No Brasil, expectativa de vida da população negra é de 67 anos, enquanto a dos brancos é de 73 anos em média
A expectativa de vida da população negra – formada por pretos e pardos – é de 67 anos no Brasil. De acordo com o Relatório Anual das Desigualdades Sociais, esse tempo é inferior ao registrado entre os brancos, que vivem 73 anos em média. O levantamento foi feito pelo Núcleo de Estudos de População, da Unicamp, e divulgado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nesta terça-feira (19).
O estudo ainda revela que a probabilidade de um homem negro morrer assassinado é duas vezes maior, quando comparado a alguém que se autodeclara branco. As mortes de negros nessas circunstâncias cresceram num período de seis anos, enquanto a média geral teve um recuo. Em 2007, 44 mil pessoas foram assassinadas no país. Aproximadamente 64% das vítimas eram negras.
Essas desigualdades também foram verificadas na educação. Em 2008, por exemplo, 62% dos jovens negros com idade entre 11 a 14 anos não estavam cursando a série correta. Já entre os brancos, menos de 46% estavam atrasados na escola. Segundo o relatório, oito em cada dez estudantes pretos e pardos, de 15 a 17 anos, estavam cursando séries abaixo de sua idade ou tinham abandonado o colégio no período avaliado.
Jorge Américo,
De São Paulo, da Radioagência NP
quinta-feira, 21 de abril de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Para especialista, governo trata questão indígena como problema
Saulo Feitosa afirma que o governo ainda não desenvolve políticas indigenistas da forma correta, pois pulveriza ações entre os ministérios
O governo brasileiro ainda trata a questão indígena como problema. A afirmação é do vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Saulo Feitosa. Segundo ele, até a década de 70, as políticas indigenistas eram quase inexistentes, no entanto, nos últimos anos, o governo tem reconhecido a importância da implementação dessas ações direcionadas aos povos indígenas.
“A questão da política indigenista é um problema desde a construção do Estado brasileiro. Isso já dificulta a elaboração e a construção dessas políticas. Além disso, temos uma visão colonialista, que embora tenha sofrido algumas alterações, ainda subsiste”, afirmou.
Para Feitosa, o governo ainda não desenvolve políticas indigenistas da forma correta, pois em vez de investir na coordenação dessas ações, acaba pulverizando-as entre os ministérios. De acordo com ele, as políticas relacionadas à saúde, à educação e aos procedimentos de demarcação de terra indígena ainda são os mais preteridos.
“Não há uma coordenação onde o governo possa pensar os povos indígenas de maneira integral. Cada ministério faz uma política específica para os povos indígenas. Atuando de maneira fragmentada, há dispersão de investimentos e dos recursos públicos”, disse Feitosa.
Segundo ele, o governo da presidenta Dilma Rousseff começou sem novidades na área indigenista. “Neste novo governo não houve mudança. Pelo contrário, o governo começou bastante conturbado com essa contenda de Belo Monte e as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ainda não sabemos o que ela [a presidenta] pensa e como vai lidar com os interesses políticos”.
O vice-presidente do Cimi também criticou o processo de mudanças na estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai). De acordo com ele, a reestruturação ocorreu de “maneira autoritária, sem qualquer consulta aos povos indígenas.”
Para o presidente da Funai, Márcio Meira, a presidenta Dilma Rousseff representa a continuidade do projeto de governo que foi iniciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A mesma política indigenista que vinha sendo desenvolvida no governo Lula está sendo mantida no governo Dilma. Para que sejam prolongadas as medidas de fortalecimento da Funai e das políticas públicas que cercam os povos indígenas.”
A Funai, além de coordenar as ações de demarcação de terras indígenas, também desenvolve ações de promoção social voltadas para a saúde, educação e até para o cadastramento de índios no sistema da Previdência Social. De acordo com Meira, no ano passado, o primeiro concurso da Funai em mais de 20 anos contratou 400 funcionários para atuar diretamente com os povos indígenas nas coordenações regionais da instituição.
Daniella Jinkings
Agência Brasil
O governo brasileiro ainda trata a questão indígena como problema. A afirmação é do vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Saulo Feitosa. Segundo ele, até a década de 70, as políticas indigenistas eram quase inexistentes, no entanto, nos últimos anos, o governo tem reconhecido a importância da implementação dessas ações direcionadas aos povos indígenas.
“A questão da política indigenista é um problema desde a construção do Estado brasileiro. Isso já dificulta a elaboração e a construção dessas políticas. Além disso, temos uma visão colonialista, que embora tenha sofrido algumas alterações, ainda subsiste”, afirmou.
Para Feitosa, o governo ainda não desenvolve políticas indigenistas da forma correta, pois em vez de investir na coordenação dessas ações, acaba pulverizando-as entre os ministérios. De acordo com ele, as políticas relacionadas à saúde, à educação e aos procedimentos de demarcação de terra indígena ainda são os mais preteridos.
“Não há uma coordenação onde o governo possa pensar os povos indígenas de maneira integral. Cada ministério faz uma política específica para os povos indígenas. Atuando de maneira fragmentada, há dispersão de investimentos e dos recursos públicos”, disse Feitosa.
Segundo ele, o governo da presidenta Dilma Rousseff começou sem novidades na área indigenista. “Neste novo governo não houve mudança. Pelo contrário, o governo começou bastante conturbado com essa contenda de Belo Monte e as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ainda não sabemos o que ela [a presidenta] pensa e como vai lidar com os interesses políticos”.
O vice-presidente do Cimi também criticou o processo de mudanças na estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai). De acordo com ele, a reestruturação ocorreu de “maneira autoritária, sem qualquer consulta aos povos indígenas.”
Para o presidente da Funai, Márcio Meira, a presidenta Dilma Rousseff representa a continuidade do projeto de governo que foi iniciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A mesma política indigenista que vinha sendo desenvolvida no governo Lula está sendo mantida no governo Dilma. Para que sejam prolongadas as medidas de fortalecimento da Funai e das políticas públicas que cercam os povos indígenas.”
A Funai, além de coordenar as ações de demarcação de terras indígenas, também desenvolve ações de promoção social voltadas para a saúde, educação e até para o cadastramento de índios no sistema da Previdência Social. De acordo com Meira, no ano passado, o primeiro concurso da Funai em mais de 20 anos contratou 400 funcionários para atuar diretamente com os povos indígenas nas coordenações regionais da instituição.
Daniella Jinkings
Agência Brasil
Élisée Reclus
Jean Jacques Élisée Reclus (Sainte-Foy-la-Grande, 15 de março de 1830 — Torhout, 4 de julho de 1905) foi um geógrafo e anarquista francês.
Biografia
Em 1851, viajou para a cidade de Berlim onde foi aluno de Carl Ritter. No mesmo ano, retornou à França e, em conjunto com alguns franceses, tentaram impedir o golpe de Estado de Luís Napoleão. Com o êxito do golpe, Reclus foi obrigado a deixar seu país, tornando-se exilado na Inglaterra por defender ideais e práticas revolucionárias.
Em 1871 participou ativamente da Comuna de Paris, tornando-se responsável, junto com seu irmão Élie Reclus, pela Biblioteca Nacional. Com a queda da Comuna, foi preso e condenado à deportação para a Nova Caledônia junto com milhares de outros communards. Mas sua pena foi comutada para dez anos de banimento.
Banido da França, fez diversas viagens para fora do continente europeu, visitando a América, a África e a Ásia. Em 1893, realizou sua última grande viagem, conhecendo a América do Sul, com passagem inclusive pelo Brasil.
Mudou-se para a Suíça no final de 1893 onde participou da Federação Jurassiana ao lado de outros notáveis anarquistas, Mikhail Bakunin e James Guillaume. Em 1894, instalou-se em Bruxelas onde, a partir de seus esforços foi criada a Universidade Nova, bem como o Instituto de Altos Estudos, espaços nos quais lecionou.
Obra
Reclus contribuiu para inúmeros jornais, revistas e coletâneas. Mas sobretudo tornou-se conhecido por sua extraordinária obra em torno da geopolítica - Nova Geografia Universal: a Terra e os Homens, dividida em dez volumes, e O Homem e a Terra, dividido em cinco volumes - nas quais analisa a relação dos diferentes grupos humanos com os meios em que habitam.
Não se contentava em observar a natureza: sua intenção de entendimento abarcava todo o planeta, que Reclus buscou descrever em todo seu espaço-tempo. Em sua obra apresentou critérios precisos de interpretação e esforçou-se para compreender as leis que, para além de uma ilustração moralizante ou lição pedagógica, estão por trás do devir coletivo das sociedades humanas.
Embora tenha sido o mais ilustre dos discípulos de Carl Ritter, a obra de Reclus não alcançou muita projeção na França devido ao fato de ter passado grande parte de sua vida exilado por razões políticas [1]. Contudo, a partir de meados dos anos 1970, com a ascensão da geografia crítica, a obra de Reclus e sua militância anarquista passaram a ser mais valorizadas pelos geógrafos[2], o mesmo tendo ocorrido com o também anarquista Piotr Kropotkin. Outra linha de pesquisa recente que vem renovando os métodos de Reclus são os estudos de modelização gráfica realizados pelo GIP Reclus (Groupement d’Intérêt Public, Réseau d’études du changement dans les localisations et les unités spatiales)[3].
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Biografia
Em 1851, viajou para a cidade de Berlim onde foi aluno de Carl Ritter. No mesmo ano, retornou à França e, em conjunto com alguns franceses, tentaram impedir o golpe de Estado de Luís Napoleão. Com o êxito do golpe, Reclus foi obrigado a deixar seu país, tornando-se exilado na Inglaterra por defender ideais e práticas revolucionárias.
Em 1871 participou ativamente da Comuna de Paris, tornando-se responsável, junto com seu irmão Élie Reclus, pela Biblioteca Nacional. Com a queda da Comuna, foi preso e condenado à deportação para a Nova Caledônia junto com milhares de outros communards. Mas sua pena foi comutada para dez anos de banimento.
Banido da França, fez diversas viagens para fora do continente europeu, visitando a América, a África e a Ásia. Em 1893, realizou sua última grande viagem, conhecendo a América do Sul, com passagem inclusive pelo Brasil.
Mudou-se para a Suíça no final de 1893 onde participou da Federação Jurassiana ao lado de outros notáveis anarquistas, Mikhail Bakunin e James Guillaume. Em 1894, instalou-se em Bruxelas onde, a partir de seus esforços foi criada a Universidade Nova, bem como o Instituto de Altos Estudos, espaços nos quais lecionou.
Obra
Reclus contribuiu para inúmeros jornais, revistas e coletâneas. Mas sobretudo tornou-se conhecido por sua extraordinária obra em torno da geopolítica - Nova Geografia Universal: a Terra e os Homens, dividida em dez volumes, e O Homem e a Terra, dividido em cinco volumes - nas quais analisa a relação dos diferentes grupos humanos com os meios em que habitam.
Não se contentava em observar a natureza: sua intenção de entendimento abarcava todo o planeta, que Reclus buscou descrever em todo seu espaço-tempo. Em sua obra apresentou critérios precisos de interpretação e esforçou-se para compreender as leis que, para além de uma ilustração moralizante ou lição pedagógica, estão por trás do devir coletivo das sociedades humanas.
Embora tenha sido o mais ilustre dos discípulos de Carl Ritter, a obra de Reclus não alcançou muita projeção na França devido ao fato de ter passado grande parte de sua vida exilado por razões políticas [1]. Contudo, a partir de meados dos anos 1970, com a ascensão da geografia crítica, a obra de Reclus e sua militância anarquista passaram a ser mais valorizadas pelos geógrafos[2], o mesmo tendo ocorrido com o também anarquista Piotr Kropotkin. Outra linha de pesquisa recente que vem renovando os métodos de Reclus são os estudos de modelização gráfica realizados pelo GIP Reclus (Groupement d’Intérêt Public, Réseau d’études du changement dans les localisations et les unités spatiales)[3].
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Médicos defendem maconha terapêutica
O lançamento mundial de um medicamento produzido à base de maconha pela farmacêutica britânica GW Pharma, e que será comercializado na América do Norte e na Europa pelo laboratório Novartis, reacendeu as discussões entre os especialistas brasileiros sobre o uso medicinal da droga no País. Por aqui, o princípio ativo do remédio (Sativex), usado para aliviar a dor de pacientes com esclerose múltipla, não é permitido.
O Brasil é signatário de tratados diversos que consideram a substância ilícita, o que dificulta inclusive o desenvolvimento de pesquisas científicas sobre as propriedades terapêuticas da planta e suas reações no cérebro.
Pesquisadores ouvidos pelo JT comparam a importância do estudo da cannabis sativa (nome científico da maconha) com a relevância do ópio para o desenvolvimento da morfina – medicamento essencial para o tratamento da dor aguda. E reforçam o argumento de que a possibilidade de uso medicinal não é sinônimo de liberação ou legalização da droga.
“O medicamento tem estudo clínico, existem proporções corretas das substâncias usadas, imprescindíveis ao seu funcionamento”, defende Hercílio Pereira de Oliveira Júnior, médico psiquiatra do Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com Oliveira Júnior, ao contrário do remédio, a droga ilícita não tem padrões de equilíbrio entre os substratos terapêuticos e pode causar danos à saúde de quem a consome. “Pode ampliar a ansiedade, causar um estado depressivo e psicótico, com alucinações, e problemas pulmonares provocados pelo ato de fumar.”
Perspectivas
Estudos comprovam que a cannabis reduz os efeitos colaterais da quimioterapia, como náusea e vômito, estimula o apetite em pacientes com aids, pode ser usada para tratar o glaucoma e aliviar a dor crônica. “As perspectivas científicas mostram que vale a pena aprofundar os estudos sobre a planta”, avalia Oliveira Júnior.
O Sativex, por exemplo, não é vendido como cigarro – e sim na forma de um spray. Sua composição reúne apenas dois substratos da maconha: o delta9-tetraidrocanabinol e o canabidiol.
“Não causa mais ou menos dependência do que calmantes e antidepressivos. A dependência não é argumento considerável para proibir até mesmo a pesquisa”, diz Dartiu Xavier da Silveira, professor livre-docente em Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo.
Defensor da criação de uma agência reguladora para o setor, Oliveira critica a legislação restritiva brasileira e afirma que o preconceito trava a pesquisa de medicamentos que poderiam ser desenvolvidos até para tratar a dependência química.
“A questão não é proibir, mas controlar. Não se proíbe a morfina porque algumas pessoas fazem mau uso”, avalia. O psiquiatra lembra que não é necessário o plantio em terras brasileiras da maconha para os estudos. “Para pesquisa, podemos importar.”
Diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp, o psicofarmacologista Elisaldo Carlini também acredita que o Brasil está atrasado em relação às pesquisas sobre o potencial terapêutico da maconha por puro preconceito.
“No século passado, foi considerada droga diabólica e só nos últimos 30 anos é que se retomaram os estudos terapêuticos”, conta Carlini. De acordo com ele, pesquisas mostraram que o cérebro humano possui ramais de neurotransmissores e receptores sensíveis ao estímulo da cannabis. O sistema foi chamado de endocanabinoide, que, se cientificamente estudado e estimulado, pode levar ao alívio ou à cura de várias doenças.
Legislação
Até o momento, a legislação brasileira proíbe o consumo de qualquer medicamento à base de maconha. Mas uma decisão judicial pode autorizar seu uso em casos específicos.
A comercialização do Sativex ainda não foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Procurada pelo Jornal da Tarde, a agência não se manifestou sobre o assunto.
O Brasil é signatário de tratados diversos que consideram a substância ilícita, o que dificulta inclusive o desenvolvimento de pesquisas científicas sobre as propriedades terapêuticas da planta e suas reações no cérebro.
Pesquisadores ouvidos pelo JT comparam a importância do estudo da cannabis sativa (nome científico da maconha) com a relevância do ópio para o desenvolvimento da morfina – medicamento essencial para o tratamento da dor aguda. E reforçam o argumento de que a possibilidade de uso medicinal não é sinônimo de liberação ou legalização da droga.
“O medicamento tem estudo clínico, existem proporções corretas das substâncias usadas, imprescindíveis ao seu funcionamento”, defende Hercílio Pereira de Oliveira Júnior, médico psiquiatra do Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com Oliveira Júnior, ao contrário do remédio, a droga ilícita não tem padrões de equilíbrio entre os substratos terapêuticos e pode causar danos à saúde de quem a consome. “Pode ampliar a ansiedade, causar um estado depressivo e psicótico, com alucinações, e problemas pulmonares provocados pelo ato de fumar.”
Perspectivas
Estudos comprovam que a cannabis reduz os efeitos colaterais da quimioterapia, como náusea e vômito, estimula o apetite em pacientes com aids, pode ser usada para tratar o glaucoma e aliviar a dor crônica. “As perspectivas científicas mostram que vale a pena aprofundar os estudos sobre a planta”, avalia Oliveira Júnior.
O Sativex, por exemplo, não é vendido como cigarro – e sim na forma de um spray. Sua composição reúne apenas dois substratos da maconha: o delta9-tetraidrocanabinol e o canabidiol.
“Não causa mais ou menos dependência do que calmantes e antidepressivos. A dependência não é argumento considerável para proibir até mesmo a pesquisa”, diz Dartiu Xavier da Silveira, professor livre-docente em Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo.
Defensor da criação de uma agência reguladora para o setor, Oliveira critica a legislação restritiva brasileira e afirma que o preconceito trava a pesquisa de medicamentos que poderiam ser desenvolvidos até para tratar a dependência química.
“A questão não é proibir, mas controlar. Não se proíbe a morfina porque algumas pessoas fazem mau uso”, avalia. O psiquiatra lembra que não é necessário o plantio em terras brasileiras da maconha para os estudos. “Para pesquisa, podemos importar.”
Diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp, o psicofarmacologista Elisaldo Carlini também acredita que o Brasil está atrasado em relação às pesquisas sobre o potencial terapêutico da maconha por puro preconceito.
“No século passado, foi considerada droga diabólica e só nos últimos 30 anos é que se retomaram os estudos terapêuticos”, conta Carlini. De acordo com ele, pesquisas mostraram que o cérebro humano possui ramais de neurotransmissores e receptores sensíveis ao estímulo da cannabis. O sistema foi chamado de endocanabinoide, que, se cientificamente estudado e estimulado, pode levar ao alívio ou à cura de várias doenças.
Legislação
Até o momento, a legislação brasileira proíbe o consumo de qualquer medicamento à base de maconha. Mas uma decisão judicial pode autorizar seu uso em casos específicos.
A comercialização do Sativex ainda não foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Procurada pelo Jornal da Tarde, a agência não se manifestou sobre o assunto.
Noam Chomsky, Atualidade do Pensamento Libertário
"O Estado ... se está convertendo dia a dia em um Estado totalitário"
Noam Chomsky, cientista de prestígio, também é conhecido por suas idéias libertárias e por sua permanente denúncia dos truculentos mecanismos de poder nos EE.UU. De destacada atuação contra a guerra no Vietnã, assumiu uma notável performance no repúdio aos planos da equipe de Reagan, sobretudo no desencadeamento da enlouquecida corrida armamentista. Atualmente aprofunda-se no estudo do que denomina globalização das políticas neoliberais.
Comunidad*. Professor Chomsky, vamos começar tratando de definir o que não é anarquismo; a palavra anarquia se deriva, antes de tudo, do grego, e significa literalmente ausência de governo. Mas anarquia ou anarquismo enquanto sistema de filosofia política não significa que, por exemplo, a partir de 1o. de janeiro do próximo ano, o governo tal como agora o entendemos, deixará súbitamente de existir, de modo que não haveria polícia, código de trânsito, leis, arrecadação de impostos, correio, etc. Anarquismo é mais complicado?
Chomsky. Bom, sim para algumas dessas perguntas, não para outras. Anarquismo pode perfeitamente significar que não haverá polícias, mas não creio que signifique que não haverá código de trânsito. De fato, devo dizer, para começar, que o termo anarquismo é usado para referir-se a uma ampla gama de idéias políticas, mas eu preferiria concebê-lo como a esquerda libertária, e deste ponto de vista o anarquismo pode ser concebido como uma espécie de socialismo voluntário, ou seja: como socialismo libertário, anarco-sindicalismo ou anarco comunismo, na tradição de, digamos, Bakunin e Kropotkin e outros autores. Seu ideal era uma forma de sociedade extraordinariamente organizada, mas uma sociedade organizada sobre a base de unidades orgânicas, de comunidades orgânicas. Ao propor isso pensavam, em geral, no local de trabalho e no bairro, e destas duas unidades básicas caberia derivar por meio de acordos de natureza federal, um tipo de organização social extraordinariamente integrada, que poderia ser de alcance nacional e inclusive internacional. Estas decisões poderíam ter uma amplitude substancial, mas teriam que ser tomadas por delegados que formam parte da comunidade orgânica a que pertencem, à qual voltam e na qual, de fato, vivem.
Comunidad. De modo que não significa necessariamente uma sociedade na qual, literalmente, não haja governo, mas uma sociedade em que a orígem primária da autoridade surge, por exemplo, de baixo para cima, e não de cima para baixo. A democracia representativa*, como a que temos nos Estados Unidos e na Grã Bretanha, seria considerada como uma forma de autoridade de cima para baixo, mesmo sendo, em última instância, os votantes que decidem.
Chomsky. A democracia representativa, como a dos Estados Unidos e Grã Bretanha, seria criticada por um anarquista desta escola por duas razões: Em primeiro lugar, porque há um monopólio de poder centralizado no Estado, e em segundo lugar, isto é de importância crítica, porque a democracia representativa está limitada à esfera política e não se estende de maneira séria na esfera econômica. Os anarquistas desta tradição tem sustentado sempre que o controle democrático da vida produtiva por parte de cada um constitui o próprio centro de toda libertação humana. Tal controle é o que existe de mais significativo na prática democrática. Ou seja, enquanto indivíduos forem compelidos a vender-se a si mesmos no mercado em que se situam os assalariados, enquanto seu papel na produção for simplesmente o de instrumentos auxiliares, existirão notáveis elementos de coerção e opressão que tornam a democracia muito limitada e, inclusive, insignificante.
Comunidad. Em têrmos históricos, há algum exemplo notável ou em escala substancial de sociedades que se aproximaram do ideal anarquista?
Chomsky. Há sociedades pequenas em número, que, a meu ver, o tem feito muito bem, e há uns poucos exemplos de revoluções libertárias em grande escala que foram em grande medida anarquistas em sua estrutura. Quanto às primeiras, sociedades pequenas que se estendem sobre um longo período de tempo, em minha opinião, o exemplo mais dramático talvez sejam os kibbutz israelenses, que durante um longo período de tempo foram realmente construídos sobre a base de princípios anarquistas, ou seja, autogestão, controle direto por parte dos trabalhadores, integração na agricultura, indústrias e serviços, e participação pessoal na autogestão. Tiveram, a meu modo de ver, um êxito extraordinário, qualquer que seja a medida que se lhes aplique.
Comunidad. Mas é de se supor que estavam, e continuam estando, enquadrados sob a égide de um Estado convencional que garantisse certas estabilidades básicas.
Chomsky. Bom, nem sempre o estiveram. Na realidade sua história é muito interessante. Até 1948, desde o princípio do século, estiveram enquadrados no marco de um enclave colonial. De fato, havia uma sociedade subterrânea, em grande medida cooperativa, que não era realmente parte do sistema de mandado britânico, mas que funcionava fora dele. Até certo ponto essa sociedade sobreviveu apesar do estabelecimento do Estado, se bem que depois acabou por ser integrada a ele. Consequentemente, a meu modo de ver, tem perdido boa parte de seu caráter socialista libertário nesse processo, e em outros processos que são típicos da história dessa região, que não é preciso mencionar.
Contudo, enquanto instituições sociais libertárias em funcionamento, creio que constituem um interessante modelo, que é extraordinariamente relevante para as sociedades industriais avançadas, de um modo ímpar, que não se dá em alguns dos outros exemplos que existiram no passado. Um bom exemplo de uma revolução anarquista realmente em grande escala, de fato o melhor exemplo, é o da revolução espanhola de 1936. Na maior parte da Espanha republicana houve uma revolução anarquista muito inspiradora, que se estendeu tanto à indústria como a áreas substanciais da agricultura, desenvolvidas de um modo que do lado de fora dá a impressão de que ocorreram expontâneamente. Se bem que, na realidade, se se examinar, suas raízes, se descobre que esteve baseada em umas três gerações de experimentos, pensamento e atividades que levaram as idéias anarquistas a partes muito extensas da população em uma sociedade em grande medida pré-industrial, se bem que não totalmente pré-industrial.
Novamente, teve muito êxito, tanto em suas medidas humanas, como nas medidas econômicas de qualquer tipo. Ou seja, a produção continuou com toda eficiência; os trabalhadores dos campos e das fábricas demonstraram que eram perfeitamente capazes de gerir seus próprios assuntos sem coerções de superioridade contrariamente ao que estavam dispostos a crer grupos de socialistas, comunistas, liberais e muitos outros e, de fato, não é possível dizer o que pudesse ocorrer. Aquela revolução anarquista foi simplesmente destruída pela força, mas durante o período em que contou com vida teve, a meu juízo, muto êxito e, como disse, foi de muitas formas, um testemunho muito inspirador da capacidade dos trabalhadores pobres para organizar-se e gerir seus próprios assuntos, com muito êxito, sem coerção nem controle alheio. É verdade que cabe perguntar até que ponto é relevante a experiência espanhola para uma sociedade industrial avançada.
Comunidad. É claro que a idéia fundamental do anarquismo é a primacia do indivíduo - não necessáriamente em condições de isolamento, mas com outros indivíduos - e a satisfação de sua liberdade. Isto, em certo sentido, não se parece muito aos ideais fundacionais dos Estados Unidos da América? Por que, hoje, essa experiência norte americana se converteu em uma coisa suspeita e até perigosa, principalmente quando a expressão "liberdade" é usada pelos pensadores anarquistas e socialistas libertários como você?
Chomsky. Permita-me dizer apenas que na realidade eu não me considero um pensador anarquista. Sou um "companheiro de viagem" derivativo, digamos. Os pensadores anarquistas referem-se constantemente à experiência norteamericana e ao ideal de democracia jeffersoniano muito favoravelmente. Como se sabe, o conceito de Thomas Jefferson (1743-1826, presidente dos EE.UU. de 1801 a 1809) é o de que o melhor governo é o que não governa em absoluto, é um conceito que tem sido repetido vez após vez pelos pensadores anarquistas nos tempos modernos.
Sem dúvida, o ideal da democracia jeffersoniana, fora o fato de que se tratava de uma sociedade que se servia da escravidão, se desenvolveu em um sistema essencialmente pré-capitalista, ou seja, em uma sociedade em que não havia controle monopólico algum, que não havia nenhum centro significativo de poder privado.
Na leitura, por exemplo, da crítica do Estado de Wilhelm van Humboldt (1767-1835) em 1792, texto libertário clássico significativo no qual sem dúvida se inspirou John Stuart Mill (1806-1873), se vê que não fala em absoluto da necessidade de resistir à concentração do poder privado, mas apenas à necessidade de resistir à invasão do poder coercitivo do Estado. É nele que se encontra também a tradição norte-americana mais temporã. Mas isso porque esse era o único tipo de poder que havia então. O que quero dizer é que Humboldt supõe que os indivíduos são mais ou menos equivalentes em seu poder privado, e que o único desequilíbrio de poder real se deve ao Estado autoritário centralizado, e que a liberdade individual tem que ser defendida contra essa intrusão - do Estado ou da Igreja. Isso é o que crê que deve ser resistido.
Enquanto fala, por exemplo, da necessidade que cada um tem de controlar sua vida criativa, quando lamenta a alienação no trabalho que produz a coerção ou comenta sobre a instrução ou a direção no labor que alguém leva a cabo, dá expressão a uma ideologia anti-estatal e antiteocrática. Esses mesmos princípios são perfeitamente aplicáveis à sociedade industrial capitalista que emergiu depois. Eu me inclino a pensar que Humboldt, pela sua consistência, acabaria se tornando um socialista libertário.
Comunidad. Esses precedentes não sugerem que haja algo inerentemente pre-industrial no que se refere a aplicabilidade dos ideais libertários, ou seja, que pressupõem necessáriamente uma sociedade mais ruralizada onde a tecnologia e a produção são relativamente simples e na qual a organização econômica tende a ser de pequena escala e local?
Chomsky. Bom, permita-me separar isso em duas perguntas: Uma, o que pensadores anarquistas acreditam, e dois, o que creio eu. No que se refere a reações anarquistas, há duas linhas de pensamento. Há uma tradição anarquista - na qual, digamos, Kropotkin poderia ser tomado como representante - que em boa medida tem o caráter que você descreve. Por outro lado, há outra tradição anarquista, que acaba por encarnar no anarco-sindicalismo, que simplesmente considera os ideais anarquistas como o modo próprio de organização de uma sociedade industrial avançada altamente complexa. Essa tendência do anarquismo se funde, ou pelo menos se interrelaciona muito estreitamente, com uma variedade de marxismo de esquerda, o tipo que se encontra na tradição luxemburguista, e que mais tarde é representada por teóricos marxistas como Anton Pannekoek (1873-1960), que elaborou toda uma teoria dos conselhos obreiros na indústria. Ele mesmo foi um homem de ciência , um astrônomo, parte integrante do mundo industrial.
Qual destas duas concepções é a correta? Quer dizer, os conceitos anarquistas pertencem à fase pré-industrial da sociedade humana ou é o anarquismo o modo racional de organização para uma sociedade industrial extraordinariamente avançada? Bom, eu creio que a última é verdadeira, ou seja, a meu ver a industrialização e os avanços da tecnologia oferecem possibilidades de autogestão em grande escala que simplesmente não existiam em um período anterior e , de fato, isto é precisamente o modo racional, para uma sociedade industrial complexa e avançada, uma sociedade na qual os trabalhadores podem muito bem converter-se em senhores de seus assuntos imediatos, a saber, da direção e controle do local de trabalho, mas também podem estar em posição de tomar as decisões substantivas primordiais no que diz respeito às instituições sociais, e no que se refere à planificação regional e supraregional.
Na atualidade, as instituições não lhes permitem ter controle da informação requerida, e a formação pertinente para entender estas coisas. Muito poderia estar automatizado. Grande parte do trabalho necessário requerido para manter um nível decente de vida social pode ser relegado às máquinas, pelo menos como princípio, o que significa que os humanos podem ter a liberdade de empreender o tipo de labor criativo que poderia não ter sido possível, objetivamente, nos estados mais contemporâneos da revolução industrial.
Comunidad. Voltando à questão sobre a economia em uma sociedade anarquista, poderia esboçar mais detalhadamente a constituição política de uma sociedade anarquista, tal como você a concebe, em condições modernas? Haveria partidos políticos, por exemplo? Que formas residuais de governos sobreviverão de fato?
Chomsky. Esboçarei o que, a meu juízo, representaria um certo consenso, consenso que a meu ver é essencialmente correto. Começando por modos de organização e controle imediatos, a saber, a organização e o controle do lugar de trabalho e da comunidade, cabe imaginar uma rede de conselhos de trabalhadores, e a um nível mais alto, representação que inclua várias fábricas, ou vários ramos de indústrias, ou de ofícios vários, até chegar a assembléias gerais de conselhos de trabalhadores, que podem ser de caráter regional e nacional e internacional. Deste outro ponto de vista cabe projetar um sistema de autogoverno baseado em assembléias locais, também neste caso federados regionalmente para tratar questões regionais, abarcando ofícios, indústrias, etc., portanto a nível de nação ou a um nível supranacional, através de uma federação, etc.
Pois bem, De que modo exato se desenvolveriam estas organizações e como se relacionariam entre si e a questão de serem ou não necessários os dois tipos, bom, estas são coisas que os teóricos anarquistas tem debatido muito, existem muitas propostas, e não me sinto capaz de tomar posição. São questões que terão de ser resolvidas.
Comunidad. Mas, não haveria, por exemplo, eleições nacionais e partidos políticos organizados de costa a costa, por exemplo? Porque se houvesse é de se supor que criariam uma espécie de autoridade central que seria contrária à idéia de anarquismo.
Chomsky. Não, a idéia do anarquismo é que a delegação de autoridade tem que ser a menor possível e que os participantes em alguns dos níveis de autogoverno deveriam ser diretamente responsáveis ante a comunidade orgânica na qual vivem. De fato, o ideal seria que a participação em um desses níveis de autogoverno fosse temporal, e mesmo durante o período em que ocorressem deveriam ser apenas parcial; ou seja, os membros de um conselho obreiro que por algum tempo estejam encarregados de tomar as decisões que outros não tem tempo de fazer, deverão também continuar executando seu trabalho em seu local de trabalho ou na comunidade do bairro ao qual pertencem.
No que se refere a partidos políticos: me inclino a pensar que uma sociedade anarquista não impediria a formação de partidos. De fato o anarquismo sempre se baseou na idéia de que todo sistema de normas impostas sobre a vida social consumirá e subestimará muitíssimo sua energia e vitalidade, e de que se pode desenvolver outro tipo de novas possibilidades de organizações voluntárias a esse nível mais alto da cultura material e intelectual. Mas creio que é justo dizer que na medida em que se sentisse que os partidos políticos são necessários, a organização anarquista da sociedade haverá falhado. Ou seja, deverá dar-se o caso, a meu ver, que onde haja participação direta na autogestão dos assuntos econômicos e sociais, as facções, os conflitos, as diferenças de interesse e de idéias e opiniões (que deveriam ser bem vindas e cultivadas) serão expressas em cada um de seus níveis. Não vejo como teriam que se dividir em dois, três ou mais partidos políticos. A meu ver, a complexidade do interesse humano e da vida humana não se divide dessa maneira. Os partidos representam basicamente interesses de classe, e as classes haverias sido eliminadas ou superadas em uma sociedade desse tipo.
Comunidad. Uma última pergunta sobre a organização política: Não há um perigo neste tipo de escalonamento de assembléias e estruturas quase-governamentais, sem eleições, de que um corpo central, ou o corpo que está em algum sentido no cume desta pirâmide, acabe por manter-se muito separado da base, e como terá que ter alguns poderes se se tratar de assuntos internacionais, por exemplo, e possa inclusive ter que possuir controle sobre as forças armadas e coisas desse tipo, não haveria o risco de responder menos democráticamente ao regime existente?
Chomsky. Uma característica muito importante para toda a sociedade libertária é impedir uma evolução nessa direção, que é uma evolução possível. As instituições teriam que ser desenhadas para impedir esse tipo de evolução, o que julgo ser perfeitamente possível. Eu estou convencido de que a participação no governo é uma tarefa de dedicação plena. Isto pode ser assim em uma sociedade irracional, onde surge todo tipo de problemas em função da natureza irracional das instituições. Mas em uma sociedade industrial avançada que funcione propriamente organizada, seguindo diretrizes libertárias, creio que a execução das decisões tomadas pelos corpos representativos não é uma tarefa de plena dedicação, mas uma tarefa em que devem se alternar os membros da comunidade e que, ademais, deve ser levada a cabo por indivíduos que em todo momento continuem participando em sua própria atividade direta (em sua ocupação ordinária).
É possível que o governo seja em si mesmo uma função paralela ao sistema produtivo. Se isto resulta ser assim, a meu ver, é uma questão empírica que tem que ser determinada, que não pode ser projetada a partir de elocubrações mentais-, mas se resulta ser assim, a meu modo de ver a proposta mais natural é que o governo seja organizado industrialmente, simplesmente como um dos ramos da indústria, com seus conselhos de trabalhadores, seu próprio autogoverno e sua própria participação em assembléias mais amplas.
Devo dizer que nos conselhos de trabalhadores que tem surgido expontaneamente aqui e ali como, por exemplo, na revolução húngara em 1956, isso foi mais ou menos o que sucedeu. Havia, pelo que me recordo, um conselho obreiro de empregados do Estado que estavam organizados simplesmente como outro ramo da indústria. Isso é perfeitamente possível, e deveria ou poderia constituir uma barreira contra a criação do tipo de burocracia coercitiva remota que os anarquistas tanto temem.
Comunidad. Suponhamos que haveria a necessidade de autodefesa, a um nível sumamente sofisticado, não vejo pela sua descrição como conseguir que esse sistema de conselhos representativos a vários níveis, de baixo para cima, não dedicados exclusivamente a isso, tivesse controle efetivo de uma organização tão poderosa e tão necessariamente sofisticada em sua técnica como, por exemplo, o Pentágono.
Chomsky. Bom, comecemos por aclarar a terminologia. Você se refere ao Pentágono, como se funcionasse como uma organização de defesa. Em 1947, quando foi promugada a lei de Defesa Nacional, no antigo Departamento da Guerra, o departamento norteamericano encarregado da guerra, que até então foi denominado honestamente: Departamento da Guerra, adota o nome de Departamento de Defesa. Até então eu era estudante e não me considerava muito sofisticado, mas sabia, como sabia todo mundo, que a mudança significava que qualquer que fosse a medida que os militares norteamericanos efetuaram na defesa no passado - e em parte havia sido assim - terminara; a denominação Departamento de Defesa significava que passava a ser um departamento de agressão e nada mais.
Comunidad. Seguindo o princípio de não crer nunca naquilo que é negado oficialmente.
Chomsky. Exato. Orwell captou a essência da natureza do Estado moderno. O Pentágono não é em nenhum sentido um departamento de defesa. Jamais defendeu os Estados Unidos de nada; serve apenas para levar a cabo agressões e, a meu ver, o povo norte-americano estaria muito melhor sem o Pentágono. Certamente não o necessita para a defesa. Sua intervenção nos assuntos internacionais não tem sido nunca positiva, nunca é uma palavra forte, mas creio que seria difícil encontrar um caso, certamente sua postura mais característica não tem sido a de prestar apoio à liberdade ou defender o povo e outras coisas deste tipo. Esse não é o papel da massiva organização militar controlado pelo Departamento de Defesa, mas que suas tarefas são duas, e as duas são completamente anti-sociais.
A primeira é preservar um sistema internacional em que possa florescer o que se pode denominar interesses norte-americanos, que essencialmente quer dizer interesses econômicos. E a segunda é uma tarefa econômica interna. Quero dizer que o Pentágono tem sido o mecanismo keynesiano primário através do qual o governo intervém para manter aquilo que se denomina, ridiculamente, a saúde da economia, numa base de economia de escassez.
Ora, essas funções servem ambas a certos interesses de fato, interesses dominantes, interesses da classe dominante da sociedade norte-americana. Mas não creio que sirvam ao interesse público em nenhum sentido e, a meu ver, esse sistema de produção de desperdício e destruição seria essencialmente desmantelado em uma sociedade libertária. Mas não se deve falar disto demasiado e superficialmente. Se é possível imaginar, digamos, uma revolução social nos Estados Unidos, muito difícil de ocorrer, a meu modo de ver, mas se chega a ter lugar, é difícil imaginar que pudesse existir um inimigo exterior plausível capaz de ameaçar a revolução social, não seríamos atacados por México ou por Cuba, digamos. Uma revolução norte-americana não requereria, a meu modo de ver, defesa contra a agressão. Por outro lado, se tivesse lugar uma revolução social libertária na Europa Ocidental, por exemplo, creio que o problema de defesa seria muito crítico.
Comunidad. A noção de que não deve haver autodefesa alguma não se ajusta à proposta anarquista, uma vez que os experimentos anarquistas que tiveram lugar na história demonstram que foram destruídos de fora para dentro.
Chomsky. Ah! mas creio que não é possível dar uma resposta geral a estas questões, mas que tem que ser contestadas especificamente, em relação com as condições objetivas e históricas específicas.
É que justamente para mim é um pouco difícil seguir sua descrição de controle democrático apropriado para este tipo de organização, já que para mim é difícil conceber generais controlando a si mesmos de uma maneira que pareça aceitável.
Por isso quero manifestar a complexidade da questão. Depende do país e da sociedade à qual nos referimos. Nos Estados Unidos se coloca um tipo de problema. Se tivesse lugar uma revolução social libertária na Europa, creio que o problema que você coloca seja muito sério, já que haveria um sério problema de defesa. Quer dizer, eu assumiria que se se conseguisse um certo nível de socialismo libertário na Europa Ocidental, haveria uma ameaça militar tanto por parte da União Soviética como dos Estados Unidos e o problema seria como combatê-la. Este foi o problema com que a revolução espanhola teve que se confrontar. Ouve intervenção militar direta por parte dos fascistas, por parte dos comunistas e por parte das democracias liberais, mais discretamente, como foi o caso da Inglaterra, e o problema de como é possível defender-se de um rival neste nível é um problema muito sério.
Sem dúvida, creio que temos que levar em consideração se exércitos regulares centralizados com armamentos tecnologicamente avançados constituem o modo mais efetivo de fazer isso, o que está longe de ser óbvio. Por exemplo, eu não creio que um exército centralizado da Europa Ocidental possa repelir por si mesmo um ataque russo ou norte-americano que tenha por objeto impedir o socialismo libertário, eu, francamente, esperaria um tipo de ataque a outro nível, talvez não militar, mas pelo menos econômico.
Comunidad. Mas, por outro lado tampouco uma multidão de camponeses armados de enxadas e foices...
Chomsky. Não estamos falando de camponeses, estamos falando de uma sociedade industrial urbana, muito sofisticada. E a meu modo de ver o melhor método de defesa seria a simpatia política que lograsse inspirar na classe trabalhadora dos países que participassem do ataque. Uma vez mais, não quero falar demasiado e superficialmente. Se as coisas chegarem a ponto de serem necessários tanques e exércitos, ou seja, a força bruta, creio que podemos estar bem seguros de que isso contribuiria para o possível fracasso ou ao menos para o declínio da força revolucionária, precisamente pelas razões que mencionamos anteriormente. Ou seja, creio que é extremamente difícil imaginar como poderia funcionar um exército centralizado efetivo sem tanques, aviões, armas estratégicas, etc. Se é isso que falta para estabelecer e manter estruturas revolucionárias, creio que é muito possível que elas nunca serão estabelecidas nem mantidas.
Comunidad. Se a defesa básica é a simpatia política, ou a simpatia pela organização política e econômica, talvez pudéssemos considerar isso mais detalhadamente.
Em um de seus ensaios está escrito: "Em uma sociedade decente, todo mundo teria a oportunidade de encontrar trabalho interessante, e cada pessoa contaria com a oportunidade mais plena possível para seu talento." Diante disso vem a pergunta: "E se alguém, para se satisfazer plenamente, exigisse algo mais, como recompensas externas em forma de riqueza e poder? E se alguém retrucasse que apenas aplicar seu talento ou dispor de um trabalho interessante e socialmente útil não é recompensa suficiente". Creio que este tipo de arrazoamento, certamente, é uma das coisas que atrai muita gente. Todavia falta explicar, a meu modo de ver, por que esse tipo de trabalho que consideraríamos interessante, atrativo e plenamente satisfatório viria a coincidir com o tipo de trabalho necessário que tem que ser levado a cabo, tudo isso sem desprezar o nível de vida a que a gente está acostumado e com aquele que teremos.
Chomsky. É verdade que há uma certa quantidade de trabalho que tem que ser levado a cabo.
Até que ponto esse trabalho tem que ser chato é uma questão pendente. Recordemos que a ciência, a tecnologia e os intelectuais não tem se dedicado como deveriam em examinar essa questão ou a superar o caráter oneroso e autodestrutivo do trabalho necessário à sociedade. Isto se deve a que sempre se tem assumido que há uma quantia substancial de escravos assalariados que o farão simplesmente porque do contrário morreriam de fome. Sem embargo, se se voltar a inteligência humana sobre a questão do que fazer para que o trabalho necessário à sociedade seja em si mesmo significativo, não sabemos qual seria a resposta. Eu me inclino a pensar que uma boa parte dele pode ser efetuado de maneira completamente tolerável. Inclusive, é um erro crer que o trabalho físico é necessariamente uma coisa desagradável. Muita gente, e entre elas me incluo, o faz para relaxar-se. Por exemplo, não faz muito tempo pus na cabeça plantar trinta e quatro árvores no quintal atrás de minha casa, o que quer dizer que tive que fazer trinta e quatro buracos na terra. Como pode supor, para mim, devido ao tipo de trabalho que dedico a maior parte do meu tempo, esse é um trabalho bastante pesado, mas tenho que reconhecer que o fiz com grande satisfação. Não teria tido satisfação se houvesse que me submeter a normas de trabalho, se estivesse subordinado a um supervisor, se me houvessem ordenado fazê-lo em um determinado tempo, etc. Por outro lado, se é uma tarefa efetuada apenas por puro interesse, ótimo, que se faça. E isso sem tecnologia alguma: sem ter que pensar em absoluto em como planejar o trabalho, etc., etc.
Comunidad. Sinto ter que dizer-lhe que pode haver o perigo de que este ponto de vista seja encarado como uma fantasmagórica romantização, concebida apenas por uma pequena elite de pessoas como professores, talvez jornalistas, etc. que casualmente se encontrem em uma privilegiadíssima situação onde ganham dinheiro fazendo o que em todo caso gostam de fazer.
Chomsky. A isso respondo com um enorme "se". Como disse antes, primeiro há que se perguntar onde o trabalho necessário à sociedade, ou seja, o trabalho requerido para manter o nível de vida que desejamos, tem que ser necessariamente chato e indesejável. Creio que a resposta é que, até certo ponto, temos que assumir que uma certa quantidade de trabalho desagradável e chato terá que ser efetuado, mas em muito menor proporção do que hoje. Nesse caso a resposta é muito simples. Esse trabalho tem que ser distribuído eqüitativamente entre as pessoas que sejam capazes de fazê-lo.
Comunidad. E todo mundo passa um certo número de meses por ano trabalhando na cadeia de produção de uma fábrica de automóveis e um certo número de meses recolhendo grãos e...
Chomsky. Logo, estas tarefas não são as tarefas nas quais a gente encontra oportunidades de auto realização. Eu não estou disposto a crer nisto literalmente. Quando vejo pessoas trabalhando, digamos, os artesãos e os artificies, por exemplo, os mecânicos: creio que se descobre com freqüência uma boa dose de orgulho na obra realizada. Creio que esse tipo de orgulho no trabalho bem feito, no trabalho complicado bem feito, porque leva-lo a cabo requer inteligência e raciocínio, especialmente quando se participa também na gerência da empresa, na determinação da maneira de levar a cabo o trabalho, de seu fim, do propósito para que tem de servir, do destino que se lhe dará, etc. Creio, repito, que tudo isso pode constituir uma atividade que produza satisfação e que leve em si mesmo sua recompensa, atividade que de fato requer perícia, o tipo de perícia que a gente tem satisfação em colocar em prática. Sem dúvida, agora, estou no terreno das hipóteses. Suponhamos que em determinado momento haja um resíduo de trabalho, qualquer que seja, que realmente ninguém queira fazer, muito bem, então eu diria que esse resíduo de trabalho tem que ser distribuído eqüitativamente, e fora disso todo mundo será totalmente livre para exercer seu talento como se lhe apeteça.
Comunidad. Finalmente, professor Chomsky, quais seriam as possibilidades de que cheguem a existir sociedades desse tipo nos países industriais mais importantes do mundo ocidental no próximo quarto de século?
Chomsky. Não creio que tenho sabedoria ou informação suficiente para fazer predições, contudo, creio que predições sobre questões tão mal entendidas provavelmente tendem a refletir mais a personalidade que o juízo. Mas creio que podemos, pelo menos, afirmar que existem óbvias tendências no capitalismo industrial no sentido da concentração do poder em impérios econômicos restringidos no Estado, que se está convertendo dia a dia em um Estado totalitário. Durante muito tempo essas tendências tem persistido, e não vejo nada que efetivamente as detenham. Creio que essas tendências continuarão, pois elas fazem parte do presente estancamento e declínio das instituições capitalistas.
A meu modo de ver a tendência ao totalitarismo estatal e à concentração econômica, que, naturalmente, estão vinculadas levará continuamente até a repulsão, a esforços por liberar-se pessoalmente e a esforços organizacionais pela liberdade social. E isso tomará as mais diversas formas. Em toda a Europa, de uma forma ou de outra, se está pedindo o que as vezes se denomina participação dos trabalhadores e as vezes até o controle total por parte dos trabalhadores. É verdade que a maioria desses esforços é mínima e creio que podem ser enganosos, de fato, podem até prejudicar os esforços da classe trabalhadora por libertar-se a si própria. Mas em parte responde a uma clara intuição e entendimento de que a coerção e a opressão, tanto as originárias do poder econômico privado como as originárias da burocracia do Estado, estão longe de ser uma característica necessária à vida humana. E a medida que continuam aumentando essas concentrações de poder e autoridade, veremos que aumentará também a aversão a essa coisas e os esforços por organizar-se e derrubá-las. Cedo ou tarde esses esforços serão coroados de êxito, espero.
(*Compilação de trabalho publicado nas revista "Comunidad" de Estocolmo)
Noam Chomsky, cientista de prestígio, também é conhecido por suas idéias libertárias e por sua permanente denúncia dos truculentos mecanismos de poder nos EE.UU. De destacada atuação contra a guerra no Vietnã, assumiu uma notável performance no repúdio aos planos da equipe de Reagan, sobretudo no desencadeamento da enlouquecida corrida armamentista. Atualmente aprofunda-se no estudo do que denomina globalização das políticas neoliberais.
Comunidad*. Professor Chomsky, vamos começar tratando de definir o que não é anarquismo; a palavra anarquia se deriva, antes de tudo, do grego, e significa literalmente ausência de governo. Mas anarquia ou anarquismo enquanto sistema de filosofia política não significa que, por exemplo, a partir de 1o. de janeiro do próximo ano, o governo tal como agora o entendemos, deixará súbitamente de existir, de modo que não haveria polícia, código de trânsito, leis, arrecadação de impostos, correio, etc. Anarquismo é mais complicado?
Chomsky. Bom, sim para algumas dessas perguntas, não para outras. Anarquismo pode perfeitamente significar que não haverá polícias, mas não creio que signifique que não haverá código de trânsito. De fato, devo dizer, para começar, que o termo anarquismo é usado para referir-se a uma ampla gama de idéias políticas, mas eu preferiria concebê-lo como a esquerda libertária, e deste ponto de vista o anarquismo pode ser concebido como uma espécie de socialismo voluntário, ou seja: como socialismo libertário, anarco-sindicalismo ou anarco comunismo, na tradição de, digamos, Bakunin e Kropotkin e outros autores. Seu ideal era uma forma de sociedade extraordinariamente organizada, mas uma sociedade organizada sobre a base de unidades orgânicas, de comunidades orgânicas. Ao propor isso pensavam, em geral, no local de trabalho e no bairro, e destas duas unidades básicas caberia derivar por meio de acordos de natureza federal, um tipo de organização social extraordinariamente integrada, que poderia ser de alcance nacional e inclusive internacional. Estas decisões poderíam ter uma amplitude substancial, mas teriam que ser tomadas por delegados que formam parte da comunidade orgânica a que pertencem, à qual voltam e na qual, de fato, vivem.
Comunidad. De modo que não significa necessariamente uma sociedade na qual, literalmente, não haja governo, mas uma sociedade em que a orígem primária da autoridade surge, por exemplo, de baixo para cima, e não de cima para baixo. A democracia representativa*, como a que temos nos Estados Unidos e na Grã Bretanha, seria considerada como uma forma de autoridade de cima para baixo, mesmo sendo, em última instância, os votantes que decidem.
Chomsky. A democracia representativa, como a dos Estados Unidos e Grã Bretanha, seria criticada por um anarquista desta escola por duas razões: Em primeiro lugar, porque há um monopólio de poder centralizado no Estado, e em segundo lugar, isto é de importância crítica, porque a democracia representativa está limitada à esfera política e não se estende de maneira séria na esfera econômica. Os anarquistas desta tradição tem sustentado sempre que o controle democrático da vida produtiva por parte de cada um constitui o próprio centro de toda libertação humana. Tal controle é o que existe de mais significativo na prática democrática. Ou seja, enquanto indivíduos forem compelidos a vender-se a si mesmos no mercado em que se situam os assalariados, enquanto seu papel na produção for simplesmente o de instrumentos auxiliares, existirão notáveis elementos de coerção e opressão que tornam a democracia muito limitada e, inclusive, insignificante.
Comunidad. Em têrmos históricos, há algum exemplo notável ou em escala substancial de sociedades que se aproximaram do ideal anarquista?
Chomsky. Há sociedades pequenas em número, que, a meu ver, o tem feito muito bem, e há uns poucos exemplos de revoluções libertárias em grande escala que foram em grande medida anarquistas em sua estrutura. Quanto às primeiras, sociedades pequenas que se estendem sobre um longo período de tempo, em minha opinião, o exemplo mais dramático talvez sejam os kibbutz israelenses, que durante um longo período de tempo foram realmente construídos sobre a base de princípios anarquistas, ou seja, autogestão, controle direto por parte dos trabalhadores, integração na agricultura, indústrias e serviços, e participação pessoal na autogestão. Tiveram, a meu modo de ver, um êxito extraordinário, qualquer que seja a medida que se lhes aplique.
Comunidad. Mas é de se supor que estavam, e continuam estando, enquadrados sob a égide de um Estado convencional que garantisse certas estabilidades básicas.
Chomsky. Bom, nem sempre o estiveram. Na realidade sua história é muito interessante. Até 1948, desde o princípio do século, estiveram enquadrados no marco de um enclave colonial. De fato, havia uma sociedade subterrânea, em grande medida cooperativa, que não era realmente parte do sistema de mandado britânico, mas que funcionava fora dele. Até certo ponto essa sociedade sobreviveu apesar do estabelecimento do Estado, se bem que depois acabou por ser integrada a ele. Consequentemente, a meu modo de ver, tem perdido boa parte de seu caráter socialista libertário nesse processo, e em outros processos que são típicos da história dessa região, que não é preciso mencionar.
Contudo, enquanto instituições sociais libertárias em funcionamento, creio que constituem um interessante modelo, que é extraordinariamente relevante para as sociedades industriais avançadas, de um modo ímpar, que não se dá em alguns dos outros exemplos que existiram no passado. Um bom exemplo de uma revolução anarquista realmente em grande escala, de fato o melhor exemplo, é o da revolução espanhola de 1936. Na maior parte da Espanha republicana houve uma revolução anarquista muito inspiradora, que se estendeu tanto à indústria como a áreas substanciais da agricultura, desenvolvidas de um modo que do lado de fora dá a impressão de que ocorreram expontâneamente. Se bem que, na realidade, se se examinar, suas raízes, se descobre que esteve baseada em umas três gerações de experimentos, pensamento e atividades que levaram as idéias anarquistas a partes muito extensas da população em uma sociedade em grande medida pré-industrial, se bem que não totalmente pré-industrial.
Novamente, teve muito êxito, tanto em suas medidas humanas, como nas medidas econômicas de qualquer tipo. Ou seja, a produção continuou com toda eficiência; os trabalhadores dos campos e das fábricas demonstraram que eram perfeitamente capazes de gerir seus próprios assuntos sem coerções de superioridade contrariamente ao que estavam dispostos a crer grupos de socialistas, comunistas, liberais e muitos outros e, de fato, não é possível dizer o que pudesse ocorrer. Aquela revolução anarquista foi simplesmente destruída pela força, mas durante o período em que contou com vida teve, a meu juízo, muto êxito e, como disse, foi de muitas formas, um testemunho muito inspirador da capacidade dos trabalhadores pobres para organizar-se e gerir seus próprios assuntos, com muito êxito, sem coerção nem controle alheio. É verdade que cabe perguntar até que ponto é relevante a experiência espanhola para uma sociedade industrial avançada.
Comunidad. É claro que a idéia fundamental do anarquismo é a primacia do indivíduo - não necessáriamente em condições de isolamento, mas com outros indivíduos - e a satisfação de sua liberdade. Isto, em certo sentido, não se parece muito aos ideais fundacionais dos Estados Unidos da América? Por que, hoje, essa experiência norte americana se converteu em uma coisa suspeita e até perigosa, principalmente quando a expressão "liberdade" é usada pelos pensadores anarquistas e socialistas libertários como você?
Chomsky. Permita-me dizer apenas que na realidade eu não me considero um pensador anarquista. Sou um "companheiro de viagem" derivativo, digamos. Os pensadores anarquistas referem-se constantemente à experiência norteamericana e ao ideal de democracia jeffersoniano muito favoravelmente. Como se sabe, o conceito de Thomas Jefferson (1743-1826, presidente dos EE.UU. de 1801 a 1809) é o de que o melhor governo é o que não governa em absoluto, é um conceito que tem sido repetido vez após vez pelos pensadores anarquistas nos tempos modernos.
Sem dúvida, o ideal da democracia jeffersoniana, fora o fato de que se tratava de uma sociedade que se servia da escravidão, se desenvolveu em um sistema essencialmente pré-capitalista, ou seja, em uma sociedade em que não havia controle monopólico algum, que não havia nenhum centro significativo de poder privado.
Na leitura, por exemplo, da crítica do Estado de Wilhelm van Humboldt (1767-1835) em 1792, texto libertário clássico significativo no qual sem dúvida se inspirou John Stuart Mill (1806-1873), se vê que não fala em absoluto da necessidade de resistir à concentração do poder privado, mas apenas à necessidade de resistir à invasão do poder coercitivo do Estado. É nele que se encontra também a tradição norte-americana mais temporã. Mas isso porque esse era o único tipo de poder que havia então. O que quero dizer é que Humboldt supõe que os indivíduos são mais ou menos equivalentes em seu poder privado, e que o único desequilíbrio de poder real se deve ao Estado autoritário centralizado, e que a liberdade individual tem que ser defendida contra essa intrusão - do Estado ou da Igreja. Isso é o que crê que deve ser resistido.
Enquanto fala, por exemplo, da necessidade que cada um tem de controlar sua vida criativa, quando lamenta a alienação no trabalho que produz a coerção ou comenta sobre a instrução ou a direção no labor que alguém leva a cabo, dá expressão a uma ideologia anti-estatal e antiteocrática. Esses mesmos princípios são perfeitamente aplicáveis à sociedade industrial capitalista que emergiu depois. Eu me inclino a pensar que Humboldt, pela sua consistência, acabaria se tornando um socialista libertário.
Comunidad. Esses precedentes não sugerem que haja algo inerentemente pre-industrial no que se refere a aplicabilidade dos ideais libertários, ou seja, que pressupõem necessáriamente uma sociedade mais ruralizada onde a tecnologia e a produção são relativamente simples e na qual a organização econômica tende a ser de pequena escala e local?
Chomsky. Bom, permita-me separar isso em duas perguntas: Uma, o que pensadores anarquistas acreditam, e dois, o que creio eu. No que se refere a reações anarquistas, há duas linhas de pensamento. Há uma tradição anarquista - na qual, digamos, Kropotkin poderia ser tomado como representante - que em boa medida tem o caráter que você descreve. Por outro lado, há outra tradição anarquista, que acaba por encarnar no anarco-sindicalismo, que simplesmente considera os ideais anarquistas como o modo próprio de organização de uma sociedade industrial avançada altamente complexa. Essa tendência do anarquismo se funde, ou pelo menos se interrelaciona muito estreitamente, com uma variedade de marxismo de esquerda, o tipo que se encontra na tradição luxemburguista, e que mais tarde é representada por teóricos marxistas como Anton Pannekoek (1873-1960), que elaborou toda uma teoria dos conselhos obreiros na indústria. Ele mesmo foi um homem de ciência , um astrônomo, parte integrante do mundo industrial.
Qual destas duas concepções é a correta? Quer dizer, os conceitos anarquistas pertencem à fase pré-industrial da sociedade humana ou é o anarquismo o modo racional de organização para uma sociedade industrial extraordinariamente avançada? Bom, eu creio que a última é verdadeira, ou seja, a meu ver a industrialização e os avanços da tecnologia oferecem possibilidades de autogestão em grande escala que simplesmente não existiam em um período anterior e , de fato, isto é precisamente o modo racional, para uma sociedade industrial complexa e avançada, uma sociedade na qual os trabalhadores podem muito bem converter-se em senhores de seus assuntos imediatos, a saber, da direção e controle do local de trabalho, mas também podem estar em posição de tomar as decisões substantivas primordiais no que diz respeito às instituições sociais, e no que se refere à planificação regional e supraregional.
Na atualidade, as instituições não lhes permitem ter controle da informação requerida, e a formação pertinente para entender estas coisas. Muito poderia estar automatizado. Grande parte do trabalho necessário requerido para manter um nível decente de vida social pode ser relegado às máquinas, pelo menos como princípio, o que significa que os humanos podem ter a liberdade de empreender o tipo de labor criativo que poderia não ter sido possível, objetivamente, nos estados mais contemporâneos da revolução industrial.
Comunidad. Voltando à questão sobre a economia em uma sociedade anarquista, poderia esboçar mais detalhadamente a constituição política de uma sociedade anarquista, tal como você a concebe, em condições modernas? Haveria partidos políticos, por exemplo? Que formas residuais de governos sobreviverão de fato?
Chomsky. Esboçarei o que, a meu juízo, representaria um certo consenso, consenso que a meu ver é essencialmente correto. Começando por modos de organização e controle imediatos, a saber, a organização e o controle do lugar de trabalho e da comunidade, cabe imaginar uma rede de conselhos de trabalhadores, e a um nível mais alto, representação que inclua várias fábricas, ou vários ramos de indústrias, ou de ofícios vários, até chegar a assembléias gerais de conselhos de trabalhadores, que podem ser de caráter regional e nacional e internacional. Deste outro ponto de vista cabe projetar um sistema de autogoverno baseado em assembléias locais, também neste caso federados regionalmente para tratar questões regionais, abarcando ofícios, indústrias, etc., portanto a nível de nação ou a um nível supranacional, através de uma federação, etc.
Pois bem, De que modo exato se desenvolveriam estas organizações e como se relacionariam entre si e a questão de serem ou não necessários os dois tipos, bom, estas são coisas que os teóricos anarquistas tem debatido muito, existem muitas propostas, e não me sinto capaz de tomar posição. São questões que terão de ser resolvidas.
Comunidad. Mas, não haveria, por exemplo, eleições nacionais e partidos políticos organizados de costa a costa, por exemplo? Porque se houvesse é de se supor que criariam uma espécie de autoridade central que seria contrária à idéia de anarquismo.
Chomsky. Não, a idéia do anarquismo é que a delegação de autoridade tem que ser a menor possível e que os participantes em alguns dos níveis de autogoverno deveriam ser diretamente responsáveis ante a comunidade orgânica na qual vivem. De fato, o ideal seria que a participação em um desses níveis de autogoverno fosse temporal, e mesmo durante o período em que ocorressem deveriam ser apenas parcial; ou seja, os membros de um conselho obreiro que por algum tempo estejam encarregados de tomar as decisões que outros não tem tempo de fazer, deverão também continuar executando seu trabalho em seu local de trabalho ou na comunidade do bairro ao qual pertencem.
No que se refere a partidos políticos: me inclino a pensar que uma sociedade anarquista não impediria a formação de partidos. De fato o anarquismo sempre se baseou na idéia de que todo sistema de normas impostas sobre a vida social consumirá e subestimará muitíssimo sua energia e vitalidade, e de que se pode desenvolver outro tipo de novas possibilidades de organizações voluntárias a esse nível mais alto da cultura material e intelectual. Mas creio que é justo dizer que na medida em que se sentisse que os partidos políticos são necessários, a organização anarquista da sociedade haverá falhado. Ou seja, deverá dar-se o caso, a meu ver, que onde haja participação direta na autogestão dos assuntos econômicos e sociais, as facções, os conflitos, as diferenças de interesse e de idéias e opiniões (que deveriam ser bem vindas e cultivadas) serão expressas em cada um de seus níveis. Não vejo como teriam que se dividir em dois, três ou mais partidos políticos. A meu ver, a complexidade do interesse humano e da vida humana não se divide dessa maneira. Os partidos representam basicamente interesses de classe, e as classes haverias sido eliminadas ou superadas em uma sociedade desse tipo.
Comunidad. Uma última pergunta sobre a organização política: Não há um perigo neste tipo de escalonamento de assembléias e estruturas quase-governamentais, sem eleições, de que um corpo central, ou o corpo que está em algum sentido no cume desta pirâmide, acabe por manter-se muito separado da base, e como terá que ter alguns poderes se se tratar de assuntos internacionais, por exemplo, e possa inclusive ter que possuir controle sobre as forças armadas e coisas desse tipo, não haveria o risco de responder menos democráticamente ao regime existente?
Chomsky. Uma característica muito importante para toda a sociedade libertária é impedir uma evolução nessa direção, que é uma evolução possível. As instituições teriam que ser desenhadas para impedir esse tipo de evolução, o que julgo ser perfeitamente possível. Eu estou convencido de que a participação no governo é uma tarefa de dedicação plena. Isto pode ser assim em uma sociedade irracional, onde surge todo tipo de problemas em função da natureza irracional das instituições. Mas em uma sociedade industrial avançada que funcione propriamente organizada, seguindo diretrizes libertárias, creio que a execução das decisões tomadas pelos corpos representativos não é uma tarefa de plena dedicação, mas uma tarefa em que devem se alternar os membros da comunidade e que, ademais, deve ser levada a cabo por indivíduos que em todo momento continuem participando em sua própria atividade direta (em sua ocupação ordinária).
É possível que o governo seja em si mesmo uma função paralela ao sistema produtivo. Se isto resulta ser assim, a meu ver, é uma questão empírica que tem que ser determinada, que não pode ser projetada a partir de elocubrações mentais-, mas se resulta ser assim, a meu modo de ver a proposta mais natural é que o governo seja organizado industrialmente, simplesmente como um dos ramos da indústria, com seus conselhos de trabalhadores, seu próprio autogoverno e sua própria participação em assembléias mais amplas.
Devo dizer que nos conselhos de trabalhadores que tem surgido expontaneamente aqui e ali como, por exemplo, na revolução húngara em 1956, isso foi mais ou menos o que sucedeu. Havia, pelo que me recordo, um conselho obreiro de empregados do Estado que estavam organizados simplesmente como outro ramo da indústria. Isso é perfeitamente possível, e deveria ou poderia constituir uma barreira contra a criação do tipo de burocracia coercitiva remota que os anarquistas tanto temem.
Comunidad. Suponhamos que haveria a necessidade de autodefesa, a um nível sumamente sofisticado, não vejo pela sua descrição como conseguir que esse sistema de conselhos representativos a vários níveis, de baixo para cima, não dedicados exclusivamente a isso, tivesse controle efetivo de uma organização tão poderosa e tão necessariamente sofisticada em sua técnica como, por exemplo, o Pentágono.
Chomsky. Bom, comecemos por aclarar a terminologia. Você se refere ao Pentágono, como se funcionasse como uma organização de defesa. Em 1947, quando foi promugada a lei de Defesa Nacional, no antigo Departamento da Guerra, o departamento norteamericano encarregado da guerra, que até então foi denominado honestamente: Departamento da Guerra, adota o nome de Departamento de Defesa. Até então eu era estudante e não me considerava muito sofisticado, mas sabia, como sabia todo mundo, que a mudança significava que qualquer que fosse a medida que os militares norteamericanos efetuaram na defesa no passado - e em parte havia sido assim - terminara; a denominação Departamento de Defesa significava que passava a ser um departamento de agressão e nada mais.
Comunidad. Seguindo o princípio de não crer nunca naquilo que é negado oficialmente.
Chomsky. Exato. Orwell captou a essência da natureza do Estado moderno. O Pentágono não é em nenhum sentido um departamento de defesa. Jamais defendeu os Estados Unidos de nada; serve apenas para levar a cabo agressões e, a meu ver, o povo norte-americano estaria muito melhor sem o Pentágono. Certamente não o necessita para a defesa. Sua intervenção nos assuntos internacionais não tem sido nunca positiva, nunca é uma palavra forte, mas creio que seria difícil encontrar um caso, certamente sua postura mais característica não tem sido a de prestar apoio à liberdade ou defender o povo e outras coisas deste tipo. Esse não é o papel da massiva organização militar controlado pelo Departamento de Defesa, mas que suas tarefas são duas, e as duas são completamente anti-sociais.
A primeira é preservar um sistema internacional em que possa florescer o que se pode denominar interesses norte-americanos, que essencialmente quer dizer interesses econômicos. E a segunda é uma tarefa econômica interna. Quero dizer que o Pentágono tem sido o mecanismo keynesiano primário através do qual o governo intervém para manter aquilo que se denomina, ridiculamente, a saúde da economia, numa base de economia de escassez.
Ora, essas funções servem ambas a certos interesses de fato, interesses dominantes, interesses da classe dominante da sociedade norte-americana. Mas não creio que sirvam ao interesse público em nenhum sentido e, a meu ver, esse sistema de produção de desperdício e destruição seria essencialmente desmantelado em uma sociedade libertária. Mas não se deve falar disto demasiado e superficialmente. Se é possível imaginar, digamos, uma revolução social nos Estados Unidos, muito difícil de ocorrer, a meu modo de ver, mas se chega a ter lugar, é difícil imaginar que pudesse existir um inimigo exterior plausível capaz de ameaçar a revolução social, não seríamos atacados por México ou por Cuba, digamos. Uma revolução norte-americana não requereria, a meu modo de ver, defesa contra a agressão. Por outro lado, se tivesse lugar uma revolução social libertária na Europa Ocidental, por exemplo, creio que o problema de defesa seria muito crítico.
Comunidad. A noção de que não deve haver autodefesa alguma não se ajusta à proposta anarquista, uma vez que os experimentos anarquistas que tiveram lugar na história demonstram que foram destruídos de fora para dentro.
Chomsky. Ah! mas creio que não é possível dar uma resposta geral a estas questões, mas que tem que ser contestadas especificamente, em relação com as condições objetivas e históricas específicas.
É que justamente para mim é um pouco difícil seguir sua descrição de controle democrático apropriado para este tipo de organização, já que para mim é difícil conceber generais controlando a si mesmos de uma maneira que pareça aceitável.
Por isso quero manifestar a complexidade da questão. Depende do país e da sociedade à qual nos referimos. Nos Estados Unidos se coloca um tipo de problema. Se tivesse lugar uma revolução social libertária na Europa, creio que o problema que você coloca seja muito sério, já que haveria um sério problema de defesa. Quer dizer, eu assumiria que se se conseguisse um certo nível de socialismo libertário na Europa Ocidental, haveria uma ameaça militar tanto por parte da União Soviética como dos Estados Unidos e o problema seria como combatê-la. Este foi o problema com que a revolução espanhola teve que se confrontar. Ouve intervenção militar direta por parte dos fascistas, por parte dos comunistas e por parte das democracias liberais, mais discretamente, como foi o caso da Inglaterra, e o problema de como é possível defender-se de um rival neste nível é um problema muito sério.
Sem dúvida, creio que temos que levar em consideração se exércitos regulares centralizados com armamentos tecnologicamente avançados constituem o modo mais efetivo de fazer isso, o que está longe de ser óbvio. Por exemplo, eu não creio que um exército centralizado da Europa Ocidental possa repelir por si mesmo um ataque russo ou norte-americano que tenha por objeto impedir o socialismo libertário, eu, francamente, esperaria um tipo de ataque a outro nível, talvez não militar, mas pelo menos econômico.
Comunidad. Mas, por outro lado tampouco uma multidão de camponeses armados de enxadas e foices...
Chomsky. Não estamos falando de camponeses, estamos falando de uma sociedade industrial urbana, muito sofisticada. E a meu modo de ver o melhor método de defesa seria a simpatia política que lograsse inspirar na classe trabalhadora dos países que participassem do ataque. Uma vez mais, não quero falar demasiado e superficialmente. Se as coisas chegarem a ponto de serem necessários tanques e exércitos, ou seja, a força bruta, creio que podemos estar bem seguros de que isso contribuiria para o possível fracasso ou ao menos para o declínio da força revolucionária, precisamente pelas razões que mencionamos anteriormente. Ou seja, creio que é extremamente difícil imaginar como poderia funcionar um exército centralizado efetivo sem tanques, aviões, armas estratégicas, etc. Se é isso que falta para estabelecer e manter estruturas revolucionárias, creio que é muito possível que elas nunca serão estabelecidas nem mantidas.
Comunidad. Se a defesa básica é a simpatia política, ou a simpatia pela organização política e econômica, talvez pudéssemos considerar isso mais detalhadamente.
Em um de seus ensaios está escrito: "Em uma sociedade decente, todo mundo teria a oportunidade de encontrar trabalho interessante, e cada pessoa contaria com a oportunidade mais plena possível para seu talento." Diante disso vem a pergunta: "E se alguém, para se satisfazer plenamente, exigisse algo mais, como recompensas externas em forma de riqueza e poder? E se alguém retrucasse que apenas aplicar seu talento ou dispor de um trabalho interessante e socialmente útil não é recompensa suficiente". Creio que este tipo de arrazoamento, certamente, é uma das coisas que atrai muita gente. Todavia falta explicar, a meu modo de ver, por que esse tipo de trabalho que consideraríamos interessante, atrativo e plenamente satisfatório viria a coincidir com o tipo de trabalho necessário que tem que ser levado a cabo, tudo isso sem desprezar o nível de vida a que a gente está acostumado e com aquele que teremos.
Chomsky. É verdade que há uma certa quantidade de trabalho que tem que ser levado a cabo.
Até que ponto esse trabalho tem que ser chato é uma questão pendente. Recordemos que a ciência, a tecnologia e os intelectuais não tem se dedicado como deveriam em examinar essa questão ou a superar o caráter oneroso e autodestrutivo do trabalho necessário à sociedade. Isto se deve a que sempre se tem assumido que há uma quantia substancial de escravos assalariados que o farão simplesmente porque do contrário morreriam de fome. Sem embargo, se se voltar a inteligência humana sobre a questão do que fazer para que o trabalho necessário à sociedade seja em si mesmo significativo, não sabemos qual seria a resposta. Eu me inclino a pensar que uma boa parte dele pode ser efetuado de maneira completamente tolerável. Inclusive, é um erro crer que o trabalho físico é necessariamente uma coisa desagradável. Muita gente, e entre elas me incluo, o faz para relaxar-se. Por exemplo, não faz muito tempo pus na cabeça plantar trinta e quatro árvores no quintal atrás de minha casa, o que quer dizer que tive que fazer trinta e quatro buracos na terra. Como pode supor, para mim, devido ao tipo de trabalho que dedico a maior parte do meu tempo, esse é um trabalho bastante pesado, mas tenho que reconhecer que o fiz com grande satisfação. Não teria tido satisfação se houvesse que me submeter a normas de trabalho, se estivesse subordinado a um supervisor, se me houvessem ordenado fazê-lo em um determinado tempo, etc. Por outro lado, se é uma tarefa efetuada apenas por puro interesse, ótimo, que se faça. E isso sem tecnologia alguma: sem ter que pensar em absoluto em como planejar o trabalho, etc., etc.
Comunidad. Sinto ter que dizer-lhe que pode haver o perigo de que este ponto de vista seja encarado como uma fantasmagórica romantização, concebida apenas por uma pequena elite de pessoas como professores, talvez jornalistas, etc. que casualmente se encontrem em uma privilegiadíssima situação onde ganham dinheiro fazendo o que em todo caso gostam de fazer.
Chomsky. A isso respondo com um enorme "se". Como disse antes, primeiro há que se perguntar onde o trabalho necessário à sociedade, ou seja, o trabalho requerido para manter o nível de vida que desejamos, tem que ser necessariamente chato e indesejável. Creio que a resposta é que, até certo ponto, temos que assumir que uma certa quantidade de trabalho desagradável e chato terá que ser efetuado, mas em muito menor proporção do que hoje. Nesse caso a resposta é muito simples. Esse trabalho tem que ser distribuído eqüitativamente entre as pessoas que sejam capazes de fazê-lo.
Comunidad. E todo mundo passa um certo número de meses por ano trabalhando na cadeia de produção de uma fábrica de automóveis e um certo número de meses recolhendo grãos e...
Chomsky. Logo, estas tarefas não são as tarefas nas quais a gente encontra oportunidades de auto realização. Eu não estou disposto a crer nisto literalmente. Quando vejo pessoas trabalhando, digamos, os artesãos e os artificies, por exemplo, os mecânicos: creio que se descobre com freqüência uma boa dose de orgulho na obra realizada. Creio que esse tipo de orgulho no trabalho bem feito, no trabalho complicado bem feito, porque leva-lo a cabo requer inteligência e raciocínio, especialmente quando se participa também na gerência da empresa, na determinação da maneira de levar a cabo o trabalho, de seu fim, do propósito para que tem de servir, do destino que se lhe dará, etc. Creio, repito, que tudo isso pode constituir uma atividade que produza satisfação e que leve em si mesmo sua recompensa, atividade que de fato requer perícia, o tipo de perícia que a gente tem satisfação em colocar em prática. Sem dúvida, agora, estou no terreno das hipóteses. Suponhamos que em determinado momento haja um resíduo de trabalho, qualquer que seja, que realmente ninguém queira fazer, muito bem, então eu diria que esse resíduo de trabalho tem que ser distribuído eqüitativamente, e fora disso todo mundo será totalmente livre para exercer seu talento como se lhe apeteça.
Comunidad. Finalmente, professor Chomsky, quais seriam as possibilidades de que cheguem a existir sociedades desse tipo nos países industriais mais importantes do mundo ocidental no próximo quarto de século?
Chomsky. Não creio que tenho sabedoria ou informação suficiente para fazer predições, contudo, creio que predições sobre questões tão mal entendidas provavelmente tendem a refletir mais a personalidade que o juízo. Mas creio que podemos, pelo menos, afirmar que existem óbvias tendências no capitalismo industrial no sentido da concentração do poder em impérios econômicos restringidos no Estado, que se está convertendo dia a dia em um Estado totalitário. Durante muito tempo essas tendências tem persistido, e não vejo nada que efetivamente as detenham. Creio que essas tendências continuarão, pois elas fazem parte do presente estancamento e declínio das instituições capitalistas.
A meu modo de ver a tendência ao totalitarismo estatal e à concentração econômica, que, naturalmente, estão vinculadas levará continuamente até a repulsão, a esforços por liberar-se pessoalmente e a esforços organizacionais pela liberdade social. E isso tomará as mais diversas formas. Em toda a Europa, de uma forma ou de outra, se está pedindo o que as vezes se denomina participação dos trabalhadores e as vezes até o controle total por parte dos trabalhadores. É verdade que a maioria desses esforços é mínima e creio que podem ser enganosos, de fato, podem até prejudicar os esforços da classe trabalhadora por libertar-se a si própria. Mas em parte responde a uma clara intuição e entendimento de que a coerção e a opressão, tanto as originárias do poder econômico privado como as originárias da burocracia do Estado, estão longe de ser uma característica necessária à vida humana. E a medida que continuam aumentando essas concentrações de poder e autoridade, veremos que aumentará também a aversão a essa coisas e os esforços por organizar-se e derrubá-las. Cedo ou tarde esses esforços serão coroados de êxito, espero.
(*Compilação de trabalho publicado nas revista "Comunidad" de Estocolmo)
domingo, 17 de abril de 2011
Carajás 15 anos, o massacre presente
Aniversário da chacina lembra a necessidade de punição aos assassinos e de tratamento e indenização às vítimas.
Ao andar pelas ruas da vila do assentamento 17 de abril em Eldorado dos Carajás, ainda escuta-se muitas histórias sobre a marcha que culminou no massacre da curva do S, na rodovia PA 150, em Eldorado do Carajás, há 15 anos. Os sobreviventes ainda têm dúvidas quanto ao número oficial de mortos divulgados pelo Estado, pois há crianças, homens e mulheres desaparecidos que não estavam na lista dos mortos e, tampouco, foram encontrados depois. As marcas do massacre persistem tanto na simbologia da conquista das cinco fazendas, parte das 15 existentes no complexo Macaxeira, quanto no corpo dos mutilados ou na cabeça de muitos que viveram aquele 17 de abril de 1996.
“Foi a tarde mais sangrenta da minha vida”, recorda Haroldo Jesus de Oliveira, o primeiro sobrevivente a conversar com a reportagem. Quem o vê trabalhando atencioso e calmo na Casa Digital 17 de abril, monitorando jovens e crianças no manuseio da internet, não imagina as recordações que ele guarda. “Acordamos felizes naquela manhã do dia 17, pois o Coronel Pantoja, junto a uma comissão, do então governador Almir Gabriel (PSDB), disse que daria os ônibus para que fossemos até Belém, onde pressionaríamos o governo para desapropriação dessas terras. Inclusive, já tínhamos desobstruído a rodovia na noite anterior, já que esse era nosso acordo, e preparado a alimentação para as famílias que participavam da marcha”, diz Oliveira.
Onze horas da manhã venceu o prazo do acordo, e em vez de chegar os ônibus, que levariam cerca das 1,8 mil famílias da marcha, chegou o batalhão da Polícia Militar, o que fez com que as famílias retomassem a estrada. “Eu me lembro como se fosse hoje. Estávamos de prato na mão, almoçando, sob uma chuvinha leve, um sereninho bom. Muitos homens começaram a descer dos ônibus da polícia e montar o acampamento, por volta de três da tarde, e ficaram cerca de 90 minutos preparando-se, como se fossem para uma guerra”, relata Oliveira.
Depois de estabelecidos os policiais no local, a mesma comissão disse que não providenciaria os ônibus e que tinha ordens do governador para retirar as famílias da via. “Nós nunca pensamos que poderia acontecer aquilo. Perto das 17 horas, começaram a jogar bombas de efeito moral contra as pessoas e a atirar no chão. Pessoas tomavam tiros nas pernas e caiam. Mas aqueles que iam para cima, eles atiravam no peito mesmo”. A carnificina começou naquele momento e pelas contas de Oliveira durou cerca de cinquenta minutos.
“Tive que sair pelo chão me arrastando para o miolo de gente junto à água da chuva, que se misturava com sangue, tinha muita gente no asfalto ferida, gritando, chorando...”, lembra emocionado Oliveira.
Premeditado
Amanhece no assentamento 17 de abril e, enquanto, muitos agricultores já estão na roça, as 7h, começa a entrada das crianças na escola que leva o nome de Oziel Alves Pereira, sem-terra de 17 anos espancado até a morte no hospital pelos policiais, por gritar palavras de ordem do MST, na noite do dia 17 de abril, em Curianópolis (PA), para onde foram levados os feridos.
Zé Carlos, companheiro de linha de frente junto a Oziel no dia do massacre, confere a mochila do filho na frente da escola, passa algumas recomendações e o beija ao se despedir. Sobre o dia da chacina, que lhe custou uma bala alojada na cabeça e a perda de um olho, Zé Carlos é enfático: “utilizaram-se de táticas de guerra”. Zé lembra que um caminhão que estava parado na estrada, por causa do bloqueio, foi oferecido às famílias como proteção. “O motorista chegou e disse: ‘vou atravessar esse caminhão na pista para ajudar vocês’. Mas estranhamente toda a ação policial iniciou-se atrás desse veículo, sendo o escudo principal deles, tapando nossa visão. Foram os policiais que pediram”, garante.
Zé conta que os policiais vinham do sentido de Parauapebas e Marabá, ambas cidades paraenses interligadas pela rodovia, além dos que saíam do meio da mata dos dois lados da pista. “Nos cercaram para matar mesmo, pois vinham de todas as direções atirando”. Segundo Zé, é difícil para quem esteve no dia aceitar o número de apenas 21 mortos ditos pelo Estado.“Isso é brincadeira. Morreu muita gente, entre homens, mulheres e crianças. Vi muita gente morta, não pode ser, Tenho até medo de falar, deixa isso para lá. Mas garanto que foi muito mais”.
Ao apagar das luzes
Como se um espetáculo tivesse acabado, ao anoitecer no dia 17 de abril, as luzes do município de Eldorado do Carajás foram apagadas e seu cenário de morte, desmontado. Essa é a sensação que teve a jovem Ozenira Paula da Silva, com 18 anos na época do acontecido. “Apagaram as luzes para desmontar o que tinham feito, para limparem a via. Jogavam corpos e mais corpos em caçambas de caminhão, que tomavam rumos diferentes”.
Após os primeiros disparos, Ozenira só teve tempo de pegar os seus três filhos, todos com menos de cinco anos, e correr para a mata ao lado, percebendo momentos depois que tinha sido baleada na perna esquerda, na altura da coxa. “Tinha muita gente escondida na mata, próximo às margens da rodovia e foi justamente essas pessoas que viram muitos corpos sendo desviados para fora do caminho do Instituto Médico Legal (IML), de Marabá, para onde eram levados os mortos”.
Ozenira diz que algo lhe intriga até hoje. “Depois que terminou a matança, uma criança branquinha de uns dois anos foi achada na escuridão do mato, aos prantos, por uma mulher que procurava seus familiares. Essa mulher a recolheu. Sei que essa criança viveu com ela bastante tempo em Curianópolis, mas depois perdi o contato”.
Onde estariam os pais da criança naquela noite? Ozenira responde: “Não tenho como provar, mas tenho quase certeza que estavam em algum caminhão de remoção de cadáveres”, finaliza.
O massacre continua
Poucos mutilados receberam seus direitos de indenização e até hoje, quinze anos depois, muitos nem recebem a pensão mensal de R$346. Ozenira é uma delas. “Fui atendida no hospital apenas no dia do acontecido, depois nunca mais tive atendimento médico, tenho dias de dores horríveis e outros de dormência na perna”, conta.
Já Zé, hoje aos 32 anos, foi um dos únicos a receber, em 2008, uma indenização de R$ 85 mil reais, mais a pensão mensal no valor citado acima. Hoje vive do que seus irmãos plantam em seu lote, já que tem dificuldades para trabalhar em função das sequelas do tiro na cabeça.
Mas, um caso em especial entre os mutilados chama a atenção. Mirson Pereira, um dos únicos que conseguiu uma cirurgia, no Hospital Regional de Marabá, para retirar uma bala alojada na perna esquerda. “Pensei que seria o fim das dores, mas quando voltei da sala de cirurgia o médico disse que havia errado e feito o corte na perna errada, disse que no outro dia realizaria o procedimento na perna certa, mas desisti, fiquei com medo e saí do hospital”. Pereira continua com a bala na perna e ainda aguarda sua indenização.
O descaso do Estado brasileiro em relação ao massacre de Eldorado dos Carajás já gerou contra o governo um processo, em 1998, na Corte Interamericana de Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos, feita pelo Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL). “O governo brasileiro agiu de duas formas quando foi notificado pela entidade internacional. Primeiramente, culpou os próprios marchantes pelo ocorrido e, num segundo momento, por força da opinião pública, disse que já fazia coisas no assentamento, o que compensava o ocorrido”, explica Viviam Holzhacker, advogada assistente da CEJIL, que acompanha o caso.
No entanto, por pressão internacional, a advogada diz que o governo brasileiro aderiu a um processo, recentemente, de buscar acordo com os mutilados. “São feitas propostas de ambos os lados até chegar a um acordo. Deve levar mais uns cinco anos para ser resolvido o caso de todos”, explica.
Diante deste imbróglio, na ausência de um tratamento médico adequado que cuide do corpo e da mente dos participantes da marcha, Índio, um dos mutilados, com duas balas alojadas na perna esquerda desabafa: “Aconteceu o massacre em 1996. Mas ele terminou? Não! Pois esse grupo [do assentamento] ficou apenas porque o Estado não deu conta de matar no dia. Ficamos para contar a história, sofrer e ir morrendo aos poucos num massacre diário, que só terminará por completo com nossa morte”.
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Ao andar pelas ruas da vila do assentamento 17 de abril em Eldorado dos Carajás, ainda escuta-se muitas histórias sobre a marcha que culminou no massacre da curva do S, na rodovia PA 150, em Eldorado do Carajás, há 15 anos. Os sobreviventes ainda têm dúvidas quanto ao número oficial de mortos divulgados pelo Estado, pois há crianças, homens e mulheres desaparecidos que não estavam na lista dos mortos e, tampouco, foram encontrados depois. As marcas do massacre persistem tanto na simbologia da conquista das cinco fazendas, parte das 15 existentes no complexo Macaxeira, quanto no corpo dos mutilados ou na cabeça de muitos que viveram aquele 17 de abril de 1996.
“Foi a tarde mais sangrenta da minha vida”, recorda Haroldo Jesus de Oliveira, o primeiro sobrevivente a conversar com a reportagem. Quem o vê trabalhando atencioso e calmo na Casa Digital 17 de abril, monitorando jovens e crianças no manuseio da internet, não imagina as recordações que ele guarda. “Acordamos felizes naquela manhã do dia 17, pois o Coronel Pantoja, junto a uma comissão, do então governador Almir Gabriel (PSDB), disse que daria os ônibus para que fossemos até Belém, onde pressionaríamos o governo para desapropriação dessas terras. Inclusive, já tínhamos desobstruído a rodovia na noite anterior, já que esse era nosso acordo, e preparado a alimentação para as famílias que participavam da marcha”, diz Oliveira.
Onze horas da manhã venceu o prazo do acordo, e em vez de chegar os ônibus, que levariam cerca das 1,8 mil famílias da marcha, chegou o batalhão da Polícia Militar, o que fez com que as famílias retomassem a estrada. “Eu me lembro como se fosse hoje. Estávamos de prato na mão, almoçando, sob uma chuvinha leve, um sereninho bom. Muitos homens começaram a descer dos ônibus da polícia e montar o acampamento, por volta de três da tarde, e ficaram cerca de 90 minutos preparando-se, como se fossem para uma guerra”, relata Oliveira.
Depois de estabelecidos os policiais no local, a mesma comissão disse que não providenciaria os ônibus e que tinha ordens do governador para retirar as famílias da via. “Nós nunca pensamos que poderia acontecer aquilo. Perto das 17 horas, começaram a jogar bombas de efeito moral contra as pessoas e a atirar no chão. Pessoas tomavam tiros nas pernas e caiam. Mas aqueles que iam para cima, eles atiravam no peito mesmo”. A carnificina começou naquele momento e pelas contas de Oliveira durou cerca de cinquenta minutos.
“Tive que sair pelo chão me arrastando para o miolo de gente junto à água da chuva, que se misturava com sangue, tinha muita gente no asfalto ferida, gritando, chorando...”, lembra emocionado Oliveira.
Premeditado
Amanhece no assentamento 17 de abril e, enquanto, muitos agricultores já estão na roça, as 7h, começa a entrada das crianças na escola que leva o nome de Oziel Alves Pereira, sem-terra de 17 anos espancado até a morte no hospital pelos policiais, por gritar palavras de ordem do MST, na noite do dia 17 de abril, em Curianópolis (PA), para onde foram levados os feridos.
Zé Carlos, companheiro de linha de frente junto a Oziel no dia do massacre, confere a mochila do filho na frente da escola, passa algumas recomendações e o beija ao se despedir. Sobre o dia da chacina, que lhe custou uma bala alojada na cabeça e a perda de um olho, Zé Carlos é enfático: “utilizaram-se de táticas de guerra”. Zé lembra que um caminhão que estava parado na estrada, por causa do bloqueio, foi oferecido às famílias como proteção. “O motorista chegou e disse: ‘vou atravessar esse caminhão na pista para ajudar vocês’. Mas estranhamente toda a ação policial iniciou-se atrás desse veículo, sendo o escudo principal deles, tapando nossa visão. Foram os policiais que pediram”, garante.
Zé conta que os policiais vinham do sentido de Parauapebas e Marabá, ambas cidades paraenses interligadas pela rodovia, além dos que saíam do meio da mata dos dois lados da pista. “Nos cercaram para matar mesmo, pois vinham de todas as direções atirando”. Segundo Zé, é difícil para quem esteve no dia aceitar o número de apenas 21 mortos ditos pelo Estado.“Isso é brincadeira. Morreu muita gente, entre homens, mulheres e crianças. Vi muita gente morta, não pode ser, Tenho até medo de falar, deixa isso para lá. Mas garanto que foi muito mais”.
Ao apagar das luzes
Como se um espetáculo tivesse acabado, ao anoitecer no dia 17 de abril, as luzes do município de Eldorado do Carajás foram apagadas e seu cenário de morte, desmontado. Essa é a sensação que teve a jovem Ozenira Paula da Silva, com 18 anos na época do acontecido. “Apagaram as luzes para desmontar o que tinham feito, para limparem a via. Jogavam corpos e mais corpos em caçambas de caminhão, que tomavam rumos diferentes”.
Após os primeiros disparos, Ozenira só teve tempo de pegar os seus três filhos, todos com menos de cinco anos, e correr para a mata ao lado, percebendo momentos depois que tinha sido baleada na perna esquerda, na altura da coxa. “Tinha muita gente escondida na mata, próximo às margens da rodovia e foi justamente essas pessoas que viram muitos corpos sendo desviados para fora do caminho do Instituto Médico Legal (IML), de Marabá, para onde eram levados os mortos”.
Ozenira diz que algo lhe intriga até hoje. “Depois que terminou a matança, uma criança branquinha de uns dois anos foi achada na escuridão do mato, aos prantos, por uma mulher que procurava seus familiares. Essa mulher a recolheu. Sei que essa criança viveu com ela bastante tempo em Curianópolis, mas depois perdi o contato”.
Onde estariam os pais da criança naquela noite? Ozenira responde: “Não tenho como provar, mas tenho quase certeza que estavam em algum caminhão de remoção de cadáveres”, finaliza.
O massacre continua
Poucos mutilados receberam seus direitos de indenização e até hoje, quinze anos depois, muitos nem recebem a pensão mensal de R$346. Ozenira é uma delas. “Fui atendida no hospital apenas no dia do acontecido, depois nunca mais tive atendimento médico, tenho dias de dores horríveis e outros de dormência na perna”, conta.
Já Zé, hoje aos 32 anos, foi um dos únicos a receber, em 2008, uma indenização de R$ 85 mil reais, mais a pensão mensal no valor citado acima. Hoje vive do que seus irmãos plantam em seu lote, já que tem dificuldades para trabalhar em função das sequelas do tiro na cabeça.
Mas, um caso em especial entre os mutilados chama a atenção. Mirson Pereira, um dos únicos que conseguiu uma cirurgia, no Hospital Regional de Marabá, para retirar uma bala alojada na perna esquerda. “Pensei que seria o fim das dores, mas quando voltei da sala de cirurgia o médico disse que havia errado e feito o corte na perna errada, disse que no outro dia realizaria o procedimento na perna certa, mas desisti, fiquei com medo e saí do hospital”. Pereira continua com a bala na perna e ainda aguarda sua indenização.
O descaso do Estado brasileiro em relação ao massacre de Eldorado dos Carajás já gerou contra o governo um processo, em 1998, na Corte Interamericana de Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos, feita pelo Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL). “O governo brasileiro agiu de duas formas quando foi notificado pela entidade internacional. Primeiramente, culpou os próprios marchantes pelo ocorrido e, num segundo momento, por força da opinião pública, disse que já fazia coisas no assentamento, o que compensava o ocorrido”, explica Viviam Holzhacker, advogada assistente da CEJIL, que acompanha o caso.
No entanto, por pressão internacional, a advogada diz que o governo brasileiro aderiu a um processo, recentemente, de buscar acordo com os mutilados. “São feitas propostas de ambos os lados até chegar a um acordo. Deve levar mais uns cinco anos para ser resolvido o caso de todos”, explica.
Diante deste imbróglio, na ausência de um tratamento médico adequado que cuide do corpo e da mente dos participantes da marcha, Índio, um dos mutilados, com duas balas alojadas na perna esquerda desabafa: “Aconteceu o massacre em 1996. Mas ele terminou? Não! Pois esse grupo [do assentamento] ficou apenas porque o Estado não deu conta de matar no dia. Ficamos para contar a história, sofrer e ir morrendo aos poucos num massacre diário, que só terminará por completo com nossa morte”.
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A geografia visionária de Pierre George
Dizem que é impossível dissociar as idéias de um intelectual de sua biografia. Eu acredito que sim. Ao que tudo indica, este é o caso de Pierre George (1909-2006), um dos maiores nomes da geografia francesa e mundial. Infelizmente, as limitações de tempo me impedem de radiografar a vida desse pensador do “espaço humanizado” que conquistou o respeito de geógrafos, sociólogos e economistas de todas as partes do mundo, portanto nosso foco será mantido em suas teses – visionárias por sinal.
Não deixa de ser embaraçoso admitir que meu primeiro contato “a sério” com a obra de George se deu no ano passado, durante meu estágio de doutorado na Universitat de Barcelona. Tinha ido a um sebo de livros em Gracia, um bairro da capital catalã, procurar um exemplar de “La Geografía y el Espacio Social del Poder”, de Joan-Eugeni Sánchez, e acabei levando junto uma edição de “Geografia Ativa” em espanhol para compor minha biblioteca pessoal de obras clássicas. Chegando em casa, após folhear rapidamente o livro do professor Sánchez, peguei o “Geografia Ativa”, que George escreveu em parceria com Bernard Kayser, Raymond Guglielmo e Yves Lacoste. Apenas vinte minutos de leitura foram suficientes para que eu ouvisse algo como o soar de um clarim. Havia descoberto oficialmente um dos geógrafos mais brilhantes do século XX.
Mas a minha admiração se consolidou mesmo quando adquiri, ainda no ano passado, uma cópia de “L’Action Humaine” (1968), publicado em português – com tradução correta do título (“A Ação Humana”) – pela editora Difel através da coleção “Terras e Povos”. Logo nas primeiras linhas da introdução, George deixou bem claro o que ele entende por geografia: é a ciência que estuda a dinâmica do espaço humanizado. O geógrafo francês parte do princípio que os fenômenos estudados pela geografia devem ser apreendidos “em suas relações com com a presença e a ação das coletividades humanas”.
Mas isto não significa excluir ou marginalizar os espaços “não humanizados”? Para George, a resposta é: não necessariamente. Primeiro porque os limites do espaço humanizado, conceito que para o geógrafo equivale à noção de “ecúmeno” usada por Max Sorre, são imprecisos. Segundo, porque a história do homem é marcada por incontáveis experiências de penetração e conquista de espaços que outrora lhes pareciam “vetados” pela natureza. É aí que entra a questão da técnica, um problema que foi retomado posteriormente por Milton Santos. Segundo George, as técnicas criam tanto a necessidade de penetração e instalação nesses espaços quanto os meios para realizar essa apropriação.
Milton Santos também recuperou de George o conceito de “espaço herdado”: os empreendimentos que modelam e organizam o espaço para nele introduzir estruturas técnicas, jurídicas e administrativas são condicionados pela “arrumação espacial” já existente, que pode funcionar ora como incentivo à difusão e consolidação das novas estruturas, ora como freio ou fator limitante desses mesmos processos. Trata-se de uma abordagem revolucionária porque abre um canal de diálogo concreto entre a geografia e a história que ultrapassa o discurso tautológico e truísta da indissociabilidade entre o espaço e o tempo.
Entretanto, um dos momentos mais visionários de “A Ação Humana” é o capítulo 3 da terceira parte do livro: “Do espaço especializado ao espaço globalizado”. Nele, George analisa a expansão da sociedade industrial na escala planetária, fenômeno que tornou-se possível graças a progressiva libertação da indústria do “universo mineiro e ferroviário do século XIX”. Afinal, muitos se esquecem que a mundialização do consumo e das finanças, que hoje se confunde com o fenômeno da globalização, foi antecipada pelas empresas multinacionais e suas unidades multilocalizadas.
Além disso, George foi um dos primeiros a perceber que tal globalização do espaço através da influência técnica, econômica e social da civilização industrial na escala mundo era produtora de raridades e de escassez. Ele cita como exemplo o próprio espaço, que passa a ser objeto de especulação nos centros urbanos, e a água (!), devido ao crescente desequilíbro entre seu consumo e oferta.
Não restam dúvidas de que Pierre George é uma das principais influências do pensamento geográfico contemporâneo, inclusive no Brasil, país cujos efeitos da rápida modernização que o inseriu no espaço global da civilização industrial incluem os desequilíbrios urbanos e os problemas ambientais. É óbvio que, como toda obra, princpalmente nas ciências humanas, ela já nasceu datada. Afinal, o mundo mudou bastante desde que a primeira edição de “A Ação do Homem” foi lançada. Mas as questões levantadas pelo geógrafo francês não estão de modo algum ultrapassadas. A partir delas, o saudoso Milton Santos deu passos importantes e forneceu à geografia novas contribuições. Mas, assim como Geroge, Milton também já nos deixou e o mundo está aí, se recriando e se reinventando a todo instante, nos exigindo uma atualização e uma ressignificação dos conceitos e das categorias de análise. As questões permanecem, mas o que muda são as respostas que daremos a elas.
Luís Angelo dos Santos Aracri
Não deixa de ser embaraçoso admitir que meu primeiro contato “a sério” com a obra de George se deu no ano passado, durante meu estágio de doutorado na Universitat de Barcelona. Tinha ido a um sebo de livros em Gracia, um bairro da capital catalã, procurar um exemplar de “La Geografía y el Espacio Social del Poder”, de Joan-Eugeni Sánchez, e acabei levando junto uma edição de “Geografia Ativa” em espanhol para compor minha biblioteca pessoal de obras clássicas. Chegando em casa, após folhear rapidamente o livro do professor Sánchez, peguei o “Geografia Ativa”, que George escreveu em parceria com Bernard Kayser, Raymond Guglielmo e Yves Lacoste. Apenas vinte minutos de leitura foram suficientes para que eu ouvisse algo como o soar de um clarim. Havia descoberto oficialmente um dos geógrafos mais brilhantes do século XX.
Mas a minha admiração se consolidou mesmo quando adquiri, ainda no ano passado, uma cópia de “L’Action Humaine” (1968), publicado em português – com tradução correta do título (“A Ação Humana”) – pela editora Difel através da coleção “Terras e Povos”. Logo nas primeiras linhas da introdução, George deixou bem claro o que ele entende por geografia: é a ciência que estuda a dinâmica do espaço humanizado. O geógrafo francês parte do princípio que os fenômenos estudados pela geografia devem ser apreendidos “em suas relações com com a presença e a ação das coletividades humanas”.
Mas isto não significa excluir ou marginalizar os espaços “não humanizados”? Para George, a resposta é: não necessariamente. Primeiro porque os limites do espaço humanizado, conceito que para o geógrafo equivale à noção de “ecúmeno” usada por Max Sorre, são imprecisos. Segundo, porque a história do homem é marcada por incontáveis experiências de penetração e conquista de espaços que outrora lhes pareciam “vetados” pela natureza. É aí que entra a questão da técnica, um problema que foi retomado posteriormente por Milton Santos. Segundo George, as técnicas criam tanto a necessidade de penetração e instalação nesses espaços quanto os meios para realizar essa apropriação.
Milton Santos também recuperou de George o conceito de “espaço herdado”: os empreendimentos que modelam e organizam o espaço para nele introduzir estruturas técnicas, jurídicas e administrativas são condicionados pela “arrumação espacial” já existente, que pode funcionar ora como incentivo à difusão e consolidação das novas estruturas, ora como freio ou fator limitante desses mesmos processos. Trata-se de uma abordagem revolucionária porque abre um canal de diálogo concreto entre a geografia e a história que ultrapassa o discurso tautológico e truísta da indissociabilidade entre o espaço e o tempo.
Entretanto, um dos momentos mais visionários de “A Ação Humana” é o capítulo 3 da terceira parte do livro: “Do espaço especializado ao espaço globalizado”. Nele, George analisa a expansão da sociedade industrial na escala planetária, fenômeno que tornou-se possível graças a progressiva libertação da indústria do “universo mineiro e ferroviário do século XIX”. Afinal, muitos se esquecem que a mundialização do consumo e das finanças, que hoje se confunde com o fenômeno da globalização, foi antecipada pelas empresas multinacionais e suas unidades multilocalizadas.
Além disso, George foi um dos primeiros a perceber que tal globalização do espaço através da influência técnica, econômica e social da civilização industrial na escala mundo era produtora de raridades e de escassez. Ele cita como exemplo o próprio espaço, que passa a ser objeto de especulação nos centros urbanos, e a água (!), devido ao crescente desequilíbro entre seu consumo e oferta.
Não restam dúvidas de que Pierre George é uma das principais influências do pensamento geográfico contemporâneo, inclusive no Brasil, país cujos efeitos da rápida modernização que o inseriu no espaço global da civilização industrial incluem os desequilíbrios urbanos e os problemas ambientais. É óbvio que, como toda obra, princpalmente nas ciências humanas, ela já nasceu datada. Afinal, o mundo mudou bastante desde que a primeira edição de “A Ação do Homem” foi lançada. Mas as questões levantadas pelo geógrafo francês não estão de modo algum ultrapassadas. A partir delas, o saudoso Milton Santos deu passos importantes e forneceu à geografia novas contribuições. Mas, assim como Geroge, Milton também já nos deixou e o mundo está aí, se recriando e se reinventando a todo instante, nos exigindo uma atualização e uma ressignificação dos conceitos e das categorias de análise. As questões permanecem, mas o que muda são as respostas que daremos a elas.
Luís Angelo dos Santos Aracri
sábado, 16 de abril de 2011
São Paulo sobe 21 posições em ranking de produção científica
Um relatório divulgado na Grã-Bretanha diz que São Paulo subiu da posição 38 para o 17º lugar em um ranking de cidades com mais publicações científicas no mundo.
De acordo com o estudo feito pela Royal Society, a academia nacional de ciência britânica, a evolução da capital paulista nesse setor “reflete o rápido crescimento da atividade científica brasileira”.
O relatório, chamado Conhecimento, Redes e Nações: A Colaboração Científica no Século 21, analisa a publicação de trabalhos científicos por país no período entre 1996 e 2008.
O documento indica que o Brasil e outros países emergentes, liderados pela China, estão despontando como grandes potências na área de produção de estudos científicos, capazes de rivalizar com países que têm tradição nessa área, como os Estados Unidos, nações da Europa Ocidental e o Japão.
A representatividade dos estudos brasileiros teve leve aumento: entre 1999 e 2003, eles equivaliam a 1,3% do total de pesquisas científicas globais. Entre 2004 e 2008, essa porcentagem subiu para 1,6.
Mas “as reduções significativas no orçamento de ciência em 2011 levantam preocupações”, diz o relatório. Em meio aos cortes de R$ 50 bilhões anunciados pelo governo no orçamento federal, o Ministério de Ciência e Tecnologia deve perder R$ 1,7 bilhão.
China
Segundo o levantamento, o desempenho da China é ''particularmente notável'' - a publicação de documentos científicos do país superou as do Japão e da Europa nos últimos anos.
O país asiático só é ultrapassado pelos Estados Unidos, mas deve superá-los antes de 2020, se a atual tendência continuar.
Em 1996, os Estados Unidos tinham produção científica dez vezes maior que a chinesa; hoje, sua produção, com crescimento menor, não chega a ser o dobro da do país asiático.
No entanto, o relatório diz que ''ainda demorará algum tempo para que a produção dessas nações emergentes esteja à altura de ser uma referência para a comunidade científica internacional'', ressalta a pesquisa.
Áreas específicas
O estudo diz que há avanços em áreas específicas da ciência em alguns países, entre eles o Brasil.
''Existe diversificação de alguns países demonstrando lideranças em setores específicos, como a China em nanotecnolgia, e o Brasil em biocombustíveis, mas as nações avançadas do ponto de vista científico continuam a dominar a contagem de citações.''
A pesquisa também identificou nações emergentes no campo da ciência que não costumam ser associadas a uma base científica forte, como o Irã, a Tunísia e a Turquia.
As projeções feitas pelo relatório “sugerem que o sistema científico global está se desvencilhando de seu padrão anterior”.
“China e Coreia do Sul cumprem com suas ambiciosas metas de investimento em pesquisa e desenvolvimento, enquanto economias como Brasil e Rússia também prometem recursos substancialmente maiores para pesquisas.”
Com isso, é possível que nações emergentes – Brasil incluído – superem os investimentos de países como Japão e França no setor.
De acordo com o estudo feito pela Royal Society, a academia nacional de ciência britânica, a evolução da capital paulista nesse setor “reflete o rápido crescimento da atividade científica brasileira”.
O relatório, chamado Conhecimento, Redes e Nações: A Colaboração Científica no Século 21, analisa a publicação de trabalhos científicos por país no período entre 1996 e 2008.
O documento indica que o Brasil e outros países emergentes, liderados pela China, estão despontando como grandes potências na área de produção de estudos científicos, capazes de rivalizar com países que têm tradição nessa área, como os Estados Unidos, nações da Europa Ocidental e o Japão.
A representatividade dos estudos brasileiros teve leve aumento: entre 1999 e 2003, eles equivaliam a 1,3% do total de pesquisas científicas globais. Entre 2004 e 2008, essa porcentagem subiu para 1,6.
Mas “as reduções significativas no orçamento de ciência em 2011 levantam preocupações”, diz o relatório. Em meio aos cortes de R$ 50 bilhões anunciados pelo governo no orçamento federal, o Ministério de Ciência e Tecnologia deve perder R$ 1,7 bilhão.
China
Segundo o levantamento, o desempenho da China é ''particularmente notável'' - a publicação de documentos científicos do país superou as do Japão e da Europa nos últimos anos.
O país asiático só é ultrapassado pelos Estados Unidos, mas deve superá-los antes de 2020, se a atual tendência continuar.
Em 1996, os Estados Unidos tinham produção científica dez vezes maior que a chinesa; hoje, sua produção, com crescimento menor, não chega a ser o dobro da do país asiático.
No entanto, o relatório diz que ''ainda demorará algum tempo para que a produção dessas nações emergentes esteja à altura de ser uma referência para a comunidade científica internacional'', ressalta a pesquisa.
Áreas específicas
O estudo diz que há avanços em áreas específicas da ciência em alguns países, entre eles o Brasil.
''Existe diversificação de alguns países demonstrando lideranças em setores específicos, como a China em nanotecnolgia, e o Brasil em biocombustíveis, mas as nações avançadas do ponto de vista científico continuam a dominar a contagem de citações.''
A pesquisa também identificou nações emergentes no campo da ciência que não costumam ser associadas a uma base científica forte, como o Irã, a Tunísia e a Turquia.
As projeções feitas pelo relatório “sugerem que o sistema científico global está se desvencilhando de seu padrão anterior”.
“China e Coreia do Sul cumprem com suas ambiciosas metas de investimento em pesquisa e desenvolvimento, enquanto economias como Brasil e Rússia também prometem recursos substancialmente maiores para pesquisas.”
Com isso, é possível que nações emergentes – Brasil incluído – superem os investimentos de países como Japão e França no setor.
Representações sociais
Representações Sociais são o conjunto de explicações, crenças e ideias que nos permitem evocar um dado acontecimento, pessoa ou objecto. Estas representações são resultantes da interacção social, pelo que são comuns a um determinado grupo de indivíduos.
Aparecimento do conceito
As Representações Sociais têm em Serge Moscovici a sua primeira base teórica, em 1961, através da obra A Psicanálise, sua imagem e seu público.
O objectivo da Teoria das Representações Sociais é explicar os fenómenos do homem a partir de uma perspectiva colectiva, sem perder de vista a individualidade. Uma conceituação formal, entretanto, Moscovici (SÁ, 2004, p. 30) se negou a fazer de forma contundente: “A demanda por exactidão de significado e por definição precisa de termos pode ter um efeito pernicioso, como eu acredito ter tido freqüentemente nas ciências do comportamento”.
Portanto, a Teoria das Representações Sociais, preconizada pelo psicólogo social europeu Serge Moscovici, está principalmente relacionada com o estudo das simbologias sociais a nível tanto de macro como de micro análise, ou seja, o estudo das trocas simbólicas infinitamente desenvolvidas em nossos ambientes sociais; de nossas relações interpessoais, e de como isto influencia na construção do conhecimento compartilhado, da cultura, o que nos leva a situar o autor supracitado entre os chamados interacionistas simbólicos tais como Peter Berger, George Mead e Erving Goffman.
As representações sociais têm como uma de suas finalidades tornar familiar algo não-familiar, isto é, uma alternativa de classificação, categorização e nomeação de novos acontecimentos e idéias, com a quais não tínhamos contato anteriormente, possibilitando, assim, a compreensão e manipulação destes à partir de idéias, valores e teorias já preexistentes e internalizadas por nós e amplamente aceitas pela sociedade,
"As representações que nós fabricamos – duma teoria científica, de uma nação, de um objeto, etc – são sempre o resultado de um esforço constante de tornar e real algo que é incomum (não-familiar), ou que nos dá um sentimento de não-familiaridade. E através delas nós superamos o problema e o integramos em nosso mundo mental e físico, que é, com isso, enriquecido e transformado. Depois de uma série de ajustamentos, o que estava longe, parece ao alcance de nossa mão; o que era abstrato torna-se concreto e quase normal (...) as imagens e idéias com as quais nós compreendemos o não-usual apenas trazem-nos de volta ao que nós já conhecíamos e com o qual já estávamos familiarizados (Moscovici, 2007,p.58)"
Buscamos compreender; abstrair significados das novas informações e fatos produzidos constantemente em função da proliferação dos centros de pesquisas científicas, da enorme profusão de idéias e “filosofias” escancaradas pelos meios de comunicação de massas e também criadas pelos “sábios amadores” nas ruas, bares e esquinas do senso comum; e operacionalizá-los, em nossos cotidianos. A criação e transformação da informação levam a uma transformação de nossos valores, que, conseqüentemente, irão influenciar as diretrizes dos relacionamentos humanos, na forma como o ser humano se percebe no mundo e com o outro – o que era certo para a geração anterior para a geração atual não o é. Digere-se a nova informação e a reapresenta buscando, ao mesmo tempo, tanto enriquecer e transformar nossos esquemas cognitivos anteriores no que for possível e aceitável à nossa idiossincrasia; como também adaptá-la a nossos antigos esquemas cognitivos, na busca de manter o nosso mundo estável e seguro, “(...) a dinâmica das relações é uma dinâmica de familiarização, onde os objetos, pessoas e acontecimentos são percebidos e compreendidos em relação a prévios encontros e paradigmas (...) a memória prevalece sobre a dedução, o passado sobre o presente a resposta sobre o estímulo e as imagens sobre a ‘realidade’ (Moscovici, 2007, p. 55)
Partindo dos estudos de Moscovici nasceram inúmeras pesquisas sobre diversas representações sociais, como a representação social de beleza.
Denise Jodelet definiu sinteticamente as representações sociais como uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social (apud SÁ, 2004, p. 32).
Elaboração das Representações Sociais
Segundo Moscovici existem dois processos das representações sociais: a objectivação e a ancoragem.
* Na objectivação as ideias abstractas transformam-se em imagens concretas, através do reagrupamento de ideias e imagens focadas no mesmo assunto.
* A ancoragem prende-se com a assimilação das imagens criadas pela objectivação, sendo que estas novas imagens se juntam ás anteriores, nascendo assim novos conceitos.
Referências Bibliográficas
MOSCOVICI, S. Representações sociais: investigações em psicologia social. Rio de Janeiro, Vozes, 2003.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Aparecimento do conceito
As Representações Sociais têm em Serge Moscovici a sua primeira base teórica, em 1961, através da obra A Psicanálise, sua imagem e seu público.
O objectivo da Teoria das Representações Sociais é explicar os fenómenos do homem a partir de uma perspectiva colectiva, sem perder de vista a individualidade. Uma conceituação formal, entretanto, Moscovici (SÁ, 2004, p. 30) se negou a fazer de forma contundente: “A demanda por exactidão de significado e por definição precisa de termos pode ter um efeito pernicioso, como eu acredito ter tido freqüentemente nas ciências do comportamento”.
Portanto, a Teoria das Representações Sociais, preconizada pelo psicólogo social europeu Serge Moscovici, está principalmente relacionada com o estudo das simbologias sociais a nível tanto de macro como de micro análise, ou seja, o estudo das trocas simbólicas infinitamente desenvolvidas em nossos ambientes sociais; de nossas relações interpessoais, e de como isto influencia na construção do conhecimento compartilhado, da cultura, o que nos leva a situar o autor supracitado entre os chamados interacionistas simbólicos tais como Peter Berger, George Mead e Erving Goffman.
As representações sociais têm como uma de suas finalidades tornar familiar algo não-familiar, isto é, uma alternativa de classificação, categorização e nomeação de novos acontecimentos e idéias, com a quais não tínhamos contato anteriormente, possibilitando, assim, a compreensão e manipulação destes à partir de idéias, valores e teorias já preexistentes e internalizadas por nós e amplamente aceitas pela sociedade,
"As representações que nós fabricamos – duma teoria científica, de uma nação, de um objeto, etc – são sempre o resultado de um esforço constante de tornar e real algo que é incomum (não-familiar), ou que nos dá um sentimento de não-familiaridade. E através delas nós superamos o problema e o integramos em nosso mundo mental e físico, que é, com isso, enriquecido e transformado. Depois de uma série de ajustamentos, o que estava longe, parece ao alcance de nossa mão; o que era abstrato torna-se concreto e quase normal (...) as imagens e idéias com as quais nós compreendemos o não-usual apenas trazem-nos de volta ao que nós já conhecíamos e com o qual já estávamos familiarizados (Moscovici, 2007,p.58)"
Buscamos compreender; abstrair significados das novas informações e fatos produzidos constantemente em função da proliferação dos centros de pesquisas científicas, da enorme profusão de idéias e “filosofias” escancaradas pelos meios de comunicação de massas e também criadas pelos “sábios amadores” nas ruas, bares e esquinas do senso comum; e operacionalizá-los, em nossos cotidianos. A criação e transformação da informação levam a uma transformação de nossos valores, que, conseqüentemente, irão influenciar as diretrizes dos relacionamentos humanos, na forma como o ser humano se percebe no mundo e com o outro – o que era certo para a geração anterior para a geração atual não o é. Digere-se a nova informação e a reapresenta buscando, ao mesmo tempo, tanto enriquecer e transformar nossos esquemas cognitivos anteriores no que for possível e aceitável à nossa idiossincrasia; como também adaptá-la a nossos antigos esquemas cognitivos, na busca de manter o nosso mundo estável e seguro, “(...) a dinâmica das relações é uma dinâmica de familiarização, onde os objetos, pessoas e acontecimentos são percebidos e compreendidos em relação a prévios encontros e paradigmas (...) a memória prevalece sobre a dedução, o passado sobre o presente a resposta sobre o estímulo e as imagens sobre a ‘realidade’ (Moscovici, 2007, p. 55)
Partindo dos estudos de Moscovici nasceram inúmeras pesquisas sobre diversas representações sociais, como a representação social de beleza.
Denise Jodelet definiu sinteticamente as representações sociais como uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social (apud SÁ, 2004, p. 32).
Elaboração das Representações Sociais
Segundo Moscovici existem dois processos das representações sociais: a objectivação e a ancoragem.
* Na objectivação as ideias abstractas transformam-se em imagens concretas, através do reagrupamento de ideias e imagens focadas no mesmo assunto.
* A ancoragem prende-se com a assimilação das imagens criadas pela objectivação, sendo que estas novas imagens se juntam ás anteriores, nascendo assim novos conceitos.
Referências Bibliográficas
MOSCOVICI, S. Representações sociais: investigações em psicologia social. Rio de Janeiro, Vozes, 2003.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
JEAN BRUNHES
Jean Brunhes, né à Toulouse le 25 octobre 1869 et mort à Boulogne-Billancourt le 25 août 1930, est un géographe français.
Biographie
Jean Brunhes devient agrégé d'histoire et géographie en 1892 après avoir été élève de l'École normale supérieure de Paris. Sur les conseils de Paul Vidal de La Blache, lauréat de la première promotion de la Fondation Thiers en 1893, il séjourne plus d'un an en Espagne, région où il étudie la matière de sa thèse future. Celle-ci, novatrice, soutenue en 1902, est intitulée L'Irrigation. Ses conditions géographiques, ses méthodes, son organisation dans la péninsule ibérique et dans l'Afrique du Nord : étude de géographie humaine. Il est chargé d'enseignement à l'université de Fribourg en 1896, puis de Lausanne en 1907, première chaire au monde où apparaît le terme « géographie humaine ».
Brunhes est un géographe atypique, qui n'a pas pu faire sa carrière universitaire en France. D'abord à cause de ses opinions politiques, puisqu'il était un catholique social engagé, proche du Sillon de Marc Sangnier[1], et ensuite par ses choix épistémologiques.
Ainsi La Géographie humaine, le manuel d’enseignement supérieur qu'il publie en 1910, comme le Traité de géographie physique d’Emmanuel de Martonne édité l'année précédente, participe à la constitution d'une géographie en plein devenir dont les concepts ne sont pas encore stabilisés. Il l'inscrit toutefois dans un champ universitaire qui légitime ses choix auprès de ses pairs, ses commanditaires et son public. La reconnaissance institutionnelle est rapide pour Brunhes, nommé professeur de géographie humaine au Collège de France dès 1912.
L'année suivante, Brunhes est distingué par le banquier et mécène Albert Kahn pour prendre la direction scientifique du projet des Archives de la planète, en premier lieu les extraordinaires collections photographiques - le géographe est un passionné de cette technique pour appuyer ses recherches sur le terrain - du Musée[2].
Élu membre de l'Académie des sciences morales et politiques en 1927, Brunhes publiera jusqu'à sa mort en 1930 de nombreux ouvrages remarquables, qui rencontreront par ailleurs un grand succès public et qui contribueront à vulgariser en France les concepts de la géographie humaine.
Une théorie très originale de l'espace
Les idées de Brunhes sont très à contre-courant du mouvement général lorsqu'il définit en 1910 ses Principes de géographie humaine de la France, ouvrage qui sera augmenté en 1912 et en 1925, où s'échelonnent plusieurs niveaux de perception des phénomènes spatiaux : d'abord la géographie des nécessités vitales (exploitation de la terre), ensuite la géographie sociale et enfin la géographie historique et politique. Sa méthode s'ordonne autour de trois séries de « faits essentiels » :
* l'occupation improductive du sol (maisons et chemins),
* la conquête végétale et animale (culture, élevage) et
* l'économie qu'il appelle « destructrice » (dévastations animales, végétales et exploitations minérales)[3].
Cette classification s'inspire de l'idée de surface et vise les objets par lesquels s'y manifeste l'action de l'homme. Cette géographie humaine a reçu un accueil très mitigé de la part des vidaliens, très sceptiques quant à cette approche qui privilégie les œuvres humaines matérielles dans leur dimension culturelle et historique (l'architecture et le génie rural par exemple) au détriment de la vision plus totalisante et abstraite défendue par la géographie jacobine de l'École normale de Paris. C'est la conception brunhienne qui prévaudra avec l'École des annales et avec ses travaux comme les Caractères originaux de l'histoire rurale française de Marc Bloch.
Oeuvres
* Michelet, Librairie Devaux, Paris, 1898.
* "Les marmites du barrage de la Maigrauge", in Bulletin de la société fribourgeoise des sciences naturelles, 1899, vol. VII, p. 169-185.
* La géographie humaine. Essai de classification positive. Principes et exemples, Alcan, Paris, 1910, 844 p.
* "Du caractère propre et du caractère complexe des faits de géographie humaine" in Annales de géographie, Armand Colin, 1913.
* Avec C. Vallaux, La géographie de l'histoire. Géographie de la paix et de la guerre sur terre et sur mer, Alcan, Paris, 1921, 716 p.
* La géographie humaine, Alcan, Paris, 1925, 2 tomes.
* "Comment s'est faite la carte de France", in La Revue Universelle, 1926, 126 p.
* Races. Image du monde, Firmin Didiot, Paris, 1930.
* Avec Pierre Deffontaines, Atlas aérien. France, Gallimard, Paris, 3 tomes, 1958.
* L'irrigation. Ses conditions géographiques. Ses modes et son organisation dans les zones arides et désertiques de l'Espagne et du Nord de l'Afrique , C. Naud, Paris, 1902, 518 p.
* Le berger dans la France des villages. Bergers communs à Saint-Veyran en Queyras (Haute-Marne) et à Normée en Champagne (Marne). Une étude comparée d'éthnologie et de géographie humaine , Éditions du CNRS, Paris, rééd. 1970.
Sources
* Musée Albert Kahn, Boulogne, Jean Brunhes autour du monde, regards d'un géographe / regards de la géographie, Vilo, Paris, 1993, 348 p.
* Numa Broc, Regards sur la géographie française de la Renaissance à nos jours, Presses universitaires de Perpignan, 1995.
* Paul Claval, André-Louis Sanguin (éd.), La Géographie française à l'époque classique (1918-1968), L'Harmattan, 1996.
* Jean-Louis Tissier, Brunhes (Jean), in Jacques Julliard, Michel Winock (dir.), Dictionnaire des intellectuels français, Paris, Seuil, 1996, p. 195-196.
FONTE: WWW.WIKIPEDIA.ORG
Biographie
Jean Brunhes devient agrégé d'histoire et géographie en 1892 après avoir été élève de l'École normale supérieure de Paris. Sur les conseils de Paul Vidal de La Blache, lauréat de la première promotion de la Fondation Thiers en 1893, il séjourne plus d'un an en Espagne, région où il étudie la matière de sa thèse future. Celle-ci, novatrice, soutenue en 1902, est intitulée L'Irrigation. Ses conditions géographiques, ses méthodes, son organisation dans la péninsule ibérique et dans l'Afrique du Nord : étude de géographie humaine. Il est chargé d'enseignement à l'université de Fribourg en 1896, puis de Lausanne en 1907, première chaire au monde où apparaît le terme « géographie humaine ».
Brunhes est un géographe atypique, qui n'a pas pu faire sa carrière universitaire en France. D'abord à cause de ses opinions politiques, puisqu'il était un catholique social engagé, proche du Sillon de Marc Sangnier[1], et ensuite par ses choix épistémologiques.
Ainsi La Géographie humaine, le manuel d’enseignement supérieur qu'il publie en 1910, comme le Traité de géographie physique d’Emmanuel de Martonne édité l'année précédente, participe à la constitution d'une géographie en plein devenir dont les concepts ne sont pas encore stabilisés. Il l'inscrit toutefois dans un champ universitaire qui légitime ses choix auprès de ses pairs, ses commanditaires et son public. La reconnaissance institutionnelle est rapide pour Brunhes, nommé professeur de géographie humaine au Collège de France dès 1912.
L'année suivante, Brunhes est distingué par le banquier et mécène Albert Kahn pour prendre la direction scientifique du projet des Archives de la planète, en premier lieu les extraordinaires collections photographiques - le géographe est un passionné de cette technique pour appuyer ses recherches sur le terrain - du Musée[2].
Élu membre de l'Académie des sciences morales et politiques en 1927, Brunhes publiera jusqu'à sa mort en 1930 de nombreux ouvrages remarquables, qui rencontreront par ailleurs un grand succès public et qui contribueront à vulgariser en France les concepts de la géographie humaine.
Une théorie très originale de l'espace
Les idées de Brunhes sont très à contre-courant du mouvement général lorsqu'il définit en 1910 ses Principes de géographie humaine de la France, ouvrage qui sera augmenté en 1912 et en 1925, où s'échelonnent plusieurs niveaux de perception des phénomènes spatiaux : d'abord la géographie des nécessités vitales (exploitation de la terre), ensuite la géographie sociale et enfin la géographie historique et politique. Sa méthode s'ordonne autour de trois séries de « faits essentiels » :
* l'occupation improductive du sol (maisons et chemins),
* la conquête végétale et animale (culture, élevage) et
* l'économie qu'il appelle « destructrice » (dévastations animales, végétales et exploitations minérales)[3].
Cette classification s'inspire de l'idée de surface et vise les objets par lesquels s'y manifeste l'action de l'homme. Cette géographie humaine a reçu un accueil très mitigé de la part des vidaliens, très sceptiques quant à cette approche qui privilégie les œuvres humaines matérielles dans leur dimension culturelle et historique (l'architecture et le génie rural par exemple) au détriment de la vision plus totalisante et abstraite défendue par la géographie jacobine de l'École normale de Paris. C'est la conception brunhienne qui prévaudra avec l'École des annales et avec ses travaux comme les Caractères originaux de l'histoire rurale française de Marc Bloch.
Oeuvres
* Michelet, Librairie Devaux, Paris, 1898.
* "Les marmites du barrage de la Maigrauge", in Bulletin de la société fribourgeoise des sciences naturelles, 1899, vol. VII, p. 169-185.
* La géographie humaine. Essai de classification positive. Principes et exemples, Alcan, Paris, 1910, 844 p.
* "Du caractère propre et du caractère complexe des faits de géographie humaine" in Annales de géographie, Armand Colin, 1913.
* Avec C. Vallaux, La géographie de l'histoire. Géographie de la paix et de la guerre sur terre et sur mer, Alcan, Paris, 1921, 716 p.
* La géographie humaine, Alcan, Paris, 1925, 2 tomes.
* "Comment s'est faite la carte de France", in La Revue Universelle, 1926, 126 p.
* Races. Image du monde, Firmin Didiot, Paris, 1930.
* Avec Pierre Deffontaines, Atlas aérien. France, Gallimard, Paris, 3 tomes, 1958.
* L'irrigation. Ses conditions géographiques. Ses modes et son organisation dans les zones arides et désertiques de l'Espagne et du Nord de l'Afrique , C. Naud, Paris, 1902, 518 p.
* Le berger dans la France des villages. Bergers communs à Saint-Veyran en Queyras (Haute-Marne) et à Normée en Champagne (Marne). Une étude comparée d'éthnologie et de géographie humaine , Éditions du CNRS, Paris, rééd. 1970.
Sources
* Musée Albert Kahn, Boulogne, Jean Brunhes autour du monde, regards d'un géographe / regards de la géographie, Vilo, Paris, 1993, 348 p.
* Numa Broc, Regards sur la géographie française de la Renaissance à nos jours, Presses universitaires de Perpignan, 1995.
* Paul Claval, André-Louis Sanguin (éd.), La Géographie française à l'époque classique (1918-1968), L'Harmattan, 1996.
* Jean-Louis Tissier, Brunhes (Jean), in Jacques Julliard, Michel Winock (dir.), Dictionnaire des intellectuels français, Paris, Seuil, 1996, p. 195-196.
FONTE: WWW.WIKIPEDIA.ORG
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