem a existência de outros deuses, logo, são politeístas. Os vaishnavas gaudias são devotos exclusivos de Krishna, e são considerados monoteístas. Já os vedantas acreditam que todo o Universo e a realidade são expressões de Brahma, princípio infinito, sem passado nem futuro, e se encaixam na categoria dos panteístas. Apesar das diferenças fundamentais, essas correntes têm pelo menos uma coisa em comum: “Todas as correntes aceitam os Vedas como escrituras sagradas”, diz Carlos Eduardo Barbosa.
Para muitos, a descentralização da doutrina é a grande responsável pela sua riqueza. Mas diante de tanta diversidade é natural que surjam correntes que se distanciam e, em alguns casos, acabam se transformando em religiões independentes. É o caso do budismo e do jainismo, que surgiram do seio do hinduísmo antigo e reúnem seguidores até hoje. O budismo surgiu por volta do século 6 a.C., por causa do descontentamento de alguns sábios e sacerdotes com os rituais e sacrifícios difundidos nos Vedas, entre outras características dos textos hindus. O jainismo, que se organizou a partir do século 7 a.C., tem como base doutrinária o princípio da não-violência contra todos os seres vivos como forma de alcançar a elevação espiritual. Outra corrente que ganhou contornos de religião independente foi o sikhismo, que surgiu no século 15 e defende a impossibilidade de encarnação e representação de Deus, entre outros princípios. De uma forma ou de outra, todas beberam da mesma fonte ancestral, antes de assumirem sua própria identidade. Seguindo seus caminhos como religiões independentes, elas também preservaram o ideal de tolerância cultivado nas civilizações do vale do Indo. Numa região em que tantas religiões nasceram, isso provavelmente foi uma condição fundamental para sua existência.
Divinas tetas
Na história do culto ao gado, bois podiam ser sacrificados. Vacas leiteiras, não
No ocidente, o culto às vacas é tido como um dos principais símbolos do hinduísmo. E, de fato, o animal tem um status diferenciado na maioria das correntes da religião hindu. A origem dessa adoração remonta ao período em que os Vedas foram compostos, a partir de 1.500 a.C. “Uma das explicações é o fato de os habitantes da antiga Índia serem pastores nômades, que dependiam do gado para a sobrevivência e, portanto, precisavam proteger seus rebanhos”, diz o especialista Carlos Eduardo Barbosa. Ainda assim, no entanto, os animais eram sacrificados em rituais – mas as vacas leiteiras eram poupadas. Esse salvo-conduto das fêmeas é citado em algumas passagens do próprio Rigveda, do Mahabharata e de um importante código de conduta dos hindus, o Manu-smirti (também conhecido como As Leis de Manu), escrito a partir de 200 a.C.. Com o tempo, as vacas foram ganhando importância e, cada vez mais, passaram a ser associadas às principais divindades do hinduísmo. Hoje, em algumas seitas, a agressão contra o animal equivale a um atentado contra um sacerdote.
fonte: http://super.abril.com.br/religiao/vedas-livro-aberto-447671.shtml
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Tecnoesfera, Pscioesfera: A publicidade como um elemento do espaço.
Lídia Antongiovanni
Este estudo é uma primeira aproximação do par dialético de conceitos propostos por Milton Santos (1994a, 1994b), mediante o qual podemos entrever o espaço: tecnoesfera e psicoesfera.
As inovações tec nológicas configuram, cada vez mais, o espaço como um meio técnico-científico-informacional (Santos, 1994a). Ciência e técnica, de maneira muito intricada, sobrepõem-se, reconfigurando o meio técnico preexistente. E com as mais recentes inovações tecnológicas, em especial na área das telecomunicações e da informática, assistimos à configuração de um meio técnico-científico-informacional, que inclui objetos (técnicos) e ações.
Tecnoesfera e Psicoesfera, juntas, compõem tal meio. A primeira é a artificialização crescente do meio. É a sua intensa racionalização e tecnificação. A psicoesfera é também produto do artifício, no âmbito dos desejos, hábitos, vontades. É a captação e a apropriação, até mesmo criação de subjetividades.
Nossa intenção, é, por meio da análise da atividade publicitária, operacionalizar tais conceitos: tecnoesfera, psicoesfera. Perguntamos: qual é o entrelaçamento da publicidade com a organização e produção do espaço? Faz-se necessário, porém, compreender um pouco o universo publicitário no mundo contemporâneo para, posteriormente, resgatar aqueles conceitos.
Segundo Ribeiro (1988), "a palavra propaganda (de propagare, do latim, significando multiplicar, por reprodução ou por geração, estender, propagar) teria sido introduzida pela Igreja Católica no século XVI (Papa Clemente - fundação da Congregação da Propaganda); mantendo seu significado eclesial até o século XIX quando adquiri significado também político (disseminação de ideologias). Já a palavra publicidade (publicité)(do latim publicus - público), teve, no início, um sentido jurídico, de tornar público; adquirindo no século XIX, também um sentido comercial (anúncios).
"Reencontramos, desta maneira, na sintomática simbiose crescente entre estas duas palavras, a duplicidade de sentido político-ideológico presente nas práticas que caracterizam os processos modernos de comunicação e intercãmbio"(p.183-4).
É nesse sentido, das práticas que caracterizam os processos modernos de comunicação e intercâmbio que procuramos entender a publicidade. Como um ramo da produção a serviço da sociedade de consumo e da sua crescente exacerbação. A forma atual da atividade publicitária vem compondo-se sobretudo no pós-segunda guerra mundial, com a aceleração da industrialização e a transformação da imprensa em meio de comunicação de massa além da crescente introdução no cotidiano de outros meios. estes são centrais na sociedade de consumo e são os veículos por excelência da publicidade.
De encontro com a idéia de que a publicidade é parte essencial da crescente exacerbação da sociedade de consumo, vêm ideias como a de Roberto Menna Barreto (1978). Segundo ele: "A propaganda nasce como solução para a indústria, e a criatividade como solução para a propaganda"(p.108)(apud Ana Clara Torres Ribeiro, 1988, p.137). Assim, pensamos que a publicidade funciona, hoje, como um lubrificante do mercado. Amenizadora da fricção entre mercadoria, tempo (como etapa do capitalismo) e espaço (formações socioespaciais e lugar), possibilitando uma aceleração do consumo.
Como um lubrificante do mercado, da sociedade de consumo, a atividade publicitária é um dos vetores da vertiginosa aceleração contemporânea em que um dos elementos centrais é o império das imagens. Na produção da imagem, recurso por excelência da publicidade, estão envolvidos, de forma complexa, elementos técnicos e subjetivos, assim como se dá em relação ao produto publicitário. Segundo Daniel Bougnoux, a publicidade não pode ser subestimada tamanha sua complexidade pois está "situada na intersecção da problemática marxista (o fetichismo da mercadoria) e freudiana (a máquina do desejo) da sociologia (os modos de vida) e dos estudos de semiologia e de retórica (política do texto e da imagem, arte de persuadir e manipulação do imaginário em geral)... A publicidade é o estágio estético da mercadoria"(p.167).
A complexidade da publicidade se traduz, então, na concepção e produção das imagens, do discurso, bem como na sua veiculação.
Segundo Ribeiro(1988) "o período histórico de constituição da rede moderna de comunicação é, também, o período de expansão de novos circuitos de intercâmbio que encontram-se situados entre a produção e o consumo final. Estes circuitos constituem, por sua vez, esferas de produção posicionados nos campos da comunicação e cultura, ou melhor, na produção e na circulação de mensagens, imagens e informação"(p.128).
Para Milton Santos (1985) à segmentação tradicional do processo produtivo (produção propriamente dita, circulação, distribuição e consumo pode-se acrescentar, "em lugar de destaque, como ramos automatizados do processo produtivo propriamente dito, a concepção, o controle, a coordenação, a previsão, paralelamente à mercadologia (marketing) e à propaganda"(p.3).
Voltamos, assim, à ideia de publicidade como lubrificante do mercado, fazendo parte do processo produtivo nas esferas mais racionalizantes da produção no mundo atual. Pois, além de sofisticar o discurso, construindo a metamercadoria, utiliza e solicita as mais novas tecnologias. Retomando Ana Clara Torres Ribeiro (1988), "podemos dizer que umproduto, hoje, contém camadas superpostas de re-produção, correspondentes na novas decomposições da divisão social e territorial do trabalho, que significam a incorporação de ideias e conceitos aos seus limites físicos e composição intrínsecas"(132). Assim, os produtos são volatilizados em imagens (re-produtos), campo específico da publicidade, executado, sobretudo, pelas agências de propaganda.
O produto da concepção e produção publicitária tanto é materialidade com sua base técnica quanto é concepção estética e discursiva, introduzido de forma quase que naturalizada no nosso cotidiano. Segundo Jean Baudrillard (1993), a mensagem publicitária está tão inserida no cotidiano que se torna até familiar, convertendo-se mesmo em identidade e referência.
Conforme Milton Santos(1994a, 1994b) propõe, o espaço geográfico é formado por um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Os objetos não têm existência real, valorativa, sem as ações(1994b:6). A tecnoesfera é o muno dos objetos, a psicoesfera, das ações e estas, funcionando de modo unitário, definem cada subespaço que contém frações dos sistemas de objetos e sistemas de ações, cuja totalidade é o Mundo.
Nesse contexto, a publicidade compõe o espaço à medida que cria e necessita de tecnoesfera(s) e psicoesfera(s) densificadas e profundamente entrelaçadas, com os aportes de ciência, tecnologia e informação ao território funcionando sob comandos unificados. Ela é mesmo um dos organizadores destes comandos. Navega nestas esferas, através do uso intenso da ciência, da técnica e da produção de imagens simbólicas, compondo e direcionando o nosso entendimento do mundo. A grande cidade vista por Milton Santos (1994) como o mais representativo fenômeno do meio técnico-científico é, hoje, também, intensamente artificializada pelos objetos-discursos da publicidade.
A tecnoesfera, que é o âmbito da técnica e da organização normada, tende a ser homogênea em grandes porções do território justamente porque há temporalidades hegemênicas. Por isso, são implantadas verdadeiras próteses aos territórios que devem funcionar eficientemente e portanto apresentam uma linguagem rígida e dirigida. Para agir no território torna-se necessário traduzir e reproduzir os códigos sob os quais ele funciona. É desse modo que tecnoesfera produz psicoesfera.
Embora a psicoesfera também seja fruto do artifício, por operar no âmbito das subjetividades e dos desejos, permite ações cotidianas e usos do território não padronizados, flexíveis.
Tecnoesfera e psicoesfera são, pois, indutoras de movimento. São inseparáveis. Quando, porém, procedemos analiticamente e as separamos, nos é permitido pensar o meio técnico-científico-informacional tanto na dimensão material quanto na intermaterial e suas múltiplas interconexões possibilitando apreender suas vocações.
A publicidade atua por conta de agentes hegem~enicos, cuja ação corresponde a interesses específicos que podem não ser do indivíduo nem da sociedade, mas são eficazes. Assim, diante de uma psicoesfera a publicidade propõe outra ao trazer elementos novos que redimensionam o meio-técnico-científico-informacional, gerando um novo movimento no todo. As diferentes psicoesferas são alimentadas pelos objetos publicitários - frutos do casamento entre ciência e técnica - que constituem parte da base material que permite as ações racionalizadas esperadas por aqueles agentes.
Configurando-se como conjunto de imagens simbólicas das subjetividades contemporâneas, a publicidade ocupa lugar de destaque na produção da vida hoje, já que penetra os diferentes locais diluída em ações associadas aos objetos informados.
A publicidade é uma verdadeira mediação entre as instãncias coaisi: espaço, cultura, política, economia. E, ao entendermos o espaço conforme Milton Santos (1994a), como conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações, pensamos poder revelá-lo através da análise da atividade publicitária, recorrendo ao par dialético de conceitos tecnoesfera e psicoesfera, ao considerarmos que a base de trabalho da publicidade é um conjunto de obejtos fetichizados e ações direcionadas para o consumo.
Este estudo é uma primeira aproximação do par dialético de conceitos propostos por Milton Santos (1994a, 1994b), mediante o qual podemos entrever o espaço: tecnoesfera e psicoesfera.
As inovações tec nológicas configuram, cada vez mais, o espaço como um meio técnico-científico-informacional (Santos, 1994a). Ciência e técnica, de maneira muito intricada, sobrepõem-se, reconfigurando o meio técnico preexistente. E com as mais recentes inovações tecnológicas, em especial na área das telecomunicações e da informática, assistimos à configuração de um meio técnico-científico-informacional, que inclui objetos (técnicos) e ações.
Tecnoesfera e Psicoesfera, juntas, compõem tal meio. A primeira é a artificialização crescente do meio. É a sua intensa racionalização e tecnificação. A psicoesfera é também produto do artifício, no âmbito dos desejos, hábitos, vontades. É a captação e a apropriação, até mesmo criação de subjetividades.
Nossa intenção, é, por meio da análise da atividade publicitária, operacionalizar tais conceitos: tecnoesfera, psicoesfera. Perguntamos: qual é o entrelaçamento da publicidade com a organização e produção do espaço? Faz-se necessário, porém, compreender um pouco o universo publicitário no mundo contemporâneo para, posteriormente, resgatar aqueles conceitos.
Segundo Ribeiro (1988), "a palavra propaganda (de propagare, do latim, significando multiplicar, por reprodução ou por geração, estender, propagar) teria sido introduzida pela Igreja Católica no século XVI (Papa Clemente - fundação da Congregação da Propaganda); mantendo seu significado eclesial até o século XIX quando adquiri significado também político (disseminação de ideologias). Já a palavra publicidade (publicité)(do latim publicus - público), teve, no início, um sentido jurídico, de tornar público; adquirindo no século XIX, também um sentido comercial (anúncios).
"Reencontramos, desta maneira, na sintomática simbiose crescente entre estas duas palavras, a duplicidade de sentido político-ideológico presente nas práticas que caracterizam os processos modernos de comunicação e intercãmbio"(p.183-4).
É nesse sentido, das práticas que caracterizam os processos modernos de comunicação e intercâmbio que procuramos entender a publicidade. Como um ramo da produção a serviço da sociedade de consumo e da sua crescente exacerbação. A forma atual da atividade publicitária vem compondo-se sobretudo no pós-segunda guerra mundial, com a aceleração da industrialização e a transformação da imprensa em meio de comunicação de massa além da crescente introdução no cotidiano de outros meios. estes são centrais na sociedade de consumo e são os veículos por excelência da publicidade.
De encontro com a idéia de que a publicidade é parte essencial da crescente exacerbação da sociedade de consumo, vêm ideias como a de Roberto Menna Barreto (1978). Segundo ele: "A propaganda nasce como solução para a indústria, e a criatividade como solução para a propaganda"(p.108)(apud Ana Clara Torres Ribeiro, 1988, p.137). Assim, pensamos que a publicidade funciona, hoje, como um lubrificante do mercado. Amenizadora da fricção entre mercadoria, tempo (como etapa do capitalismo) e espaço (formações socioespaciais e lugar), possibilitando uma aceleração do consumo.
Como um lubrificante do mercado, da sociedade de consumo, a atividade publicitária é um dos vetores da vertiginosa aceleração contemporânea em que um dos elementos centrais é o império das imagens. Na produção da imagem, recurso por excelência da publicidade, estão envolvidos, de forma complexa, elementos técnicos e subjetivos, assim como se dá em relação ao produto publicitário. Segundo Daniel Bougnoux, a publicidade não pode ser subestimada tamanha sua complexidade pois está "situada na intersecção da problemática marxista (o fetichismo da mercadoria) e freudiana (a máquina do desejo) da sociologia (os modos de vida) e dos estudos de semiologia e de retórica (política do texto e da imagem, arte de persuadir e manipulação do imaginário em geral)... A publicidade é o estágio estético da mercadoria"(p.167).
A complexidade da publicidade se traduz, então, na concepção e produção das imagens, do discurso, bem como na sua veiculação.
Segundo Ribeiro(1988) "o período histórico de constituição da rede moderna de comunicação é, também, o período de expansão de novos circuitos de intercâmbio que encontram-se situados entre a produção e o consumo final. Estes circuitos constituem, por sua vez, esferas de produção posicionados nos campos da comunicação e cultura, ou melhor, na produção e na circulação de mensagens, imagens e informação"(p.128).
Para Milton Santos (1985) à segmentação tradicional do processo produtivo (produção propriamente dita, circulação, distribuição e consumo pode-se acrescentar, "em lugar de destaque, como ramos automatizados do processo produtivo propriamente dito, a concepção, o controle, a coordenação, a previsão, paralelamente à mercadologia (marketing) e à propaganda"(p.3).
Voltamos, assim, à ideia de publicidade como lubrificante do mercado, fazendo parte do processo produtivo nas esferas mais racionalizantes da produção no mundo atual. Pois, além de sofisticar o discurso, construindo a metamercadoria, utiliza e solicita as mais novas tecnologias. Retomando Ana Clara Torres Ribeiro (1988), "podemos dizer que umproduto, hoje, contém camadas superpostas de re-produção, correspondentes na novas decomposições da divisão social e territorial do trabalho, que significam a incorporação de ideias e conceitos aos seus limites físicos e composição intrínsecas"(132). Assim, os produtos são volatilizados em imagens (re-produtos), campo específico da publicidade, executado, sobretudo, pelas agências de propaganda.
O produto da concepção e produção publicitária tanto é materialidade com sua base técnica quanto é concepção estética e discursiva, introduzido de forma quase que naturalizada no nosso cotidiano. Segundo Jean Baudrillard (1993), a mensagem publicitária está tão inserida no cotidiano que se torna até familiar, convertendo-se mesmo em identidade e referência.
Conforme Milton Santos(1994a, 1994b) propõe, o espaço geográfico é formado por um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Os objetos não têm existência real, valorativa, sem as ações(1994b:6). A tecnoesfera é o muno dos objetos, a psicoesfera, das ações e estas, funcionando de modo unitário, definem cada subespaço que contém frações dos sistemas de objetos e sistemas de ações, cuja totalidade é o Mundo.
Nesse contexto, a publicidade compõe o espaço à medida que cria e necessita de tecnoesfera(s) e psicoesfera(s) densificadas e profundamente entrelaçadas, com os aportes de ciência, tecnologia e informação ao território funcionando sob comandos unificados. Ela é mesmo um dos organizadores destes comandos. Navega nestas esferas, através do uso intenso da ciência, da técnica e da produção de imagens simbólicas, compondo e direcionando o nosso entendimento do mundo. A grande cidade vista por Milton Santos (1994) como o mais representativo fenômeno do meio técnico-científico é, hoje, também, intensamente artificializada pelos objetos-discursos da publicidade.
A tecnoesfera, que é o âmbito da técnica e da organização normada, tende a ser homogênea em grandes porções do território justamente porque há temporalidades hegemênicas. Por isso, são implantadas verdadeiras próteses aos territórios que devem funcionar eficientemente e portanto apresentam uma linguagem rígida e dirigida. Para agir no território torna-se necessário traduzir e reproduzir os códigos sob os quais ele funciona. É desse modo que tecnoesfera produz psicoesfera.
Embora a psicoesfera também seja fruto do artifício, por operar no âmbito das subjetividades e dos desejos, permite ações cotidianas e usos do território não padronizados, flexíveis.
Tecnoesfera e psicoesfera são, pois, indutoras de movimento. São inseparáveis. Quando, porém, procedemos analiticamente e as separamos, nos é permitido pensar o meio técnico-científico-informacional tanto na dimensão material quanto na intermaterial e suas múltiplas interconexões possibilitando apreender suas vocações.
A publicidade atua por conta de agentes hegem~enicos, cuja ação corresponde a interesses específicos que podem não ser do indivíduo nem da sociedade, mas são eficazes. Assim, diante de uma psicoesfera a publicidade propõe outra ao trazer elementos novos que redimensionam o meio-técnico-científico-informacional, gerando um novo movimento no todo. As diferentes psicoesferas são alimentadas pelos objetos publicitários - frutos do casamento entre ciência e técnica - que constituem parte da base material que permite as ações racionalizadas esperadas por aqueles agentes.
Configurando-se como conjunto de imagens simbólicas das subjetividades contemporâneas, a publicidade ocupa lugar de destaque na produção da vida hoje, já que penetra os diferentes locais diluída em ações associadas aos objetos informados.
A publicidade é uma verdadeira mediação entre as instãncias coaisi: espaço, cultura, política, economia. E, ao entendermos o espaço conforme Milton Santos (1994a), como conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações, pensamos poder revelá-lo através da análise da atividade publicitária, recorrendo ao par dialético de conceitos tecnoesfera e psicoesfera, ao considerarmos que a base de trabalho da publicidade é um conjunto de obejtos fetichizados e ações direcionadas para o consumo.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
No Brasil, negros vivem seis anos a menos que a população branca
No Brasil, expectativa de vida da população negra é de 67 anos, enquanto a dos brancos é de 73 anos em média
A expectativa de vida da população negra – formada por pretos e pardos – é de 67 anos no Brasil. De acordo com o Relatório Anual das Desigualdades Sociais, esse tempo é inferior ao registrado entre os brancos, que vivem 73 anos em média. O levantamento foi feito pelo Núcleo de Estudos de População, da Unicamp, e divulgado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nesta terça-feira (19).
O estudo ainda revela que a probabilidade de um homem negro morrer assassinado é duas vezes maior, quando comparado a alguém que se autodeclara branco. As mortes de negros nessas circunstâncias cresceram num período de seis anos, enquanto a média geral teve um recuo. Em 2007, 44 mil pessoas foram assassinadas no país. Aproximadamente 64% das vítimas eram negras.
Essas desigualdades também foram verificadas na educação. Em 2008, por exemplo, 62% dos jovens negros com idade entre 11 a 14 anos não estavam cursando a série correta. Já entre os brancos, menos de 46% estavam atrasados na escola. Segundo o relatório, oito em cada dez estudantes pretos e pardos, de 15 a 17 anos, estavam cursando séries abaixo de sua idade ou tinham abandonado o colégio no período avaliado.
Jorge Américo,
De São Paulo, da Radioagência NP
A expectativa de vida da população negra – formada por pretos e pardos – é de 67 anos no Brasil. De acordo com o Relatório Anual das Desigualdades Sociais, esse tempo é inferior ao registrado entre os brancos, que vivem 73 anos em média. O levantamento foi feito pelo Núcleo de Estudos de População, da Unicamp, e divulgado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nesta terça-feira (19).
O estudo ainda revela que a probabilidade de um homem negro morrer assassinado é duas vezes maior, quando comparado a alguém que se autodeclara branco. As mortes de negros nessas circunstâncias cresceram num período de seis anos, enquanto a média geral teve um recuo. Em 2007, 44 mil pessoas foram assassinadas no país. Aproximadamente 64% das vítimas eram negras.
Essas desigualdades também foram verificadas na educação. Em 2008, por exemplo, 62% dos jovens negros com idade entre 11 a 14 anos não estavam cursando a série correta. Já entre os brancos, menos de 46% estavam atrasados na escola. Segundo o relatório, oito em cada dez estudantes pretos e pardos, de 15 a 17 anos, estavam cursando séries abaixo de sua idade ou tinham abandonado o colégio no período avaliado.
Jorge Américo,
De São Paulo, da Radioagência NP
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Para especialista, governo trata questão indígena como problema
Saulo Feitosa afirma que o governo ainda não desenvolve políticas indigenistas da forma correta, pois pulveriza ações entre os ministérios
O governo brasileiro ainda trata a questão indígena como problema. A afirmação é do vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Saulo Feitosa. Segundo ele, até a década de 70, as políticas indigenistas eram quase inexistentes, no entanto, nos últimos anos, o governo tem reconhecido a importância da implementação dessas ações direcionadas aos povos indígenas.
“A questão da política indigenista é um problema desde a construção do Estado brasileiro. Isso já dificulta a elaboração e a construção dessas políticas. Além disso, temos uma visão colonialista, que embora tenha sofrido algumas alterações, ainda subsiste”, afirmou.
Para Feitosa, o governo ainda não desenvolve políticas indigenistas da forma correta, pois em vez de investir na coordenação dessas ações, acaba pulverizando-as entre os ministérios. De acordo com ele, as políticas relacionadas à saúde, à educação e aos procedimentos de demarcação de terra indígena ainda são os mais preteridos.
“Não há uma coordenação onde o governo possa pensar os povos indígenas de maneira integral. Cada ministério faz uma política específica para os povos indígenas. Atuando de maneira fragmentada, há dispersão de investimentos e dos recursos públicos”, disse Feitosa.
Segundo ele, o governo da presidenta Dilma Rousseff começou sem novidades na área indigenista. “Neste novo governo não houve mudança. Pelo contrário, o governo começou bastante conturbado com essa contenda de Belo Monte e as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ainda não sabemos o que ela [a presidenta] pensa e como vai lidar com os interesses políticos”.
O vice-presidente do Cimi também criticou o processo de mudanças na estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai). De acordo com ele, a reestruturação ocorreu de “maneira autoritária, sem qualquer consulta aos povos indígenas.”
Para o presidente da Funai, Márcio Meira, a presidenta Dilma Rousseff representa a continuidade do projeto de governo que foi iniciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A mesma política indigenista que vinha sendo desenvolvida no governo Lula está sendo mantida no governo Dilma. Para que sejam prolongadas as medidas de fortalecimento da Funai e das políticas públicas que cercam os povos indígenas.”
A Funai, além de coordenar as ações de demarcação de terras indígenas, também desenvolve ações de promoção social voltadas para a saúde, educação e até para o cadastramento de índios no sistema da Previdência Social. De acordo com Meira, no ano passado, o primeiro concurso da Funai em mais de 20 anos contratou 400 funcionários para atuar diretamente com os povos indígenas nas coordenações regionais da instituição.
Daniella Jinkings
Agência Brasil
O governo brasileiro ainda trata a questão indígena como problema. A afirmação é do vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Saulo Feitosa. Segundo ele, até a década de 70, as políticas indigenistas eram quase inexistentes, no entanto, nos últimos anos, o governo tem reconhecido a importância da implementação dessas ações direcionadas aos povos indígenas.
“A questão da política indigenista é um problema desde a construção do Estado brasileiro. Isso já dificulta a elaboração e a construção dessas políticas. Além disso, temos uma visão colonialista, que embora tenha sofrido algumas alterações, ainda subsiste”, afirmou.
Para Feitosa, o governo ainda não desenvolve políticas indigenistas da forma correta, pois em vez de investir na coordenação dessas ações, acaba pulverizando-as entre os ministérios. De acordo com ele, as políticas relacionadas à saúde, à educação e aos procedimentos de demarcação de terra indígena ainda são os mais preteridos.
“Não há uma coordenação onde o governo possa pensar os povos indígenas de maneira integral. Cada ministério faz uma política específica para os povos indígenas. Atuando de maneira fragmentada, há dispersão de investimentos e dos recursos públicos”, disse Feitosa.
Segundo ele, o governo da presidenta Dilma Rousseff começou sem novidades na área indigenista. “Neste novo governo não houve mudança. Pelo contrário, o governo começou bastante conturbado com essa contenda de Belo Monte e as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ainda não sabemos o que ela [a presidenta] pensa e como vai lidar com os interesses políticos”.
O vice-presidente do Cimi também criticou o processo de mudanças na estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai). De acordo com ele, a reestruturação ocorreu de “maneira autoritária, sem qualquer consulta aos povos indígenas.”
Para o presidente da Funai, Márcio Meira, a presidenta Dilma Rousseff representa a continuidade do projeto de governo que foi iniciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A mesma política indigenista que vinha sendo desenvolvida no governo Lula está sendo mantida no governo Dilma. Para que sejam prolongadas as medidas de fortalecimento da Funai e das políticas públicas que cercam os povos indígenas.”
A Funai, além de coordenar as ações de demarcação de terras indígenas, também desenvolve ações de promoção social voltadas para a saúde, educação e até para o cadastramento de índios no sistema da Previdência Social. De acordo com Meira, no ano passado, o primeiro concurso da Funai em mais de 20 anos contratou 400 funcionários para atuar diretamente com os povos indígenas nas coordenações regionais da instituição.
Daniella Jinkings
Agência Brasil
Élisée Reclus
Jean Jacques Élisée Reclus (Sainte-Foy-la-Grande, 15 de março de 1830 — Torhout, 4 de julho de 1905) foi um geógrafo e anarquista francês.
Biografia
Em 1851, viajou para a cidade de Berlim onde foi aluno de Carl Ritter. No mesmo ano, retornou à França e, em conjunto com alguns franceses, tentaram impedir o golpe de Estado de Luís Napoleão. Com o êxito do golpe, Reclus foi obrigado a deixar seu país, tornando-se exilado na Inglaterra por defender ideais e práticas revolucionárias.
Em 1871 participou ativamente da Comuna de Paris, tornando-se responsável, junto com seu irmão Élie Reclus, pela Biblioteca Nacional. Com a queda da Comuna, foi preso e condenado à deportação para a Nova Caledônia junto com milhares de outros communards. Mas sua pena foi comutada para dez anos de banimento.
Banido da França, fez diversas viagens para fora do continente europeu, visitando a América, a África e a Ásia. Em 1893, realizou sua última grande viagem, conhecendo a América do Sul, com passagem inclusive pelo Brasil.
Mudou-se para a Suíça no final de 1893 onde participou da Federação Jurassiana ao lado de outros notáveis anarquistas, Mikhail Bakunin e James Guillaume. Em 1894, instalou-se em Bruxelas onde, a partir de seus esforços foi criada a Universidade Nova, bem como o Instituto de Altos Estudos, espaços nos quais lecionou.
Obra
Reclus contribuiu para inúmeros jornais, revistas e coletâneas. Mas sobretudo tornou-se conhecido por sua extraordinária obra em torno da geopolítica - Nova Geografia Universal: a Terra e os Homens, dividida em dez volumes, e O Homem e a Terra, dividido em cinco volumes - nas quais analisa a relação dos diferentes grupos humanos com os meios em que habitam.
Não se contentava em observar a natureza: sua intenção de entendimento abarcava todo o planeta, que Reclus buscou descrever em todo seu espaço-tempo. Em sua obra apresentou critérios precisos de interpretação e esforçou-se para compreender as leis que, para além de uma ilustração moralizante ou lição pedagógica, estão por trás do devir coletivo das sociedades humanas.
Embora tenha sido o mais ilustre dos discípulos de Carl Ritter, a obra de Reclus não alcançou muita projeção na França devido ao fato de ter passado grande parte de sua vida exilado por razões políticas [1]. Contudo, a partir de meados dos anos 1970, com a ascensão da geografia crítica, a obra de Reclus e sua militância anarquista passaram a ser mais valorizadas pelos geógrafos[2], o mesmo tendo ocorrido com o também anarquista Piotr Kropotkin. Outra linha de pesquisa recente que vem renovando os métodos de Reclus são os estudos de modelização gráfica realizados pelo GIP Reclus (Groupement d’Intérêt Public, Réseau d’études du changement dans les localisations et les unités spatiales)[3].
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Biografia
Em 1851, viajou para a cidade de Berlim onde foi aluno de Carl Ritter. No mesmo ano, retornou à França e, em conjunto com alguns franceses, tentaram impedir o golpe de Estado de Luís Napoleão. Com o êxito do golpe, Reclus foi obrigado a deixar seu país, tornando-se exilado na Inglaterra por defender ideais e práticas revolucionárias.
Em 1871 participou ativamente da Comuna de Paris, tornando-se responsável, junto com seu irmão Élie Reclus, pela Biblioteca Nacional. Com a queda da Comuna, foi preso e condenado à deportação para a Nova Caledônia junto com milhares de outros communards. Mas sua pena foi comutada para dez anos de banimento.
Banido da França, fez diversas viagens para fora do continente europeu, visitando a América, a África e a Ásia. Em 1893, realizou sua última grande viagem, conhecendo a América do Sul, com passagem inclusive pelo Brasil.
Mudou-se para a Suíça no final de 1893 onde participou da Federação Jurassiana ao lado de outros notáveis anarquistas, Mikhail Bakunin e James Guillaume. Em 1894, instalou-se em Bruxelas onde, a partir de seus esforços foi criada a Universidade Nova, bem como o Instituto de Altos Estudos, espaços nos quais lecionou.
Obra
Reclus contribuiu para inúmeros jornais, revistas e coletâneas. Mas sobretudo tornou-se conhecido por sua extraordinária obra em torno da geopolítica - Nova Geografia Universal: a Terra e os Homens, dividida em dez volumes, e O Homem e a Terra, dividido em cinco volumes - nas quais analisa a relação dos diferentes grupos humanos com os meios em que habitam.
Não se contentava em observar a natureza: sua intenção de entendimento abarcava todo o planeta, que Reclus buscou descrever em todo seu espaço-tempo. Em sua obra apresentou critérios precisos de interpretação e esforçou-se para compreender as leis que, para além de uma ilustração moralizante ou lição pedagógica, estão por trás do devir coletivo das sociedades humanas.
Embora tenha sido o mais ilustre dos discípulos de Carl Ritter, a obra de Reclus não alcançou muita projeção na França devido ao fato de ter passado grande parte de sua vida exilado por razões políticas [1]. Contudo, a partir de meados dos anos 1970, com a ascensão da geografia crítica, a obra de Reclus e sua militância anarquista passaram a ser mais valorizadas pelos geógrafos[2], o mesmo tendo ocorrido com o também anarquista Piotr Kropotkin. Outra linha de pesquisa recente que vem renovando os métodos de Reclus são os estudos de modelização gráfica realizados pelo GIP Reclus (Groupement d’Intérêt Public, Réseau d’études du changement dans les localisations et les unités spatiales)[3].
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Médicos defendem maconha terapêutica
O lançamento mundial de um medicamento produzido à base de maconha pela farmacêutica britânica GW Pharma, e que será comercializado na América do Norte e na Europa pelo laboratório Novartis, reacendeu as discussões entre os especialistas brasileiros sobre o uso medicinal da droga no País. Por aqui, o princípio ativo do remédio (Sativex), usado para aliviar a dor de pacientes com esclerose múltipla, não é permitido.
O Brasil é signatário de tratados diversos que consideram a substância ilícita, o que dificulta inclusive o desenvolvimento de pesquisas científicas sobre as propriedades terapêuticas da planta e suas reações no cérebro.
Pesquisadores ouvidos pelo JT comparam a importância do estudo da cannabis sativa (nome científico da maconha) com a relevância do ópio para o desenvolvimento da morfina – medicamento essencial para o tratamento da dor aguda. E reforçam o argumento de que a possibilidade de uso medicinal não é sinônimo de liberação ou legalização da droga.
“O medicamento tem estudo clínico, existem proporções corretas das substâncias usadas, imprescindíveis ao seu funcionamento”, defende Hercílio Pereira de Oliveira Júnior, médico psiquiatra do Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com Oliveira Júnior, ao contrário do remédio, a droga ilícita não tem padrões de equilíbrio entre os substratos terapêuticos e pode causar danos à saúde de quem a consome. “Pode ampliar a ansiedade, causar um estado depressivo e psicótico, com alucinações, e problemas pulmonares provocados pelo ato de fumar.”
Perspectivas
Estudos comprovam que a cannabis reduz os efeitos colaterais da quimioterapia, como náusea e vômito, estimula o apetite em pacientes com aids, pode ser usada para tratar o glaucoma e aliviar a dor crônica. “As perspectivas científicas mostram que vale a pena aprofundar os estudos sobre a planta”, avalia Oliveira Júnior.
O Sativex, por exemplo, não é vendido como cigarro – e sim na forma de um spray. Sua composição reúne apenas dois substratos da maconha: o delta9-tetraidrocanabinol e o canabidiol.
“Não causa mais ou menos dependência do que calmantes e antidepressivos. A dependência não é argumento considerável para proibir até mesmo a pesquisa”, diz Dartiu Xavier da Silveira, professor livre-docente em Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo.
Defensor da criação de uma agência reguladora para o setor, Oliveira critica a legislação restritiva brasileira e afirma que o preconceito trava a pesquisa de medicamentos que poderiam ser desenvolvidos até para tratar a dependência química.
“A questão não é proibir, mas controlar. Não se proíbe a morfina porque algumas pessoas fazem mau uso”, avalia. O psiquiatra lembra que não é necessário o plantio em terras brasileiras da maconha para os estudos. “Para pesquisa, podemos importar.”
Diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp, o psicofarmacologista Elisaldo Carlini também acredita que o Brasil está atrasado em relação às pesquisas sobre o potencial terapêutico da maconha por puro preconceito.
“No século passado, foi considerada droga diabólica e só nos últimos 30 anos é que se retomaram os estudos terapêuticos”, conta Carlini. De acordo com ele, pesquisas mostraram que o cérebro humano possui ramais de neurotransmissores e receptores sensíveis ao estímulo da cannabis. O sistema foi chamado de endocanabinoide, que, se cientificamente estudado e estimulado, pode levar ao alívio ou à cura de várias doenças.
Legislação
Até o momento, a legislação brasileira proíbe o consumo de qualquer medicamento à base de maconha. Mas uma decisão judicial pode autorizar seu uso em casos específicos.
A comercialização do Sativex ainda não foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Procurada pelo Jornal da Tarde, a agência não se manifestou sobre o assunto.
O Brasil é signatário de tratados diversos que consideram a substância ilícita, o que dificulta inclusive o desenvolvimento de pesquisas científicas sobre as propriedades terapêuticas da planta e suas reações no cérebro.
Pesquisadores ouvidos pelo JT comparam a importância do estudo da cannabis sativa (nome científico da maconha) com a relevância do ópio para o desenvolvimento da morfina – medicamento essencial para o tratamento da dor aguda. E reforçam o argumento de que a possibilidade de uso medicinal não é sinônimo de liberação ou legalização da droga.
“O medicamento tem estudo clínico, existem proporções corretas das substâncias usadas, imprescindíveis ao seu funcionamento”, defende Hercílio Pereira de Oliveira Júnior, médico psiquiatra do Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com Oliveira Júnior, ao contrário do remédio, a droga ilícita não tem padrões de equilíbrio entre os substratos terapêuticos e pode causar danos à saúde de quem a consome. “Pode ampliar a ansiedade, causar um estado depressivo e psicótico, com alucinações, e problemas pulmonares provocados pelo ato de fumar.”
Perspectivas
Estudos comprovam que a cannabis reduz os efeitos colaterais da quimioterapia, como náusea e vômito, estimula o apetite em pacientes com aids, pode ser usada para tratar o glaucoma e aliviar a dor crônica. “As perspectivas científicas mostram que vale a pena aprofundar os estudos sobre a planta”, avalia Oliveira Júnior.
O Sativex, por exemplo, não é vendido como cigarro – e sim na forma de um spray. Sua composição reúne apenas dois substratos da maconha: o delta9-tetraidrocanabinol e o canabidiol.
“Não causa mais ou menos dependência do que calmantes e antidepressivos. A dependência não é argumento considerável para proibir até mesmo a pesquisa”, diz Dartiu Xavier da Silveira, professor livre-docente em Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo.
Defensor da criação de uma agência reguladora para o setor, Oliveira critica a legislação restritiva brasileira e afirma que o preconceito trava a pesquisa de medicamentos que poderiam ser desenvolvidos até para tratar a dependência química.
“A questão não é proibir, mas controlar. Não se proíbe a morfina porque algumas pessoas fazem mau uso”, avalia. O psiquiatra lembra que não é necessário o plantio em terras brasileiras da maconha para os estudos. “Para pesquisa, podemos importar.”
Diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp, o psicofarmacologista Elisaldo Carlini também acredita que o Brasil está atrasado em relação às pesquisas sobre o potencial terapêutico da maconha por puro preconceito.
“No século passado, foi considerada droga diabólica e só nos últimos 30 anos é que se retomaram os estudos terapêuticos”, conta Carlini. De acordo com ele, pesquisas mostraram que o cérebro humano possui ramais de neurotransmissores e receptores sensíveis ao estímulo da cannabis. O sistema foi chamado de endocanabinoide, que, se cientificamente estudado e estimulado, pode levar ao alívio ou à cura de várias doenças.
Legislação
Até o momento, a legislação brasileira proíbe o consumo de qualquer medicamento à base de maconha. Mas uma decisão judicial pode autorizar seu uso em casos específicos.
A comercialização do Sativex ainda não foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Procurada pelo Jornal da Tarde, a agência não se manifestou sobre o assunto.
Noam Chomsky, Atualidade do Pensamento Libertário
"O Estado ... se está convertendo dia a dia em um Estado totalitário"
Noam Chomsky, cientista de prestígio, também é conhecido por suas idéias libertárias e por sua permanente denúncia dos truculentos mecanismos de poder nos EE.UU. De destacada atuação contra a guerra no Vietnã, assumiu uma notável performance no repúdio aos planos da equipe de Reagan, sobretudo no desencadeamento da enlouquecida corrida armamentista. Atualmente aprofunda-se no estudo do que denomina globalização das políticas neoliberais.
Comunidad*. Professor Chomsky, vamos começar tratando de definir o que não é anarquismo; a palavra anarquia se deriva, antes de tudo, do grego, e significa literalmente ausência de governo. Mas anarquia ou anarquismo enquanto sistema de filosofia política não significa que, por exemplo, a partir de 1o. de janeiro do próximo ano, o governo tal como agora o entendemos, deixará súbitamente de existir, de modo que não haveria polícia, código de trânsito, leis, arrecadação de impostos, correio, etc. Anarquismo é mais complicado?
Chomsky. Bom, sim para algumas dessas perguntas, não para outras. Anarquismo pode perfeitamente significar que não haverá polícias, mas não creio que signifique que não haverá código de trânsito. De fato, devo dizer, para começar, que o termo anarquismo é usado para referir-se a uma ampla gama de idéias políticas, mas eu preferiria concebê-lo como a esquerda libertária, e deste ponto de vista o anarquismo pode ser concebido como uma espécie de socialismo voluntário, ou seja: como socialismo libertário, anarco-sindicalismo ou anarco comunismo, na tradição de, digamos, Bakunin e Kropotkin e outros autores. Seu ideal era uma forma de sociedade extraordinariamente organizada, mas uma sociedade organizada sobre a base de unidades orgânicas, de comunidades orgânicas. Ao propor isso pensavam, em geral, no local de trabalho e no bairro, e destas duas unidades básicas caberia derivar por meio de acordos de natureza federal, um tipo de organização social extraordinariamente integrada, que poderia ser de alcance nacional e inclusive internacional. Estas decisões poderíam ter uma amplitude substancial, mas teriam que ser tomadas por delegados que formam parte da comunidade orgânica a que pertencem, à qual voltam e na qual, de fato, vivem.
Comunidad. De modo que não significa necessariamente uma sociedade na qual, literalmente, não haja governo, mas uma sociedade em que a orígem primária da autoridade surge, por exemplo, de baixo para cima, e não de cima para baixo. A democracia representativa*, como a que temos nos Estados Unidos e na Grã Bretanha, seria considerada como uma forma de autoridade de cima para baixo, mesmo sendo, em última instância, os votantes que decidem.
Chomsky. A democracia representativa, como a dos Estados Unidos e Grã Bretanha, seria criticada por um anarquista desta escola por duas razões: Em primeiro lugar, porque há um monopólio de poder centralizado no Estado, e em segundo lugar, isto é de importância crítica, porque a democracia representativa está limitada à esfera política e não se estende de maneira séria na esfera econômica. Os anarquistas desta tradição tem sustentado sempre que o controle democrático da vida produtiva por parte de cada um constitui o próprio centro de toda libertação humana. Tal controle é o que existe de mais significativo na prática democrática. Ou seja, enquanto indivíduos forem compelidos a vender-se a si mesmos no mercado em que se situam os assalariados, enquanto seu papel na produção for simplesmente o de instrumentos auxiliares, existirão notáveis elementos de coerção e opressão que tornam a democracia muito limitada e, inclusive, insignificante.
Comunidad. Em têrmos históricos, há algum exemplo notável ou em escala substancial de sociedades que se aproximaram do ideal anarquista?
Chomsky. Há sociedades pequenas em número, que, a meu ver, o tem feito muito bem, e há uns poucos exemplos de revoluções libertárias em grande escala que foram em grande medida anarquistas em sua estrutura. Quanto às primeiras, sociedades pequenas que se estendem sobre um longo período de tempo, em minha opinião, o exemplo mais dramático talvez sejam os kibbutz israelenses, que durante um longo período de tempo foram realmente construídos sobre a base de princípios anarquistas, ou seja, autogestão, controle direto por parte dos trabalhadores, integração na agricultura, indústrias e serviços, e participação pessoal na autogestão. Tiveram, a meu modo de ver, um êxito extraordinário, qualquer que seja a medida que se lhes aplique.
Comunidad. Mas é de se supor que estavam, e continuam estando, enquadrados sob a égide de um Estado convencional que garantisse certas estabilidades básicas.
Chomsky. Bom, nem sempre o estiveram. Na realidade sua história é muito interessante. Até 1948, desde o princípio do século, estiveram enquadrados no marco de um enclave colonial. De fato, havia uma sociedade subterrânea, em grande medida cooperativa, que não era realmente parte do sistema de mandado britânico, mas que funcionava fora dele. Até certo ponto essa sociedade sobreviveu apesar do estabelecimento do Estado, se bem que depois acabou por ser integrada a ele. Consequentemente, a meu modo de ver, tem perdido boa parte de seu caráter socialista libertário nesse processo, e em outros processos que são típicos da história dessa região, que não é preciso mencionar.
Contudo, enquanto instituições sociais libertárias em funcionamento, creio que constituem um interessante modelo, que é extraordinariamente relevante para as sociedades industriais avançadas, de um modo ímpar, que não se dá em alguns dos outros exemplos que existiram no passado. Um bom exemplo de uma revolução anarquista realmente em grande escala, de fato o melhor exemplo, é o da revolução espanhola de 1936. Na maior parte da Espanha republicana houve uma revolução anarquista muito inspiradora, que se estendeu tanto à indústria como a áreas substanciais da agricultura, desenvolvidas de um modo que do lado de fora dá a impressão de que ocorreram expontâneamente. Se bem que, na realidade, se se examinar, suas raízes, se descobre que esteve baseada em umas três gerações de experimentos, pensamento e atividades que levaram as idéias anarquistas a partes muito extensas da população em uma sociedade em grande medida pré-industrial, se bem que não totalmente pré-industrial.
Novamente, teve muito êxito, tanto em suas medidas humanas, como nas medidas econômicas de qualquer tipo. Ou seja, a produção continuou com toda eficiência; os trabalhadores dos campos e das fábricas demonstraram que eram perfeitamente capazes de gerir seus próprios assuntos sem coerções de superioridade contrariamente ao que estavam dispostos a crer grupos de socialistas, comunistas, liberais e muitos outros e, de fato, não é possível dizer o que pudesse ocorrer. Aquela revolução anarquista foi simplesmente destruída pela força, mas durante o período em que contou com vida teve, a meu juízo, muto êxito e, como disse, foi de muitas formas, um testemunho muito inspirador da capacidade dos trabalhadores pobres para organizar-se e gerir seus próprios assuntos, com muito êxito, sem coerção nem controle alheio. É verdade que cabe perguntar até que ponto é relevante a experiência espanhola para uma sociedade industrial avançada.
Comunidad. É claro que a idéia fundamental do anarquismo é a primacia do indivíduo - não necessáriamente em condições de isolamento, mas com outros indivíduos - e a satisfação de sua liberdade. Isto, em certo sentido, não se parece muito aos ideais fundacionais dos Estados Unidos da América? Por que, hoje, essa experiência norte americana se converteu em uma coisa suspeita e até perigosa, principalmente quando a expressão "liberdade" é usada pelos pensadores anarquistas e socialistas libertários como você?
Chomsky. Permita-me dizer apenas que na realidade eu não me considero um pensador anarquista. Sou um "companheiro de viagem" derivativo, digamos. Os pensadores anarquistas referem-se constantemente à experiência norteamericana e ao ideal de democracia jeffersoniano muito favoravelmente. Como se sabe, o conceito de Thomas Jefferson (1743-1826, presidente dos EE.UU. de 1801 a 1809) é o de que o melhor governo é o que não governa em absoluto, é um conceito que tem sido repetido vez após vez pelos pensadores anarquistas nos tempos modernos.
Sem dúvida, o ideal da democracia jeffersoniana, fora o fato de que se tratava de uma sociedade que se servia da escravidão, se desenvolveu em um sistema essencialmente pré-capitalista, ou seja, em uma sociedade em que não havia controle monopólico algum, que não havia nenhum centro significativo de poder privado.
Na leitura, por exemplo, da crítica do Estado de Wilhelm van Humboldt (1767-1835) em 1792, texto libertário clássico significativo no qual sem dúvida se inspirou John Stuart Mill (1806-1873), se vê que não fala em absoluto da necessidade de resistir à concentração do poder privado, mas apenas à necessidade de resistir à invasão do poder coercitivo do Estado. É nele que se encontra também a tradição norte-americana mais temporã. Mas isso porque esse era o único tipo de poder que havia então. O que quero dizer é que Humboldt supõe que os indivíduos são mais ou menos equivalentes em seu poder privado, e que o único desequilíbrio de poder real se deve ao Estado autoritário centralizado, e que a liberdade individual tem que ser defendida contra essa intrusão - do Estado ou da Igreja. Isso é o que crê que deve ser resistido.
Enquanto fala, por exemplo, da necessidade que cada um tem de controlar sua vida criativa, quando lamenta a alienação no trabalho que produz a coerção ou comenta sobre a instrução ou a direção no labor que alguém leva a cabo, dá expressão a uma ideologia anti-estatal e antiteocrática. Esses mesmos princípios são perfeitamente aplicáveis à sociedade industrial capitalista que emergiu depois. Eu me inclino a pensar que Humboldt, pela sua consistência, acabaria se tornando um socialista libertário.
Comunidad. Esses precedentes não sugerem que haja algo inerentemente pre-industrial no que se refere a aplicabilidade dos ideais libertários, ou seja, que pressupõem necessáriamente uma sociedade mais ruralizada onde a tecnologia e a produção são relativamente simples e na qual a organização econômica tende a ser de pequena escala e local?
Chomsky. Bom, permita-me separar isso em duas perguntas: Uma, o que pensadores anarquistas acreditam, e dois, o que creio eu. No que se refere a reações anarquistas, há duas linhas de pensamento. Há uma tradição anarquista - na qual, digamos, Kropotkin poderia ser tomado como representante - que em boa medida tem o caráter que você descreve. Por outro lado, há outra tradição anarquista, que acaba por encarnar no anarco-sindicalismo, que simplesmente considera os ideais anarquistas como o modo próprio de organização de uma sociedade industrial avançada altamente complexa. Essa tendência do anarquismo se funde, ou pelo menos se interrelaciona muito estreitamente, com uma variedade de marxismo de esquerda, o tipo que se encontra na tradição luxemburguista, e que mais tarde é representada por teóricos marxistas como Anton Pannekoek (1873-1960), que elaborou toda uma teoria dos conselhos obreiros na indústria. Ele mesmo foi um homem de ciência , um astrônomo, parte integrante do mundo industrial.
Qual destas duas concepções é a correta? Quer dizer, os conceitos anarquistas pertencem à fase pré-industrial da sociedade humana ou é o anarquismo o modo racional de organização para uma sociedade industrial extraordinariamente avançada? Bom, eu creio que a última é verdadeira, ou seja, a meu ver a industrialização e os avanços da tecnologia oferecem possibilidades de autogestão em grande escala que simplesmente não existiam em um período anterior e , de fato, isto é precisamente o modo racional, para uma sociedade industrial complexa e avançada, uma sociedade na qual os trabalhadores podem muito bem converter-se em senhores de seus assuntos imediatos, a saber, da direção e controle do local de trabalho, mas também podem estar em posição de tomar as decisões substantivas primordiais no que diz respeito às instituições sociais, e no que se refere à planificação regional e supraregional.
Na atualidade, as instituições não lhes permitem ter controle da informação requerida, e a formação pertinente para entender estas coisas. Muito poderia estar automatizado. Grande parte do trabalho necessário requerido para manter um nível decente de vida social pode ser relegado às máquinas, pelo menos como princípio, o que significa que os humanos podem ter a liberdade de empreender o tipo de labor criativo que poderia não ter sido possível, objetivamente, nos estados mais contemporâneos da revolução industrial.
Comunidad. Voltando à questão sobre a economia em uma sociedade anarquista, poderia esboçar mais detalhadamente a constituição política de uma sociedade anarquista, tal como você a concebe, em condições modernas? Haveria partidos políticos, por exemplo? Que formas residuais de governos sobreviverão de fato?
Chomsky. Esboçarei o que, a meu juízo, representaria um certo consenso, consenso que a meu ver é essencialmente correto. Começando por modos de organização e controle imediatos, a saber, a organização e o controle do lugar de trabalho e da comunidade, cabe imaginar uma rede de conselhos de trabalhadores, e a um nível mais alto, representação que inclua várias fábricas, ou vários ramos de indústrias, ou de ofícios vários, até chegar a assembléias gerais de conselhos de trabalhadores, que podem ser de caráter regional e nacional e internacional. Deste outro ponto de vista cabe projetar um sistema de autogoverno baseado em assembléias locais, também neste caso federados regionalmente para tratar questões regionais, abarcando ofícios, indústrias, etc., portanto a nível de nação ou a um nível supranacional, através de uma federação, etc.
Pois bem, De que modo exato se desenvolveriam estas organizações e como se relacionariam entre si e a questão de serem ou não necessários os dois tipos, bom, estas são coisas que os teóricos anarquistas tem debatido muito, existem muitas propostas, e não me sinto capaz de tomar posição. São questões que terão de ser resolvidas.
Comunidad. Mas, não haveria, por exemplo, eleições nacionais e partidos políticos organizados de costa a costa, por exemplo? Porque se houvesse é de se supor que criariam uma espécie de autoridade central que seria contrária à idéia de anarquismo.
Chomsky. Não, a idéia do anarquismo é que a delegação de autoridade tem que ser a menor possível e que os participantes em alguns dos níveis de autogoverno deveriam ser diretamente responsáveis ante a comunidade orgânica na qual vivem. De fato, o ideal seria que a participação em um desses níveis de autogoverno fosse temporal, e mesmo durante o período em que ocorressem deveriam ser apenas parcial; ou seja, os membros de um conselho obreiro que por algum tempo estejam encarregados de tomar as decisões que outros não tem tempo de fazer, deverão também continuar executando seu trabalho em seu local de trabalho ou na comunidade do bairro ao qual pertencem.
No que se refere a partidos políticos: me inclino a pensar que uma sociedade anarquista não impediria a formação de partidos. De fato o anarquismo sempre se baseou na idéia de que todo sistema de normas impostas sobre a vida social consumirá e subestimará muitíssimo sua energia e vitalidade, e de que se pode desenvolver outro tipo de novas possibilidades de organizações voluntárias a esse nível mais alto da cultura material e intelectual. Mas creio que é justo dizer que na medida em que se sentisse que os partidos políticos são necessários, a organização anarquista da sociedade haverá falhado. Ou seja, deverá dar-se o caso, a meu ver, que onde haja participação direta na autogestão dos assuntos econômicos e sociais, as facções, os conflitos, as diferenças de interesse e de idéias e opiniões (que deveriam ser bem vindas e cultivadas) serão expressas em cada um de seus níveis. Não vejo como teriam que se dividir em dois, três ou mais partidos políticos. A meu ver, a complexidade do interesse humano e da vida humana não se divide dessa maneira. Os partidos representam basicamente interesses de classe, e as classes haverias sido eliminadas ou superadas em uma sociedade desse tipo.
Comunidad. Uma última pergunta sobre a organização política: Não há um perigo neste tipo de escalonamento de assembléias e estruturas quase-governamentais, sem eleições, de que um corpo central, ou o corpo que está em algum sentido no cume desta pirâmide, acabe por manter-se muito separado da base, e como terá que ter alguns poderes se se tratar de assuntos internacionais, por exemplo, e possa inclusive ter que possuir controle sobre as forças armadas e coisas desse tipo, não haveria o risco de responder menos democráticamente ao regime existente?
Chomsky. Uma característica muito importante para toda a sociedade libertária é impedir uma evolução nessa direção, que é uma evolução possível. As instituições teriam que ser desenhadas para impedir esse tipo de evolução, o que julgo ser perfeitamente possível. Eu estou convencido de que a participação no governo é uma tarefa de dedicação plena. Isto pode ser assim em uma sociedade irracional, onde surge todo tipo de problemas em função da natureza irracional das instituições. Mas em uma sociedade industrial avançada que funcione propriamente organizada, seguindo diretrizes libertárias, creio que a execução das decisões tomadas pelos corpos representativos não é uma tarefa de plena dedicação, mas uma tarefa em que devem se alternar os membros da comunidade e que, ademais, deve ser levada a cabo por indivíduos que em todo momento continuem participando em sua própria atividade direta (em sua ocupação ordinária).
É possível que o governo seja em si mesmo uma função paralela ao sistema produtivo. Se isto resulta ser assim, a meu ver, é uma questão empírica que tem que ser determinada, que não pode ser projetada a partir de elocubrações mentais-, mas se resulta ser assim, a meu modo de ver a proposta mais natural é que o governo seja organizado industrialmente, simplesmente como um dos ramos da indústria, com seus conselhos de trabalhadores, seu próprio autogoverno e sua própria participação em assembléias mais amplas.
Devo dizer que nos conselhos de trabalhadores que tem surgido expontaneamente aqui e ali como, por exemplo, na revolução húngara em 1956, isso foi mais ou menos o que sucedeu. Havia, pelo que me recordo, um conselho obreiro de empregados do Estado que estavam organizados simplesmente como outro ramo da indústria. Isso é perfeitamente possível, e deveria ou poderia constituir uma barreira contra a criação do tipo de burocracia coercitiva remota que os anarquistas tanto temem.
Comunidad. Suponhamos que haveria a necessidade de autodefesa, a um nível sumamente sofisticado, não vejo pela sua descrição como conseguir que esse sistema de conselhos representativos a vários níveis, de baixo para cima, não dedicados exclusivamente a isso, tivesse controle efetivo de uma organização tão poderosa e tão necessariamente sofisticada em sua técnica como, por exemplo, o Pentágono.
Chomsky. Bom, comecemos por aclarar a terminologia. Você se refere ao Pentágono, como se funcionasse como uma organização de defesa. Em 1947, quando foi promugada a lei de Defesa Nacional, no antigo Departamento da Guerra, o departamento norteamericano encarregado da guerra, que até então foi denominado honestamente: Departamento da Guerra, adota o nome de Departamento de Defesa. Até então eu era estudante e não me considerava muito sofisticado, mas sabia, como sabia todo mundo, que a mudança significava que qualquer que fosse a medida que os militares norteamericanos efetuaram na defesa no passado - e em parte havia sido assim - terminara; a denominação Departamento de Defesa significava que passava a ser um departamento de agressão e nada mais.
Comunidad. Seguindo o princípio de não crer nunca naquilo que é negado oficialmente.
Chomsky. Exato. Orwell captou a essência da natureza do Estado moderno. O Pentágono não é em nenhum sentido um departamento de defesa. Jamais defendeu os Estados Unidos de nada; serve apenas para levar a cabo agressões e, a meu ver, o povo norte-americano estaria muito melhor sem o Pentágono. Certamente não o necessita para a defesa. Sua intervenção nos assuntos internacionais não tem sido nunca positiva, nunca é uma palavra forte, mas creio que seria difícil encontrar um caso, certamente sua postura mais característica não tem sido a de prestar apoio à liberdade ou defender o povo e outras coisas deste tipo. Esse não é o papel da massiva organização militar controlado pelo Departamento de Defesa, mas que suas tarefas são duas, e as duas são completamente anti-sociais.
A primeira é preservar um sistema internacional em que possa florescer o que se pode denominar interesses norte-americanos, que essencialmente quer dizer interesses econômicos. E a segunda é uma tarefa econômica interna. Quero dizer que o Pentágono tem sido o mecanismo keynesiano primário através do qual o governo intervém para manter aquilo que se denomina, ridiculamente, a saúde da economia, numa base de economia de escassez.
Ora, essas funções servem ambas a certos interesses de fato, interesses dominantes, interesses da classe dominante da sociedade norte-americana. Mas não creio que sirvam ao interesse público em nenhum sentido e, a meu ver, esse sistema de produção de desperdício e destruição seria essencialmente desmantelado em uma sociedade libertária. Mas não se deve falar disto demasiado e superficialmente. Se é possível imaginar, digamos, uma revolução social nos Estados Unidos, muito difícil de ocorrer, a meu modo de ver, mas se chega a ter lugar, é difícil imaginar que pudesse existir um inimigo exterior plausível capaz de ameaçar a revolução social, não seríamos atacados por México ou por Cuba, digamos. Uma revolução norte-americana não requereria, a meu modo de ver, defesa contra a agressão. Por outro lado, se tivesse lugar uma revolução social libertária na Europa Ocidental, por exemplo, creio que o problema de defesa seria muito crítico.
Comunidad. A noção de que não deve haver autodefesa alguma não se ajusta à proposta anarquista, uma vez que os experimentos anarquistas que tiveram lugar na história demonstram que foram destruídos de fora para dentro.
Chomsky. Ah! mas creio que não é possível dar uma resposta geral a estas questões, mas que tem que ser contestadas especificamente, em relação com as condições objetivas e históricas específicas.
É que justamente para mim é um pouco difícil seguir sua descrição de controle democrático apropriado para este tipo de organização, já que para mim é difícil conceber generais controlando a si mesmos de uma maneira que pareça aceitável.
Por isso quero manifestar a complexidade da questão. Depende do país e da sociedade à qual nos referimos. Nos Estados Unidos se coloca um tipo de problema. Se tivesse lugar uma revolução social libertária na Europa, creio que o problema que você coloca seja muito sério, já que haveria um sério problema de defesa. Quer dizer, eu assumiria que se se conseguisse um certo nível de socialismo libertário na Europa Ocidental, haveria uma ameaça militar tanto por parte da União Soviética como dos Estados Unidos e o problema seria como combatê-la. Este foi o problema com que a revolução espanhola teve que se confrontar. Ouve intervenção militar direta por parte dos fascistas, por parte dos comunistas e por parte das democracias liberais, mais discretamente, como foi o caso da Inglaterra, e o problema de como é possível defender-se de um rival neste nível é um problema muito sério.
Sem dúvida, creio que temos que levar em consideração se exércitos regulares centralizados com armamentos tecnologicamente avançados constituem o modo mais efetivo de fazer isso, o que está longe de ser óbvio. Por exemplo, eu não creio que um exército centralizado da Europa Ocidental possa repelir por si mesmo um ataque russo ou norte-americano que tenha por objeto impedir o socialismo libertário, eu, francamente, esperaria um tipo de ataque a outro nível, talvez não militar, mas pelo menos econômico.
Comunidad. Mas, por outro lado tampouco uma multidão de camponeses armados de enxadas e foices...
Chomsky. Não estamos falando de camponeses, estamos falando de uma sociedade industrial urbana, muito sofisticada. E a meu modo de ver o melhor método de defesa seria a simpatia política que lograsse inspirar na classe trabalhadora dos países que participassem do ataque. Uma vez mais, não quero falar demasiado e superficialmente. Se as coisas chegarem a ponto de serem necessários tanques e exércitos, ou seja, a força bruta, creio que podemos estar bem seguros de que isso contribuiria para o possível fracasso ou ao menos para o declínio da força revolucionária, precisamente pelas razões que mencionamos anteriormente. Ou seja, creio que é extremamente difícil imaginar como poderia funcionar um exército centralizado efetivo sem tanques, aviões, armas estratégicas, etc. Se é isso que falta para estabelecer e manter estruturas revolucionárias, creio que é muito possível que elas nunca serão estabelecidas nem mantidas.
Comunidad. Se a defesa básica é a simpatia política, ou a simpatia pela organização política e econômica, talvez pudéssemos considerar isso mais detalhadamente.
Em um de seus ensaios está escrito: "Em uma sociedade decente, todo mundo teria a oportunidade de encontrar trabalho interessante, e cada pessoa contaria com a oportunidade mais plena possível para seu talento." Diante disso vem a pergunta: "E se alguém, para se satisfazer plenamente, exigisse algo mais, como recompensas externas em forma de riqueza e poder? E se alguém retrucasse que apenas aplicar seu talento ou dispor de um trabalho interessante e socialmente útil não é recompensa suficiente". Creio que este tipo de arrazoamento, certamente, é uma das coisas que atrai muita gente. Todavia falta explicar, a meu modo de ver, por que esse tipo de trabalho que consideraríamos interessante, atrativo e plenamente satisfatório viria a coincidir com o tipo de trabalho necessário que tem que ser levado a cabo, tudo isso sem desprezar o nível de vida a que a gente está acostumado e com aquele que teremos.
Chomsky. É verdade que há uma certa quantidade de trabalho que tem que ser levado a cabo.
Até que ponto esse trabalho tem que ser chato é uma questão pendente. Recordemos que a ciência, a tecnologia e os intelectuais não tem se dedicado como deveriam em examinar essa questão ou a superar o caráter oneroso e autodestrutivo do trabalho necessário à sociedade. Isto se deve a que sempre se tem assumido que há uma quantia substancial de escravos assalariados que o farão simplesmente porque do contrário morreriam de fome. Sem embargo, se se voltar a inteligência humana sobre a questão do que fazer para que o trabalho necessário à sociedade seja em si mesmo significativo, não sabemos qual seria a resposta. Eu me inclino a pensar que uma boa parte dele pode ser efetuado de maneira completamente tolerável. Inclusive, é um erro crer que o trabalho físico é necessariamente uma coisa desagradável. Muita gente, e entre elas me incluo, o faz para relaxar-se. Por exemplo, não faz muito tempo pus na cabeça plantar trinta e quatro árvores no quintal atrás de minha casa, o que quer dizer que tive que fazer trinta e quatro buracos na terra. Como pode supor, para mim, devido ao tipo de trabalho que dedico a maior parte do meu tempo, esse é um trabalho bastante pesado, mas tenho que reconhecer que o fiz com grande satisfação. Não teria tido satisfação se houvesse que me submeter a normas de trabalho, se estivesse subordinado a um supervisor, se me houvessem ordenado fazê-lo em um determinado tempo, etc. Por outro lado, se é uma tarefa efetuada apenas por puro interesse, ótimo, que se faça. E isso sem tecnologia alguma: sem ter que pensar em absoluto em como planejar o trabalho, etc., etc.
Comunidad. Sinto ter que dizer-lhe que pode haver o perigo de que este ponto de vista seja encarado como uma fantasmagórica romantização, concebida apenas por uma pequena elite de pessoas como professores, talvez jornalistas, etc. que casualmente se encontrem em uma privilegiadíssima situação onde ganham dinheiro fazendo o que em todo caso gostam de fazer.
Chomsky. A isso respondo com um enorme "se". Como disse antes, primeiro há que se perguntar onde o trabalho necessário à sociedade, ou seja, o trabalho requerido para manter o nível de vida que desejamos, tem que ser necessariamente chato e indesejável. Creio que a resposta é que, até certo ponto, temos que assumir que uma certa quantidade de trabalho desagradável e chato terá que ser efetuado, mas em muito menor proporção do que hoje. Nesse caso a resposta é muito simples. Esse trabalho tem que ser distribuído eqüitativamente entre as pessoas que sejam capazes de fazê-lo.
Comunidad. E todo mundo passa um certo número de meses por ano trabalhando na cadeia de produção de uma fábrica de automóveis e um certo número de meses recolhendo grãos e...
Chomsky. Logo, estas tarefas não são as tarefas nas quais a gente encontra oportunidades de auto realização. Eu não estou disposto a crer nisto literalmente. Quando vejo pessoas trabalhando, digamos, os artesãos e os artificies, por exemplo, os mecânicos: creio que se descobre com freqüência uma boa dose de orgulho na obra realizada. Creio que esse tipo de orgulho no trabalho bem feito, no trabalho complicado bem feito, porque leva-lo a cabo requer inteligência e raciocínio, especialmente quando se participa também na gerência da empresa, na determinação da maneira de levar a cabo o trabalho, de seu fim, do propósito para que tem de servir, do destino que se lhe dará, etc. Creio, repito, que tudo isso pode constituir uma atividade que produza satisfação e que leve em si mesmo sua recompensa, atividade que de fato requer perícia, o tipo de perícia que a gente tem satisfação em colocar em prática. Sem dúvida, agora, estou no terreno das hipóteses. Suponhamos que em determinado momento haja um resíduo de trabalho, qualquer que seja, que realmente ninguém queira fazer, muito bem, então eu diria que esse resíduo de trabalho tem que ser distribuído eqüitativamente, e fora disso todo mundo será totalmente livre para exercer seu talento como se lhe apeteça.
Comunidad. Finalmente, professor Chomsky, quais seriam as possibilidades de que cheguem a existir sociedades desse tipo nos países industriais mais importantes do mundo ocidental no próximo quarto de século?
Chomsky. Não creio que tenho sabedoria ou informação suficiente para fazer predições, contudo, creio que predições sobre questões tão mal entendidas provavelmente tendem a refletir mais a personalidade que o juízo. Mas creio que podemos, pelo menos, afirmar que existem óbvias tendências no capitalismo industrial no sentido da concentração do poder em impérios econômicos restringidos no Estado, que se está convertendo dia a dia em um Estado totalitário. Durante muito tempo essas tendências tem persistido, e não vejo nada que efetivamente as detenham. Creio que essas tendências continuarão, pois elas fazem parte do presente estancamento e declínio das instituições capitalistas.
A meu modo de ver a tendência ao totalitarismo estatal e à concentração econômica, que, naturalmente, estão vinculadas levará continuamente até a repulsão, a esforços por liberar-se pessoalmente e a esforços organizacionais pela liberdade social. E isso tomará as mais diversas formas. Em toda a Europa, de uma forma ou de outra, se está pedindo o que as vezes se denomina participação dos trabalhadores e as vezes até o controle total por parte dos trabalhadores. É verdade que a maioria desses esforços é mínima e creio que podem ser enganosos, de fato, podem até prejudicar os esforços da classe trabalhadora por libertar-se a si própria. Mas em parte responde a uma clara intuição e entendimento de que a coerção e a opressão, tanto as originárias do poder econômico privado como as originárias da burocracia do Estado, estão longe de ser uma característica necessária à vida humana. E a medida que continuam aumentando essas concentrações de poder e autoridade, veremos que aumentará também a aversão a essa coisas e os esforços por organizar-se e derrubá-las. Cedo ou tarde esses esforços serão coroados de êxito, espero.
(*Compilação de trabalho publicado nas revista "Comunidad" de Estocolmo)
Noam Chomsky, cientista de prestígio, também é conhecido por suas idéias libertárias e por sua permanente denúncia dos truculentos mecanismos de poder nos EE.UU. De destacada atuação contra a guerra no Vietnã, assumiu uma notável performance no repúdio aos planos da equipe de Reagan, sobretudo no desencadeamento da enlouquecida corrida armamentista. Atualmente aprofunda-se no estudo do que denomina globalização das políticas neoliberais.
Comunidad*. Professor Chomsky, vamos começar tratando de definir o que não é anarquismo; a palavra anarquia se deriva, antes de tudo, do grego, e significa literalmente ausência de governo. Mas anarquia ou anarquismo enquanto sistema de filosofia política não significa que, por exemplo, a partir de 1o. de janeiro do próximo ano, o governo tal como agora o entendemos, deixará súbitamente de existir, de modo que não haveria polícia, código de trânsito, leis, arrecadação de impostos, correio, etc. Anarquismo é mais complicado?
Chomsky. Bom, sim para algumas dessas perguntas, não para outras. Anarquismo pode perfeitamente significar que não haverá polícias, mas não creio que signifique que não haverá código de trânsito. De fato, devo dizer, para começar, que o termo anarquismo é usado para referir-se a uma ampla gama de idéias políticas, mas eu preferiria concebê-lo como a esquerda libertária, e deste ponto de vista o anarquismo pode ser concebido como uma espécie de socialismo voluntário, ou seja: como socialismo libertário, anarco-sindicalismo ou anarco comunismo, na tradição de, digamos, Bakunin e Kropotkin e outros autores. Seu ideal era uma forma de sociedade extraordinariamente organizada, mas uma sociedade organizada sobre a base de unidades orgânicas, de comunidades orgânicas. Ao propor isso pensavam, em geral, no local de trabalho e no bairro, e destas duas unidades básicas caberia derivar por meio de acordos de natureza federal, um tipo de organização social extraordinariamente integrada, que poderia ser de alcance nacional e inclusive internacional. Estas decisões poderíam ter uma amplitude substancial, mas teriam que ser tomadas por delegados que formam parte da comunidade orgânica a que pertencem, à qual voltam e na qual, de fato, vivem.
Comunidad. De modo que não significa necessariamente uma sociedade na qual, literalmente, não haja governo, mas uma sociedade em que a orígem primária da autoridade surge, por exemplo, de baixo para cima, e não de cima para baixo. A democracia representativa*, como a que temos nos Estados Unidos e na Grã Bretanha, seria considerada como uma forma de autoridade de cima para baixo, mesmo sendo, em última instância, os votantes que decidem.
Chomsky. A democracia representativa, como a dos Estados Unidos e Grã Bretanha, seria criticada por um anarquista desta escola por duas razões: Em primeiro lugar, porque há um monopólio de poder centralizado no Estado, e em segundo lugar, isto é de importância crítica, porque a democracia representativa está limitada à esfera política e não se estende de maneira séria na esfera econômica. Os anarquistas desta tradição tem sustentado sempre que o controle democrático da vida produtiva por parte de cada um constitui o próprio centro de toda libertação humana. Tal controle é o que existe de mais significativo na prática democrática. Ou seja, enquanto indivíduos forem compelidos a vender-se a si mesmos no mercado em que se situam os assalariados, enquanto seu papel na produção for simplesmente o de instrumentos auxiliares, existirão notáveis elementos de coerção e opressão que tornam a democracia muito limitada e, inclusive, insignificante.
Comunidad. Em têrmos históricos, há algum exemplo notável ou em escala substancial de sociedades que se aproximaram do ideal anarquista?
Chomsky. Há sociedades pequenas em número, que, a meu ver, o tem feito muito bem, e há uns poucos exemplos de revoluções libertárias em grande escala que foram em grande medida anarquistas em sua estrutura. Quanto às primeiras, sociedades pequenas que se estendem sobre um longo período de tempo, em minha opinião, o exemplo mais dramático talvez sejam os kibbutz israelenses, que durante um longo período de tempo foram realmente construídos sobre a base de princípios anarquistas, ou seja, autogestão, controle direto por parte dos trabalhadores, integração na agricultura, indústrias e serviços, e participação pessoal na autogestão. Tiveram, a meu modo de ver, um êxito extraordinário, qualquer que seja a medida que se lhes aplique.
Comunidad. Mas é de se supor que estavam, e continuam estando, enquadrados sob a égide de um Estado convencional que garantisse certas estabilidades básicas.
Chomsky. Bom, nem sempre o estiveram. Na realidade sua história é muito interessante. Até 1948, desde o princípio do século, estiveram enquadrados no marco de um enclave colonial. De fato, havia uma sociedade subterrânea, em grande medida cooperativa, que não era realmente parte do sistema de mandado britânico, mas que funcionava fora dele. Até certo ponto essa sociedade sobreviveu apesar do estabelecimento do Estado, se bem que depois acabou por ser integrada a ele. Consequentemente, a meu modo de ver, tem perdido boa parte de seu caráter socialista libertário nesse processo, e em outros processos que são típicos da história dessa região, que não é preciso mencionar.
Contudo, enquanto instituições sociais libertárias em funcionamento, creio que constituem um interessante modelo, que é extraordinariamente relevante para as sociedades industriais avançadas, de um modo ímpar, que não se dá em alguns dos outros exemplos que existiram no passado. Um bom exemplo de uma revolução anarquista realmente em grande escala, de fato o melhor exemplo, é o da revolução espanhola de 1936. Na maior parte da Espanha republicana houve uma revolução anarquista muito inspiradora, que se estendeu tanto à indústria como a áreas substanciais da agricultura, desenvolvidas de um modo que do lado de fora dá a impressão de que ocorreram expontâneamente. Se bem que, na realidade, se se examinar, suas raízes, se descobre que esteve baseada em umas três gerações de experimentos, pensamento e atividades que levaram as idéias anarquistas a partes muito extensas da população em uma sociedade em grande medida pré-industrial, se bem que não totalmente pré-industrial.
Novamente, teve muito êxito, tanto em suas medidas humanas, como nas medidas econômicas de qualquer tipo. Ou seja, a produção continuou com toda eficiência; os trabalhadores dos campos e das fábricas demonstraram que eram perfeitamente capazes de gerir seus próprios assuntos sem coerções de superioridade contrariamente ao que estavam dispostos a crer grupos de socialistas, comunistas, liberais e muitos outros e, de fato, não é possível dizer o que pudesse ocorrer. Aquela revolução anarquista foi simplesmente destruída pela força, mas durante o período em que contou com vida teve, a meu juízo, muto êxito e, como disse, foi de muitas formas, um testemunho muito inspirador da capacidade dos trabalhadores pobres para organizar-se e gerir seus próprios assuntos, com muito êxito, sem coerção nem controle alheio. É verdade que cabe perguntar até que ponto é relevante a experiência espanhola para uma sociedade industrial avançada.
Comunidad. É claro que a idéia fundamental do anarquismo é a primacia do indivíduo - não necessáriamente em condições de isolamento, mas com outros indivíduos - e a satisfação de sua liberdade. Isto, em certo sentido, não se parece muito aos ideais fundacionais dos Estados Unidos da América? Por que, hoje, essa experiência norte americana se converteu em uma coisa suspeita e até perigosa, principalmente quando a expressão "liberdade" é usada pelos pensadores anarquistas e socialistas libertários como você?
Chomsky. Permita-me dizer apenas que na realidade eu não me considero um pensador anarquista. Sou um "companheiro de viagem" derivativo, digamos. Os pensadores anarquistas referem-se constantemente à experiência norteamericana e ao ideal de democracia jeffersoniano muito favoravelmente. Como se sabe, o conceito de Thomas Jefferson (1743-1826, presidente dos EE.UU. de 1801 a 1809) é o de que o melhor governo é o que não governa em absoluto, é um conceito que tem sido repetido vez após vez pelos pensadores anarquistas nos tempos modernos.
Sem dúvida, o ideal da democracia jeffersoniana, fora o fato de que se tratava de uma sociedade que se servia da escravidão, se desenvolveu em um sistema essencialmente pré-capitalista, ou seja, em uma sociedade em que não havia controle monopólico algum, que não havia nenhum centro significativo de poder privado.
Na leitura, por exemplo, da crítica do Estado de Wilhelm van Humboldt (1767-1835) em 1792, texto libertário clássico significativo no qual sem dúvida se inspirou John Stuart Mill (1806-1873), se vê que não fala em absoluto da necessidade de resistir à concentração do poder privado, mas apenas à necessidade de resistir à invasão do poder coercitivo do Estado. É nele que se encontra também a tradição norte-americana mais temporã. Mas isso porque esse era o único tipo de poder que havia então. O que quero dizer é que Humboldt supõe que os indivíduos são mais ou menos equivalentes em seu poder privado, e que o único desequilíbrio de poder real se deve ao Estado autoritário centralizado, e que a liberdade individual tem que ser defendida contra essa intrusão - do Estado ou da Igreja. Isso é o que crê que deve ser resistido.
Enquanto fala, por exemplo, da necessidade que cada um tem de controlar sua vida criativa, quando lamenta a alienação no trabalho que produz a coerção ou comenta sobre a instrução ou a direção no labor que alguém leva a cabo, dá expressão a uma ideologia anti-estatal e antiteocrática. Esses mesmos princípios são perfeitamente aplicáveis à sociedade industrial capitalista que emergiu depois. Eu me inclino a pensar que Humboldt, pela sua consistência, acabaria se tornando um socialista libertário.
Comunidad. Esses precedentes não sugerem que haja algo inerentemente pre-industrial no que se refere a aplicabilidade dos ideais libertários, ou seja, que pressupõem necessáriamente uma sociedade mais ruralizada onde a tecnologia e a produção são relativamente simples e na qual a organização econômica tende a ser de pequena escala e local?
Chomsky. Bom, permita-me separar isso em duas perguntas: Uma, o que pensadores anarquistas acreditam, e dois, o que creio eu. No que se refere a reações anarquistas, há duas linhas de pensamento. Há uma tradição anarquista - na qual, digamos, Kropotkin poderia ser tomado como representante - que em boa medida tem o caráter que você descreve. Por outro lado, há outra tradição anarquista, que acaba por encarnar no anarco-sindicalismo, que simplesmente considera os ideais anarquistas como o modo próprio de organização de uma sociedade industrial avançada altamente complexa. Essa tendência do anarquismo se funde, ou pelo menos se interrelaciona muito estreitamente, com uma variedade de marxismo de esquerda, o tipo que se encontra na tradição luxemburguista, e que mais tarde é representada por teóricos marxistas como Anton Pannekoek (1873-1960), que elaborou toda uma teoria dos conselhos obreiros na indústria. Ele mesmo foi um homem de ciência , um astrônomo, parte integrante do mundo industrial.
Qual destas duas concepções é a correta? Quer dizer, os conceitos anarquistas pertencem à fase pré-industrial da sociedade humana ou é o anarquismo o modo racional de organização para uma sociedade industrial extraordinariamente avançada? Bom, eu creio que a última é verdadeira, ou seja, a meu ver a industrialização e os avanços da tecnologia oferecem possibilidades de autogestão em grande escala que simplesmente não existiam em um período anterior e , de fato, isto é precisamente o modo racional, para uma sociedade industrial complexa e avançada, uma sociedade na qual os trabalhadores podem muito bem converter-se em senhores de seus assuntos imediatos, a saber, da direção e controle do local de trabalho, mas também podem estar em posição de tomar as decisões substantivas primordiais no que diz respeito às instituições sociais, e no que se refere à planificação regional e supraregional.
Na atualidade, as instituições não lhes permitem ter controle da informação requerida, e a formação pertinente para entender estas coisas. Muito poderia estar automatizado. Grande parte do trabalho necessário requerido para manter um nível decente de vida social pode ser relegado às máquinas, pelo menos como princípio, o que significa que os humanos podem ter a liberdade de empreender o tipo de labor criativo que poderia não ter sido possível, objetivamente, nos estados mais contemporâneos da revolução industrial.
Comunidad. Voltando à questão sobre a economia em uma sociedade anarquista, poderia esboçar mais detalhadamente a constituição política de uma sociedade anarquista, tal como você a concebe, em condições modernas? Haveria partidos políticos, por exemplo? Que formas residuais de governos sobreviverão de fato?
Chomsky. Esboçarei o que, a meu juízo, representaria um certo consenso, consenso que a meu ver é essencialmente correto. Começando por modos de organização e controle imediatos, a saber, a organização e o controle do lugar de trabalho e da comunidade, cabe imaginar uma rede de conselhos de trabalhadores, e a um nível mais alto, representação que inclua várias fábricas, ou vários ramos de indústrias, ou de ofícios vários, até chegar a assembléias gerais de conselhos de trabalhadores, que podem ser de caráter regional e nacional e internacional. Deste outro ponto de vista cabe projetar um sistema de autogoverno baseado em assembléias locais, também neste caso federados regionalmente para tratar questões regionais, abarcando ofícios, indústrias, etc., portanto a nível de nação ou a um nível supranacional, através de uma federação, etc.
Pois bem, De que modo exato se desenvolveriam estas organizações e como se relacionariam entre si e a questão de serem ou não necessários os dois tipos, bom, estas são coisas que os teóricos anarquistas tem debatido muito, existem muitas propostas, e não me sinto capaz de tomar posição. São questões que terão de ser resolvidas.
Comunidad. Mas, não haveria, por exemplo, eleições nacionais e partidos políticos organizados de costa a costa, por exemplo? Porque se houvesse é de se supor que criariam uma espécie de autoridade central que seria contrária à idéia de anarquismo.
Chomsky. Não, a idéia do anarquismo é que a delegação de autoridade tem que ser a menor possível e que os participantes em alguns dos níveis de autogoverno deveriam ser diretamente responsáveis ante a comunidade orgânica na qual vivem. De fato, o ideal seria que a participação em um desses níveis de autogoverno fosse temporal, e mesmo durante o período em que ocorressem deveriam ser apenas parcial; ou seja, os membros de um conselho obreiro que por algum tempo estejam encarregados de tomar as decisões que outros não tem tempo de fazer, deverão também continuar executando seu trabalho em seu local de trabalho ou na comunidade do bairro ao qual pertencem.
No que se refere a partidos políticos: me inclino a pensar que uma sociedade anarquista não impediria a formação de partidos. De fato o anarquismo sempre se baseou na idéia de que todo sistema de normas impostas sobre a vida social consumirá e subestimará muitíssimo sua energia e vitalidade, e de que se pode desenvolver outro tipo de novas possibilidades de organizações voluntárias a esse nível mais alto da cultura material e intelectual. Mas creio que é justo dizer que na medida em que se sentisse que os partidos políticos são necessários, a organização anarquista da sociedade haverá falhado. Ou seja, deverá dar-se o caso, a meu ver, que onde haja participação direta na autogestão dos assuntos econômicos e sociais, as facções, os conflitos, as diferenças de interesse e de idéias e opiniões (que deveriam ser bem vindas e cultivadas) serão expressas em cada um de seus níveis. Não vejo como teriam que se dividir em dois, três ou mais partidos políticos. A meu ver, a complexidade do interesse humano e da vida humana não se divide dessa maneira. Os partidos representam basicamente interesses de classe, e as classes haverias sido eliminadas ou superadas em uma sociedade desse tipo.
Comunidad. Uma última pergunta sobre a organização política: Não há um perigo neste tipo de escalonamento de assembléias e estruturas quase-governamentais, sem eleições, de que um corpo central, ou o corpo que está em algum sentido no cume desta pirâmide, acabe por manter-se muito separado da base, e como terá que ter alguns poderes se se tratar de assuntos internacionais, por exemplo, e possa inclusive ter que possuir controle sobre as forças armadas e coisas desse tipo, não haveria o risco de responder menos democráticamente ao regime existente?
Chomsky. Uma característica muito importante para toda a sociedade libertária é impedir uma evolução nessa direção, que é uma evolução possível. As instituições teriam que ser desenhadas para impedir esse tipo de evolução, o que julgo ser perfeitamente possível. Eu estou convencido de que a participação no governo é uma tarefa de dedicação plena. Isto pode ser assim em uma sociedade irracional, onde surge todo tipo de problemas em função da natureza irracional das instituições. Mas em uma sociedade industrial avançada que funcione propriamente organizada, seguindo diretrizes libertárias, creio que a execução das decisões tomadas pelos corpos representativos não é uma tarefa de plena dedicação, mas uma tarefa em que devem se alternar os membros da comunidade e que, ademais, deve ser levada a cabo por indivíduos que em todo momento continuem participando em sua própria atividade direta (em sua ocupação ordinária).
É possível que o governo seja em si mesmo uma função paralela ao sistema produtivo. Se isto resulta ser assim, a meu ver, é uma questão empírica que tem que ser determinada, que não pode ser projetada a partir de elocubrações mentais-, mas se resulta ser assim, a meu modo de ver a proposta mais natural é que o governo seja organizado industrialmente, simplesmente como um dos ramos da indústria, com seus conselhos de trabalhadores, seu próprio autogoverno e sua própria participação em assembléias mais amplas.
Devo dizer que nos conselhos de trabalhadores que tem surgido expontaneamente aqui e ali como, por exemplo, na revolução húngara em 1956, isso foi mais ou menos o que sucedeu. Havia, pelo que me recordo, um conselho obreiro de empregados do Estado que estavam organizados simplesmente como outro ramo da indústria. Isso é perfeitamente possível, e deveria ou poderia constituir uma barreira contra a criação do tipo de burocracia coercitiva remota que os anarquistas tanto temem.
Comunidad. Suponhamos que haveria a necessidade de autodefesa, a um nível sumamente sofisticado, não vejo pela sua descrição como conseguir que esse sistema de conselhos representativos a vários níveis, de baixo para cima, não dedicados exclusivamente a isso, tivesse controle efetivo de uma organização tão poderosa e tão necessariamente sofisticada em sua técnica como, por exemplo, o Pentágono.
Chomsky. Bom, comecemos por aclarar a terminologia. Você se refere ao Pentágono, como se funcionasse como uma organização de defesa. Em 1947, quando foi promugada a lei de Defesa Nacional, no antigo Departamento da Guerra, o departamento norteamericano encarregado da guerra, que até então foi denominado honestamente: Departamento da Guerra, adota o nome de Departamento de Defesa. Até então eu era estudante e não me considerava muito sofisticado, mas sabia, como sabia todo mundo, que a mudança significava que qualquer que fosse a medida que os militares norteamericanos efetuaram na defesa no passado - e em parte havia sido assim - terminara; a denominação Departamento de Defesa significava que passava a ser um departamento de agressão e nada mais.
Comunidad. Seguindo o princípio de não crer nunca naquilo que é negado oficialmente.
Chomsky. Exato. Orwell captou a essência da natureza do Estado moderno. O Pentágono não é em nenhum sentido um departamento de defesa. Jamais defendeu os Estados Unidos de nada; serve apenas para levar a cabo agressões e, a meu ver, o povo norte-americano estaria muito melhor sem o Pentágono. Certamente não o necessita para a defesa. Sua intervenção nos assuntos internacionais não tem sido nunca positiva, nunca é uma palavra forte, mas creio que seria difícil encontrar um caso, certamente sua postura mais característica não tem sido a de prestar apoio à liberdade ou defender o povo e outras coisas deste tipo. Esse não é o papel da massiva organização militar controlado pelo Departamento de Defesa, mas que suas tarefas são duas, e as duas são completamente anti-sociais.
A primeira é preservar um sistema internacional em que possa florescer o que se pode denominar interesses norte-americanos, que essencialmente quer dizer interesses econômicos. E a segunda é uma tarefa econômica interna. Quero dizer que o Pentágono tem sido o mecanismo keynesiano primário através do qual o governo intervém para manter aquilo que se denomina, ridiculamente, a saúde da economia, numa base de economia de escassez.
Ora, essas funções servem ambas a certos interesses de fato, interesses dominantes, interesses da classe dominante da sociedade norte-americana. Mas não creio que sirvam ao interesse público em nenhum sentido e, a meu ver, esse sistema de produção de desperdício e destruição seria essencialmente desmantelado em uma sociedade libertária. Mas não se deve falar disto demasiado e superficialmente. Se é possível imaginar, digamos, uma revolução social nos Estados Unidos, muito difícil de ocorrer, a meu modo de ver, mas se chega a ter lugar, é difícil imaginar que pudesse existir um inimigo exterior plausível capaz de ameaçar a revolução social, não seríamos atacados por México ou por Cuba, digamos. Uma revolução norte-americana não requereria, a meu modo de ver, defesa contra a agressão. Por outro lado, se tivesse lugar uma revolução social libertária na Europa Ocidental, por exemplo, creio que o problema de defesa seria muito crítico.
Comunidad. A noção de que não deve haver autodefesa alguma não se ajusta à proposta anarquista, uma vez que os experimentos anarquistas que tiveram lugar na história demonstram que foram destruídos de fora para dentro.
Chomsky. Ah! mas creio que não é possível dar uma resposta geral a estas questões, mas que tem que ser contestadas especificamente, em relação com as condições objetivas e históricas específicas.
É que justamente para mim é um pouco difícil seguir sua descrição de controle democrático apropriado para este tipo de organização, já que para mim é difícil conceber generais controlando a si mesmos de uma maneira que pareça aceitável.
Por isso quero manifestar a complexidade da questão. Depende do país e da sociedade à qual nos referimos. Nos Estados Unidos se coloca um tipo de problema. Se tivesse lugar uma revolução social libertária na Europa, creio que o problema que você coloca seja muito sério, já que haveria um sério problema de defesa. Quer dizer, eu assumiria que se se conseguisse um certo nível de socialismo libertário na Europa Ocidental, haveria uma ameaça militar tanto por parte da União Soviética como dos Estados Unidos e o problema seria como combatê-la. Este foi o problema com que a revolução espanhola teve que se confrontar. Ouve intervenção militar direta por parte dos fascistas, por parte dos comunistas e por parte das democracias liberais, mais discretamente, como foi o caso da Inglaterra, e o problema de como é possível defender-se de um rival neste nível é um problema muito sério.
Sem dúvida, creio que temos que levar em consideração se exércitos regulares centralizados com armamentos tecnologicamente avançados constituem o modo mais efetivo de fazer isso, o que está longe de ser óbvio. Por exemplo, eu não creio que um exército centralizado da Europa Ocidental possa repelir por si mesmo um ataque russo ou norte-americano que tenha por objeto impedir o socialismo libertário, eu, francamente, esperaria um tipo de ataque a outro nível, talvez não militar, mas pelo menos econômico.
Comunidad. Mas, por outro lado tampouco uma multidão de camponeses armados de enxadas e foices...
Chomsky. Não estamos falando de camponeses, estamos falando de uma sociedade industrial urbana, muito sofisticada. E a meu modo de ver o melhor método de defesa seria a simpatia política que lograsse inspirar na classe trabalhadora dos países que participassem do ataque. Uma vez mais, não quero falar demasiado e superficialmente. Se as coisas chegarem a ponto de serem necessários tanques e exércitos, ou seja, a força bruta, creio que podemos estar bem seguros de que isso contribuiria para o possível fracasso ou ao menos para o declínio da força revolucionária, precisamente pelas razões que mencionamos anteriormente. Ou seja, creio que é extremamente difícil imaginar como poderia funcionar um exército centralizado efetivo sem tanques, aviões, armas estratégicas, etc. Se é isso que falta para estabelecer e manter estruturas revolucionárias, creio que é muito possível que elas nunca serão estabelecidas nem mantidas.
Comunidad. Se a defesa básica é a simpatia política, ou a simpatia pela organização política e econômica, talvez pudéssemos considerar isso mais detalhadamente.
Em um de seus ensaios está escrito: "Em uma sociedade decente, todo mundo teria a oportunidade de encontrar trabalho interessante, e cada pessoa contaria com a oportunidade mais plena possível para seu talento." Diante disso vem a pergunta: "E se alguém, para se satisfazer plenamente, exigisse algo mais, como recompensas externas em forma de riqueza e poder? E se alguém retrucasse que apenas aplicar seu talento ou dispor de um trabalho interessante e socialmente útil não é recompensa suficiente". Creio que este tipo de arrazoamento, certamente, é uma das coisas que atrai muita gente. Todavia falta explicar, a meu modo de ver, por que esse tipo de trabalho que consideraríamos interessante, atrativo e plenamente satisfatório viria a coincidir com o tipo de trabalho necessário que tem que ser levado a cabo, tudo isso sem desprezar o nível de vida a que a gente está acostumado e com aquele que teremos.
Chomsky. É verdade que há uma certa quantidade de trabalho que tem que ser levado a cabo.
Até que ponto esse trabalho tem que ser chato é uma questão pendente. Recordemos que a ciência, a tecnologia e os intelectuais não tem se dedicado como deveriam em examinar essa questão ou a superar o caráter oneroso e autodestrutivo do trabalho necessário à sociedade. Isto se deve a que sempre se tem assumido que há uma quantia substancial de escravos assalariados que o farão simplesmente porque do contrário morreriam de fome. Sem embargo, se se voltar a inteligência humana sobre a questão do que fazer para que o trabalho necessário à sociedade seja em si mesmo significativo, não sabemos qual seria a resposta. Eu me inclino a pensar que uma boa parte dele pode ser efetuado de maneira completamente tolerável. Inclusive, é um erro crer que o trabalho físico é necessariamente uma coisa desagradável. Muita gente, e entre elas me incluo, o faz para relaxar-se. Por exemplo, não faz muito tempo pus na cabeça plantar trinta e quatro árvores no quintal atrás de minha casa, o que quer dizer que tive que fazer trinta e quatro buracos na terra. Como pode supor, para mim, devido ao tipo de trabalho que dedico a maior parte do meu tempo, esse é um trabalho bastante pesado, mas tenho que reconhecer que o fiz com grande satisfação. Não teria tido satisfação se houvesse que me submeter a normas de trabalho, se estivesse subordinado a um supervisor, se me houvessem ordenado fazê-lo em um determinado tempo, etc. Por outro lado, se é uma tarefa efetuada apenas por puro interesse, ótimo, que se faça. E isso sem tecnologia alguma: sem ter que pensar em absoluto em como planejar o trabalho, etc., etc.
Comunidad. Sinto ter que dizer-lhe que pode haver o perigo de que este ponto de vista seja encarado como uma fantasmagórica romantização, concebida apenas por uma pequena elite de pessoas como professores, talvez jornalistas, etc. que casualmente se encontrem em uma privilegiadíssima situação onde ganham dinheiro fazendo o que em todo caso gostam de fazer.
Chomsky. A isso respondo com um enorme "se". Como disse antes, primeiro há que se perguntar onde o trabalho necessário à sociedade, ou seja, o trabalho requerido para manter o nível de vida que desejamos, tem que ser necessariamente chato e indesejável. Creio que a resposta é que, até certo ponto, temos que assumir que uma certa quantidade de trabalho desagradável e chato terá que ser efetuado, mas em muito menor proporção do que hoje. Nesse caso a resposta é muito simples. Esse trabalho tem que ser distribuído eqüitativamente entre as pessoas que sejam capazes de fazê-lo.
Comunidad. E todo mundo passa um certo número de meses por ano trabalhando na cadeia de produção de uma fábrica de automóveis e um certo número de meses recolhendo grãos e...
Chomsky. Logo, estas tarefas não são as tarefas nas quais a gente encontra oportunidades de auto realização. Eu não estou disposto a crer nisto literalmente. Quando vejo pessoas trabalhando, digamos, os artesãos e os artificies, por exemplo, os mecânicos: creio que se descobre com freqüência uma boa dose de orgulho na obra realizada. Creio que esse tipo de orgulho no trabalho bem feito, no trabalho complicado bem feito, porque leva-lo a cabo requer inteligência e raciocínio, especialmente quando se participa também na gerência da empresa, na determinação da maneira de levar a cabo o trabalho, de seu fim, do propósito para que tem de servir, do destino que se lhe dará, etc. Creio, repito, que tudo isso pode constituir uma atividade que produza satisfação e que leve em si mesmo sua recompensa, atividade que de fato requer perícia, o tipo de perícia que a gente tem satisfação em colocar em prática. Sem dúvida, agora, estou no terreno das hipóteses. Suponhamos que em determinado momento haja um resíduo de trabalho, qualquer que seja, que realmente ninguém queira fazer, muito bem, então eu diria que esse resíduo de trabalho tem que ser distribuído eqüitativamente, e fora disso todo mundo será totalmente livre para exercer seu talento como se lhe apeteça.
Comunidad. Finalmente, professor Chomsky, quais seriam as possibilidades de que cheguem a existir sociedades desse tipo nos países industriais mais importantes do mundo ocidental no próximo quarto de século?
Chomsky. Não creio que tenho sabedoria ou informação suficiente para fazer predições, contudo, creio que predições sobre questões tão mal entendidas provavelmente tendem a refletir mais a personalidade que o juízo. Mas creio que podemos, pelo menos, afirmar que existem óbvias tendências no capitalismo industrial no sentido da concentração do poder em impérios econômicos restringidos no Estado, que se está convertendo dia a dia em um Estado totalitário. Durante muito tempo essas tendências tem persistido, e não vejo nada que efetivamente as detenham. Creio que essas tendências continuarão, pois elas fazem parte do presente estancamento e declínio das instituições capitalistas.
A meu modo de ver a tendência ao totalitarismo estatal e à concentração econômica, que, naturalmente, estão vinculadas levará continuamente até a repulsão, a esforços por liberar-se pessoalmente e a esforços organizacionais pela liberdade social. E isso tomará as mais diversas formas. Em toda a Europa, de uma forma ou de outra, se está pedindo o que as vezes se denomina participação dos trabalhadores e as vezes até o controle total por parte dos trabalhadores. É verdade que a maioria desses esforços é mínima e creio que podem ser enganosos, de fato, podem até prejudicar os esforços da classe trabalhadora por libertar-se a si própria. Mas em parte responde a uma clara intuição e entendimento de que a coerção e a opressão, tanto as originárias do poder econômico privado como as originárias da burocracia do Estado, estão longe de ser uma característica necessária à vida humana. E a medida que continuam aumentando essas concentrações de poder e autoridade, veremos que aumentará também a aversão a essa coisas e os esforços por organizar-se e derrubá-las. Cedo ou tarde esses esforços serão coroados de êxito, espero.
(*Compilação de trabalho publicado nas revista "Comunidad" de Estocolmo)
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