sexta-feira, 3 de abril de 2009
Otan celebra 60 anos buscando novas soluções para Afeganistão
O evento está sendo realizado sob um forte aparato de segurança e marcado por simbolismos e celebrações, a começar pelo local escolhido para sua realização: às margens do rio Reno, nas cidades fronteiriças de Estrasburgo, na França, e Kehl, na Alemanha, que representam a reconciliação entre os dois países ao final da Segunda Guerra Mundial.
O encontro selará o retorno dos franceses à estrutura militar da Otan depois de 43 anos de uma ausência imposta pelo general Charles de Gaulle, que defendia que o país ganharia mais autonomia ao se afastar da administração do bloco transatlântico.
Também celebrará a nova ampliação da Otan no Leste europeu, com a integração esta semana de Croácia e Albânia, elevando a 28 o número de países-membros.
Afeganistão
A agenda dos 28 governantes da aliança será dominada pela missão no Afeganistão, a mais importante da história da organização, que atua no país há pouco mais de seis anos e admite estar longe de conseguir neutralizar as ações do Talebã.
Em sua primeira cúpula, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tentará convencer os demais países a adotar uma nova estratégia de combate no Afeganistão, que inclua negociações com líderes do Talebã considerados moderados e ações coordenadas com o vizinho Paquistão, onde militantes organizam muitos de seus ataques.
Obama também deve pedir mais recursos para a missão, a fim de proporcionar reforço aos 60 mil soldados de 42 países presentes atualmente no Afeganistão.
O presidente americano já anunciou que pretende enviar em breve 21 mil soldados ao país, para somar-se a um contingente que hoje conta com 38 mil homens.
Por sua parte, o secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, defende que é "imprescindível" o envio de quatro batalhões adicionais, especialmente antes das eleições gerais previstas para agosto próximo, mas enfrenta resistência de muitos países da União Europeia, entre eles a França.
Ainda assim, o porta-voz da Otan, James Appathurai, disse confiar em um acordo para o envio de pelo menos 450 tropas suplementares por parte de Espanha, Itália, Holanda e Portugal, que teriam como missão dar formação a militares e policiais afegãos.
Reforma
Os líderes aliados também deverão iniciar nessa cúpula um debate sobre o futuro da organização, que quer se adaptar aos "desafios do século 21".
"O atual conceito estratégico da Otan data de 1999, antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, da missão no Afeganistão e do terrorismo cibernético. Por isso, é de grande importância definir uma nova estratégia", defendeu Appathurai em uma entrevista coletiva prévia à cúpula.
Esta semana a chanceler alemã, Angela Merkel, pediu uma "transformação revolucionária" na estrutura e estratégia da aliança, com maior cooperação com a Organização das Nações Unidas (ONU) e com a União Europeia.
Para muitos de seus países-membros, a Otan também deve contemplar intensificar suas relações com Rússia e o Irã, dois países cujo apoio é considerado de fundamental importância para a luta contra a insurgência afegã.
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quinta-feira, 2 de abril de 2009
Queda da população pode afetar economia da Rússia
De acordo com Sergei Zakharov, do Instituto de Demografia da Higher School of Economics, em Moscou, a Rússia de 2020 estará sofrendo os efeitos da redução da sua população. Em 2015 a Rússia já poderá ter oito milhões de pessoas na força de trabalho a menos do que tem hoje e, no Exército, a redução poderá ser de até um milhão até 2050.
"Os números são assustadores", diz Zakharov.
Um estudo patrocinado pelas Nações Unidas e divulgado ano passado por especialistas em demografia mostrou que a população do país poderá encolher dos atuais 142 milhões de pessoas para 100 milhões até 2050.
Natalidade e mortalidade
Dois principais fatores explicam o declínio da população russa. O primeiro são as baixas taxas de natalidade registradas ao longo das últimas décadas, uma tendência observada em muitos países europeus e agravada na Rússia pelas dificuldades econômicas dos anos 90, quando o país sofreu a transição do comunismo para o capitalismo.
O segundo fator é a alta taxa de mortalidade, principalmente entre os homens em idade reprodutiva.
Segundo Zakharov, um em cada três russos morre antes de se aposentar e as causas mais comuns são externas, como alcoolismo, acidentes de trânsito e mortes por envenenamento, causadas por consumo de bebida alcoólica fabricada de forma clandestina.
De acordo com dados oficiais, o número de mortes superou o de nascimentos em 12 milhões de 1992 a 2007, uma perda compensada parcialmente pela chegada de 5,5 milhões de imigrantes no mesmo período.
A Rússia é um dos únicos países do mundo em que a expectativa de vida diminuiu desde os anos 60. De acordo com dados oficiais de 2006, os homens russos vivem em média 60 anos, 15 abaixo da média europeia. Para as mulheres, a expectativa de vida é de 72 anos.
Impactos
O encolhimento da população pode ter diversos impactos na economia russa. Economistas estimam que a redução da força de trabalho possa resultar na queda da produção econômica, causando um impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB) do país.
Uma população em declínio também poderá afastar investidores internacionais, interessados no potencial do consumo interno.
"Onde o investidor prefere aplicar recursos? Na Índia ou na China, onde a renda per capita cresce junto com a população, ou na Rússia, onde a renda per capita vem crescendo, mas o mercado consumidor vem encolhendo?", indaga Markus Jaeger, economista do Deutsche Bank.
A previdência social também poderá sofrer com a crise demográfica, afirma Jaeger.
"Se a força de trabalho não for renovada, não haverá pessoas suficientes para gerar a renda necessária para pagas as pensões de aposentados. Isso pode prejudicar as políticas fiscais e econômicas e gerar tensões políticas", estima o economista.
Ainda segundo Jaeger, em termos demográficos a Rússia está na pior posição em relação aos outros países do BRIC.
Ele detalha que na Índia a população vem crescendo rapidamente, enquanto na China a força de trabalho continuará expandindo até 2015, data a partir da qual a população começará a envelhecer, mas não deverá declinar. Já o Brasil, segundo ele, se beneficiará de um aumento de 20% na força de trabalho até 2025.
"A Rússia, infelizmente, poderá sofrer um colapso populacional", acredita.
Medidas
Para tentar reverter o declínio da população, o governo vem oferecendo, desde 2006, estímulos financeiros para famílias que decidirem ter o segundo filho.
A estratégia teve resultados imediatos, com aumento de 130 mil nascimentos de 2006 para 2007. Para Sergei Zakharov, os resultados são temporários e serão seguidos, segundo ele, por uma "queda catastrófica na taxa de natalidade".
Outra estratégia do governo é estimular a imigração. Em 2006, o governo do ex-presidente e atual primeiro-ministro, Vladmir Putin, implementou um programa que visa a atrair para a Rússia imigrantes de etnia eslava que falem russo.
O presidente do Centro de Pesquisa sobre Problemas de População, da Universidade Estadual de Moscou, Valery Yelizarov, teme que a imigração cause tensões sociais na Rússia.
"Os russos não gostam de estrangeiros, não gostam de se misturar com pessoas de outras culturas e credos", afirma ele. "E, com a crise financeira deixando milhões de russos sem emprego, os imigrantes serão cada vez mais alvos de ataques xenófobos", acrescenta.
Para Yelizarov, o governo deveria ampliar o programa de benefícios às famílias e agir para diminuir os índices de mortalidade.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Amazônia terá torre de 300 metros para monitorar mudanças climáticas
Segundo o Ministério da Educação e Pesquisa da Alemanha, os custos da construção das torres e da manutenção nos primeiros cinco anos são avaliados em 8,4 milhões de euros (mais de R$ 25 milhões) e serão divididos pelos dois países.
De acordo com nota do Ministério da Ciência e Tecnologia, o ministro Sergio Rezende e a ministra alemã Anette Schavan assinaram os documentos para o projeto na quinta-feira em São Paulo.
Os ministros assinaram o protocolo de intenção para a construção das torres - a de 300 metros e mais quatro de 60 metros de altura - para monitoramento das mudanças climáticas na floresta Amazônica.
A torre mais alta teria quase a altura da Torre Eiffel, marco de Paris, que tem 324 metros de altura, incluindo as antenas.
O projeto engloba pesquisas ambientais já em andamento na região e será coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCT), no lado brasileiro, e pelo Instituto Max Planck de Química, no lado alemão.
O outro acordo bilateral firmado entre os dois governos manifesta "o propósito de Brasil e Alemanha em manter um diálogo regular para o apoio a estudos e pesquisas nas áreas de ciência, tecnologia e inovação, tendo como foco principal a sustentabilidade".
O ministro Sergio Rezende afirmou que os dois acordos são importantes "porque não só reforçam estudos e pesquisas ambientais, que Brasil e Alemanha já desenvolvem em conjunto, como reafirmam a preocupação dos dois governos em manter seus programas de política de desenvolvimento balizados com a temática da sustentabilidade".
extraído de www.bbcbrasil.com.br
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Por que a Folha não publica cartas de Ivan Seixas?
Ivan ficou indignado quando leu o editorial da Folha de S. Paulo, definindo a ditadura brasileira como “ditabranda”. Falei há pouco com ele por telefone: “É muita arrogância dos Frias, ainda mais com os pés de barro que eles têm. Os Frias não têm direito de pontificar sobre a ditadura, até porque colaboraram com a ditadura”.
Ivan Seixas mandou duas cartas para a Redação da Folha, protestando. Nenhuma das duas foi publicada. Escreveu, também, para o Ombudsman. Nada.
Nesta última, fez referência ao passado nebuloso do grupo Folha, jornal que “empregava carros para nos capturar e entregar para sessões de interrogatórios, como sofremos eu e meu pai. Ninguém me contou, eu vi carro da Folha na porta da OBAN/DOI-CODI.”
Ivan sabe do que está falando quando diz que a Folha tem pés de barro nesse tema.
Na madrugada do dia 17 de abril de 1971, poucas horas após a prisão dele e do pai, policiais a serviço da “ditabranda” tiraram Ivan da prisão para um “passeio” por São Paulo. Tomaram o caminho do Parque do Estado, uma área de mata fechada, próxima ao Jardim Zoológico. Lá, o jovem (algemado e desarmado) foi ameaçado várias vezes de fuzilamento. Os policiais - polidos como só acontecia na “ditabranda” brasileira - dispararam várias vezes bem ao lado da cabeça de Ivan. Ele fechava os olhos e tinha certeza que morreria: tortura terrível. Mas, deixaram-no vivo, pra contar a história.
No caminho para o Parque do Estado, os funcionários da “ditabranda” pararam numa padaria, na antiga Estrada do Cursino. Desceram pra tomar café, deixando Ivan no “chiqueirinho” da viatura. Foi de lá que Ivan conseguiu observar a manchete da Folha da Tarde (jornal do grupo Frias), estampada na banca bem ao lado da padaria: o jornal anunciava a morte do pai dele, Joaquim.
Prestem bem atenção: a Folha da Tarde do dia 17 trazia manchete com a morte de Joaquim – que teria ocorrido dia 16. Só que, ao voltar de seu “passeio” com os policiais, Ivan encontrou o pai vivo e consciente, nas dependências do DOI-CODI. Joaquim só morreria – sob tortura – no próprio dia 17.
Ou seja, o jornal da família Frias já sabia que Joaquim estava marcado pra morrer, e “adiantou” a notícia em um dia. Detalhe banal.
A historiadora Beatriz Kushnir publicou um livro em que conta essa e outras histórias mostrando os vínculos estreitos da família Frias com a ditadura.
Ivan está se movimentando para que o livro de Beatriz seja relançado este ano, em São Paulo. O ato serviria também como desagravo às vítimas da ditadura, e como protesto contra a família Frias, que quer reescrever a história recente do Brasil.
O velho Frias, antes de ter jornal, se dedicava a criar galinhas. Não tinha pretensões intelectuais.
Frias Filho – o Otavinho – acha que é um pensador. Devia criar galinhas.
Pensando bem, melhor não. Deixem os bons granjeiros fazerem o serviço deles honestamente...
Do blog de Rodrigo Vianna.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Novos tempos em Cuba
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Após a festa, crise econômica e guerras aguardam Obama
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Luz amarela para Chávez
As eleições regionais deste domingo (24) na Venezuela representaram uma expressiva vitória do governo, que ganhou a disputa em pelo menos 18 dos 23 Estados. Mais de 5,6 milhões de eleitores votaram a favor do PSUV, enquanto que em dezembro de 2007, no referendo para aprovar a reforma constitucional proposta pelo presidente Hugo Chávez, o governo recebeu 4,4 milhões de votos. Após dez anos e 14 eleições, o governo exibe uma surpreendente margem de aprovação. Estavam em disputa 23 governos, 328 prefeituras, além de 233 cadeiras em legislativos regionais.No entanto, tais resultados numéricos não podem esconder debilidades sérias no processo político venezuelano. Elas ficaram caras desde pelo menos o referendo. Como se sabe, naquela ocasião, as alterações legais propostas pelo governo foram derrotada por pequena margem.
Plebiscito em questão
Chávez, mais uma vez, apostou na tática eleitoral que lhe garantiu doze vitórias entre 1998 e 2006: transformar as eleições em um plebiscito entre seu governo e a “oposição golpista”, segundo suas palavras. Assim, qualquer vitória reveste-se de características com repercussões nacionais e até mesmo internacionais. E qualquer derrota significa colocar em questão todo o processo que lidera. Os candidatos governistas perderam em Estados muito importantes. Zulia, já governado por Manuel Rosales há dois mandatos, permanece com a oposição. É ali que se situa o estratégico lago Maracaibo, responsável por quase 80% da produção petroleira nacional. Rosales disputou as eleições presidenciais em 2006 e perdeu de Chávez por 62% a 36%. Seu tento foi lograr unificar uma oposição de direita fragmentada e dispersa, após sucessivas derrotas. Rosales deve ganhar a prefeitura da capital do Estado, Maracaibo, além de fazer o sucessor no Estado. Ou seja, a região mais rica do país está com a oposição e seu principal líder sai vitorioso das urnas.Outra derrota aconteceu no Estado Miranda, região rica próxima a Caracas. Ali, várias denúncias de ineficiência administrativa e mesmo de corrupção no governo do ex-vice Presidente da República, Diosdado Cabello, levaram a chapa governista à lona.Na Alcaydia Mayor, o mais populoso dos quatro municípios que compõem Caracas, a derrota oficial é duplamente simbólica. A primeira marca é o candidato chavista Aristóbulo Isturiz. Ele se notabilizou, em 1992, por defender solitariamente na então Câmara dos Deputados, os jovens oficiais das forças armadas, liderados por Chávez, que tentaram um golpe contra o governo de Carlos Andrés Perez. O segundo símbolo é a derrota em Petare, imensa favela da capital, um dos focos da resistência popular ao golpe de 2002. Assustadores índices de violência e desordem administrativa redundaram em desgaste das gestões municipais dos apoiadores de Chávez. A Alcaydia Mayor foi também crucial na articulação do golpe. Comandada na época por Alfredo Pena, dali partiram as forças repressoras que ajudaram a consolidar a breve interrupção do processo democrático. Em Nova Esparta, a derrota era admitida de antemão pelo governo.
Desordem administrativa
A desordem administrativa contou muitos pontos contra o governo. Lixo nas ruas, iluminação pública deficiente e problemas na gestão das missões sociais acumularam desgaste para um governo que buscou reverter um quadro de declínio dos serviços públicos na última década. Como exemplo, vale citar o relatório da ONG Provea, de defesa de direitos humanos, assim avalia este aspecto:
A situação do direito à saúde continua caracterizando-se pela coexistência de dois sistemas, o tradicional, formado entre outros, por ambulatórios e hospitais e o da Missão Bairro Adentro (BA). (...) O sistema de saúde segue fragmentado e desarticulado, com falhas estruturais. (...) Para o ano de 2007, o orçamento destinado (...) à saúde foi de 4,42 bilhões de bolívares, o que revela uma queda em relação ao ano anterior, quando o orçamento alcanço 5,01 bilhões de bolívares. (http://www.derechos.org.ve/publicaciones/infanual/2006_07/pdf/07salud.pdf pág. 156).
O governo segue com o apoio da maioria da população, mas a situação do país apresenta várias nuances. Insistir na linha plebiscitária é algo que não leva em conta o surgimento, em 2007, de uma direita não golpista (porque a tática mostrou-se ineficiente). Se até ali, Chávez obtivera sucesso em chamar seus detratores de “lacaios do Império”, o aprofundamento da democracia no país gerou uma sociedade cada vez mais complexa e nuançada. Esta nova oposição, assentada nas mesmas bases sociais da anterior – meios de comunicação, poder econômico e governo dos EUA –, ao que tudo indica, muda qualitativamente o panorama político. Possivelmente, o discurso chavista terá de se reciclar. Até ali, valeu mais acentuar uma polarização, na qual estariam de um lado o povo e do outro o imperialismo norte-americano. A situação mostrou-se verdadeira por várias vezes.
Imperialismo cordial
A interferência estadunidense na política interna da Venezuela aconteceu durante todo o século XX e no início deste. Mas ela nem sempre se valeu das mesmas formas de intervenção. A partir de 2009, os Estados Unidos não terão, pelo menos na aparência, um falcão da direita, como George W. Bush na Casa Branca. Barack Obama encarna uma espécie de “imperialismo cordial”, diante do qual a luta política deverá ser mais sofisticada.Perderam força os setores golpistas, remanescentes da trapalhada palaciana de 2002. Tais grupos vinham conseguindo manter sua hegemonia entre os antichavistas desde aquela época. Por extrema inabilidade, fizeram o que Chávez queria e apresentaram-se como opositores de conquistas reais por parte da população. Perderam espaço para novos atores, organizados em torno de um movimento estudantil que tenta romper pelo menos aparentemente os laços com a oposição tradicional. Há um outro setor, composto por dissidentes do Chavismo, como o ex-general Raul Isaías Baduel, aliado histórico de Chávez, com quem rompeu há pouco mais de um ano. O comportamento dessas facções, no médio prazo, definirá muito do futuro da oposição, a quem ainda faltam líderes populares de peso.Em outras palavras, Chávez tem diante de si um quadro diferente dos anos anteriores. É algo novo em um cenário anteriormente polarizado, no qual o Presidentte soube se movimentar com desenvoltura. A situação exige maior tolerância e habilidade política.
Economia
Boa parte da imprensa internacional começa a dizer que Chávez vive seu ocaso. Um exagero. Mas o quadro tendencial, de queda de sua popularidade, se reafirma. Possivelmente se as eleições fossem realizadas no primeiro trimestre de 2009, quando os efeitos da crise internacional se mostrarem mais evidentes, o resultado poderia ser pior. O PIB do terceiro trimestre de 2008 apresentou uma variação positiva de 4,6%, quase dois pontos menor que a de igual período do ano passado. O ano deve fechar com crescimento de 5,4%, bem abaixo dos quase 7% de 2007 (www.bcv.gov.ve). A revista inglesa Economist ) prevê crescimento de apenas 2,4% em 2009, um desastre anunciado para os programas sociais e para a ação do Estado. O petróleo está em U$ 40, diante de uma previsão orçamentária para o ano que vem de U$ 80. Ou seja, haverá menos dinheiro no orçamento e a diplomacia petroleira de Chávez, que lhe valeu amplo respaldo internacional nos últimos três anos, terá seu raio de ação limitado. O embate segue. Cada um dos lados buscará exaltar seus êxitos nas urnas. Tudo indica que o quadro mudará bastante nos próximos meses.
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Crise: salários contra lucros
A liquidez de hoje cria as bolhas de amanhã e a recessão de depois de amanhã. Caso se queira romper esta engrenagem infernal, não há mais que uma solução: fechar as torneiras que alimentam o setor financeiro. O principal é o retrocesso salarial. Ele está no fundamento da crise, como explica Michel Aglieta: "A evolução do salário real e da produtividade foram desconectados, provocando uma modificação da repartição do lucro. Como manter, nessas condições, o crescimento nos países ricos? Foi preciso separar a despesa da renda, estimulando o consumo pelo crédito".Essa tendência de baixa dos salários foi reforçada pela mundialização, como sublinha Frédéric Lordon, no seu último livro (1):"Também a concorrência "rasteira" entre países de padrões sociais e ambientais totalmente díspares provoca ajustes salariais por baixo, cujos termos são agora muito bem conhecidos: intensificação do trabalho, planos sociais em série e, sobretudo, pressão constante sobre os salários". Essa análise é compartilhada hoje, inclusive, pelos organismos internacionais como o FMI, a OCDE ou a Comissão Europeia (2). Raros são aqueles que contestam tal entendimento. Mas é o caso de um editorialista do Echos que ousa afirmar: "Não, os assalariados não são sacrificados!" Na França, a parte relativa aos salários está quase estabilizada, depois de vários anos, mas a um nível historicamente muito baixo, inferior ao dos anos 1960. O jornalista procura justificar esta situação invocando o nível de investimentos: "as empresas renovam suas máquinas mais frequentemente que antes (...) elas têm mais capital a amortizar". Este argumento é completamente equivocado. Eis a questão. A realidade óbvia, na verdade, é diferente: a participação dos salários diminuiu e a dos lucros aumentou. Mas as empresas, nem por isso, passaram a investir. Comparando o período 2000-2006 às duas décadas precedentes, um relatório da ONU mostra que num grande número de países, incluída a França, a taxa de investimento caiu, a despeito do aumento dos lucros no valor acrescentado. A conclusão vem por si mesma. É preciso modificar o compartilhamento das riquezas: menos dividendos, mais salários e investimentos sociais. A margem de manobra é considerável, já que os dividendos distribuídos pelas sociedades não-financeiras representam, hoje, 12% de sua massa salarial, contra 4%, em 1982. E seria intolerável que, nos próximos meses, as empresas demitam, alonguem a duração do trabalho e bloqueiem os salários, tudo isso para poderem continuar a irrigar seus acionistas. Mesmo deixando de lado o benefício social de uma tal redistribuição, a economia, não se conduzirá pior. Isso não impedirá as empresas de investir. Sua sacrossanta competitividade não será abalada, porque o aumento dos salários será compensado pela baixa dos dividendos. E as finanças serão, assim, descarregadas na direção da economia real. Mas este é um esquema um pouco abstrato, porque implica uma redução drástica de privilégios da pequena esfera social que aproveitou bem o neoliberalismo. Os rentistas não se submeterão de bom grado à "eutanásia" que recomendava Keynes, no dia seguinte à crise de 29. A questão, no fundo, não é somente a repartição dos lucros, mas também a repartição do poder de decisão.
Tradução do francês: Nilson Dalledone, Prof. Dr., São Paulo/São Paulo/Brasil
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Crise Mundial: Entenda o que está em jogo na reunião do G20.
Alguns países, sobretudo europeus e emergentes, querem aproveitar o momento para sugerir mudanças mais profundas e de longo prazo no sistema financeiro mundial.
Já os Estados Unidos afirmam que não é necessário reinventar o sistema, mas apenas “consertá-lo”.
Entenda o que mais está em jogo nessa reunião.
O que é o G20?
Também conhecido como “G20 financeiro”, trata-se de um grupo de 20 países criado formalmente em 1999, logo após as crises asiática e russa. Seu objetivo era avaliar as razões da turbulência financeira do final dos anos 90, além de discutir ações de longo prazo que pudessem evitar novas crises.
Nos anos seguintes, porém, a economia mundial reconquistou a estabilidade e o G20 passou a incorporar outros temas globais a sua agenda, tais como mudança climática e as consequências do crescimento demográfico para a economia.
Qual a relação entre o G20 financeiro e o G20 que discute o comércio internacional?
Apesar de alguns países fazerem parte dos dois grupos (como o Brasil), não existe qualquer relação entre eles.
O G20 de países em desenvolvimento é uma união informal, instituída em 2003 durante negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) e cujo objetivo é combater os subsídios agrícolas utilizados por países ricos.
Quem faz parte do G20?
Os principais países ricos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Grã Bretanha, França, Canadá, Itália, Rússia, além da União Européia) e os principais emergentes (China, Índia, Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, México, Argentina, Austrália, Indonésia e Coréia do Sul).
Nos encontros oficiais, os países são representados pelos ministros da Economia e pelos presidentes de bancos centrais. O último encontro foi realizado em São Paulo, entre os dias 7 e 9 de novembro.
O Brasil está na presidência do grupo, que funciona em regime rotativo. Em 2009, a presidência estará com a Grã Bretanha.
Com que objetivo a reunião de Washington foi marcada?
Diante do agravamento da crise financeira, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, sugeriu que o G20 se reunisse para discutir possíveis mudanças no atual sistema financeiro. Por isso a reunião acontece em Washington.
A reunião deste sábado, dia 15, acontece em caráter excepcional, em função da crise financeira. Essa é a primeira vez que os países serão representados por chefes de Estado.
O que estará na pauta da reunião?
Não existe uma pauta conjunta, mas alguns temas já foram apresentados na última reunião, em São Paulo, e devem voltar à mesa. Entre eles estão a reforma do Fundo Monetário Internacional (FM(), a criação de mecanismos que dêem maior transparência a aplicações de alto risco e a criação de um organismo internacional para supervisionar o sistema bancário.
O G20 tem poderes para instituir uma nova arquitetura financeira global?
Não. O que o grupo faz é discutir e sugerir práticas que consideram apropriadas para o manejo do sistema financeiro mundial.
Os países têm a soberania para decidir se adotam ou não tais procedimentos. Além disso, muitas vezes os países precisam submeter sugestões de mudanças ao seu Poder Legislativo, o que torna o processo mais complexo.
A política de sugestão de boas práticas é adotada também por outros organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a OMC.
Essas instituições não têm poder para decidir que conduta política ou econômica será adotada em cada país, tampouco o de penalizar aqueles que não as adotarem – mas ainda assim, a maioria segue as mesmas regras.
“Se os países vão adotar ou não certas práticas depende muito da legitimidade do sistema”, diz o historiador americano John Steele Gordon.
Segundo ele, como as falhas do atual se sistema estão à mostra, cria-se uma situação favorável a mudanças no sistema.
“A situação é propícia, mas isso não quer dizer que seja um processo fácil”, diz.
Existe consenso entre os países sobre que medidas adotar?
Não. Esse é, inclusive, um dos principais desafios do G20 para essa reunião. Enquanto os europeus e os países emergentes, como o Brasil, vêm demonstrando interesse em uma reforma mais ampla do sistema, os Estados Unidos defendem mudanças mais sutis.
Em discurso na quinta-feira, o presidente George W. Bush disse que é preciso aprimorar as práticas do sistema financeiro, mas alertou para o perigo de uma “super-regulação”.
O que está na agenda brasileira?
Uma das principais demandas do governo brasileiro é a ampliação do papel dos países emergentes no FMI. Além disso, o Brasil defende que os organismos financeiros internacionais adotem políticas de prevenção a crises.
Qual será o resultado prático dessa reunião?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse não esperar grandes resultados do encontro, “que seria apenas o começo”.
De fato, caso algumas medidas sejam sugeridas no sábado, elas deverão passar ainda por um longo processo de análise.
O presidente da França, Nicolas Sarzoky, já sugeriu um novo encontro, para daqui a cem dias.
O fato de o presidente Bush estar em fim de mandato também reduz as possibilidades de que medidas mais significativas sejam adotadas ou mesmo discutidas.
Por que essa reunião vem sendo chamada de “novo Bretton Woods”?
É uma comparação à reunião que aconteceu em julho de 1944, em Bretton Woods, New Hamphire (EUA), e que instituiu uma nova ordem econômica mundial.
Naquela época, havia um certo consenso de que a desordem financeira mundial, que culminou na Grande Depressão (1929), foi uma das principais causas da Segunda Guerra.
Para tratar de possíveis desequilíbrios econômicos e financeiros entre os países, algumas instituições foram criadas, entre elas o FMI e o Banco Mundial.
Na avaliação de Gordon, comparar os dois períodos “é definitivamente um exagero”. Segundo o historiador, há interesses políticos, sobretudo da União Européia, em ganhar espaço nas relações internacionais.
“No final, aquilo que era da esfera econômica sempre acaba em política”, diz.
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quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Solo amazônico não suporta modelo agrícola
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