Jean Brunhes, né à Toulouse le 25 octobre 1869 et mort à Boulogne-Billancourt le 25 août 1930, est un géographe français.
Biographie
Jean Brunhes devient agrégé d'histoire et géographie en 1892 après avoir été élève de l'École normale supérieure de Paris. Sur les conseils de Paul Vidal de La Blache, lauréat de la première promotion de la Fondation Thiers en 1893, il séjourne plus d'un an en Espagne, région où il étudie la matière de sa thèse future. Celle-ci, novatrice, soutenue en 1902, est intitulée L'Irrigation. Ses conditions géographiques, ses méthodes, son organisation dans la péninsule ibérique et dans l'Afrique du Nord : étude de géographie humaine. Il est chargé d'enseignement à l'université de Fribourg en 1896, puis de Lausanne en 1907, première chaire au monde où apparaît le terme « géographie humaine ».
Brunhes est un géographe atypique, qui n'a pas pu faire sa carrière universitaire en France. D'abord à cause de ses opinions politiques, puisqu'il était un catholique social engagé, proche du Sillon de Marc Sangnier[1], et ensuite par ses choix épistémologiques.
Ainsi La Géographie humaine, le manuel d’enseignement supérieur qu'il publie en 1910, comme le Traité de géographie physique d’Emmanuel de Martonne édité l'année précédente, participe à la constitution d'une géographie en plein devenir dont les concepts ne sont pas encore stabilisés. Il l'inscrit toutefois dans un champ universitaire qui légitime ses choix auprès de ses pairs, ses commanditaires et son public. La reconnaissance institutionnelle est rapide pour Brunhes, nommé professeur de géographie humaine au Collège de France dès 1912.
L'année suivante, Brunhes est distingué par le banquier et mécène Albert Kahn pour prendre la direction scientifique du projet des Archives de la planète, en premier lieu les extraordinaires collections photographiques - le géographe est un passionné de cette technique pour appuyer ses recherches sur le terrain - du Musée[2].
Élu membre de l'Académie des sciences morales et politiques en 1927, Brunhes publiera jusqu'à sa mort en 1930 de nombreux ouvrages remarquables, qui rencontreront par ailleurs un grand succès public et qui contribueront à vulgariser en France les concepts de la géographie humaine.
Une théorie très originale de l'espace
Les idées de Brunhes sont très à contre-courant du mouvement général lorsqu'il définit en 1910 ses Principes de géographie humaine de la France, ouvrage qui sera augmenté en 1912 et en 1925, où s'échelonnent plusieurs niveaux de perception des phénomènes spatiaux : d'abord la géographie des nécessités vitales (exploitation de la terre), ensuite la géographie sociale et enfin la géographie historique et politique. Sa méthode s'ordonne autour de trois séries de « faits essentiels » :
* l'occupation improductive du sol (maisons et chemins),
* la conquête végétale et animale (culture, élevage) et
* l'économie qu'il appelle « destructrice » (dévastations animales, végétales et exploitations minérales)[3].
Cette classification s'inspire de l'idée de surface et vise les objets par lesquels s'y manifeste l'action de l'homme. Cette géographie humaine a reçu un accueil très mitigé de la part des vidaliens, très sceptiques quant à cette approche qui privilégie les œuvres humaines matérielles dans leur dimension culturelle et historique (l'architecture et le génie rural par exemple) au détriment de la vision plus totalisante et abstraite défendue par la géographie jacobine de l'École normale de Paris. C'est la conception brunhienne qui prévaudra avec l'École des annales et avec ses travaux comme les Caractères originaux de l'histoire rurale française de Marc Bloch.
Oeuvres
* Michelet, Librairie Devaux, Paris, 1898.
* "Les marmites du barrage de la Maigrauge", in Bulletin de la société fribourgeoise des sciences naturelles, 1899, vol. VII, p. 169-185.
* La géographie humaine. Essai de classification positive. Principes et exemples, Alcan, Paris, 1910, 844 p.
* "Du caractère propre et du caractère complexe des faits de géographie humaine" in Annales de géographie, Armand Colin, 1913.
* Avec C. Vallaux, La géographie de l'histoire. Géographie de la paix et de la guerre sur terre et sur mer, Alcan, Paris, 1921, 716 p.
* La géographie humaine, Alcan, Paris, 1925, 2 tomes.
* "Comment s'est faite la carte de France", in La Revue Universelle, 1926, 126 p.
* Races. Image du monde, Firmin Didiot, Paris, 1930.
* Avec Pierre Deffontaines, Atlas aérien. France, Gallimard, Paris, 3 tomes, 1958.
* L'irrigation. Ses conditions géographiques. Ses modes et son organisation dans les zones arides et désertiques de l'Espagne et du Nord de l'Afrique , C. Naud, Paris, 1902, 518 p.
* Le berger dans la France des villages. Bergers communs à Saint-Veyran en Queyras (Haute-Marne) et à Normée en Champagne (Marne). Une étude comparée d'éthnologie et de géographie humaine , Éditions du CNRS, Paris, rééd. 1970.
Sources
* Musée Albert Kahn, Boulogne, Jean Brunhes autour du monde, regards d'un géographe / regards de la géographie, Vilo, Paris, 1993, 348 p.
* Numa Broc, Regards sur la géographie française de la Renaissance à nos jours, Presses universitaires de Perpignan, 1995.
* Paul Claval, André-Louis Sanguin (éd.), La Géographie française à l'époque classique (1918-1968), L'Harmattan, 1996.
* Jean-Louis Tissier, Brunhes (Jean), in Jacques Julliard, Michel Winock (dir.), Dictionnaire des intellectuels français, Paris, Seuil, 1996, p. 195-196.
FONTE: WWW.WIKIPEDIA.ORG
sábado, 16 de abril de 2011
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Pierre Monbeig: a herança intelectual de um geógrafo
É muito difícil falar de um mestre geógrafo que era admirado e venerado pela grande maioria de seus alunos. Mas seria indigno, para qualquer um de seus discípulos vivos, deixar de registrar a memória que tem de um professor diferenciado que marcou o destino cultural de toda uma geração. Éramos gente, predominantemente, de classe média baixa sofrida e empobrecida. No entanto, tínhamos grande orgulho e satisfação íntima em alterar nosso cotidiano miserável com a alegria indiscutível de assistir às aulas e receber conselhos de uma legião de professores competentes, metódicos e atualizados com as circunstâncias de sua época. Dentre eles, destacava-se Pierre Monbeig, que permaneceu no Brasil, trabalhando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da recém-criada USP, por onze anos, do fim da década de 30 até a primeira década dos anos 40 (1935-1946).
Repito: difícil relembrar a figura do bom, seguro e inteligente mestre que adotou o Brasil como sua segunda pátria, até o fim de seus dias. Outros de seus discípulos culturalmente bem-sucedidos tiveram a mesma dificuldade. Caio Prado Júnior, por exemplo, escrevendo um rápido prefácio para um dos últimos livros de Monbeig sobre o Brasil, dizia: "Como amigo de Pierre Monbeig, e amigo de longa data, poderia dar-me por suspeito na apresentação que dele faço — sinto-me, todavia inteiramente à vontade porque não somente o conceito por ele granjeado no consenso geral dispensaria aquela minha apreciação, como porque se me liguei a Pierre Monbeig, foi precisamente atraído pelos seus invulgares dotes de homem da ciência que fazem tão fecunda a convivência com ele" (setembro de 1957). As vésperas de completar meus 70 anos, não sei se terei tempo e tranqüilidade psicológica para escrever sobre Pierre Monbeig, Plínio Ayrosa, Aroldo de Azevedo, Jean Gagé, Roger Bastide, Emílio Willems, João Cruz Costa ou Aziz Simão. Cada um deles que se foi, nos deixou ao traço amargo do vazio cultural e do amparo da amizade.
Existem poucos escritos sobre Pierre Monbeig: alguns referências formais em prefácios para seus diversos livros, uma nota substancial do jornal O Estado de S. Paulo por ocasião de seu falecimento (setembro, 1987) e uma excelente entrevista, publicada no mesmo órgão da imprensa paulista, por Lourenço Dantas Mota e Antonio Carlos Pereira, em 4 de novembro de 1979. A releitura dessa entrevista, feita no momento da mais plena maturidade do velho professor e homem público francês, possibilita avaliar a trajetória de sua vida e a acuidade de suas idéias. Acrescenta-se a esse trabalho dos dois entrevistadores brasileiros, um artigo de Gilles Lapouge, especial para o Jornal da Tarde do dia 11 de fevereiro de 1984, em entrevista feita em Paris, na residência da família. Monbeig e D. Julieta viviam na capital francesa, em um apartamento alugado do Quartier Latin, pagando aluguel ao Papa, segundo comentou um dia. Ao longo de toda a sua vida, professor dedicado e pesquisador incansável, teve pouco tempo para obter um patrimônio pessoal. Espera-se que, em compensação, seus filhos tenham melhor sorte.
A chegada ao Brasil para lecionar na Filosofia
Pierre Monbeig veio ao Brasil para se agregar aos professores da missão francesa, convidada a participar da fundação da Universidade de São Paulo. Tinha, de saída, o difícil desafio de substituir um brilhante antecessor, que permanecera apenas alguns meses em São Paulo, transferindo-se depois para a Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, Efetivamente, o professor Pierre Deffontaines era uma personalidade aparentemente insubstituível. Dissidente da Sorbonne, mutilado de guerra, autor de livros de textos reconhecidos internacionalmente, Deffontaines havia tomado toda as iniciativas para implantar o ensino universitário das ciências geográficas em São Paulo e no Brasil. Coube a Monbeig, com sua tranqüilidade, sua linguagem cartesiana, e sua coerência de pesquisador e professor, dar continuidade plena e consolidar o trabalho iniciado por Deffontaines.
Havia um problema lingüístico a ser superado. Não era fácil chegar a um país da então distante e marginalizada América Latina, e, de pronto, aprender o português e ministrar aulas na língua local. Enquanto aprendia e se exercitava na fala do português, Monbeig ministrava todas as suas aulas em francês. Cabia à professora Maria da Conceição Vicente de Carvalho a tarefa de paralelizar e fazer acréscimos aos temas tratados. A maioria dos alunos aceitou a solução encontrada e, certamente, beneficiou-se por ter tido a oportunidade de treinamento direto no terreno de uma segunda língua. Na época, quase toda a bibliografia nuclear da Geografia Humana era elaborada ou divulgada em francês. As próprias obras e idéias dos grandes mestres alemães e norte-americanos das ciências geográficas chegavam ao Brasil, via língua francesa. Artigos fundamentais sobre o nosso país, publicados na França, durante a guerra de 1939 a 1945, chegavam ao Brasil por via diplomática. Tal como aconteceu com o extraordinário trabalho de Emmanuel De Martonne, Problèmes morphologiques du Brésil tropical atlantique, trazido para o Rio de Janeiro, graças à iniciativa de Francis Ruellan, outro grande professor francês que colaborou com a implantação da Geomorfologia na Faculdade de Filosofia da então Universidade do Brasil e com Conselho Nacional de Geografia do IBGE. Na ocasião, por essa e outras razões culturais, todos nós ficamos devendo uma obrigação à parte a Pierre Monbeig, por nos ter permitido ingressar numa língua de importância universal para a ciência de uma época. Algo parecido com o que acontece com o inglês neste fim de século e de milênio em nível da cultura científica internacional.
Monbeig era uma figura de jovem gaulês no ambiente da velha cidade de São Paulo de Piratininga. Na apreciação de Gilles Lapouge, em fevereiro de 1984, "Monbeig tem estatura média, veste-se com elegância em marrom-escuro, seu rosto é bastante esculpido, a tez rósea, brilhante e os cabelos de um branco cintilante". Esta era, também, a nossa visão sobre o jovem professor que, então, ainda possuía cabelos menos brancos e uma vitalidade de fazer inveja aos seus jovens alunos. Lembro-me dele, a percorrer o longo corredor do terceiro andar da Escola Normal Caetano de Campos, transitando com rapidez pronunciada para chegar até a sala do canto, voltada para a praça da República e a rua Sete de Abril. Com o mesmo vigor que possuía ao ensejo das excursões de campo, subindo ou descendo morros e chapadões para obter um ponto de observação mais aprofundado sobre a paisagem ou se achegar a algum homem do campo para uma entrevista dirigida, visando à compreensão da vida agrária regional.
A despeito de sua tranqüilidade habitual, Monbeig era uma pequena fera crítica perante a mediocridade de alunos, candidatos a alunos, ou escritos genéricos e epidérmicos, feitos por quem quer que fosse. Teve alguns aborrecimentos e constituiu desafetos graças ao seu atilado espírito crítico, às vezes explosivo. No entanto, de modo permanente e espontâneo, era capaz de refletir em voz alta, através de mensagens e conselhos do maior bom senso imaginável dirigidos a seus alunos, colegas ou eventuais visitantes culturais.
Nos vestibulares de 1941, o exame oral de Geografia foi conduzido por três examinadores, tendo ao centro a figura atenta de Pierre Monbeig. Nos primeiros anos da história da Faculdade houve uma estratégia destinada a receber professores do ensino secundário, em uma tentativa pontualizada de melhorar ou reclamar os conhecimentos geográficos dos mestres de escolas que já se encontravam na ativa. Nessa circunstância, Monbeig era muito mais jovem do que a maioria de seus alunos. Com o decorrer do tempo, optou pela juventude, e assim chegou a nossa vez. Nesta circunstância, os examinadores inquiriam os candidatos à Faculdade, com perguntas situadas muito acima do conhecimento médio dos jovens recém-egressos de cursos secundários. Monbeig era, ao mesmo tempo, atento e cáustico. Sua indignação maior, ainda que muito rápida, acontecia quando percebia que alguns jovens vestibulandos não liam jornais. Parte de sua nota final levava em consideração o fato de os postulantes à Universidade estarem em dia com a marcha dos acontecimentos políticos, sociais e econômicos do Brasil. Como decorrência desse critério adicional, os que possuíam apenas cultura livresca, baseada em obras didáticas incompletas e fragmentárias, sofriam com as questões que lhes eram endereçadas.
Lembro-me bem: alguns de nós vindos do interior paulista, ainda conhecíamos quase nada da região de São Paulo, onde estava se estruturando a grande Metrópole paulistana. Nesse sentido, a salvação de alguns residia no aprendizado prévio, feito no chamado Colégio Universitário, no qual, por dois anos de estudos ocorria um intervalo de preparação para a Universidade. Outros, recém-saídos dos ginásios (com apenas cinco anos de estudos), tinham de se contentar com as aulas intensivas do cursinho do Grêmio da Faculdade, que funcionava como excelente espaço de treinamento docente para os veteranos, em vésperas de formatura.
As atividades extraclasse
Terminados os exames: uma esperada lista dos resultados era afixada no centro do longo corredor Escola da Praça. O medo de ter sido reprovado, decepção para alguns, alegria inusitada para os bem-sucedidos. Outra surpresa: uma pequena nota à margem da lista dos aprovados, convocando os calouros para um primeiro dia de aula... que deveria ser diretamente realizada no campo, através de uma excursão programada. Assinado: Pierre Monbeig, professor de Geografia Humana.
Foi através dessa iniciativa que a turma de 1941 foi introduzida ao conhecimento da paisagem e dos fatos cumulativos constituídos pela história dos grupos humanos e dos processos econômicos sobre o espaço geográfico. Nada de mais importante poderia ter marcado nosso destino, na escolha de uma ciência para ser cultivada pelo resto de nossas vidas, do que aquela primeira e predestinada excursão sobre o terreno. A iniciativa era da inteira responsabilidade de Monbeig. O itinerário escolhido envolvia a saída a partir das colinas de São Paulo e um transecto pelas serranias de Jundiaí, até atingir setores da chamada depressão periférica paulista. De São Paulo a Jundiaí e a Campinas, até Salto e Itu, com regresso pelo famoso canyon do Tietê, passando por Cabreúva, Pirapora do Bom Jesus, Sant'Ana do Parnaíba e subúrbios ocidentais de São Paulo. Encantou-nos, sobretudo, a dinâmica dos caminhamentos e a acuidade das observações de mestre Pierre Monbeig. Pelas suas mãos estávamos sendo iniciados na fascinante aventura cultural de compreender a organização antrópica imposta — com erros e acertos — à organização herdada da natureza. Fato que teve influência decisiva na escolha da profissão, no interior do curso de História e Geografia. Ficamos premidos por um duro dilema: ser geógrafos ou seguir a trilha, igualmente magnífica, dos estudos historiográficos. Alguns de nós resolveram a dura batalha interior seguindo o anastomosado caminho que envolve o cruzamento entre o espaço e tempo.
No antigo curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia solicitava-se muito dos alunos: todas as histórias; todas as geografias; língua portuguesa; princípios de Ciências Sociais; elementos de Cartografia; e, desenho. Era um vestibular para valer. Mas ao se ingressar no curso, propriamente, a tudo isso se acrescentava Antropologia Cultural, Etnografia e Tupi-guarani e Elementos de Geologia. Os exames de História eram menos drásticos, tanto no vestibular, quanto no decorrer do curso. Todos os professores nos forneciam uma cronologia seletiva dos fatos a serem detalhados e interpretados. Tratava-se de um procedimento que nos dava certa tranqüilidade, ainda que ilusória. Os trabalhos exigidos por quase todos os professores, para serem redigidos em um semestre, constituíam o ponto de nosso aprendizado, tanto no campo da História quanto, sobretudo, no da Geografia. De um lado, aprendia-se a problemática dos contatos culturais e étnicos, em todas as suas conseqüências. E, de outro, adentrava-se em conhecimento da estrutura dos terrenos, idade das formações rochosas. A tarefa de separar a história geológica em fase da história geomorfológica e biogeográfica ficava por nossa conta e risco, obrigando-nos a realizar trabalhos extras, sem o controle ou a orientação de alguém.
Num esforço de memória, decorrido meio século em relação ao tempo de atuação de Monbeig na USP, tento me lembrar de alguns de seus conselhos extramuros da Faculdade. Restritos a leituras não muito sistemáticas, feitas na antiga Biblioteca Municipal da rua Sete de Abril e, posteriormente, na Biblioteca Mário de Andrade, alguns de nós tendíamos para teorizações precoces. Monbeig nos alertava que toda a teorização precoce acabava por ser repetitiva e infértil. Era necessário iniciar-se por trabalhos analíticos sobre temas reais, percebidos no teatro geográfico das atividades humanas, quer no mundo rural quer no urbano. Antes de se iniciar nos trabalhos de campo e na percepção das relações entre os homens e a terra, e os homens e a sociedade, era impossível teorizar. Foi um lembrete oportuno e definitivo para a formação de jovens geógrafos que um dia teriam de tratar das sérias e diferenciadas questões regionais brasileiras, desde a Amazônia até os sertões secos, as planícies costeiras e os planaltos interiores dominados por matas ou cerrados, bosques de araucárias e pradarias mistas. Locais onde a estrutura fundiária tendia a se enrijecer, o espaço geográfico tornava-se mercadoria, os trabalhadores rurais e urbanos eram tratados apenas como mão-de-obra braçal, sem direitos e sem proteção.
Fiel ao lema de introduzir seus alunos em tarefas de iniciação, feitas diretamente no campo, Pierre Monbeig exigia deles estudos múltiplos sobre subáreas da região de São Paulo e de seus arredores. Ele sabia que nós, alunos egressos de classes pobres, não tínhamos recursos para realizar pesquisas em áreas distantes, que exigissem despesas de viagens, estadia e transportes. Não existiam, na época, agências financiadoras para pesquisas; ele próprio tinha grandes dificuldades para dar continuidade às suas investigações nas zonas pioneiras do Oeste Paulista e Norte do Paraná. Monbeig nos pedia estudos da planície do Tietê, envolvendo formas e tendências da ocupação e uso dos espaços varzianos. Pouco mais tarde, Aroldo de Azevedo adotava a mesma estratégia, dividindo as tarefas dos seus alunos pelos mais variados setores da Grande São Paulo. Monbeig alternava suas exigências incitando-nos a ler os mais recentes artigos das poucas revistas especializadas disponíveis em São Paulo. A fim de colocar-nos em dia com o cotidiano da vida paulista e brasileira incentivava-nos, através da leitura dos jornais, ao mesmo tempo em que chamava nossa atenção para percebermos conjunturas diferentes das ações antrópicas sobre um só e mesmo espaço territorial. Ou seja, pensar os cenários de um setor qualquer do espaço geográfico, em épocas históricas diversas. Para tanto, mais tarde, tivemos que incorporar as brilhantes observações de Braudel sobre períodos de história longa e de história curta, envolvendo ciclos prolongados de rotina cumulativa e períodos rápidos de rupturas, envolvendo mudanças e destruiçôes irreversíveis. Nas ciências da Terra e da Ecologia — viemos a saber depois — as grandes mudanças fisiográficas e biogeográficas se processam, também, em períodos de transição tão rápidos quanto agressivos (teoria da biostasia e resistasia de Erhart). Curiosamente, Monbeig foi colega e grande amigo de Paul Braudel, através de uma permanente troca de idéias e conhecimentos. E, mais tarde, quando de seu regresso à França, Monbeig trabalhou em Estrasburgo, na mesma universidade onde Enri Erhart elaborou suas teorias esclarecedoras sobre as conseqüências pedológicas, morfológicas e fitogeográficas.
Introduzindo seus alunos na geografia urbana
Outro campo em que Pierre Monbeig conseguiu influenciar profundamente seus alunos foi o do terreno da geografia urbana. À medida em que foi tomando consciência sobre as cidades do interior paulista e norte-paranaense — nascidas e crescidas ao saber do ciclo do café — Monbeig incentivou alunos e ex-alunos a realizarem monografias sobre os núcleos urbanos que melhor conheciam: ou, por terem neles nascido, ou porque neles desenvolveram atividades de ensino. Dessa sua iniciativa, surgiram vários estudos, mais tarde publicados em revistas, as mais diversas. Tínhamos uma vantagem em terrenos de épocas culturais dos anos 40 em São Paulo: recebemos os ensinamentos de Monbeig sobre as abordagens geográficas para estudar uma cidade e podíamos incorporar a elas os princípios e fundamentos criados pelos sociólogos da Escola de Chicago, introduzidos em boa hora por Donald Pearson em suas aulas e livros na Escola de Sociologia e Política. A fusão sobre esses dois feixes de metodologias foi um trabalho à parte, feito por nós mesmos, com grande enriquecimento para a compreensão da organização interna dos organismos urbanos. Mais recentemente, a tais conhecimentos elaborados ao longo de quase um século, acrescentou-se a abordagem ecológica interativa, simbolizada por estudos nos quais a cidade é entendida, também, como um ecossistema urbano dotado de complexo metabolizado. O mais importante a salientar na avaliação dessas diferentes vertentes metodológicas é o fato de que elas não são excludentes. Pelo contrário, estas, e outras formas de entendimento dos fatos urbanológicos convergem para o entendimento mais holístico e dinâmico dos fatos do mundo urbano.
A justa preocupação de Monbeig com o estudo das cidades foi colocada em um trabalho pioneiro entre nós, publicado com o título de O estudo geográfico das cidades (SP, Revista do Arquivo, 1941). O ponto alto desse artigo foi a introdução, no Brasil, dos conceitos de sítio urbano, posição geográfica e estrutura espacial das funções urbanas. Monbeig intentou, com extraordinária clarividência, acrescentar à metodologia sociológica e urbanística o ponto de vista geográfico. De um lado, recuperava as observações pioneiras de Pierre Lavedan (França) e de Park e Burgess (Estados Unidos), incorporando todas as linhas de abordagem dos geógrafos norte-americanos e europeus que realizaram estudos sobre cidades em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil (Preston James, Philipe Arbos, Deffontaines). Entretanto, Monbeig não se contentou com as observações iniciais que teceu sobre o estudo geográfico das cidades e, mais tarde, quando da reprodução do artigo no livro Novos estudos de Geografia Humana Brasileira (Difusão Européia do Livro, 1957), acrescentou um apêndice incluindo novas informações bibliográficas e um grande número de conselhos metodológicos, entranhados do maior bom senso, dignos da maior reflexão.
Nesse novo livro, editado após dez anos de seu regresso à França, Pierre Monbeig repetiu a façanha cultural de sua primeira coletânea de Ensaios. Com a mesma linguagem, versátil e quase coloquial, expôs seus pontos de vista sobre o Papel e valor do ensino da Geografia e de sua pesquisa e Os modos de pensar na Geografia Humana. Fez traduzir e reproduzir o trabalho pioneiro sobre As estruturas agrárias da faixa pioneira paulista, assim como inseriu no livro seu meticuloso estudo sobre Aspectos geográficos do crescimento da cidade de São Paulo, publicado originalmente em O Estado de S. Paulo, de 25 de janeiro de 1954.
Nos seus cursos e seminários, bem preparados, Monbeig trazia para seus alunos o melhor das contribuições dos grandes geógrafos franceses de seu tempo: Vidal de La Blache, Albert Demangeon, Max Sorre, Emmanuel De Martonne, Jean Dresch. Introduziu-nos ao conhecimento dos grandes historiadores, dotados de boa formação geográfica como Lucien Febvre, Marc Block e André Sigfried. Recuperou o melhor das contribuições de Pierre Denis, Capot-Rey, J.J. Juglas, Pierre Deffontaines e do então jovem e genial Pierre George. Entre os norte-americanos, enfatizava a importância da obra Carl Sauer, Preston James e Clarence Jones. Através de pequenos informes ocasionais ficamos sabendo dos grandes dramas que atingiam a familia dos geógrafos e historiadores: Marc Block, assassinado pelos nazistas nos arredores de Lyon: perda irreparável para a inteligência européia. Deffontaines e Capot-Rey, mutilados de guerra. Ou fatos como o grande e promissor geógrafo Pierre Denis, que tanto escrevera sobre a América do Sul, transformando-se em economista categorizado na Venezuela.
Homem de cultura, sem vaidades, Pierre Monbeig que tinha a obrigação moral de realizar uma carreira acadêmica na universidade francesa, retardou essa meta em favor de seus discípulos brasileiros. De pronto, passou a orientar alguns de seus melhores alunos, direta ou indiretamente, para o doutorado: Maria Conceição Vicente de Carvalho (Litoral Paulista), Nice Lecocq Müller (Sítios e sitiantes do estado de São Paulo), Ary França (A ilha de São Sebastião), Renato da Silveira Mendes (Baixada Fluminense). Monbeig, além de seus discípulos mais antigos, tinha grande admiração pelo jovem geógrafo Pasquale Petrone, com muita razão.
A carreira acadêmica
Antes de aceitar o convite para vir ao Brasil, Monbeig era professor iniciante em Caen, na Normandia. Tinha a idéia fixa de conseguir recursos para elaborar uma tese sobre as ilhas Baleares, na Espanha. Nunca negou, até o fim da vida, que sua opção pelo Brasil estava respaldada em obter recursos financeiros para poder subvencionar seu trabalho de tese de Estado, sobre as Baleares. Mas, aqui chegando, foi capturado pela temática de uma região brasileira que se encontrava em pleno desenvolvimento rural e urbano, ainda que estivesse nos últimos estertores com relação à monocultura cafeeira. Muito cedo, Monbeig descobriu a importância do tema das zonas pioneiras, as quais, no seu tempo, encontravam os seus limites de atuação no grande Oeste de São Paulo e no Norte do Paraná. Matas sendo suprimidas, vilas de apoio criadas, imigrantes chegando das mais variadas partes do mundo, ferrovias se estendendo com paradas de trens favorecendo a criação de importantes centros urbanos — futuras capitais regionais. Economia regional se dinamizando e se destacando no conjunto dos espaços produtivos do Brasil. Repercussões do mundo rural e urbano no crescimento de uma grande cidade, candidata a metrópole. Industrialização se avolumando. Movimento cultural em pleno desdobramento: no jornalismo, no campo editorial, nas bibliotecas públicas, na vida universitária.
Comparado à França provincial, onde tudo estava consolidado e aparentemente já produzido, São Paulo era um espaço geográfico de múltipla dinâmica, que encantava os observadores alienígenas. Pierre Denis anotou os processos; Pierre Monbeig encantou-se pelo caráter autodesenvolvimentista de uma espaço privilegiado da América Tropical.
Assim, cedo (1937) abandonou o projeto de tese sobre as Baleares e partiu para a elaboração de sua grande pesquisa Planteurs et pionniers dans l' Etat de Saint Paulo, defendida na Sorbonne como Thèse doctorat des Lettres, obtendo o prêmio de tese pela Fondation Nationale des Sciences (1950). Trabalho posteriormente editado pela Librarie Armand Colin, em 1952.
Muito embora seu trabalho de tese tenha tido sua redação terminada em França (Estrasburgo e Paris), as pesquisas do autor revelam uma trajetória de investigações diretas de campo, pelas mais diversas regiões de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. E, ao mesmo tempo, um cuidado especial com a cartografia disponível e a documentação estatística adequada para respaldar os valores quantitativos referentes à região em estudo. No prefácio de sua tese, Monbeig faz comentários precisos sobre a conjuntura da cartografia e da estatística durante o período de sua passagem por São Paulo (1935-1946).
Por anos, antes que houvesse um conjunto de revistas especializadas no Brasil e em São Paulo, os membros da missão francesa da USP publicaram artigos e estudos prévios no tradicional jornal paulista O Estado de S. Paulo, razão pela qual a terceira página do referido periódico ficou famosa pela colaboração cultural freqüente de Roger Bastide, de Pierre Monbeig e de outros professores universitários. O Estadão tornou-se, em São Paulo, o órgão de divulgação de ciências humanas; paralelizando o feito do Diário do Comércio do Rio de Janeiro, que havia possibilitado a divulgação de estudos e artigos de grandes geólogos americanos que estiveram no Brasil no fim do século passado e início do século XX. A maior parte dos artigos de Monbeig sobre São Paulo e zonas pioneiras do Centro-Sul brasileiro, publicados em O Estado de S. Paulo foi posteriormente reproduzida em revistas e boletins geográficos especializados.
A seqüência dos estudos prévios do autor revela uma admirável atividade cultural: Les zones pionnières de l' Etat de São Paulo (Annales d'Histoire Economiques et Sociale, 1937); Algodão versus café (Geografia, A.G.B., 1936); Une nouvelle liaison entre São Paulo et Santos (Annales de Geographie, 1937); La population de l' Etat de São Paulo, Brésil (Annales de Geographie, 1937); Le voies de communication dans l' Etat de São Paulo (Bull, de l'Assoc. des Geogrs. Français, 1937); The colonial nucleous of barão de Antonina, São Paulo (Geogr. Review, 1940); Algumas observações sobre Marília, cidade pioneira (Rev. do Arq. Munic., SP, 1941); Comentários em torno do mapa de evolução da população do estado de São Paulo entre 1934 e 1940 (Geografia, A.G.B., 1934); Alta paulista e Alta araraquarense: duas regiões novas paulistas (Boletim Geográfico, CNG/IBGE, 1946); A divisão regional do estado de São Paulo (Relatório Anual, 1946) (Anais da A.G.B., nº 1, 1949); La croissance de la ville de São Paulo (Escrito em 1949), publicado em 1953 pelo Instituto de Geqgr. Alpine, Grenoble); Les structures agraires dans la frange pionniere de São Paulo (Les Cahiers d' Outre Mer. Rev. de Geogr. de Bordeaux et de l'Atlantique, 1951); La ville de Saint Paul (Reme de Geogr. de Lyon, 1950).
Muito cedo, em 1940, Monbeig reuniu em um inspirado livro os estudos que fizera desde os primeiros meses de 1935, sob o titulo Ensaios de Geografia Humana Brasileira. Incluía no pequeno volume — de edição cômoda — pela Livraria Martins, a aula inaugural do curso de Geografia Humana ministrada na Faculdade de Filosofia: Que é Geografia? O livro era dividido em seis partes principais: rumo a oeste, questões paulista, a terra do cacau, varia, geografia e paisagem, e o movimento geográfico brasileiro. Para muitos, poderia parecer uma simples coletânea de estudos dispersos. Na realidade, era um esforço divulgar idéias fundamentais perante o alunado e as elites culturais paulistas. Em linguagem deliciosa, com espírito crítico atilado e vivacidade intelectual, realizou incursões aos mais diversos setores da produção cultural. Tinha a capacidade de escrever com simplicidade e ao mesmo tempo penetrar na essência dos fatos. A releitura de dois excelentes textos do seu primeiro livro — Literatura e Geografia e A paisagem espelho de uma civilização — documentam a originalidade de seu estilo e a modernidade de suas abordagens. Monbeig geógrafo era certamente uma conseqüência de Monbeig intelectual.
Mesmo de longe, o exemplo a ser seguido
Em conselho que foi nos dado à distância, Monbeig investia contra o uso abusivo da expressão ciência aplicada, na qual cada grupo de especialistas procura uma aplicação para sua área de conhecimento, sem levar em conta as fortes interações necessárias para sua aplicabilidade. Em um congresso de cientistas franceses, Pierre Monbeig defendia a idéia de que existem aplicações de ciências e não apenas um caso solista de aplicação de uma ciência. Nessa ocasião, o mestre intuitivo que nele existia, procurava reorientar o pensamento de seus colegas para o campo da interdisciplinaridade indispensável às tarefas de aplicação de ciências a diferentes interesses da sociedade e do desenvolvimento econômico e social. Mal sabia Monbeig que estava provocando com vara curta os seus vaidosos colegas, cada qual pretendendo encontrar aplicações isoladas no campo científico a que se dedicavam. Hoje, após nossos próprios esforços no Brasil, sabemos que, somente combinadas, as ciências podem ter aplicação; e, ainda, se o conhecimento do receptor das propostas for suficientemente completo para que os conhecimentos interconexos possam ter resposta na sociedade. Do que decorre um fato de excepcional relevância: se não houver um esforço paralelo das ciências humanas para detectar defeitos da organização e do atendimento à sociedade, nenhuma ciência ou conjugação de ciências pode ser útil e ética em sua pretensão de aplicabilidade. Monbeig estava no caminho certo quando enfrentou seus colegas, deles recebendo o silêncio como resposta. Quem forjou parte dos seus conhecimentos no contexto do subdesenvolvimento tem mais força para entender a delicada problemática das aplicações de ciências.
Aziz Ab ' Sáber, geógrafo, é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e professor honorário do IEA-USP.
Repito: difícil relembrar a figura do bom, seguro e inteligente mestre que adotou o Brasil como sua segunda pátria, até o fim de seus dias. Outros de seus discípulos culturalmente bem-sucedidos tiveram a mesma dificuldade. Caio Prado Júnior, por exemplo, escrevendo um rápido prefácio para um dos últimos livros de Monbeig sobre o Brasil, dizia: "Como amigo de Pierre Monbeig, e amigo de longa data, poderia dar-me por suspeito na apresentação que dele faço — sinto-me, todavia inteiramente à vontade porque não somente o conceito por ele granjeado no consenso geral dispensaria aquela minha apreciação, como porque se me liguei a Pierre Monbeig, foi precisamente atraído pelos seus invulgares dotes de homem da ciência que fazem tão fecunda a convivência com ele" (setembro de 1957). As vésperas de completar meus 70 anos, não sei se terei tempo e tranqüilidade psicológica para escrever sobre Pierre Monbeig, Plínio Ayrosa, Aroldo de Azevedo, Jean Gagé, Roger Bastide, Emílio Willems, João Cruz Costa ou Aziz Simão. Cada um deles que se foi, nos deixou ao traço amargo do vazio cultural e do amparo da amizade.
Existem poucos escritos sobre Pierre Monbeig: alguns referências formais em prefácios para seus diversos livros, uma nota substancial do jornal O Estado de S. Paulo por ocasião de seu falecimento (setembro, 1987) e uma excelente entrevista, publicada no mesmo órgão da imprensa paulista, por Lourenço Dantas Mota e Antonio Carlos Pereira, em 4 de novembro de 1979. A releitura dessa entrevista, feita no momento da mais plena maturidade do velho professor e homem público francês, possibilita avaliar a trajetória de sua vida e a acuidade de suas idéias. Acrescenta-se a esse trabalho dos dois entrevistadores brasileiros, um artigo de Gilles Lapouge, especial para o Jornal da Tarde do dia 11 de fevereiro de 1984, em entrevista feita em Paris, na residência da família. Monbeig e D. Julieta viviam na capital francesa, em um apartamento alugado do Quartier Latin, pagando aluguel ao Papa, segundo comentou um dia. Ao longo de toda a sua vida, professor dedicado e pesquisador incansável, teve pouco tempo para obter um patrimônio pessoal. Espera-se que, em compensação, seus filhos tenham melhor sorte.
A chegada ao Brasil para lecionar na Filosofia
Pierre Monbeig veio ao Brasil para se agregar aos professores da missão francesa, convidada a participar da fundação da Universidade de São Paulo. Tinha, de saída, o difícil desafio de substituir um brilhante antecessor, que permanecera apenas alguns meses em São Paulo, transferindo-se depois para a Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, Efetivamente, o professor Pierre Deffontaines era uma personalidade aparentemente insubstituível. Dissidente da Sorbonne, mutilado de guerra, autor de livros de textos reconhecidos internacionalmente, Deffontaines havia tomado toda as iniciativas para implantar o ensino universitário das ciências geográficas em São Paulo e no Brasil. Coube a Monbeig, com sua tranqüilidade, sua linguagem cartesiana, e sua coerência de pesquisador e professor, dar continuidade plena e consolidar o trabalho iniciado por Deffontaines.
Havia um problema lingüístico a ser superado. Não era fácil chegar a um país da então distante e marginalizada América Latina, e, de pronto, aprender o português e ministrar aulas na língua local. Enquanto aprendia e se exercitava na fala do português, Monbeig ministrava todas as suas aulas em francês. Cabia à professora Maria da Conceição Vicente de Carvalho a tarefa de paralelizar e fazer acréscimos aos temas tratados. A maioria dos alunos aceitou a solução encontrada e, certamente, beneficiou-se por ter tido a oportunidade de treinamento direto no terreno de uma segunda língua. Na época, quase toda a bibliografia nuclear da Geografia Humana era elaborada ou divulgada em francês. As próprias obras e idéias dos grandes mestres alemães e norte-americanos das ciências geográficas chegavam ao Brasil, via língua francesa. Artigos fundamentais sobre o nosso país, publicados na França, durante a guerra de 1939 a 1945, chegavam ao Brasil por via diplomática. Tal como aconteceu com o extraordinário trabalho de Emmanuel De Martonne, Problèmes morphologiques du Brésil tropical atlantique, trazido para o Rio de Janeiro, graças à iniciativa de Francis Ruellan, outro grande professor francês que colaborou com a implantação da Geomorfologia na Faculdade de Filosofia da então Universidade do Brasil e com Conselho Nacional de Geografia do IBGE. Na ocasião, por essa e outras razões culturais, todos nós ficamos devendo uma obrigação à parte a Pierre Monbeig, por nos ter permitido ingressar numa língua de importância universal para a ciência de uma época. Algo parecido com o que acontece com o inglês neste fim de século e de milênio em nível da cultura científica internacional.
Monbeig era uma figura de jovem gaulês no ambiente da velha cidade de São Paulo de Piratininga. Na apreciação de Gilles Lapouge, em fevereiro de 1984, "Monbeig tem estatura média, veste-se com elegância em marrom-escuro, seu rosto é bastante esculpido, a tez rósea, brilhante e os cabelos de um branco cintilante". Esta era, também, a nossa visão sobre o jovem professor que, então, ainda possuía cabelos menos brancos e uma vitalidade de fazer inveja aos seus jovens alunos. Lembro-me dele, a percorrer o longo corredor do terceiro andar da Escola Normal Caetano de Campos, transitando com rapidez pronunciada para chegar até a sala do canto, voltada para a praça da República e a rua Sete de Abril. Com o mesmo vigor que possuía ao ensejo das excursões de campo, subindo ou descendo morros e chapadões para obter um ponto de observação mais aprofundado sobre a paisagem ou se achegar a algum homem do campo para uma entrevista dirigida, visando à compreensão da vida agrária regional.
A despeito de sua tranqüilidade habitual, Monbeig era uma pequena fera crítica perante a mediocridade de alunos, candidatos a alunos, ou escritos genéricos e epidérmicos, feitos por quem quer que fosse. Teve alguns aborrecimentos e constituiu desafetos graças ao seu atilado espírito crítico, às vezes explosivo. No entanto, de modo permanente e espontâneo, era capaz de refletir em voz alta, através de mensagens e conselhos do maior bom senso imaginável dirigidos a seus alunos, colegas ou eventuais visitantes culturais.
Nos vestibulares de 1941, o exame oral de Geografia foi conduzido por três examinadores, tendo ao centro a figura atenta de Pierre Monbeig. Nos primeiros anos da história da Faculdade houve uma estratégia destinada a receber professores do ensino secundário, em uma tentativa pontualizada de melhorar ou reclamar os conhecimentos geográficos dos mestres de escolas que já se encontravam na ativa. Nessa circunstância, Monbeig era muito mais jovem do que a maioria de seus alunos. Com o decorrer do tempo, optou pela juventude, e assim chegou a nossa vez. Nesta circunstância, os examinadores inquiriam os candidatos à Faculdade, com perguntas situadas muito acima do conhecimento médio dos jovens recém-egressos de cursos secundários. Monbeig era, ao mesmo tempo, atento e cáustico. Sua indignação maior, ainda que muito rápida, acontecia quando percebia que alguns jovens vestibulandos não liam jornais. Parte de sua nota final levava em consideração o fato de os postulantes à Universidade estarem em dia com a marcha dos acontecimentos políticos, sociais e econômicos do Brasil. Como decorrência desse critério adicional, os que possuíam apenas cultura livresca, baseada em obras didáticas incompletas e fragmentárias, sofriam com as questões que lhes eram endereçadas.
Lembro-me bem: alguns de nós vindos do interior paulista, ainda conhecíamos quase nada da região de São Paulo, onde estava se estruturando a grande Metrópole paulistana. Nesse sentido, a salvação de alguns residia no aprendizado prévio, feito no chamado Colégio Universitário, no qual, por dois anos de estudos ocorria um intervalo de preparação para a Universidade. Outros, recém-saídos dos ginásios (com apenas cinco anos de estudos), tinham de se contentar com as aulas intensivas do cursinho do Grêmio da Faculdade, que funcionava como excelente espaço de treinamento docente para os veteranos, em vésperas de formatura.
As atividades extraclasse
Terminados os exames: uma esperada lista dos resultados era afixada no centro do longo corredor Escola da Praça. O medo de ter sido reprovado, decepção para alguns, alegria inusitada para os bem-sucedidos. Outra surpresa: uma pequena nota à margem da lista dos aprovados, convocando os calouros para um primeiro dia de aula... que deveria ser diretamente realizada no campo, através de uma excursão programada. Assinado: Pierre Monbeig, professor de Geografia Humana.
Foi através dessa iniciativa que a turma de 1941 foi introduzida ao conhecimento da paisagem e dos fatos cumulativos constituídos pela história dos grupos humanos e dos processos econômicos sobre o espaço geográfico. Nada de mais importante poderia ter marcado nosso destino, na escolha de uma ciência para ser cultivada pelo resto de nossas vidas, do que aquela primeira e predestinada excursão sobre o terreno. A iniciativa era da inteira responsabilidade de Monbeig. O itinerário escolhido envolvia a saída a partir das colinas de São Paulo e um transecto pelas serranias de Jundiaí, até atingir setores da chamada depressão periférica paulista. De São Paulo a Jundiaí e a Campinas, até Salto e Itu, com regresso pelo famoso canyon do Tietê, passando por Cabreúva, Pirapora do Bom Jesus, Sant'Ana do Parnaíba e subúrbios ocidentais de São Paulo. Encantou-nos, sobretudo, a dinâmica dos caminhamentos e a acuidade das observações de mestre Pierre Monbeig. Pelas suas mãos estávamos sendo iniciados na fascinante aventura cultural de compreender a organização antrópica imposta — com erros e acertos — à organização herdada da natureza. Fato que teve influência decisiva na escolha da profissão, no interior do curso de História e Geografia. Ficamos premidos por um duro dilema: ser geógrafos ou seguir a trilha, igualmente magnífica, dos estudos historiográficos. Alguns de nós resolveram a dura batalha interior seguindo o anastomosado caminho que envolve o cruzamento entre o espaço e tempo.
No antigo curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia solicitava-se muito dos alunos: todas as histórias; todas as geografias; língua portuguesa; princípios de Ciências Sociais; elementos de Cartografia; e, desenho. Era um vestibular para valer. Mas ao se ingressar no curso, propriamente, a tudo isso se acrescentava Antropologia Cultural, Etnografia e Tupi-guarani e Elementos de Geologia. Os exames de História eram menos drásticos, tanto no vestibular, quanto no decorrer do curso. Todos os professores nos forneciam uma cronologia seletiva dos fatos a serem detalhados e interpretados. Tratava-se de um procedimento que nos dava certa tranqüilidade, ainda que ilusória. Os trabalhos exigidos por quase todos os professores, para serem redigidos em um semestre, constituíam o ponto de nosso aprendizado, tanto no campo da História quanto, sobretudo, no da Geografia. De um lado, aprendia-se a problemática dos contatos culturais e étnicos, em todas as suas conseqüências. E, de outro, adentrava-se em conhecimento da estrutura dos terrenos, idade das formações rochosas. A tarefa de separar a história geológica em fase da história geomorfológica e biogeográfica ficava por nossa conta e risco, obrigando-nos a realizar trabalhos extras, sem o controle ou a orientação de alguém.
Num esforço de memória, decorrido meio século em relação ao tempo de atuação de Monbeig na USP, tento me lembrar de alguns de seus conselhos extramuros da Faculdade. Restritos a leituras não muito sistemáticas, feitas na antiga Biblioteca Municipal da rua Sete de Abril e, posteriormente, na Biblioteca Mário de Andrade, alguns de nós tendíamos para teorizações precoces. Monbeig nos alertava que toda a teorização precoce acabava por ser repetitiva e infértil. Era necessário iniciar-se por trabalhos analíticos sobre temas reais, percebidos no teatro geográfico das atividades humanas, quer no mundo rural quer no urbano. Antes de se iniciar nos trabalhos de campo e na percepção das relações entre os homens e a terra, e os homens e a sociedade, era impossível teorizar. Foi um lembrete oportuno e definitivo para a formação de jovens geógrafos que um dia teriam de tratar das sérias e diferenciadas questões regionais brasileiras, desde a Amazônia até os sertões secos, as planícies costeiras e os planaltos interiores dominados por matas ou cerrados, bosques de araucárias e pradarias mistas. Locais onde a estrutura fundiária tendia a se enrijecer, o espaço geográfico tornava-se mercadoria, os trabalhadores rurais e urbanos eram tratados apenas como mão-de-obra braçal, sem direitos e sem proteção.
Fiel ao lema de introduzir seus alunos em tarefas de iniciação, feitas diretamente no campo, Pierre Monbeig exigia deles estudos múltiplos sobre subáreas da região de São Paulo e de seus arredores. Ele sabia que nós, alunos egressos de classes pobres, não tínhamos recursos para realizar pesquisas em áreas distantes, que exigissem despesas de viagens, estadia e transportes. Não existiam, na época, agências financiadoras para pesquisas; ele próprio tinha grandes dificuldades para dar continuidade às suas investigações nas zonas pioneiras do Oeste Paulista e Norte do Paraná. Monbeig nos pedia estudos da planície do Tietê, envolvendo formas e tendências da ocupação e uso dos espaços varzianos. Pouco mais tarde, Aroldo de Azevedo adotava a mesma estratégia, dividindo as tarefas dos seus alunos pelos mais variados setores da Grande São Paulo. Monbeig alternava suas exigências incitando-nos a ler os mais recentes artigos das poucas revistas especializadas disponíveis em São Paulo. A fim de colocar-nos em dia com o cotidiano da vida paulista e brasileira incentivava-nos, através da leitura dos jornais, ao mesmo tempo em que chamava nossa atenção para percebermos conjunturas diferentes das ações antrópicas sobre um só e mesmo espaço territorial. Ou seja, pensar os cenários de um setor qualquer do espaço geográfico, em épocas históricas diversas. Para tanto, mais tarde, tivemos que incorporar as brilhantes observações de Braudel sobre períodos de história longa e de história curta, envolvendo ciclos prolongados de rotina cumulativa e períodos rápidos de rupturas, envolvendo mudanças e destruiçôes irreversíveis. Nas ciências da Terra e da Ecologia — viemos a saber depois — as grandes mudanças fisiográficas e biogeográficas se processam, também, em períodos de transição tão rápidos quanto agressivos (teoria da biostasia e resistasia de Erhart). Curiosamente, Monbeig foi colega e grande amigo de Paul Braudel, através de uma permanente troca de idéias e conhecimentos. E, mais tarde, quando de seu regresso à França, Monbeig trabalhou em Estrasburgo, na mesma universidade onde Enri Erhart elaborou suas teorias esclarecedoras sobre as conseqüências pedológicas, morfológicas e fitogeográficas.
Introduzindo seus alunos na geografia urbana
Outro campo em que Pierre Monbeig conseguiu influenciar profundamente seus alunos foi o do terreno da geografia urbana. À medida em que foi tomando consciência sobre as cidades do interior paulista e norte-paranaense — nascidas e crescidas ao saber do ciclo do café — Monbeig incentivou alunos e ex-alunos a realizarem monografias sobre os núcleos urbanos que melhor conheciam: ou, por terem neles nascido, ou porque neles desenvolveram atividades de ensino. Dessa sua iniciativa, surgiram vários estudos, mais tarde publicados em revistas, as mais diversas. Tínhamos uma vantagem em terrenos de épocas culturais dos anos 40 em São Paulo: recebemos os ensinamentos de Monbeig sobre as abordagens geográficas para estudar uma cidade e podíamos incorporar a elas os princípios e fundamentos criados pelos sociólogos da Escola de Chicago, introduzidos em boa hora por Donald Pearson em suas aulas e livros na Escola de Sociologia e Política. A fusão sobre esses dois feixes de metodologias foi um trabalho à parte, feito por nós mesmos, com grande enriquecimento para a compreensão da organização interna dos organismos urbanos. Mais recentemente, a tais conhecimentos elaborados ao longo de quase um século, acrescentou-se a abordagem ecológica interativa, simbolizada por estudos nos quais a cidade é entendida, também, como um ecossistema urbano dotado de complexo metabolizado. O mais importante a salientar na avaliação dessas diferentes vertentes metodológicas é o fato de que elas não são excludentes. Pelo contrário, estas, e outras formas de entendimento dos fatos urbanológicos convergem para o entendimento mais holístico e dinâmico dos fatos do mundo urbano.
A justa preocupação de Monbeig com o estudo das cidades foi colocada em um trabalho pioneiro entre nós, publicado com o título de O estudo geográfico das cidades (SP, Revista do Arquivo, 1941). O ponto alto desse artigo foi a introdução, no Brasil, dos conceitos de sítio urbano, posição geográfica e estrutura espacial das funções urbanas. Monbeig intentou, com extraordinária clarividência, acrescentar à metodologia sociológica e urbanística o ponto de vista geográfico. De um lado, recuperava as observações pioneiras de Pierre Lavedan (França) e de Park e Burgess (Estados Unidos), incorporando todas as linhas de abordagem dos geógrafos norte-americanos e europeus que realizaram estudos sobre cidades em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil (Preston James, Philipe Arbos, Deffontaines). Entretanto, Monbeig não se contentou com as observações iniciais que teceu sobre o estudo geográfico das cidades e, mais tarde, quando da reprodução do artigo no livro Novos estudos de Geografia Humana Brasileira (Difusão Européia do Livro, 1957), acrescentou um apêndice incluindo novas informações bibliográficas e um grande número de conselhos metodológicos, entranhados do maior bom senso, dignos da maior reflexão.
Nesse novo livro, editado após dez anos de seu regresso à França, Pierre Monbeig repetiu a façanha cultural de sua primeira coletânea de Ensaios. Com a mesma linguagem, versátil e quase coloquial, expôs seus pontos de vista sobre o Papel e valor do ensino da Geografia e de sua pesquisa e Os modos de pensar na Geografia Humana. Fez traduzir e reproduzir o trabalho pioneiro sobre As estruturas agrárias da faixa pioneira paulista, assim como inseriu no livro seu meticuloso estudo sobre Aspectos geográficos do crescimento da cidade de São Paulo, publicado originalmente em O Estado de S. Paulo, de 25 de janeiro de 1954.
Nos seus cursos e seminários, bem preparados, Monbeig trazia para seus alunos o melhor das contribuições dos grandes geógrafos franceses de seu tempo: Vidal de La Blache, Albert Demangeon, Max Sorre, Emmanuel De Martonne, Jean Dresch. Introduziu-nos ao conhecimento dos grandes historiadores, dotados de boa formação geográfica como Lucien Febvre, Marc Block e André Sigfried. Recuperou o melhor das contribuições de Pierre Denis, Capot-Rey, J.J. Juglas, Pierre Deffontaines e do então jovem e genial Pierre George. Entre os norte-americanos, enfatizava a importância da obra Carl Sauer, Preston James e Clarence Jones. Através de pequenos informes ocasionais ficamos sabendo dos grandes dramas que atingiam a familia dos geógrafos e historiadores: Marc Block, assassinado pelos nazistas nos arredores de Lyon: perda irreparável para a inteligência européia. Deffontaines e Capot-Rey, mutilados de guerra. Ou fatos como o grande e promissor geógrafo Pierre Denis, que tanto escrevera sobre a América do Sul, transformando-se em economista categorizado na Venezuela.
Homem de cultura, sem vaidades, Pierre Monbeig que tinha a obrigação moral de realizar uma carreira acadêmica na universidade francesa, retardou essa meta em favor de seus discípulos brasileiros. De pronto, passou a orientar alguns de seus melhores alunos, direta ou indiretamente, para o doutorado: Maria Conceição Vicente de Carvalho (Litoral Paulista), Nice Lecocq Müller (Sítios e sitiantes do estado de São Paulo), Ary França (A ilha de São Sebastião), Renato da Silveira Mendes (Baixada Fluminense). Monbeig, além de seus discípulos mais antigos, tinha grande admiração pelo jovem geógrafo Pasquale Petrone, com muita razão.
A carreira acadêmica
Antes de aceitar o convite para vir ao Brasil, Monbeig era professor iniciante em Caen, na Normandia. Tinha a idéia fixa de conseguir recursos para elaborar uma tese sobre as ilhas Baleares, na Espanha. Nunca negou, até o fim da vida, que sua opção pelo Brasil estava respaldada em obter recursos financeiros para poder subvencionar seu trabalho de tese de Estado, sobre as Baleares. Mas, aqui chegando, foi capturado pela temática de uma região brasileira que se encontrava em pleno desenvolvimento rural e urbano, ainda que estivesse nos últimos estertores com relação à monocultura cafeeira. Muito cedo, Monbeig descobriu a importância do tema das zonas pioneiras, as quais, no seu tempo, encontravam os seus limites de atuação no grande Oeste de São Paulo e no Norte do Paraná. Matas sendo suprimidas, vilas de apoio criadas, imigrantes chegando das mais variadas partes do mundo, ferrovias se estendendo com paradas de trens favorecendo a criação de importantes centros urbanos — futuras capitais regionais. Economia regional se dinamizando e se destacando no conjunto dos espaços produtivos do Brasil. Repercussões do mundo rural e urbano no crescimento de uma grande cidade, candidata a metrópole. Industrialização se avolumando. Movimento cultural em pleno desdobramento: no jornalismo, no campo editorial, nas bibliotecas públicas, na vida universitária.
Comparado à França provincial, onde tudo estava consolidado e aparentemente já produzido, São Paulo era um espaço geográfico de múltipla dinâmica, que encantava os observadores alienígenas. Pierre Denis anotou os processos; Pierre Monbeig encantou-se pelo caráter autodesenvolvimentista de uma espaço privilegiado da América Tropical.
Assim, cedo (1937) abandonou o projeto de tese sobre as Baleares e partiu para a elaboração de sua grande pesquisa Planteurs et pionniers dans l' Etat de Saint Paulo, defendida na Sorbonne como Thèse doctorat des Lettres, obtendo o prêmio de tese pela Fondation Nationale des Sciences (1950). Trabalho posteriormente editado pela Librarie Armand Colin, em 1952.
Muito embora seu trabalho de tese tenha tido sua redação terminada em França (Estrasburgo e Paris), as pesquisas do autor revelam uma trajetória de investigações diretas de campo, pelas mais diversas regiões de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. E, ao mesmo tempo, um cuidado especial com a cartografia disponível e a documentação estatística adequada para respaldar os valores quantitativos referentes à região em estudo. No prefácio de sua tese, Monbeig faz comentários precisos sobre a conjuntura da cartografia e da estatística durante o período de sua passagem por São Paulo (1935-1946).
Por anos, antes que houvesse um conjunto de revistas especializadas no Brasil e em São Paulo, os membros da missão francesa da USP publicaram artigos e estudos prévios no tradicional jornal paulista O Estado de S. Paulo, razão pela qual a terceira página do referido periódico ficou famosa pela colaboração cultural freqüente de Roger Bastide, de Pierre Monbeig e de outros professores universitários. O Estadão tornou-se, em São Paulo, o órgão de divulgação de ciências humanas; paralelizando o feito do Diário do Comércio do Rio de Janeiro, que havia possibilitado a divulgação de estudos e artigos de grandes geólogos americanos que estiveram no Brasil no fim do século passado e início do século XX. A maior parte dos artigos de Monbeig sobre São Paulo e zonas pioneiras do Centro-Sul brasileiro, publicados em O Estado de S. Paulo foi posteriormente reproduzida em revistas e boletins geográficos especializados.
A seqüência dos estudos prévios do autor revela uma admirável atividade cultural: Les zones pionnières de l' Etat de São Paulo (Annales d'Histoire Economiques et Sociale, 1937); Algodão versus café (Geografia, A.G.B., 1936); Une nouvelle liaison entre São Paulo et Santos (Annales de Geographie, 1937); La population de l' Etat de São Paulo, Brésil (Annales de Geographie, 1937); Le voies de communication dans l' Etat de São Paulo (Bull, de l'Assoc. des Geogrs. Français, 1937); The colonial nucleous of barão de Antonina, São Paulo (Geogr. Review, 1940); Algumas observações sobre Marília, cidade pioneira (Rev. do Arq. Munic., SP, 1941); Comentários em torno do mapa de evolução da população do estado de São Paulo entre 1934 e 1940 (Geografia, A.G.B., 1934); Alta paulista e Alta araraquarense: duas regiões novas paulistas (Boletim Geográfico, CNG/IBGE, 1946); A divisão regional do estado de São Paulo (Relatório Anual, 1946) (Anais da A.G.B., nº 1, 1949); La croissance de la ville de São Paulo (Escrito em 1949), publicado em 1953 pelo Instituto de Geqgr. Alpine, Grenoble); Les structures agraires dans la frange pionniere de São Paulo (Les Cahiers d' Outre Mer. Rev. de Geogr. de Bordeaux et de l'Atlantique, 1951); La ville de Saint Paul (Reme de Geogr. de Lyon, 1950).
Muito cedo, em 1940, Monbeig reuniu em um inspirado livro os estudos que fizera desde os primeiros meses de 1935, sob o titulo Ensaios de Geografia Humana Brasileira. Incluía no pequeno volume — de edição cômoda — pela Livraria Martins, a aula inaugural do curso de Geografia Humana ministrada na Faculdade de Filosofia: Que é Geografia? O livro era dividido em seis partes principais: rumo a oeste, questões paulista, a terra do cacau, varia, geografia e paisagem, e o movimento geográfico brasileiro. Para muitos, poderia parecer uma simples coletânea de estudos dispersos. Na realidade, era um esforço divulgar idéias fundamentais perante o alunado e as elites culturais paulistas. Em linguagem deliciosa, com espírito crítico atilado e vivacidade intelectual, realizou incursões aos mais diversos setores da produção cultural. Tinha a capacidade de escrever com simplicidade e ao mesmo tempo penetrar na essência dos fatos. A releitura de dois excelentes textos do seu primeiro livro — Literatura e Geografia e A paisagem espelho de uma civilização — documentam a originalidade de seu estilo e a modernidade de suas abordagens. Monbeig geógrafo era certamente uma conseqüência de Monbeig intelectual.
Mesmo de longe, o exemplo a ser seguido
Em conselho que foi nos dado à distância, Monbeig investia contra o uso abusivo da expressão ciência aplicada, na qual cada grupo de especialistas procura uma aplicação para sua área de conhecimento, sem levar em conta as fortes interações necessárias para sua aplicabilidade. Em um congresso de cientistas franceses, Pierre Monbeig defendia a idéia de que existem aplicações de ciências e não apenas um caso solista de aplicação de uma ciência. Nessa ocasião, o mestre intuitivo que nele existia, procurava reorientar o pensamento de seus colegas para o campo da interdisciplinaridade indispensável às tarefas de aplicação de ciências a diferentes interesses da sociedade e do desenvolvimento econômico e social. Mal sabia Monbeig que estava provocando com vara curta os seus vaidosos colegas, cada qual pretendendo encontrar aplicações isoladas no campo científico a que se dedicavam. Hoje, após nossos próprios esforços no Brasil, sabemos que, somente combinadas, as ciências podem ter aplicação; e, ainda, se o conhecimento do receptor das propostas for suficientemente completo para que os conhecimentos interconexos possam ter resposta na sociedade. Do que decorre um fato de excepcional relevância: se não houver um esforço paralelo das ciências humanas para detectar defeitos da organização e do atendimento à sociedade, nenhuma ciência ou conjugação de ciências pode ser útil e ética em sua pretensão de aplicabilidade. Monbeig estava no caminho certo quando enfrentou seus colegas, deles recebendo o silêncio como resposta. Quem forjou parte dos seus conhecimentos no contexto do subdesenvolvimento tem mais força para entender a delicada problemática das aplicações de ciências.
Aziz Ab ' Sáber, geógrafo, é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e professor honorário do IEA-USP.
Pierre Monbeig
Pierre Monbeig (Marissel, Oise, 15 de setembro de 1908 — Cavalaire, Var, 22 de setembro 1987) foi um geógrafo francês, que trabalhou e estudou o Brasil entre 1935 e 1946, data em que ocupou cadeira de professor na Universidade de São Paulo, assim como cátedra de geografia humana nesse mesmo período. Foi mestre de diversos geógrafos brasileiros importantes, como Pasquale Petrone e Aziz Ab'Saber, divulgando uma geografia francesa modificada na Universidade de São Paulo, conseqüentemente em território nacional.[carece de fontes?]
Entre suas caractéristicas, típicas da geografia francesa da década de 30 está a herança intelectual de Vidal de La Blache e sua defesa do genêro de vida e região. Porém Monbeig introduz o "modo de pensar", assim como a pisicologia dos povos, algo original e não muito aceito em sua época.[carece de fontes?]
Esse "modo de pensar" seria aquilo que faz os habitantes de uma região agirem de certo modo, ou seja, terem o seu genêro de vida. Hoje, algo aceito, na época foi visto com desconfiança, pois a geografia tentava se isolar para se afirmar uma geografia pura, e também não acreditava nas correntes de pisicologia nascentes nos Estados Unidos.[carece de fontes?]
Monbeig, assim como seus mestres Albert Demangeon e indiramente de la Blache, acreditava no homem como elemento fundamental da paisagem, e não só uma característica determianda pelo meio.
A paisagem de Monbeig também incluia elementos como odor e som, além de cultura e religão, dando início a "região cultural", algo na fora de época também. Essa visão do homem na geografia pedia a presença de outras ciências humanas, como a história. Monbeig foi um defensor da Geografia ser conectada com a História, sendo contra então a separação da Geografia e História em cursos universitários distintos, como o é hoje.
Publicações de Monbeig
* 1940: Ensaios de geografia humana brasileira, São Paulo: Livraria Martins.
* 1957: Novos estudos de geografia humana brasileira, São Paulo: Difusão Européia do Livro.
* 1969: Brasil, São Paulo: Difusao Europeia Do Livro.
* 1984: Pioneiros e fazendeiros de São Paulo, São Paulo: Hucitec, Polis.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Entre suas caractéristicas, típicas da geografia francesa da década de 30 está a herança intelectual de Vidal de La Blache e sua defesa do genêro de vida e região. Porém Monbeig introduz o "modo de pensar", assim como a pisicologia dos povos, algo original e não muito aceito em sua época.[carece de fontes?]
Esse "modo de pensar" seria aquilo que faz os habitantes de uma região agirem de certo modo, ou seja, terem o seu genêro de vida. Hoje, algo aceito, na época foi visto com desconfiança, pois a geografia tentava se isolar para se afirmar uma geografia pura, e também não acreditava nas correntes de pisicologia nascentes nos Estados Unidos.[carece de fontes?]
Monbeig, assim como seus mestres Albert Demangeon e indiramente de la Blache, acreditava no homem como elemento fundamental da paisagem, e não só uma característica determianda pelo meio.
A paisagem de Monbeig também incluia elementos como odor e som, além de cultura e religão, dando início a "região cultural", algo na fora de época também. Essa visão do homem na geografia pedia a presença de outras ciências humanas, como a história. Monbeig foi um defensor da Geografia ser conectada com a História, sendo contra então a separação da Geografia e História em cursos universitários distintos, como o é hoje.
Publicações de Monbeig
* 1940: Ensaios de geografia humana brasileira, São Paulo: Livraria Martins.
* 1957: Novos estudos de geografia humana brasileira, São Paulo: Difusão Européia do Livro.
* 1969: Brasil, São Paulo: Difusao Europeia Do Livro.
* 1984: Pioneiros e fazendeiros de São Paulo, São Paulo: Hucitec, Polis.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Maximilien Sorre
Maximilian Joseph Sorer, ou Max. Sorre, nascido em 16 de julho de 1880 em Rennes, França, falecido em 10 de agosto de 1962, é um geógrafo francês cujos trabalhos na área de geografia, biologia e humana foram reconhecidos mundialmente.
Os seus trabalhos procuram enriquecer o conceito de Gênero de Vida e mostrar a sua importância na atualidade.
"…a noção de Gênero de Vida, é extremamente rica, pois abraça a maioria, se não a totalidade das atividades do grupo e mesmo dos indivíduos. (…) êstes elementos materiais e espirituais são, no sentido exato da palavra, técnicos, processos transmitidos pela tradição e graças aos quais os homens se asseguram uma posse sôbre os elementos naturais. Técnicas de energia, técnicas de produção de matérias-primas, de maquinaria, são sempre técnicos, como as instituições que mantêm a coesão do grupo assegurando sua perenidade". (SORRE, 1963:30).
Maximilien Sorre e a Ecologia Humana
O geógrafo francês Max. Sorre (1880-1962) foi seguidor da Escola Possibilista da Geografia. Formou-se professor e lecionou até a Primeira Guerra Mundial. Trabalhou no sentido de integrar os estudos de Geografia Física aos de Geografia Humana. Este autor, manteve-se dentro da proposta vidalina, aperfeiçoando-a. Para Sorre, que escreveu suas principais obras na década de 1940, a ciência geográfica deveria estudar as formas pelas quais os homens organizam seu meio, considerando o espaço como a “morada do homem” (MORAES, 1999). O principal conceito desenvolvido por este geógrafo foi o de habitat, que diz respeito a uma área do planeta habitada por uma comunidade que a organiza. Trata-se assim, de uma construção humana, uma humanização do meio que expressa as múltiplas relações entre o homem e o ambiente que o envolve. (Op. Cit., 1999). Com base neste apanhado sobre a obra de Max. Sorre, pode-se constatar que a geografia produzida por este autor é a Ecologia do homem, ou seja, trata-se da relação dos grupos humanos com o meio em que vivem, em um processo de contínua transformação deste meio pelo homem. Por conseguinte, as condições do meio geográfico, resultante da ação dos homens, seriam diferentes das do meio natural original (Idem, 1999). Para o autor, a atividade humana se desenvolvia inserida em três grandes planos: o físico, o biológico e o social, que, enquanto condicionantes e condicionados pelo homem, eram pertinentes à ciência geográfica. A pesquisa sobre estes planos tinha que ser permanente, porquanto a relação entre eles ser dinâmica. E o fato geográfico também o é. (CAMPOS, 2004). Para Sorre (1984, p.116), “participar de uma vida de relações extensas cria esta atmosfera para a qual foram criadas as palavras ‘civilidade’ e ‘urbanidade’”. Segundo ele, para os olhos de um geógrafo, a cidade não é um acidente da paisagem, “seus traços fisionômicos são a expressão concreta e durável do gênero de vida urbano, dominado pela atividade da circulação, oposto aos gêneros de vida rurais”.(Idem,1984). A obra de Max. Sorre foi, sem dúvida, a segunda mais importante formulação da geografia francesa, pois tratou-se de uma reciclagem da geografia humana proposta por Vidal de La Blache, proporcionando uma retomada e um enriquecimento das teorias vidalinas – no sentido de proporcionar um conhecimento geográfico global e unitário -, mantendo porém, fidelidade à essência possibilista (MORAES, 1999). Não se pode também esquecer, como afirma Milton Santos (2002, p. 35), que Max. Sorre foi o "primeiro geógrafo a propor, com detalhe, a consideração do fenômeno técnico em toda sua amplitude". Sorre estava convencido de que a relação entre a transformação da técnica a mudança geográfica era muito importante. O sorreano Milton Santos ainda acrescentaria que atualmente a sociedade humana tem como seu domínio a Terra, ou seja, todo o planeta. Esta totalidade é o habitat desta sociedade. Na verdade, habitat e ecúmeno são, agora, sinônimos, abrangendo, igualmente, todo o planeta.
Na atualidade, segundo Santos, a Terra e a humanidade se confundem em um todo único. A presença do homem é um fato em toda a superfície terrestre e, a ocupação que, porventura, ainda não tenha ocorrido, é, entretanto, politicamente existente (SANTOS, 1997).
Em relação à Geografia Médica, Max. Sorre (a exemplo de Josué de Castro) a considerava como parte da Geografia Humana. Permitiu a apreensão da doença em termos de um fenômeno localizável, passível de delimitação em termos de área, inspirado em rumos já delineados por La Blache, Demangeon, Jean Brunhes e De Martonne, entre outros.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Os seus trabalhos procuram enriquecer o conceito de Gênero de Vida e mostrar a sua importância na atualidade.
"…a noção de Gênero de Vida, é extremamente rica, pois abraça a maioria, se não a totalidade das atividades do grupo e mesmo dos indivíduos. (…) êstes elementos materiais e espirituais são, no sentido exato da palavra, técnicos, processos transmitidos pela tradição e graças aos quais os homens se asseguram uma posse sôbre os elementos naturais. Técnicas de energia, técnicas de produção de matérias-primas, de maquinaria, são sempre técnicos, como as instituições que mantêm a coesão do grupo assegurando sua perenidade". (SORRE, 1963:30).
Maximilien Sorre e a Ecologia Humana
O geógrafo francês Max. Sorre (1880-1962) foi seguidor da Escola Possibilista da Geografia. Formou-se professor e lecionou até a Primeira Guerra Mundial. Trabalhou no sentido de integrar os estudos de Geografia Física aos de Geografia Humana. Este autor, manteve-se dentro da proposta vidalina, aperfeiçoando-a. Para Sorre, que escreveu suas principais obras na década de 1940, a ciência geográfica deveria estudar as formas pelas quais os homens organizam seu meio, considerando o espaço como a “morada do homem” (MORAES, 1999). O principal conceito desenvolvido por este geógrafo foi o de habitat, que diz respeito a uma área do planeta habitada por uma comunidade que a organiza. Trata-se assim, de uma construção humana, uma humanização do meio que expressa as múltiplas relações entre o homem e o ambiente que o envolve. (Op. Cit., 1999). Com base neste apanhado sobre a obra de Max. Sorre, pode-se constatar que a geografia produzida por este autor é a Ecologia do homem, ou seja, trata-se da relação dos grupos humanos com o meio em que vivem, em um processo de contínua transformação deste meio pelo homem. Por conseguinte, as condições do meio geográfico, resultante da ação dos homens, seriam diferentes das do meio natural original (Idem, 1999). Para o autor, a atividade humana se desenvolvia inserida em três grandes planos: o físico, o biológico e o social, que, enquanto condicionantes e condicionados pelo homem, eram pertinentes à ciência geográfica. A pesquisa sobre estes planos tinha que ser permanente, porquanto a relação entre eles ser dinâmica. E o fato geográfico também o é. (CAMPOS, 2004). Para Sorre (1984, p.116), “participar de uma vida de relações extensas cria esta atmosfera para a qual foram criadas as palavras ‘civilidade’ e ‘urbanidade’”. Segundo ele, para os olhos de um geógrafo, a cidade não é um acidente da paisagem, “seus traços fisionômicos são a expressão concreta e durável do gênero de vida urbano, dominado pela atividade da circulação, oposto aos gêneros de vida rurais”.(Idem,1984). A obra de Max. Sorre foi, sem dúvida, a segunda mais importante formulação da geografia francesa, pois tratou-se de uma reciclagem da geografia humana proposta por Vidal de La Blache, proporcionando uma retomada e um enriquecimento das teorias vidalinas – no sentido de proporcionar um conhecimento geográfico global e unitário -, mantendo porém, fidelidade à essência possibilista (MORAES, 1999). Não se pode também esquecer, como afirma Milton Santos (2002, p. 35), que Max. Sorre foi o "primeiro geógrafo a propor, com detalhe, a consideração do fenômeno técnico em toda sua amplitude". Sorre estava convencido de que a relação entre a transformação da técnica a mudança geográfica era muito importante. O sorreano Milton Santos ainda acrescentaria que atualmente a sociedade humana tem como seu domínio a Terra, ou seja, todo o planeta. Esta totalidade é o habitat desta sociedade. Na verdade, habitat e ecúmeno são, agora, sinônimos, abrangendo, igualmente, todo o planeta.
Na atualidade, segundo Santos, a Terra e a humanidade se confundem em um todo único. A presença do homem é um fato em toda a superfície terrestre e, a ocupação que, porventura, ainda não tenha ocorrido, é, entretanto, politicamente existente (SANTOS, 1997).
Em relação à Geografia Médica, Max. Sorre (a exemplo de Josué de Castro) a considerava como parte da Geografia Humana. Permitiu a apreensão da doença em termos de um fenômeno localizável, passível de delimitação em termos de área, inspirado em rumos já delineados por La Blache, Demangeon, Jean Brunhes e De Martonne, entre outros.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Belo Monte: Conselho de direitos humanos constata ausência absoluta do Estado
Missão constatou que, com a ausência do Estado, funcionários do próprio consórcio se intitulam agentes do governo para coagir moradores.
O Conselho Nacional de Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), órgão consultivo do governo, constatou uma situação de "ausência absoluta do Estado" no canteiro de obras onde será construída a Usina Belo Monte, na região do Rio Xingu. A obra é um dos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A avaliação foi apresentada nesta quarta-feira (13), na reunião do conselho, na presença da ministra da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), Maria do Rosário.
O informe foi feito pelo conselheiro Percílio de Sousa Lima Neto, vice-presidente do CDDPH, que participou de uma visita ao local. Segundo ele, a missão realizada na região do Alto Xingu constatou que, com a ausência do Estado, funcionários do próprio consórcio se intitulam agentes do governo para coagir moradores a abrirem mão de suas propriedades em nome da construção da obra.
"Constatamos ausência absoluta do Estado. É uma terra de ninguém. Há problemas de todas as ordens. Há exploração sexual de crianças, ausência do Estado no atendimento aos segmentos mais básicos. O que constatamos é um flagrante desequilíbrio entre o consórcio e as populações ribeirinhas, as etnias indígenas e outras comunidades tradicionais existentes naquela região", disse o conselheiro.
"Esse conselho não pode ignorar esse tratamento chocante. Há pessoas indefesas pedindo a nossa ajuda, e esse é o nosso papel", apelou o relator da expedição.
As denúncias apresentadas pelo conselheiro são as mesmas apresentadas por organizações defensoras de direitos humanos à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que resultaram em uma medida cautelar expedida na semana passada na qual a Organização dos Estados Americanos (OEA) pede a imediata suspensão do processo de licenciamento da obra da usina.
À época, o Ministério das Relações Exteriores afirmou, por meio de nota, ter recebido com “perplexidade” a recomendação e considerou as orientações “precipitadas e injustificáveis”. O governo também informou que não abre mão da construção da usina e que pretende acompanhar mais de perto o assunto.
De acordo com o conselheiro, o poder político na região vem sendo exercido pelo consórcio Norte Energia, responsável pela obra. "Os representantes dos consórcios, totalmente despreparados, se arvoram de representantes do Estado brasileiro. O que nós constatamos é que as condicionantes não estão sendo cumpridas", destacou.
Durante a reunião, um relato feito pelo conselheiro Sadi Pansera, assessor da Ouvidoria Agrária Nacional, órgão do Ministério do Desenvolvimento Agrário, contou a história de um pequeno proprietário que teve sua casa invadida por representantes do consórcio.
"Um trabalhador rural, pai de família, que vive na região de Terra do Meio, estava em seu horário de almoço. Ele relatou que chegaram na casa dele, não quiseram se sentar, e disserem: ou você assina aqui ou não vai receber nada e será expulso. Ele me questionou: 'que democracia é essa? Como pode, uma pessoa que eu nem conheço, chegar na minha casa, na hora do almoço, e diz o que quer? Quer tomar a minha propriedade onde eu criei meus filhos com todo carinho'", contou.
A representante no CDDPH do Conselho Nacional dos Procuradores dos estados e do Ministério Público Federal, Ivana Farina Navarrete Pena, que também participou da missão, alertou que o governo não está fazendo a checagem do cumprimento das condicionantes. De acordo com a procuradora, os agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que atuam em Anapu (PA), que antes se reportavam à superintendência de Altamira, agora precisam se reportar a Belém. "Isso significa mais demora para uma resposta. O Estado brasileiro não está fazendo a checagem do cumprimento das condicionantes porque não tem como fazer", destacou a procuradora.
Mesmo diante dos relatos, a ministra Maria do Rosário manteve a posição do governo de repúdio ao pedido da OEA e afirmou que isso não significa ignorar a necessidade de que o governo precisa garantir o cumprimento das condicionantes. "O governo tem uma posição crítica em relação à comissão [CIDH], mas isso não significa que não tenhamos consciência de que temos que agir", disse.
A posição de repúdio à decisão da OEA, de acordo com Maria do Rosário, se dá porque o governo entendeu que "há procedimentos internos no Brasil que não estão encerrados". A ministra sugeriu como solução ao problema que o CDDPH realize uma reunião extraordinária para tratar do assunto, com a presença de representantes do consórcio. Maria do Rosário se posicionou contrária à presença de representantes das comunidades na reunião extraordinária.
O Conselho Nacional de Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), órgão consultivo do governo, constatou uma situação de "ausência absoluta do Estado" no canteiro de obras onde será construída a Usina Belo Monte, na região do Rio Xingu. A obra é um dos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A avaliação foi apresentada nesta quarta-feira (13), na reunião do conselho, na presença da ministra da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), Maria do Rosário.
O informe foi feito pelo conselheiro Percílio de Sousa Lima Neto, vice-presidente do CDDPH, que participou de uma visita ao local. Segundo ele, a missão realizada na região do Alto Xingu constatou que, com a ausência do Estado, funcionários do próprio consórcio se intitulam agentes do governo para coagir moradores a abrirem mão de suas propriedades em nome da construção da obra.
"Constatamos ausência absoluta do Estado. É uma terra de ninguém. Há problemas de todas as ordens. Há exploração sexual de crianças, ausência do Estado no atendimento aos segmentos mais básicos. O que constatamos é um flagrante desequilíbrio entre o consórcio e as populações ribeirinhas, as etnias indígenas e outras comunidades tradicionais existentes naquela região", disse o conselheiro.
"Esse conselho não pode ignorar esse tratamento chocante. Há pessoas indefesas pedindo a nossa ajuda, e esse é o nosso papel", apelou o relator da expedição.
As denúncias apresentadas pelo conselheiro são as mesmas apresentadas por organizações defensoras de direitos humanos à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que resultaram em uma medida cautelar expedida na semana passada na qual a Organização dos Estados Americanos (OEA) pede a imediata suspensão do processo de licenciamento da obra da usina.
À época, o Ministério das Relações Exteriores afirmou, por meio de nota, ter recebido com “perplexidade” a recomendação e considerou as orientações “precipitadas e injustificáveis”. O governo também informou que não abre mão da construção da usina e que pretende acompanhar mais de perto o assunto.
De acordo com o conselheiro, o poder político na região vem sendo exercido pelo consórcio Norte Energia, responsável pela obra. "Os representantes dos consórcios, totalmente despreparados, se arvoram de representantes do Estado brasileiro. O que nós constatamos é que as condicionantes não estão sendo cumpridas", destacou.
Durante a reunião, um relato feito pelo conselheiro Sadi Pansera, assessor da Ouvidoria Agrária Nacional, órgão do Ministério do Desenvolvimento Agrário, contou a história de um pequeno proprietário que teve sua casa invadida por representantes do consórcio.
"Um trabalhador rural, pai de família, que vive na região de Terra do Meio, estava em seu horário de almoço. Ele relatou que chegaram na casa dele, não quiseram se sentar, e disserem: ou você assina aqui ou não vai receber nada e será expulso. Ele me questionou: 'que democracia é essa? Como pode, uma pessoa que eu nem conheço, chegar na minha casa, na hora do almoço, e diz o que quer? Quer tomar a minha propriedade onde eu criei meus filhos com todo carinho'", contou.
A representante no CDDPH do Conselho Nacional dos Procuradores dos estados e do Ministério Público Federal, Ivana Farina Navarrete Pena, que também participou da missão, alertou que o governo não está fazendo a checagem do cumprimento das condicionantes. De acordo com a procuradora, os agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que atuam em Anapu (PA), que antes se reportavam à superintendência de Altamira, agora precisam se reportar a Belém. "Isso significa mais demora para uma resposta. O Estado brasileiro não está fazendo a checagem do cumprimento das condicionantes porque não tem como fazer", destacou a procuradora.
Mesmo diante dos relatos, a ministra Maria do Rosário manteve a posição do governo de repúdio ao pedido da OEA e afirmou que isso não significa ignorar a necessidade de que o governo precisa garantir o cumprimento das condicionantes. "O governo tem uma posição crítica em relação à comissão [CIDH], mas isso não significa que não tenhamos consciência de que temos que agir", disse.
A posição de repúdio à decisão da OEA, de acordo com Maria do Rosário, se dá porque o governo entendeu que "há procedimentos internos no Brasil que não estão encerrados". A ministra sugeriu como solução ao problema que o CDDPH realize uma reunião extraordinária para tratar do assunto, com a presença de representantes do consórcio. Maria do Rosário se posicionou contrária à presença de representantes das comunidades na reunião extraordinária.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Rage Against The Machine
Com um som puro, sem sintetizadores, teclados ou samples; inspirado no punk rock dos anos 70 e donos de um estilo próprio de hardcore, a banda Rage Against The Machine trás à tona sua revolta em músicas incendiárias, com letras baseadas em uma visão política de extrema esquerda.
Direto de Los Angeles, no ano de 1991, o ex-Inside Out, Zack De La Rocha (vocais), Tom Morello (guitarra), Brad Wilk (bateria) e Tim Bob (baixo) formam a banda que, mesmo sem a ajuda de nenhuma gravadora, vendeu só em shows e fã-clubes, mais de cinco mil cópias de uma demo de doze faixas. Precursores de feitos inéditos, o RATM (ainda em início de carreira) abriu para bandas como: Pearl Jam, Body Count e Public Enemy; sem contar dois shows no palco secundário do Lollapalooza II (Los Angeles, California) e a turnê européia acompanhando o Suicidal Tendencies.
Sua ascendência visível rendeu um contrato com a Epic Records - que lançou o álbum homônimo da banda em Novembro de 1992, com destaque para a capa a fotografia vencedora do prêmio Pulitzer de 1963, onde um monge ateia fogo no próprio corpo em forma de protesto a um movimento anti-busdista ocorrido no sul do Vietnã.
A turnê pelos Estado Unidos, em 1993, com os rappers do House Of Pain, precedeu a segunda apresentação do RATM no Lollapalooza III (Filadélfia), em Julho do mesmo ano - só que no palco principal, onde para protestar contra o PMRC (Parents Music Resource Center) - organização americana de censura, os integrantes da banda ficaram 25 minutos sem cantar ou tocar nada, nus, com uma fita adesiva na boca e as iniciais P-M-R-C riscadas no peito.
Desde então, com a carreira alavancada por protestos, a agenda de shows da banda aumentou desenfreadamente, e os fãs também. Fãs estes que esgotaram os ingressos do festival em prol da liga anti-nazismo Anti-Nazi em Londres, Inglaterra; e levaram os rapazes a repetir a turnê pelos Estados Unidos, só que com o Cypress Hill no apoio. Sem contar que insistentes exibições do vídeo Freedom na MTV, colocaram o álbum na marca de 1 milhão de cópias vendidas e com o nome entre as 200 mais da Billboard, durante 89 semanas consecutivas.
Tanto sucesso, deve-se não só a um estilo totalmente inusitado algo entre o rap e o hardcore, quanto pela clara postura política da banda, manifestada na organização de eventos que promovam as causas defendidas. Alguns exemplos disso foram: o show beneficente em fevereiro de 94, entitulado Rock For Choice, no The Palladium (Hollywood, California), com a participação de: Eddie Vedder, Screaming Trees, Mary's Danish, 7 Year Bitch, Green Apple Quick Step e Exene Cervenka; e, em abril de 94, outro show beneficente para a "Liberdade de Leonard Peltier" (primeiro lider do Movimento Indígena Americano), que está preso desde o final dos anos 70 sob a alegação de ter atirado em dois agentes do FBI. Sendo que o segundo, arrecadou mais de 75.000 dólares para a causa. Vale destacar que o histórico de protesto do Rage demonstra ser hereditário já que o pai de Morello lutou na guerrilha de libertação do Quênia pela dominação colonial inglesa e sua mãe é uma das fundadoras do Parents For Rock and Rap, uma organização anti-censura.
Em outubro do mesmo ano, a banda se apresentou novamente em prol de Leonardo Peltier, só que dessa vez no Grand Olympic Grounds (Los Angeles, CA); onde contou com o apoio do Cypress Hill, Ligher Shade Of Brown, Fobia, Little Joe Y La Familia e Thee Midnighters.
Meses depois do "Latinpalooza" - como já era de se esperar, os reflexos de uma turnê tão extensa começaram a aparecer e surgiram rumores de que a banda poderia acabar. Mas tudo não passava de boatos e falta de convivência entre os integrantes da banda que, devido a seu contrato com a Epic e a agenda lotada de shows, tiveram pouco tempo para se conhecer melhor. Com o objetivo de minimizar o problema, a banda decidiu mudar-se para Atlanta, onde alugaram uma casa e começaram conviver juntos. Eles tentaram gravar um novo disco mas acharam que não ia ficar bom, então decidiram voltar para Los Angeles, onde começaram a gravação do álbum "Evil Empire" ("Império do Mal", nome tirado da forma como Ronald Reagan se referia à antiga União Soviética).
Em abril de 1996 o RATM tocou duas músicas no programa de "Saturday Night Live", mas uma delas nunca chegou a ser exibida, já que a banda cobriu as caixas de som com uma bandeira norte americana de ponta cabeça - protestando contra a presença do candidato a presidência Steve Forbes no programa daquela noite. Ironicamente, no dia seguinte, Bulls on Parade (a música censurada) foi premiada no MTV's 120 minutes e dois dias depois, Evil Empire foi lançado, entrando no Top 200 da Billboard na 1ª posição. De julho até outubro, o Rage ficou em turnê pelos EUA.
Após três meses do término da turnê (janeiro de 97); Tom Morello (guitarra), Zack De La Rocha (vocais), Flea (Red Hot Chilli Peppers, no baixo) e Steven Perkins (Porno for Pyros, na bateria) participaram da estréia do programa "Radio Free L.A", transmitido pela internet e por mais de 50 estações de rádios americanas. Em março do mesmo ano, a Academia Nacional de Artes e Ciências acabou reconhecendo o potencial da banda premiando-os com um Grammy pela categoria de "Melhor Performance de Metal" com a música "Tire Me", além de uma indicação para "Melhor Performance de Hard Rock" por "Bulls On Parade".
Apesar da decidida postura anti-popularização, o maior reconhecimento do RATM no meio musical veio quando uma das bandas mais populares do mundo o U2, convidou-os para abrir seus shows. Como não poderia deixar de ser, os membros do Rage anunciaram que estariam se juntando ao U2 na turnê milionária Pop-Mart com uma ressalva: doar o que conseguir dos grandes faturamentos dos shows do U2 para várias organizações. Foi exatamente o que eles fizeram. Só para citar alguns dos beneficiados: Associação de ajuda a Mumia Abu-Jamal, FAIR (Fairness and Accuracy In Reporting), The National Commisson for Democ-racy in Mexico, FZLN (Zapatista Front For National Liberation) e Women Alive.
Em meados de agosto, RATM começou uma turnê pelos EUA junto do Wu-Tang Clan (o Wu-Tang Clan é formado por 10 MC's vindos de Staten Island, um município da cidade de Nova York, EUA), mas o Clan abandonou a turnê com apenas uma semana de shows. Em compensação, com a mudança frequente de bandas, revelaram-se outros talentos, como por exemplo, o Foo Fighters e o Roots. Em 25 de Novembro, o Rage lançou seu primeiro Home Vídeo repleto de apresentações ao vivo, além de todos os clips de sua carreira e um CD single com o cover de The Ghost Of Tom Joad do Bruce Springsteen.
No mesmo mês, Tom Morello foi preso por protestar contra a Guess? (marca norte americana de roupas), já que a empresa usava o jeans fabricado em Calcutta, onde os trabalhadores são impelidos a trabalhar sob condições sub-humanas. Justificando o ato, Tom disse em entrevista: Eles acham que a moda é mais importante e mais nada importa, e então aquela exploração brutal daqueles trabalhadores não os importa. Nós estamos dizendo que eles estão errados."
No começo de 98 a banda gravou a música No Shelter que acabou entrando na trilha sonora do filme Godzilla. Na metade do mesmo ano, começaram os ensaios para o novo CD, futuramente entitulado "The Battle of Los Angeles", sendo que em setembro a parte instrumental para 14 músicas já estavam prontas, faltando somente as letras.
Sem deixar de lado suas aspirações politico-sociais, em janeiro de 99, o RATM voltou aos palcos com um show beneficente para Mumia Abu-Jamal, show que aliás, atraiu muito a atenção da mídia e por pouco não aconteceu. As atrações foram o Black Star, Bad Religion e os Beastie Boys. Além do show, Zack - como principal membro ativista da banda, foi até Genebra (Suiça) se manifestar anti as Nações Unidas no caso de Mumia Abu-Jamal e a pena de morte nos EUA.
Quanto mais o tempo passava, mais protestos eram associados ao Rage que, após participar do Tibetan Freedom Concert, fez uma apresentação no Woodstock 99 onde queimou a bandeira dos EUA enquanto tocavam a música Killing In The Name.
Em outubro, "Guerilla Radio" - o primeiro single do novo disco foi lançado, seguido pelo álbum "The Battle of Los Angeles". Nos EUA, o lançamento ocorreu propositalmente em 2 de novembro de 1999 (dia de eleição). No mesmo dia, os rapazes apresentaram seu novo single no programa "Late Night With David Letterman" da rede de TV CBS, o que levou outra emissora (FOP) boicotar a apresentação da banda no programa de Conan OBrien.
A confusão no começo da turnê, retratou o que seria o caótico ano de 2000 para o rage Against the Machine. A banda que planejara uma turnê com os Beastie Boys, teve que cancelar o projeto, devido ao acidente de bicicleta com Mike D; dois shows em São Francisco (julho 2000) com o objetivo de gravar um CD ao vivo, foram cancelados também; sem contar um tumulto que estourou após os rapazes tocarem do lado de fora da Convenção Nacional Democrática em meados de agosto, justamente no mês de lançamento do single "Testify.
Os holofotes não estavam mais virados para as músicas e sim para os integrantes da banda - que pareciam não deixar por menos. Em setembro de 2000, após uma apresentação fenomenal no VMAs 2000, o baixista Tim Bob decidiu subir em umas das estruturas do palco logo após perderem o prêmio de melhor grupo de rock para o Limp Bizkit. O músico foi preso e liberado em seguida, já que não existe lei nos EUA contra subir em estruturas de palcos.
Mesmo com o novo projeto - que já contatava aproximadamente 30 músicas gravadas (sendo 12 covers de estúdio), nove anos com o Rage e três álbuns de sucesso; o líder e vocalista Zack de La Rocha, declarou oficialmente no dia 18 de outubro de 2000 que estaria deixando a banda: "Sinto que é necessário abandonar o Rage, pois não estávamos mais conseguindo tomar decisões conjuntas (...) Não estamos mais funcionando juntos como um grupo, e eu acredito que a situação está destruindo nossos ideais políticos e artísticos. Estou muito orgulhoso de nosso trabalho, como ativistas e como músicos, assim como estou grato a cada pessoa que expressou solidariedade e dividiu essa incrível experiência conosco.
Os demais integrantes do RATM enviaram um comunicado à imprensa, explicando que continuariam com suas atividades depois da saída do vocalista; e foi exatamente o que aconteceu. Mesmo cercados dos boatos que B-Real (Cypress Hill) talvez pudesse integrar a banda - preenchendo o lugar deixado por Zack de La Rocha; Tom Morello e banda decidiram priorizar a produção de seu novo álbum, que levaria o nome de Renegades.
No dia 7 de novembro de 2000 (novamente data de eleições nos EUA), o primeiro single do álbum "Renegades" - a música "Renegades of Funk" (original do grupo Afrika Bambaataa) foi lançada, seguida do vídeo homônimo que retrata "renegados" e revolucionários da história. Entre eles: Public Enemy, Beastie Boys, EPMD, Eric B. and Rakim entre outras bandas de rap e funk; além de imagens de Martin Luther Kink Jr., Malcolm X e Thomas Paine.
O álbum "Renegades" veio a tona em 5 de dezembro do mesmo ano com uma coleção de músicas escritas e gravadas originalmente por artistas como MC5, The Stooges, EPMD, Bob Dylan, Minor Threat, The Rolling Stones, Afrika Bambaataa, Devo, Volume 10, Erik B and Rakim e Cypress Hill. São covers de 12 clássicos do Hip-Hop, Rock e Punk Rock; além de uma nova versão remixada da música de Bruce Springsteen: "The Ghost of Tom Joad. O álbum foi produzido por Rick Rubin (Red Hot Chili Peppers, Beastie Boys, Founder of Def Jam) e mixado por Rich Costey (Fiona Apple, Ice Cube, Pavement).
Em meio ao sucesso do lançamento, o RATM foi pego de surpresa ao saber que muitos de seus fãs tinham sido banidos do Napster por fazer download de suas mais recentes músicas, tudo decorrência das instruções que a companhia de gerência da própria banda tinha dado a Sony Music de instituir a proibição na divulgação. O incidente levou Tom Morello a desculpar-se publicamente, tomando providências para restabelecer os direitos dos usuários lesados e disponibilizando para download, grátis, uma coleção de mp3s e vídeos ao vivo no site oficial da banda.
Janeiro de 2001, o RATM recebe duas indicaçoes para o Grammy nas seguintes categorias: Melhor Álbum de Rock, com The Battle Of Los Angeles; e Melhor performance de Hard Rock, com a música "Guerrilla Radio". No mês seguinte, a banda lança seu home video em DVD e VHS, com o show gravado no México em 1999 pela MTV. Entitulado The Battle of Mexico City, além da exibição da apresentação da banda - na íntegra, foram reproduzidos alguns trechos políticos feitos pelo ex-vocalista, Zack de La Rocha.
Especulações sobre o novo vocalista voltam a aparecer, depois de um ensaio de Chris Cornell (ex-vocalista do Soundgarden) com a banda. Rapidamente esses boatos são desmentidos por Morello que afirma que a banda não estaria a procura de um novo vocalista. Mesmo porque, o próprio porta-voz e guitarrista, está ocupando sua mente com outros projetos que não a banda. Com um papel no filme Made, ao lado de Sean Puffy Combs ou Puff Daddy, como é mais conhecido, Morello deverá usar seu tempo disponível nas gravações.
Mesmo sem vocalista e com seus integrantes dispersos, em março de 2001, o Rage leva o gramofone no 43º Grammy por "Guerrilla Radio considerada a melhor performance de Hard Rock do ano 2000.
Algumas palavras sobre o Zapatismo
O zapatismo actual é um fenómeno político particular no conjunto dos movimentos políticos contemporâneos.
Sabe-se que nasce da acção de militantes radicais esquerdistas chegados às terras índias do Chiapas entre os anos 70 e 80 do século passado: estes jovens integraram-se bem nas comunidades indígenas locais e, com o passar do tempo, identificaram-se com estas comunidades ao ponto de desenvolver o papel de porta-vozes dos seus interesses.
Trata-se do ponto de partida para compreender o fenómeno zapatista: podemos dizer que agora apresenta uma matriz índia muito clara, sem ser somente o veículo de valores indígenas.
Em primeiro lugar, é hoje expressão e instrumento dos desejos das comunidades indígenas pela autonomia, ou seja, pela autodeterminação cultural e económica. A organização tradicional destas Comunidades não se baseia no domínio de um cacique despótico, mas numa autoridade que actua em baixo e permanece na assembleia comunitária, fonte do poder popular. O zapatismo de nova forma avaliou esta organização tradicional, e fez disto o ponto de partida para a sua aproximação aos problemas políticos.
Como disse o próprio subcomandante Marcos, o zapatismo não quer a conquista do poder ou - melhor dito - do domínio político. Deseja porém «abrir um espaço de luta política onde o povo cidadão (...) possa desenvolver uma participação política real, opinar e decidir qual o sistema social e o sistema político (...) que queira».
O objectivo é construir espaços livres e autogeridos para realizar directamente o contrapoder social. Embora tinha aparecido como movimento armado, o zapatismo está bem longe dos típicos movimentos guerrilheiros, in primis latino-americanos, e a sua atipicidade faz com que os "puristas" do anarquismo possam considerá-lo somente reformista.
Na realidade, o zapatismo é hoje a fonte duma acção maciça de resistência contra a penetração do Estado, do capital e do imperialismo nas zonas onde obra politicamente.
Estas três formas de domínio querem desapossar os povos indígenas do sul de México (do Estado de Chiapas, em particular) das suas terras e começar uma exploração total dos recursos daquelas regiões.
Enquanto os zapatistas controlarem aqueles territórios, os projectos do Estado mexicano, do capitalismo nacional e internacional, e do imperialismo ficarão paralisados.
O zapatismo com os indígenas do sul mexicano luta contra a penetração do Estado e a "ocidentalização", enquanto o anarquismo clássico luta dentro de territórios ocidentalizados, já moldados pelo Estado e pelo capital; e - por isto - utiliza métodos diferentes, que não podem ser os mesmos do zapatismo.
Mas o zapatismo tem uma possibilidade de acção maior na sociedade mexicana de hoje, sociedade que se quer disposta a reconhecer a identidade cultural e social de brancos, mestiços e índios: trata-se da defesa dos direitos e da auto-organização de classe dos explorados mexicanos. Nesta óptica são importantes a recente presença de Marcos na Cidade de México e o apoio zapatista às lutas dos camponeses vendedores de flores em Atenco, na zona de Texcoco, brutalmente atacados pela polícia. Se o zapatismo conseguir estender o seu raio de acção para além do sul, nesta conjuntura caracterizada por uma forte crise económica e social e pelo fortalecimento do controlo dos EUA nas fronteiras, contra a emigração mexicana, pode ser vejamos novidades interessantes no México, no futuro próximo. O importante é que a luta continue.
Pier Francesco Zarcone
Assinar:
Postagens (Atom)





















