quarta-feira, 24 de junho de 2009

BRIC

BRIC é um acrônimo criado em novembro de 2001, pelo economista Jim O'Neill, chefe de pesquisa em economia global do grupo financeiro Goldman Sachs, para designar, no relatório "Building Better Global Economic Brics", os quatro principais países emergentes do mundo:

- Brasil,

- Rússia,

- Índia,

- China.

Usando as últimas projeções demográficas e modelos de acumulação de capital e aumento de produtividade, o Goldman Sachs mapeou as economias dos países BRICs até 2050. A conclusão do relatório é que esse grupo de países pode tornar-se a maior força na economia mundial, superando as economias dos países do G6 (Estados Unidos da América, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália) em termos de valor do PIB (em dólares americanos). Além da importância econômica, os BRIC tenderiam a aumentar sua influência política e militar sobre o resto do mundo.
O estudo ressalta, no entanto, que cada um dos quatro enfrenta desafios diferentes para manter o crescimento na faixa desejável. Por isso, existe uma boa probabilidade das previsões não se concretizarem, por políticas inadequadas, simplesmente por má sorte ou ainda por erros nas projeções e falhas do próprio modelo matemático adotado.
Mas se os BRICs chegarem pelo menos perto das previsões, as implicações para a economia mundial serão grandes e mudanças podem ocorrer mais rapidamente do que se imagina. De acordo com o estudo, o grupo deverá concentrar mais de 40% da população mundial e um PIB de mais de 85 trilhões de dólares.
Atualmente os BRICs não formam um bloco político (como a União Europeia), nem uma aliança de comércio formal (como o Mercosul e a ALCA), e muito menos uma aliança militar (como a OTAN), mas constituíram uma aliança através de vários tratados de comércio e cooperação assinados em 2002.

Situação atual
Os BRIC, apesar de ainda não serem as maiores economias mundiais, estão em processo de desenvolvimento político e econômico e já fazem sentir sua influência - a exemplo do que ocorreu na reunião da OMC em 2005, quando os países em desenvolvimento, liderados por Brasil e Índia, juntaram-se aos países subdesenvolvidos para impor a retirada dos subsídios governamentais pela União Européia e pelos Estados Unidos, e a redução das tarifas de importação.
Mas há também muitas diferenças entre eles. Por exemplo: Rússia, Índia e China são grandes potências militares, ao contrário do Brasil, que nunca se engajou em uma corrida armamentista.

Perspectivas

Se considerado como um bloco econômico, em 2050, o grupo dos BRICs já poderá ter ultrapassado a União Européia e os Estados Unidos da América. Entre os países do grupo haveria uma clara divisão de funções. O Brasil e a Rússia seriam os maiores fornecedores de matérias-primas - o Brasil como grande produtor de alimentos e a Rússia, de petróleo - enquanto os serviços e produtos manufaturados seriam principalmente providos pela Índia e pela China, onde há grande concentração de mão-de-obra e tecnologia.
O Brasil desempenharia o papel de país exportador agropecuário, sendo que a sua produção de soja e de carne bovina seria suficiente para alimentar mais de 40% da população mundial. A cana-de-açúcar também desempenharia papel fundamental na produção de combustíveis renováveis e ambientalmente sustentáveis - como o álcool e o biodiesel. Além disso, seria o fornecedor preferencial de matérias-primas essenciais aos países em desenvolvimento - como petróleo, aço e alumínio -, sobretudo na América Latina e particularmente na área do Mercosul (Argentina, Venezuela, Paraguai, Uruguai), fortemente influenciada pelo Brasil. No entanto, talvez o mais importante trunfo do Brasil esteja em suas reservas naturais de água, em sua fauna e em sua flora, ímpares em todo o mundo, que tendem a ocupar o lugar do petróleo na lista de desejos dos líderes políticos de todos os países. O Brasil ficaria em 5.º lugar no ranking das maiores economias do mundo em 2050.
A Rússia desempenharia o papel de fornecedor de matérias-primas, notadamente hidrocarbonetos. Mas seria também de exportador de mão-de-obra altamente qualificada e de tecnologia, além de ser uma grande potência militar, característica herdada da Guerra Fria.
A Índia deve ter a maior média de crescimento entre os BRICs. Estima-se que em 2050 esteja no 3.º lugar no ranking das economias mundiais, atrás apenas de China (em 1.º) e dos EUA (em 2.º). Além de potência militar, o país tem uma grande população, e tem realizado vultosos investimentos em tecnologia e qualificação da mão-de obra, o que a qualificaria a concentrar no setor de serviços especializados.
A China deve ser, em 2050, a maior economia mundial, tendo como base seu acelerado crescimento econômico sustentado durante todo início do século XXI. Dada a sua população e a disponibilidade de tecnologia, sua economia deve basear-se na indústria. Grande potência militar, a China se encontra atualmente num processo de transição do capitalismo de Estado para o capitalismo de mercado, processo que já deverá estar completado em 2050.
Nada se pode garantir sobre o futuro dos BRICs, pois todos os países estão vulneráveis a conflitos internos, governos corruptos e revoluções populares, mas, se nada de anormal acontecer, é possível prever uma economia mundial apolar, na qual a idéia de "norte rico, sul pobre" careceria de sentido.
Por conta da popularidade da teoria do Goldman Sachs, acabaram sendo cogitadas outras siglas, como BRIMC (Brasil, Rússia, Índia, México e China), BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e BRIIC (Brasil, Rússia, Índia, Indonésia e China) incluindo México, África do Sul e Indonésia como nações com igual potencial de crescimento nas próximas décadas. A inclusão da principal economia africana no grupo pode significar uma importante mudança na ordem mundial - possivelmente, uma outra globalização.

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terça-feira, 23 de junho de 2009

Despedida de Imperatriz/Maranhão

Depois de morar por quase oito anos em Imperatriz resolvi partir, essa decisão se deve a vários fatores, que incluem questões pessoais, profissionais e políticas.
Fui muito feliz e infeliz nesta cidade, gostei muito de ter morado aqui, porém o ciclo chegou ao fim.
Gostaria de deixar um grande abraço a todas as pessoas que aqui conheci e com as quais convivi, queria também pedir desculpas a todos que ofendi ou desrespeitei, saudades levarei comigo de muitas pessoas, mas o tempo é o senhor do destino e ele apaga tudo, ou quase tudo, além do que manterei contato sempre com as pessoas do coração e nunca deixarei de dar umas voltinhas pela cidade de Imperatriz.
Beijos Imperatriz e a todos que me acolheram com carinho e respeito.

Saudações Libertárias!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Revolução Ucraniana

A Revolução Ucraniana foi a tentativa de implantação do Comunismo libertário pela guerrilha liderada por Nestor Makhno na Ucrânia, durante o período de guerra civil entre 1917 e 1921. Esse período coincidiu com os acontecimentos da Revolução Russa de 1917-1921, e terminou com a derrota do movimento por força do Exército Vermelho sob o comando do Partido Comunista russo e a criação da URSS.
A primeira tentativa de implantação do comunismo libertário deu-se durante a Revolução Russa de 1917-1921, na região onde atualmente localiza-se a Ucrânia. O movimento iniciou-se no vilarejo de Gulai-Polé, sob a influência do anarquista Nestor Makhno, e se alastrou pelas regiões vizinhas de Aleksandrovsk até alcançar Kiev. Makhno foi eleito presidente do soviete de Gulai-Polé em agosto de 1917, e organizou uma pequena milícia para expropriar os latifúndios e dividi-los entre os camponeses mais pobres. Após o tratado de Brest-Litovsk de 1918, que cedeu a Ucrânia ao Império Austro-Húngaro, uma nova milícia Makhnovista se formou e executou com sucesso ações de guerrilha contra o exército invasor. Com o armistício de Novembro de 1918, as tropas estrangeiras retiraram-se. A milícia Makhnovista se voltou contra o líder nacionalista ucraniano Petliura. Em seguida, Petliura foi derrotado pelo Exército Vermelho, e durante o embate entre Vermelhos e Brancos, Gulai-Polé ficou sob o domínio dos Makhnovistas, pois nenhuma outra facção era forte o suficiente para atacá-los.
Makhno aproveitou a calmaria para convocar congressos de camponeses com a finalidade de reformar a sociedade com vistas a implantar o comunismo libertário. Entretanto, as discussões se voltaram principalmente para a defesa da região contra outros exércitos, já que havia uma guerra civil. O poder real permaneceu com o grupo de Makhno. Atos de anti-semitismo, muito comuns na época, passaram a ser punidos com a pena de morte. Aconteceram esforços para se criar uma economia de trocas livres entre o campo (Gulai-Polé, Aleksandrovsk) e a cidade (Kiev, Moscou, Petrogrado).
A calmaria terminou em 15 de Junho de 1919, quando, após atritos menores entre Makhnovistas e Vermelhos, o IV Congresso Regional de Gulai-Polé convidou os soldados da base do Exército Vermelho a enviar representantes. Isto foi um desafio direto à hierarquia de comando Comunista, já que aquele exército não funcionava, como o Makhnovista, em regime de democracia direta. Em 4 de Julho um decreto do governo comunista proibiu o congresso e tornou o movimento Makhnovista ilegal. As tropas comunistas atacaram Gulai-Polé e dissolveram as comunas criadas na região. Poucos dias depois as forças de Denikin chegaram à região, obrigando a ambas facções a aliarem-se novamente.
Durante os meses de Agosto e Setembro, Denikin avancou a passo firme em direção a Moscou, enquanto Makhnovistas e comunistas eram obrigados a retroceder, chegando até as fronteiras ocidentais da Ucrânia. Então, em Setembro de 1919, Makhno surpreende Denikin lançando um ataque vitorioso à aldeia de Peregonovka, perto da cidade de Uman, cortando as linhas de abastecimento do general branco e semeando pânico e desordem na retaguarda. Este foi o primeiro revés sério sofrido por Denikin em sua campanha, e ao final do ano o Exército Vermelho o forçaria a bater em retirada até as margens do Mar Negro.
O clímax da Revolução Ucraniana aconteceu nos meses que se seguiram à vitória em Peregonovka. Durante os meses de Outubro e Novembro, Makhno se viu em poder das cidades de Ekaterinoslav e Aleksandrovsk, e esta foi sua primeira oportunidade de aplicar a concepção anarquista em ambiente urbano. O primeiro ato de Makhno após entrar nessas cidades (após esvaziar as prisões) foi (...) colocar cartazes anunciando aos cidadãos que a partir de este momento eram livres para organizarem suas vidas conforme preferissem, e que o Exército Insurgente "não lhes ditaria nem ordenaria nada". Se proclamaram a liberdade de imprensa, palavra e reunião, e em Ekaterinoslav surgiram imediatamente meia dezena de periódicos que representavam uma ampla gama de tendências políticas. Mas Makhno, embora fomentasse a liberdade de expressão, não estava disposto a tolerar aquelas organizações políticas que tratavam de impôr sua autoridade sobre o povo. Portanto dissolveu os "comitês revolucionários" dos Bolcheviques em Ekaterinoslav e Aleksandrovsk, aconselhando seus membros a se dedicarem a "algum trabalho honesto". (Paul Avrich)
Entretanto, a classe operária urbana não respondeu ao movimento Makhnovista com o mesmo entusiasmo dos camponeses, e ao final de 1919, as relações com o governo comunista voltaram a azedar. Ao negar-se a abandonar o território ucraniano por ordem de Trotsky, o movimento Makhnovista foi novamente declarado ilegal. O Exército Vermelho então voltou a combatê-los, e durante os oito meses que se seguiram ambos os lados sofreram pesadas baixas. Então, em Outubro de 1920, o barão Wrangel, sucessor de Denikin no Sul, lançou uma importante ofensiva, partindo da Criméia rumo ao Norte. Novamente o Exército Vermelho solicitou a ajuda dos Makhnovistas, e novamente a frágil aliança se refez. Menos de um mês mais tarde, já com a guerra civil ganha, a aliança foi desfeita. Em 25 de Novembro, os líderes do exército de Makhno, reunidos na Criméia por ocasião da vitória sobre Wrangel, foram presos e executados sumariamente. No dia seguinte, por ordem de Trotsky, Gulai-Polé foi atacada e os Makhnovistas presos ou executados. Makhno conseguiu fugir e se exilar na França.

Referências
- Avrich, P. (1974). Los Anarquistas Rusos. Madrid: Alianza Editorial.

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Desobediência civil

Desobediência civil é um método de oposição e resistência pacífica ou violenta a um poder político (seja o Estado ou não), geralmente visto como opressor pelos desobedientes. É um conceito formulado originalmente por Henry David Thoreau e aplicado com sucesso por Mahatma Gandhi no processo de independência da Índia e do Paquistão.

Aspectos gerais
O autor americano Henry David Thoreau foi o pioneiro a estabelecer a teoria relativa dessa prática em seu ensaio de 1849, originalmente intitulado "Resistência ao Governo Civil", que mais tarde reintitulou "Desobediência Civil". A idéia predominante abrangida pelo ensaio era de auto-aprovação e de como alguém pode estar em boas condições morais enquanto "escraviza ou faz sofrer um outro homem"; então não precisamos lutar fisicamente contra o governo, mas sim não apoiá-lo nem deixar que ele o apóie estando você contra ele. Este ensaio exerceu uma grande influência sobre muitos praticantes da desobediência civil. No ensaio, Thoreau explicitou suas razões porque se recusara a pagar seus impostos, como um ato de protesto contra a escravidão e contra a Guerra Mexicana.
Vale ressaltar, no entanto, que antes de Thoreau, existiram outros que, através de teorias próprias mas acessórias a outras teses principais, também esposaram atos que demonstram atos de desobediência civil, como faz Antígona, na peça Grega de Sófocles. Também outros teóricos, em especial do Iluminismo trataram de possibilidades de desobediência quando apresentavam suas obras de cunho político e jurídico acerca da formação do Estado e da submissão do povo a este, como Hobbes, Rousseau, Locke e Kant. Contudo, Thoreau, foi o primeiro a tratar especificamente da desobediência à ordem instituída, e quando tal seria aplicável, desenvolvendo uma teoria própria para isso.
A desobediência civil serviu como uma tática principal aos movimentos nacionalistas em antigas colonias da África e Ásia, antes de adquirirem a liberdade. O mais notável, Mahatma Gandhi, usou a desobediência civil como uma ferramenta anti colonialista. Martin Luther King, líder do movimento dos direitos civis dos Estados Unidos nos anos da década de 1960, também adotou as técnicas da desobediência civil e ativistas anti-guerra, tanto durante quanto depois da Guerra do Vietnã, também agiram igualmente.
Paradas de demonstração de opinião e protestos, como as campanhas anti-guerra que ocorreram contra a invasão ao Iraque não são necessariamente desobediência civil, pois muitos cidadãos que dessas campanhas participam continuam apoiando o governo de outras formas.
A desobediência civil serviu também como uma tática da oposição polonesa contra os comunistas. (ver "solidariedade").
Muitos dos que praticam a desobediência civil o fazem desprovidos de crença religiosa e o clero frequentemente participa ou lidera ações de desobediência civil. Por exemplo: os irmãos Berrigan nos Estados unidos, são padres que já foram diversas vezes presos em atos de desobediência civil em manifestações contra a guerra.
Buscando uma forma ativa de resistência, aqueles que praticam a desobediência civil escolhem deliberadamente por quebrar certas leis, seja formando piquetes pacíficos ou ocupando ilegalmente algum prédio. Fazem isso na expectativa de que serão presos, ou até mesmo atacados pela autoridade. Existem métodos já estudados de como reagir a ataques e tentativas de prisão, de maneira que possam fazê-lo sem resistência, passivamente, sem problemas para as autoridades.

Aspectos jurídicos
A Desobediência Civil, de acordo com alguns teóricos juristas brasileiros e estrangeiros, como Maria Garcia, Machado Paupério e Nelson Nery da Costa, é uma das formas de expressão do Direito de Resistência, sendo esta uma espécie de Direito de Exceção que, embora tenha cunho jurídico, não necessita de leis para garanti-lo, uma vez que se trata de um meio de garantir outros direitos básicos. Ele tem lugar quando as instituições públicas não estão cumprindo seu fiel papel e quando não existem outros remédios legais possíveis que garantam o exercício de direitos naturais, como a vida, a liberdade e a integridade física.
Além da Desobediência Civil, também são exemplos de resistência o Direto de Greve (para proteger os direitos homogêneos dos trabalhadores) e o Direito de Revolução (para resguardar o direito do povo exercer a sua soberania quando a mesma é ofendida).

Referências Bibliográficas
- COSTA, Nelson Nery da. Teoria e Realidade da Desobediência Civil
- GARCIA, Maria. Desobediência Civil - Direito Fundamental
- THOREAU, Henry D.. A Desobediência Civil

Mikhail Bakunin

Mikhail Aleksándrovich Bakunin, também aportuguesado em Bakunine ou Bakúnine, (Premukhimo, 30 de maio de 1814Berna, 1 de julho de 1876) foi um teórico político russo, principal expoente do anarquismo.
Mikhail Aleksándrovich Bakunin (em russo Михаил Александрович Бакунин) nasceu em 18 de maio de 1814 no calendário juliano) na província de Tver, filho de uma rica familia de proprietários de terras e desde 1837 começou a estudar a filosofia hegeliana. Em 1840 inicia o curso de filosofia na Universidade de Berlim, onde logo começou sua atividade política, criticando a filosofia especulativa preferindo a teoria da ação política. De 1843 a 1848 viajou pela Europa, onde conheceu Karl Marx e Proudhon (em Paris). Participou do Congresso Eslavo no que tinha em mente o pan-eslavismo (Praga, 1848) e no mesmo ano participou da Revolução Proletária em Paris.
Em 1849 foi preso e condenado à morte por uma insurreição em Dresden, mas sua pena foi anulada e ele foi entregue ao governo russo, ficando preso em São Petersburgo e depois exilado na Sibéria (1857). Acabou fugindo para o Japão e depois se fixou na Suíça, onde morreu em 19 de junho de 1876 (no calendário juliano).
Por volta de 1863 tentou montar uma campanha em prol do anarquismo para irem à Polônia, mas não obteve sucesso.
Em 1868 fundou a Aliança Internacional da Democracia Social, que queria fazer a união com a Associação Internacional de Trabalhadores, da qual disputou a liderança com Karl Marx, mas em 1872 acabaram se desentendendo no Congresso da Haia.
A expulsão de Bakunin da Associação Internacional de Trabalhadores se deu por divergências políticas com Marx.
Bakunin defendia que as energias revolucionárias deveriam ser concentradas na destruição das "coisas", no caso, o Estado, e não das "pessoas".
Na obra de 1872, Bakunin faz oposição a Comte, pois identifica a fonte de todo problema na centralização da autoridade e do Estado, que acabam por criar um obstáculo ao desenvolvimento das pessoas e das Nações. A paz e a realidade devem estar diante das coisas para a realização do homem, mediante a descentralização dos poderes e conhecimentos que levariam ao desenvolvimento dos homens.
A participação de Bakunin, a partir de 1870, acabou influenciando o proletariado e atraindo mais pessoas, e nesse mesmo período ele começou a criticar o comunismo de Estado, com propostas antiautoritárias de socialismo. Com o fracasso da Comuna de Paris, as duas tendências começaram uma briga que a cada ano se agravava, de um lado os comunistas de Estado ou socialistas autoritários, como eram chamados pelos socialistas libertários, na época, até que, em 1876, a Associação Internacional dos Trabalhadores encerrou suas atividades.
Depois desse rompimento Bakunin planejava a construção de uma associação para unir os anarquistas de todos os países. Acabou criando grupos anarquistas em vários países do mundo, repassando a tradição anti-autoritária, mutualista e o caráter descentralizador do anarquismo para outros anarquistas, que viriam a se tornar célebres dentro do movimento, como Piotr Kropotkin, anarquista russo, Enrico Malatesta, anarquista italiano, Elisée Reclus, belga, e outros.
Após sua morte, diversos acontecimentos políticos com influência anarquistas puderam ser notados, como a insurreição anarquista de 1918 no Rio de Janeiro, cujo movimento sindical era em sua totalidade composto pela maioria de anarquistas, e culminando com a guerra civil espanhola e a Revolução Espanhola em 1936, que seria a derradeira e última revolução de massas da ideologia anarquista.
Todavia, a obra e a vida de Bakunin influenciara diversos movimentos alternativos após os anos 1960, como os grupos ambientalistas, que utilizam a tática de ação direta, descrita em toda sua obra. Movimentos cooperativistas, de ocupação e reforma urbana, grupos e locais de trabalho autogestionados, também carregam em si o germe da ideologia anarquista e o pensamento célebre de Bakunin.

Obras
- Die Reaktion in Deutschland (A Reação na Alemanha) – 1842
- O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social - 1871
- A Comuna de Paris e a Noção de Estado - 1871
- Federalismo, Socialismo e Antiteologia – 1872
- Staat und Anarchie (Estado e Anarquia) – 1873
- Deus e o Estado – 1882
- Textos Anarquistas - 1874

Piotr Kropotkin


Pyotr Alexeyevich Kropotkin, em russo Пётр Алексе́евич Кропо́ткин, (Moscou, 9 de dezembro de 1842Dmitrov, 8 de fevereiro de 1921) foi um escritor russo

Biografia
Seu pai, príncipe de Smolensk, Alexei Petrovich Kropotkin, afirmava pertencer a antiga casa real de Rurik que governara Moscou antes dos Romanov. Sua mãe, Yekaterina Nikolaevna Sulima, filha de um general do exército russo, tinha dotes artísticos (gostava de ler, escrever e pintar) e inclinações pelos ideais liberais.
Na infância, época em que viveu numa casa de campo em Kaluga, teve contato com leituras de Pushkin, Nekrasov, Chernyshevsky (jornalista radical), tudo graças a tutores que cuidaram de sua educação nesta época.
Com quinze anos foi matriculado no Corpo de Pagens, a mais exclusiva escola militar da Rússia czarista, por ordens do próprio Nicolau I, onde eram educados somente 150 garotos na sua maioria filhos da realeza palaciana. Nesta época, entre 1857 e 1861 Kropotkin viu florescer uma atividade intelectual forte em seu país e passou a receber influências da nova literatura liberal revolucionária. Demonstrou grande interesse pelos enciclopedistas franceses assim como pela história deste povo. Com o passar dos anos também dirigiu sua atenção às condições do campesinato russo.
Em 1862 foi promovido para o exército. Como membro do corpo de pagens tinha possibilidades de escolher o regimento em que gostaria de servir, tendo optado pelo dos Cossacos Siberianos no recém conquistado distrito de Amur. Lá tinha perspectivas de conseguir um cargo administrativo. Sua condição de Sargento da Corporação implicava em, por um ano, ter sido pagem pessoal do então czar, Alexandre II.
Na Sibéria fez vistorias aos cárceres e à situação dos condenados daquela divisa. As condições deploráveis e o descaso das autoridades impressionavam-no.
Sua reputação como geógrafo se deu em grande parte pelas viagens que realizou nesta época pelo oriente siberiano onde percorreu cerca de 50 mil milhas a fim de explorar um terreno ainda muito virgem. Fez observações e desenvolveu teorias sobre as estruturas das cadeias montanhosas e platôs da Ásia Oriental. Contribuiu também para o conhecimento da história da Terra.

Kropotkin foi um dos principais anarquistas da Rússia e um dos defensores do que ele mesmo chamava de "comunismo libertário".
A base de tal concepção encontra-se na idéia de que o critério para o consumo (tanto de bens quanto de serviços) dos indivíduos não seja o trabalho, mas a necessidade. Kropotkin advogava assim um sistema de distribuição livre da produção, conceito este que está ligado ao raciocínio de que não é possível medir a contribuição isolada de um indivíduo na produção social, e que, portanto, uma vez realizada, toda ela deva ser desfrutada socialmente.
Kropotkin vê, socialista que é, a coletivização dos meios de produção como o objetivo da transformação social, mas, diferentemente de alguns, infere que a este fenômeno seguiriam como consequência inevitável a distribuição livre e a extinção de qualquer sistema de salários.
Numa tal sociedade a produção seria orientada para o consumo e não para o lucro. E Kropotkin vai além em suas considerações sobre esta outra forma de sociabilidade ao vislumbrar uma ciência dedicada a descobrir meios para conciliar e satisfazer as necessidades de todos.
Ao problema que se levanta quando se pensa a distribuição livre, Kropotkin não vê aí uma abertura para a instauração de um governo revolucionário, pelo contrário, diz ser a cooperação voluntária o substituto tanto para a propriedade privada quanto para a desigualdade, categorias nas quais se fundamentam o Estado. Neste sentido, Kropotkin defende um sistema de administração pública fundada na idéia de comuna não apenas enquanto unidade administrativa mais próxima do povo e de suas preocupações imediatas, mas também enquanto associação voluntária que reúne os interesses sociais representados por grupos de indivíduos diretamente ligado a eles.
A união destas comunas produziria uma rede de cooperações que substituiria o Estado.
Por causa de seu título e sua proeminência como um anarquista no final do século XIX e começo do XX, ele foi conhecido por alguns como "o Príncipe Anarquista", título que refutou durante toda sua vida.
Cronologia de vida
1842 – Nasceu em Moscou, Rússia, em 9 de dezembro.
1857 – Entrou para o "Corps of Pages", onde começou a desenvolver uma reputação de rebelde.
1858 – Seus primeiros escritos mostraram interesses em economia política e estatística; iniciou os primeiros contatos com camponeses "de verdade".
1861 – Foi para a prisão pela primeira vez como resultado por participar de um protesto estudantil.
1862 – Tornou-se desiludido com a realeza quando, como page de chambre para o tsar, testemunhou as extravagâncias da vida na corte.
1862-1867 – Por pedido próprio, serviu como militar na Sibéria. Testemunhou as condições de vida lá, e a falta de vontade da administração corrupta para fazer qualquer coisa a fim de melhorá-las.
1868-1870 – Buscou conhecimento sobre agrimensura e geografia.
1871 – Tornou-se interessado no movimento trabalhista e em acontecimentos acerca da Comuna de Paris.
1872 – Viajou para a Suíça, onde entrou para a Internacional Socialista; voltou para a Rússia com vários escritos Socialistas proibidos.
1873 – Como membro do Círculo de Tchaikovsky, ajudou reescrevendo panfletos de uma forma que pudesse ser lida pelos com menos educação; ele mostrou grande habilidade para se comunicar com os trabalhadores.
1874 – Foi preso na Fortaleza de Pedro e Paulo por causa de suas atividades revolucionárias. Com a intervenção da Sociedade Geográfica, ele ganhou dispensa especial para trabalhar num jornal.
1876 – Fugiu do hospital militar e se mudou para a Inglaterra.
1877 – Retornou à Suíça para trabalhar com a Federação Jura. Foi ao último encontro da Internacional Socialista em Gante.
1881 – Foi à Internacional Anarquista em Londres. Deu suporte ao assassinato do Czar Alexandre II, com base no fato de que uma explosão é bem mais efetiva do que um voto para encorajar os trabalhadores à revolução. Isso o expulsou da Suíça. O governo Russo ficou constrangido quando ele descobriu um plano para assassiná-lo em Londres.
1882 – Logo depois de se mudar para a França, foi preso por seu trabalho na Primeira Internacional Socialista e sentenciado a cinco anos na prisão. Ele ficou lá até 1886, quando foi solto sob a condição de que deixasse a França.
1886 – Voltou à Inglaterra. Descobriu que seu Irmão Alexander havia cometido suicídio no exílio por atividades políticas na Sibéria.
1890-1900 – Passou a maior parte de seu tempo escrevendo. Visitou o Canadá e os Estados Unidos em 1897. O Atlantic Monthly concordou em publicar suas memórias. Nos seus livros, ele tentou desenvolver uma visão de sociedade Anarco-comunista.
1901-1909 – Escreveu materiais em russo para leitores de sua terra natal. Ficou muito desapontado com o fracasso da Revolução de 1905.
1909-1914 – Voltou à Suíça sob a condição de refrear suas atividades anarquistas. Tentou tornar de conhecimento público o massacre de 270 trabalhadores nas Minas de Lena, mas sua atividade foi cortada por causa da Primeira Guerra Mundial. Então, ele se mudou para o Reino Unido, onde passou algum tempo em Brighton.
1914-1917 – Deu suporte ativo à guerra contra a Alemanha como uma guerra contra o Estado. Essa posição, estranha e questionável para um anarquista, fez com que muitos companheiros se afastassem dele, em particular Errico Malatesta.
1917 – Voltou a São Petersburgo, onde ajudou o governo de Kerensky a formular políticas. Parou suas atividades quando os Bolcheviques tomaram o poder.
1921 – Seu funeral no Cemitério de Novodevichy, com a aprovação de Lenin, tornou-se a última grande reunião de anarquistas na Rússia.

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Pierre-Joseph Proudhon


Pierre-Joseph Proudhon (Besançon, 15 de Janeiro de 1809Paris, 19 de Janeiro de 1865) Anarquista, filho de família muito pobre, foi pastor de pequeno rebanho de gado quando criança. Em 1840 publica um livro que o torna conhecido, seu ensaio Qu'est-ce que la propriété?, afirma « La propriété c'est le vol » (A propriedade é o roubo) e, em seu livro Les confessions d'un révolutionnaire, defende que l'anarchie c'est l'ordre » (A anarquia é a ordem). A propriedade é um roubo o leva à justiça, mas é absolvido.
Após tentar criar um banco para empréstimos sem juros, Proudhon lançou as bases de um sistema mutualista cujos princípios são ainda hoje aplicados nos serviços de seguro.

Biografia
De origem humilde, começou a trabalhar cedo, numa tipografia, onde entrou em contato com liberais e comunalistas e socialistas experimentais, que representavam as mais importantes correntes políticas de sua época. Assim conheceu Charles Fourier, que muito influenciaria suas idéias. Em 1838, já diplomado pela faculdade de Besançon, foi para Paris, onde em 1840 publicou Qu´est-ce que la propriéte? (Que é propriedade?). Nessa obra se afirma anarquista, criticando a propriedade privada. Sustentava que a exploração da força de trabalho de um semelhante era um roubo e que cada pessoa deveria comandar os meios de produção de que se utilizasse.
Em 1842 lançou algumas teses em Avertissement aux propriétaires (Advertência aos proprietários) e foi processado. No entanto acabou sendo absolvido, pois os juízes se declararam incompetentes para julgá-lo. Depois disso foi para Lyon, onde se empregou no comércio. Nesse período entrou em contato com uma sociedade secreta que defendia uma doutrina segundo a qual uma associação de trabalhadores da nascente indústria deveria administrar os meios de produção. Com isso esperavam transformar as estruturas sociais, não pela atração econômica mas pela revolução violenta.
Em Paris, Proudhon conheceu Karl Marx e outros revolucionários, como Mikhail Bakunin.
Em 1846 escreveu Système des contradictions économiques, ou philosophie de la misère (Sistemas de contradições econômicas ou filosofia da miséria), onde criticou o autoritarismo comunista e defendeu um estado descentralizado. Marx, que admirava Proudhon, leu a obra, não gostou, e respondeu a Proudhon em 1847 com Misère de la philosophie (Miséria da filosofia), decretando o rompimento de relações entre ambos.
Proudhon participou da Revolução de 1848 em Paris. Entre 1849 e 1852 ficou preso por causa de suas críticas direcionadas a Napoleão III. Em 1851 escreveu Idée générale de la révolution au XIX siècle ("Idéia geral de revolução no século XIX"), que colocava a visão de uma sociedade federalista de âmbito mundial, sem um governo central, mas baseada em comunas autogeridas. Os comunistas acabaram por tachá-lo de reacionário, quando defendeu uma união entre proletários e burgueses.
Depois de publicar, em 1858, De la justice dans la révolution et dans l'église("A justiça na revolução e na igreja"), obra totalmente anticlerical, passou a viver sob vigilância da polícia, o que o levou a se exilar em Bruxelas. Em 1864 voltou a Paris e publicou Du Principe fédératif ("Do princípio federativo"), uma síntese de suas concepções políticas.
As idéias de Proudhon se espalharam por toda a Europa, influenciando organizações de trabalhadores e os mais fortes movimentos sindicais que se manifestaram na Rússia, Itália, Espanha e na França.
Proudhon sempre foi um confesso cristão. Se dizia seguidor de cristo e do cristianismo, um anarquista cristão.

Ideias
As idéias de Proudhon, assim como as de Owen, eram opostas ao liberalismo. Denunciam a organização econômica, governamental e educacional, propondo a criação de sociedades cooperativas de produção.
Saint-Simon, difere de Owen e Proudhon por defender a industrialização e o desenvolvimento do Estado.
Paralelamente Marx e Engels foram os principais críticos do socialismo utópico, fundando o chamado socialismo científico.
O pensamento de Proudhon, assim como o de Fourier e Saint-Simon, era voltado para uma reorganização da sociedade, tendo como princípio a justiça. Essa justiça seria a base da harmonia social, mas também do pensamento humano e até mesmo das relações físicas.
Segundo Proudhon, o homem deveria abandonar a condição econômica e moral baseada na sujeição a outros homens - que levaria à desarmonia social. A nova sociedade deveria apoiar-se no mutualismo, uma forma de cooperação baseada em associações, sem o poder coercitivo do Estado.

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domingo, 21 de junho de 2009

Errico Malatesta

Errico Malatesta (Santa Maria Capua Vetere, província de Caserta, 14 de dezembro de 1853Roma, 22 de julho de 1932) foi um teórico e ativista anarquista italiano.

Biografia
Nasceu em 1853 em uma família abastada do sul da Itália. De fato, os Malatesta dominaram a província de Rimini e, no período de maior expansão, os castelli do norte de San Marino, a província de Pesaro, parte de Ancona, Forlì e Ravenna, entre 1295 e 1528.
Desde muito jovem, Errico adere aos ideais republicanos de Giuseppe Mazzini. Aos catorze anos de idade, protesta contra uma injustiça local, enviando uma carta ao rei Vítor Emanuel II, considerada por Luigi Fabbri como “insolente e ameaçadora”. As autoridades levaram o fato a sério e ordenaram a sua prisão, em 25 de março de 1868. Seu pai conseguiu libertá-lo recorrendo a amigos. Dois anos mais tarde foi novamente preso em Nápoles, por liderar uma manifestação, sendo suspenso por um ano da Universidade de Nápoles, onde estudava medicina.
Em 1871, após a Comuna de Paris abandona as idéias republicanas e adere ao anarquismo, ingressando na Associação Internacional dos Trabalhadores, AIT (Primeira Internacional) . Nessa época, entusiasmado com a atividade revolucionária, escreveria sobre a Internacional:
Todos entregavam para a propaganda tudo o que podiam, e também o que não podiam, pois quando o dinheiro escasseava, vendiam tranqüilamente os objetos de suas casas, aceitando com resignação as censuras das respectivas famílias. Pela propaganda esquecíamos o trabalho e os estudos! Enfim, a Revolução estava a ponto de eclodir a qualquer momento e consertaria tudo. Alguns acabavam com freqüência na cadeia, todavia, saíam dali com mais energias do que antes: as perseguições não tinham outro efeito senão consolidar nosso entusiasmo. É verdade que as perseguições daquele momento eram fracas comparadas com as que viriam mais tarde. Naquela época, o regime havia saído de uma série de revoluções e as autoridades, rígidas desde o início com os trabalhadores, em particular no campo, mostravam certo respeito pela liberdade na luta política, uma espécie de indisposição parecida com a dos governantes austríacos e a dos Bourbons, que, todavia, se desfez tão rápido quanto se consolidou o regime, e a luta pela independência nacional foi relegada a um segundo plano.
Nessa época, Malatesta se dedica de corpo e alma à Federação Italiana e colabora com Carlo Cafiero em L’Ordine e La Campana de Nápoles, abandonando seus estudos para dedicar os próximos sessenta anos de sua vida à agitação anarquista. Ao longo desse período passou várias vezes pela prisão e lutou não só na Itália como em outros países distantes e tão diferentes entre si quanto a Turquia e a Argentina. Participou também de insurreições na Bélgica, Espanha e Itália.
Em 1872, no Congresso de Saint-Imier, no cantão de Berna, conheceu Bakunin, de quem iria sofrer profunda influência:
... e assim fui para a Suíça com Cafiero. Encontrava-me enfermo, cuspia sangue e tinha em mente a idéia de que estava tuberculoso... Enquanto atravessava à noite o Gotardo (naquela época ainda não havia o túnel, sendo necessário atravessar a montanha coberta de neve em diligência) resfriei-me e cheguei à casa de Zurique, onde vivia Bakunin, tiritando de febre. Depois das primeiras saudações, Bakunin me preparou uma cama e me convidou – ou melhor, me forçou – a deitar-me, cobriu-me com todos os cobertores que pôde encontrar e insistiu para que eu descansasse e dormisse. Tudo isso com um cuidado e uma ternura maternal que me chegaram diretos ao coração. Quando me encontrava envolto nos cobertores e todos pensavam que eu dormia, ouvi Bakunin dizer coisas admiráveis sobre mim e comentava melancolicamente:“É uma pena que tenha ficado tão enfermo, em breve o perderemos; não lhe restam sequer seis meses!”
Entre as influências que determinaram o desenvolvimento de Malatesta, a de Bakunin foi a mais importante. Malatesta se refere a ele como o grande revolucionário, aquele a quem todos nós vemos como nosso pai espiritual. Sua maior qualidade era a capacidade de comunicar fé, desejo de ação e sacrifício a todos aqueles que tinham a oportunidade de encontrá-lo. Costumava dizer que era preciso ter o diabo no corpo, e sem dúvida o tinha em seu corpo e sua mente.
No ano de 1873 eclodem os movimentos insurrecionais preparados por Bakunin e Cafiero. A polícia, advertida, faz fracassar esses movimentos. Malatesta se encontra em Puglia, foge numa carroça de feno, mas é reconhecido, preso e novamente encarcerado na prisão de Trani. No processo, em 1875, a propaganda pela Internacional não cessa e ele é absolvido. Junta-se então a Bakunin e Cafiero na Suíça. Nesse mesmo ano, apesar dos conselhos de Bakunin, parte para a Hungria a fim de participar da insurreição da Herzegovina contra os turcos. É preso e entregue à polícia italiana.
Juntamente com Carlo Cafiero e outros militantes prepara uma insurreição em Letino, província de Caserta, em 1877, que se tornou legendário na luta social italiana. Ele e seus companheiros distribuiram armas para à população e queimaram arquivos públicos, proclamando o socialismo libertário. Malatesta e Cafiero, ainda que sabendo como fugir permaneceram no local e foram presos. A aventura durou doze dias, um policial foi morto, um outro foi ferido. No processo, todos declararam ter disparado contra os policiais, mas o júri os absolveu.
Malatesta volta a Nápoles em 1878 e é constantemente vigiado pela polícia. Gasta sua herança em propaganda. Parte por um tempo para o Egito. Lá, o cônsul italiano o expulsa para Beirute; o de Beirute o envia para Esmirna. A bordo de um navio francês, torna-se amigo do capitão, que o conserva no navio até a Itália. Em Livorno, a polícia quer prendê-lo, mas o capitão se recusa a entregá-lo. Finalmente, Malatesta desce para Marselha e dali vai para Genebra onde ajuda Kropotkin a publicar Le Revolté. Expulso, dirige-se à Romênia, em seguida, à França, em 1879. De novo expulso, vai para a Bélgica, depois para Londres. Fixa-se, enfim, em Londres, onde trabalha como vendedor de sorvetes e bombons, antes de abrir uma nova oficina mecânica.
No Congresso Anarquista de Londres de 1881 defendeu a criação de uma Internacional Anarquista.
Em 1885 exilou-se na Argentina, onde colaborou com os primeiros núcleos anarquistas, desenvolvendo uma ativa propaganda do Anarquismo, publicando o jornal Questione Sociale.
Regressou à Europa em 1889, desta vez indo para França. Mas logo teve de se exilar na Inglaterra.
Em 1913, vai à Itália, encontra-se com Mussolini, diretor do Avanti, importante jornal operário. Ao longo do ano de 1914 dedica-se a acalmar as querelas pessoais entre os anarquistas. Entra em contato com as outras organizações revolucionárias, faz conferências e encoraja os sindicalistas ).
Em Ancona, durante manifestações antimilitaristas das quais Malatesta participava, a polícia dispara e o povo se apodera da cidade. Os sindicatos decretam greve geral. É a “semana vermelha”. Porém, o exército intervém. Mussolini apóia o movimento em palavra, mas nada faz. Malatesta foge não sem declarar: Continuaremos a preparar a revolução libertadora que deverá assegurar a todos a justiça, a liberdade e o bem-estar.
Ainda em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, proclama o Internacionalismo e manifesta-se contra aqueles que defendiam a causa aliada, inclusive seu amigo Kropotkin.
Em 1920, já na Itália, inicia negociações com os socialistas para fazer a revolução. A polícia tenta provocar desordens e assassiná-lo. Apesar dos obstáculos legais, seu jornal Umanità Nova tem uma tiragem inicial de 50.000 exemplares. Malatesta impulsiona a União Sindicalista Italiana (U.S.I.), de influência anarquista. No mesmo ano, em Ancona, eclode uma insurreição e as fábricas são ocupadas. Mas o movimento é traído pelos os social-democratas da C.G.T., que devolvem as fábricas.
Após um encontro anarquista em Bolonha, no qual Malatesta toma a palavra, eclodem incidentes, há vítimas e feridos do lado dos operários e da polícia. Malatesta e a equipe do Umanità Nova são presos. Os protestos se multiplicam, ocorrem atentados fascistas. O fascismo, financiado pela burguesia e ajudado pelo governo, avança. Em contrapartida, Malatesta favorece a formação dos grupos armados.
Em julho de 1922, a greve geral é proclamada pela Aliança do Trabalho - união de diversos sindicatos estimulados por Malatesta. Mas os fascistas dizima pela força. Em seguida, em outubro, acontece a “marcha sobre Roma” e, na praça Cavour, os fascistas queimam um retrato de Malatesta. Umanitá Nova é proibido. Malatesta, aos sessenta e nove anos, retoma sua profissão de eletricista. A polícia o vigia em todos os seus movimentos.
Em 1924, surge a revista Pensiero e Volontà. O fascismo, no seu início, permite a liberdade de imprensa, mas a censura se faz cada vez mais severa até a proibição da revista em 1926. A oficina de Malatesta é destruída pelos fascistas e ele é obrigado a sobreviver com a ajuda dos camaradas, assim como de sua companheira, Elena Mulli e a filha desta última, Gemma.
Malatesta passou os últimos anos de sua vida na Itália e, durante o regime fascista, correspondeu-se com Makhno e criticou duramente a Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários. Foi mantido em prisão domiciliar, morrendo em 22 de julho de 1932. Tal era o medo que inspirava às autoridades da época que, ao morrer, seu corpo foi jogado em uma vala anônima, para impedir que seu túmulo se transforma-se em um símbolo e ponto de partida para as agitações dos dissidentes.

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Nestor Makhno

Néstor Ivánovitch Makhnó (26 de outubro de 188825 de julho de 1934), líder anarco-comunista ucraniano, se negou a se submeter ao governo bolchevique após a Revolução de Outubro sendo um dos principais figurantes da Revolução Ucraniana.
Constituiu o Exército Insurgente Makhnovista de princípios anarquistas que combateu as "forças brancas" que tentavam invadir a Ucrânia durante a Guerra Civil Russa, tendo eventualmente se aliado ao Exército Vermelho dos bolcheviques para tanto. Finda a guerra civil, sua milícia foi declarada ilegal e seus membros foram presos, deportados ou executados. Conseguiu fugir para a Roménia com um pequeno grupo de militantes, e se exilou na França até sua morte.
Durante seu exílio em Paris, Makhnó manteve contato com outros anarquistas famosos, dentre os quais Alexander Berkman e Buenaventura Durruti.
Dentre suas obras, destaca-se a Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários, publicada em 1926 pelo grupo de anarquistas russos exilados Dêlo Trudá (A Causa dos Trabalhadores), do qual fez parte. Neste trabalho, os autores procuraram analisar a experiência dos anarquistas durante a Revolução Russa de 1917 e as razões pelas quais a ditadura comunista pôde se impôr. Identificando a desorganização do movimento como uma das causas principais de sua derrota, eles sugeriram a formação de uma "União Geral dos Anarquistas", que seria baseada em quatro princípios: unidade teórica, unidade tática, responsabilidade coletiva e federalismo.
Esta obra foi criticada por outros anarquistas (por exemplo, Errico Malatesta), que a consideraram autoritária e imprática ao tentar criar uma unidade teórica e organizacional.

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Revolta de Kronstadt

A Revolta de Kronstadt foi uma insurreição de marinheiros contra o governo russo (bolchevique). Foi o último confronto armado de importância da Guerra Civil Russa.
A revolta aconteceu nas primeiras semanas de Março de 1921, em Kronstadt, uma fortaleza naval localizada na ilha de Kotlin, no Golfo da Finlândia. Tradicionalmente, Kronstadt servia de base para a frota báltica russa e de defesa marítima para a cidade de São Petersburgo (mais tarde chamada Petrogrado, depois Leningrado e então São Petersburgo novamente, que é seu atual nome), a 35 milhas de distância.

Causas da revolta
Ao final da Guerra Civil Russa, o país estava exausto e arruinado. As secas de 1920 e 1921 e a fome dos anos subseqüentes foram o capítulo final do desastre. Nos anos que se seguiram à Revolução de Outubro, epidemias, fome, guerra civil, execuções, e o desabamento econômico e social custaram por volta de 20 milhões de vidas. Um milhão de pessoas deixaram o país. Grande parte desses emigrados eram de alta escolaridade.
O comunismo de guerra ajudou o governo bolchevique a alcançar vitórias na Guerra Civil Russa, mas ele devastou a economia. Com a iniciativa privada e o comércios proscritos e o recém formado Estado incapaz de realizar essas funções adequadamente, grande parte da economia russa parou. Estima-se que a produção fabril e mineira tenha caído em 1921 para 20% dos níveis de pré-guerra, com muitos itens essenciais tendo um declínio ainda mais drástico. A produção de algodão, por exemplo, caiu para 5% e de ferro para 2% dos níveis de pré-guerra. Os camponeses responderam à expropriação de sua produção recusando-se a cultivar o solo. Em 1921 a extensão das terras cultivadas encolheu para 62% da área de pré-guerra, e a colheita era apenas 37% do normal. O número de cavalos declinou de 35 milhões em 1916 para 24 milhões em 1920, e o gado caiu de 58 para 37 milhões de cabeças durante o mesmo período. O câmbio do dólar americano, que havia sido de dois Rublos em 1914, subiu para 1.200 em 1920.
Essa situação insustentável levou a insurreições no interior, como a Revolta de Tambov, e a greves e distúrbios nas fábricas. Em algumas áreas urbanas, ocorreu uma onda de greves espontâneas.

Uma lista de exigências
Em 26 de Fevereiro, em resposta a essas condições e confrontados com boatos de greves e insurreição em Petrogrado, veiculados pelo jornal Isvestia de Kronstadt, as tripulações dos navios de guerra Petropavlovsk e Sebastopol realizaram uma reunião de emergência que aprovou uma resolução com quinze exigências:
1. Novas eleições imediatas para os sovietes. Os presentes sovietes não mais expressam os desejos dos trabalhadores e camponeses. As novas eleições devem ocorrer sob voto secreto, e devem ser precedidas de livre propaganda eleitoral.
2. Liberdade de expressão e de imprensa para trabalhadores e camponeses, para os anarquistas, e para partidos socialistas de esquerda.
3. Direito à reunião, e liberdade para sindicatos e organizações camponesas.
4. A organização, no mais tardar até o dia 10 de Março de 1921, de uma conferência de trabalhadores, soldados e marinheiros de Petrogrado, Kronstadt e do distrito de Petrogrado não militantes do Partido.
5. A libertação de todos os presos políticos dos partidos socialistas, e de todos os trabalhadores, camponeses, soldados e marinheiros militantes de organizações operárias e camponesas atualmente presos.
6. A eleição de uma comissão para estudar os dossiers de todos os detidos em prisões e campos de concentração.
7. A abolição de todas as seções políticas dentro das forças armadas. Nenhum partido político deve ter privilégios para a propagação de suas idéias, ou receber subsídios do Estado para este fim. No lugar de seções políticas vários grupos culturais devem ser criados, tomando recursos do Estado.
8. A abolição imediata das barreiras militares criados entre as cidades e o campo.
9. A isonomia de rações para todos os trabalhadores, exceto para os que executam funções perigosas ou insalubres.
10. A abolição dos destacamentos de combate do Partido em todos os grupos militares. A abolição dos guardas do Partido nas fábricas e empresas. Se guardas fazem-se necessários, eles devem ser nomeados, levando-se em consideração as opiniões dos trabalhadores.
11. A concessão aos camponeses de liberdade de ação sobre seu próprio solo, e do direito de possuir gado, contanto que sejam diretamente responsáveis por aqueles e que não utilizem mão de obra assalariada.
12. Nós pedimos que todas as unidades militares e grupos de cadetes aspirantes se juntem a esta resolução.
13. Nós exigimos que a imprensa dê publicidade adequada a esta resolução.
14. Nós exigimos a instituição de grupos de controle operário móveis.
15. Nós exigimos que a produção artesanal seja autorizada desde que não utilize mão de obra assalariada.
Das quinze exigências, apenas duas estavam relacionadas com o que os marxistas chamam de "pequena burguesia", os camponeses e artesãos relativamente ricos. Estes exigiam "libertade plena de ação" para todos os camponeses e artesãos que não empregavam mão de obra assalariada. Como os trabalhadores de Petrogrado, os marinheiros de Kronstadt exigiam a isonomia de salários e o fim das barreiras nas estradas que restringiam tanto viagens quanto a capacidade dos trabalhadores de trazer comida para as cidades.
Finalmente, em Março de 1921, a base naval de Kronstadt se levantou em revolta contra o domínio bolchevique. Os marinheiros e outros rebeldes exigiam sovietes livres e a realização de uma assembléia constituinte. O governo bolchevique respondeu com um ultimato em 2 de Março. Este afirmava que a revolta havia sido "certamente preparada pela contra-inteligência francesa" e que a resolução de Petropavlovsk era uma resolução da "Centúria Negra-SR" (SR significava "Socialistas Revolucionários", um partido socialista democrata que havia sido maioria nos sovietes antes do retorno de Lenin, cuja direita havia se negado a apoiar os bolcheviques; a "Centúria Negra" eram uma força reacionária, proto-fascista, anterior à revolução, que atacava judeus, militantes trabalhistas e radicais, entre outros). Eles também chegaram a afirmar que a revolta havia sido organizada por oficiais ex-Tzaristas liderados pelo ex-general Kozlovsky (ironicamente, ele havia sido enviado ao forte por Trotsky). Essa era a versão oficial durante toda a revolta.

A revolta é derrotada
Os trabalhadores de Petrogrado estavam sob lei marcial e impossibilitados de oferecer apoio a Kronstadt. O governo bolchevique começou seu ataque em 7 de Março. Depois de 10 dias de ataque contínuo, durante o qual muitas unidades do Exército Vermelho foram forçadas a recuar sob fogo, e onde algumas até se juntaram à rebelião, a revolta de Kronstadt foi esmagada. O Exército Vermelho utilizou por volta de 50 mil soldados sob o comando de Mikhail Tukhachevsky, dos quais mais de 10 mil morreram antes da queda de Kronstadt em 17 de Março. Embora não hajam estimativas precisas para as baixas rebeldes durante a batalha, historiadores estimam que milhares foram executados nos dias que se seguiram à rendição, e um número semelhante foi enviado a campos de trabalho forçado siberianos. Um grande número de rebeldes mais afortunados conseguiram fugir para a Finlândia. Ironicamente, no dia seguinte à rendição de Kronstadt, os bolcheviques celebraram o 50 aniversário da Comuna de Paris.
A despeito da supressão impiedosa da insurreição pelo Exército Vermelho, a insatisfação geral com o estado das coisas não poderia ter sido mais claramente expressa. Nessa atmosfera de descontentamento, Lenin, que também concluiu que a revolução mundial não era iminente, substituiu na primavera de 1921 o Comunismo de Guerra pela sua Nova Política Econômica.

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