Em meio à crise financeira que afeta os mercados globais, o desemprego é a principal preocupação dos espanhóis.
A cada dia, em média 1.250 pessoas são demitidas e apenas nos últimos dois meses 80% do total de empregos criados em 2007 já foram eliminados.
No total, o país já tem 2,6 milhões de desempregados – o que representa 11% da população ativa.
Esses dados colocam a Espanha como o país da União Européia com maior índice de desemprego e pior perspectiva para 2009.
Estimativas divulgadas pela Comissão Européia de Economia e instituições financeiras indicam que no próximo ano o índice de desemprego pode chegar aos 14%, com cerca de 3,5 milhões de trabalhadores na rua.
Preocupante
"São dados muito preocupantes. Mesmo que continuemos a criar empregos, não há formas de absorver o crescimento da população ativa", explicou à BBC Brasil a assessoria de imprensa da Secretaria Geral de Emprego da Espanha.
Em apenas um ano, a taxa de desemprego passou de 8,3% para 11,3% na Espanha, enquanto a média na União Européia é de 7,5%.
O governo culpa a crise mundial, que atingiu especialmente o setor da construção civil pelo aumento do desemprego. Essa atividade chegou a empregar 20% da população ativa e já representou quase 18% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
Segundo o Ministro do Trabalho, Celestino Corbacho, se a construção era o motor da economia, a conseqüência negativa de um desaquecimento nesse setor era "inevitável".
Para ele, a solução está em apoiar o setor industrial e tecnológico.
Dependência externa
Mas analistas financeiros têm outros pontos de vista. Alguns consideram a economia espanhola mais vulnerável que outras às crises internacionais, e afirmam que a perda de empregos na construção civil teria sido menos responsável pela queda no desemprego do que se imagina.
O relatório Situação Espanha, divulgado recentemente pelo Banco BBVA, indicou que o país é "mais vulnerável à crise e ao aumento do preço do petróleo por causa de sua grande dívida e a elevada dependência energética".
O documento ressalta ainda que, além do impacto do preço do petróleo, o país também foi mais afetado pelo ajuste do setor da moradia.
Um dos autores do relatório, o economista José Luis Escrivá, disse que a Espanha tem duas fragilidades em momentos críticos: o déficit externo e a respectiva necessidade de financiamento - 60 bilhões de euros por semestre.
Nas previsões do BBVA, a recuperação deverá acontecer na segunda metade de 2009, mas não com crescimento de 3% como espera o Ministro da Economia, Pedro Solbes.
"Esses dados de 2,5%, 3% dificilmente serão alcançados antes de três ou quatro anos. Calculamos taxas de 0,5% para o crescimento e 14% para o desemprego", afirmou Escrivá.
Plano de emergência
O diretor do Instituto de Estudos Econômicos, Juan Iranzo, ressaltou que o desemprego está atingindo todos os setores - serviços, indústria, agricultura e construção -, com os piores índices desde 1998.
"Uma taxa de desemprego acima dos 15% para 2009 não seria surpresa, especialmente porque não há medidas de curto e médio prazo", afirmou.
Embora reconheça que não haja plano de emergência para o desemprego, o governo já anunciou medidas. A primeira foi ajustar o orçamento nacional para 2009, prevendo que haverá ajustes nos cálculos futuros.
"Serão realistas, austeros e rigorosos; os mais rigorosos que esse país teve em muitos anos porque são as circunstâncias mais difíceis em décadas", disse o Ministro Solbes no Senado.
Apesar da anunciada austeridade, para as coberturas por desemprego haverá aumento orçamentário de 24% em relação a 2008 (19,2 bilhões de euros).
Além disso, o governo pediu moderação ao empresariado para negociar salários em vez de optar por demissões massivas.
Imigração
Uma parte sensível da mão-de-obra diante da crise do emprego é a dos imigrantes. Com quase 5 milhões de trabalhadores estrangeiros - cerca de 60% ilegais e portanto sem seguro-desemprego -, a proposta do governo é tentar convencer os imigrantes a voltar a seus países de origem.
Apesar da tentativa, o chamado Plano de Ajuda ao Retorno Voluntário tem tido pouco sucesso. Há muita procura por informação, mas poucas pessoas acabam fazendo as petições de regresso.
No caso dos brasileiros, o consulado brasileiro em Madri reconhece que a maioria está em situação ilegal e por isso não cumpre os requisitos para receber a ajuda. Um dos pré-requisitos é que apenas os imigrantes em situação regular possam ter acesso ao plano.
Os maiores contingentes de imigrantes no país - marroquinos e equatorianos - resistem e querem ficar. A maioria argumenta que trouxe toda a família para a Espanha e que, se a crise na Europa é ruim, nos seus países é ainda pior.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Tudo o que você quer saber sobre a crise mas tem medo de não entender
O pior já passou?
Não. Se algo ficou claro com os movimentos contraditórios dessas últimas semanas, em que, no momento em que se permitia a quebra do Lehman Brothers se nacionalizava a AIG e se programava a tomada de controle da Merril Lynch pelo Bank of America, é que não há uma estratégia para enfrentar a crise. Há, em resumo, respostas táticas, como bombeiros que pisam na mangueira, atrapalhados com a magnitude do incêndio.O resgate de 700 milhões de dólares das obrigações hipotecárias respaldadas pelo poder dos bancos não é uma estratégia, senão basicamente um esforço desesperado para restaurar a confiança no sistema, para prevenir a erosão da fé nos bancos e em outras instituições financeiras e para evitar a afluência massiva de retirada de fundos dos bancos, como a que desencadeou a Grande Depressão de 1929.
O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global?
Foi a cobiça?A velha e venerada cobiça teve sua parte. A isso se referia Klaus Shwab, o organizador do Forum Econômico Mundial, o convescote da elite global celebrado anualmente nos Alpes suíços, quando disse a sua clientela, em Davos este ano: “Temos de pagar todos os pecados do passado”.
Wall Street foi um caso de "alguazil endemoniado"? Certamente. Os especuladores financeiros fizeram marola até se confundirem eles próprios com a criação de contratos financeiros cada vez mais complexos, como os derivados, tratando de ganhar dinheiro a partir de todos os tipos de riscos (incluídos exóticos instrumentos de riscos futuros, com os credits default swaps ou contratos de proteção de derivados creditícios, que permitiam aos investidores apostar, por exemplo, que os clientes da própria corporação bancária não seriam capazes de devolver sua dívida! Tal é o comércio multibilionário não regulado que acabou abatendo a AIG. Em 17 de dezembro de 2005, quando a International Financing Review (IFR) anunciou seus prêmios anuais – um dos programas de prêmios mais prestigiados do setor -, disse: “Lehman Brothers não só manteve sua presença global no mercado, como dirigiu a penetração no espaço de preferência...desenvolvendo novos produtos e desenhando transações capazes de subvencionar as necessidades dos clientes...Lehman Brothers é o mais inovador no espaço de preferência precisamente por fazer coisas que não se podem ver em nenhum outro lugar”. Sem comentários.Foi falta de regulação?Sim. Todo mundo reconhece agora que a capacidade de Wall Street para inovar e imaginar instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados tem ido muito além da capacidade regulatória do Estado, e não porque o Estado não seja capaz de regular, mas porque a atitude neoliberal, de laissez-faire imperante impediu ao Estado desenhar mecanismos efetivos de regulação. Então não há nada mais? Não há nada sistêmico?Bem, Georges Soros, que viu a crise se aproximar, disse que o que estamos passando é a crise do sistema financeiro, a crise do “gigantesco sistema circulatório” de um sistema “capitalista global...que está passando dos limites”.Para seguir com a tese do arquiespeculador, estamos assistindo é a uma intensificação de uma crise ou de uma contradição central do capitalismo global: a crise de superprodução, também conhecida como super-acumulação e supercapacidade.Trata-se da tendência do capitalismo de produzir uma enorme capacidade produtiva que termina por rebaixar a capacidade de consumo da população, devido às desigualdades que limitam o poder de compra popular, o qual termina por erodir as taxas de lucro. Mas o que a crise de superprodução tem a ver com os acontecimentos recentes?Muitíssimo. Só que, para entender a conexão, teremos de retroceder à chamada Época Dourada do capitalismo contemporâneo, ao período compreendido entre 1945 e 1975.Foi um período de rápido crescimento, tanto nas economias do centro como nas subdesenvolvidas; um crescimento propiciado, em parte, pela massiva reconstrução da Europa e do Leste Asiático depois da devastação da II Guerra Mundial e, em parte, pela nova configuração sócio-econômica institucionalizada sob o novo estado keynesiano. Um aspecto chave desta última foram os severos controles estatais da atividade de mercado, o uso agressivo de políticas fiscais e monetárias para minimizar a inflação e a recessão, assim como um regime de salários relativamente altos para estimular e manter a demanda. O que aconteceu, então?Bem, este período de elevado crescimento terminou em meados dos 70, quando as economias do centro se viram imersas na estagflação, quer dizer, na coexistência de um baixo crescimento com uma inflação alta, o que a teoria econômica neoclássica supunha impossível. Contudo, a estagflação era um sintoma de uma causa mais profunda, a saber, a reconstrução da Alemanha e do Japão, assim com o rápido crescimento de economias em vias de industrialização, como Brasil, Taiwan e Coréia do Sul, somando-se a isso uma enorme capacidade produtiva que incrementou a competição global, enquanto a desigualdade social, dentro de cada país e entre países limitou globalmente o crescimento do poder aquisitivo e da demanda, resultando assim erodida a taxa de lucro. A drástica elevação do preço do petróleo nos anos setenta não fez senão agravar a coisa.Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução?O capital tentou três vias de saída do atoleiro da superprodução: a restruturação neoliberal, a globalização e a financeirização. Em que consistiu a reestruturação neoliberal?A reestruturação neoliberal tomou a forma do reaganismo e do thatcherismo no Norte e do ajuste estrutural no Sul. O objetivo era a revigorização da acumulação de capital, o que foi feito: 1) removendo as restrições estatais ao crescimento, ao uso e aos fluxos de capital e de riqueza; 2) redistribuindo a renda das classes pobres e médias dentre os ricos, de acordo com a teoria de que assim os ricos seriam motivados a investir e a alimentar o crescimento econômico. O problema dessa fórmula era que, ao redistribuir a renda em favor dos ricos, estrangulava-se a renda dos pobres e das classes médias, o que provocava a restrição da demanda, sem necessariamente induzir os ricos a investir mais em produção. De fato, a reestruturação neoliberal, que se generalizou no Norte e no Sul ao longo dos anos oitenta e noventa, teve resultados pobres em termos de crescimento: o crescimento global prometido foi de 1,1% nos 90 e de 1,4 nos 80, enquanto a média nos 60 e nos 70, quando as políticas intervencionistas eram dominantes, foi, respectivamente, de 3,5% e de 2,54%. A reestruturação neoliberal não pôde terminar com a “estagflação”.Em que medida a globalização foi uma resposta à crise?A segunda via de escape global tentada pelo capital para enfrentar a estagflação foi a “acumulação extensiva” ou globalização, quer dizer, a rápida integração das zonas semi-capitalistas, não-capitalistas e pré-capitalistas à economia global de mercado. Rosa Luxemburgo, a celebrada economista e revolucionária alemã, percebeu este mecanismo há muito tempo, vendo-o nas economias metropolitanas. Como? Com o acesso de novas fontes de produtos agrícolas e de matéria-prima baratos; e criando novas áreas para investimento em infra-estrutura. A integração se produz através da liberalização do comércio, removendo obstáculos à mobilidade do capital e abolindo as fronteiras para o investimento no exterior. Nem é o preciso lembra que a China é o caso mais destacado de uma área não-capitalista integrada na economia capitalista global nos últimos 25 anos. Para compensar seus lucros declinantes, um considerável número de corporações empresariais situadas entre as primeiras 500 do ranking da revista Fortune deslocaram uma parte significativa de suas operações para a China, a fim de aproveitar as vantagens do chamado “preço chinês” (as vantagens de custos derivadas de um trabalho barato e aparentemente inesgotável). Em meados da primeira década do século XXI, entre 40 e 50% dos lucros das corporações estadunidenses procediam de suas operações e vendas no exterior, marcadamente na China. Por que a globalização não pôde superar a crise?O problema com esta via de saída do estancamento é que se exacerba o problema da superprodução, porque aumenta a capacidade produtiva. A China dos últimos 25 anos acrescentou um tremendo volume de capacidade manufatureira, o que teve por efeito deprimir os preços e os lucros. Não por acaso, os lucros das corporações estadunidenses deixaram de crescer até 1997. De acordo com um índice estatístico, as taxas de lucros das 500 maiores da Fortune passou de 7,15 em 1960-69 a 5,3 em 1980-1990, a 2,29 em 1990-99 e a 1,32 em 2000-02. Dados os limitados ganhos obtidos para conter o impacto depressivo da superprodução, seja através da reestruturação neoliberal, seja com a globalização, a terceira via de saída tornou-se vital para manter e para elevar a rentabilidade. A terceira via é a financeirização. No mundo ideal da teoria econômica neoclássica, o sistema financeiro é o mecanismo a mercê do qual os poupadores, ou quem se encontra na posse de fundos excedentes, juntam-se com os empresários que têm necessidade de seus fundos, para investir em produção. No mundo real, do capitalismo tardio, com o investimento na indústria e na agricultura gerando lucros magros, por causa da superprodução, grandes quantidades de fundos excedentes circulam e são investidas e re-investidas no setor financeiro. Quer dizer, o sistema financeiro gira sobre si mesmo. O resultado é que se aumenta o hiato aberto entre uma economia financiera hiperativa e uma economia real estancada. Como bem observa um executivo financeiro: “tem havido uma crescente desconexão entre a economia real e a economia financeira nos últimos anos. A economia real cresceu, mas nada comparável à financeira...até que explodiu”. O que este observador nos diz é que a desconexão entre a economia real e a financeira não é acidental: que a economia financeira se distanciou precisamente para fazer frente ao estancamento gerador da superprodução da economial real. Quais foram os problemas da financeirização como via de saída?O problema de investir em operações do setor financeiro é que equivale a exprimir valor de valor já criado. Pode criar lucro, de acordo, mas não cria valor – só a indústria, a agricultura, o comércio e os serviços criam valor novo. Visto que os lucros não se baseiam na criação de valor novo ou agregado, as operações de investimento resultam extremamente voláteis e os preços das ações, as obrigações e de outras formas de investimento podem chegar a divergir radicalmente de seu valor real: por exemplo, as ações de empresas incipientes de Internet, que se mantiveram por um tempo em alta, sustentadas principalmente por valorações financeiras em espiral, para logo arruinarem-se.Os lucros dependem, então, do aproveitamento das vantagens por movimento de preços que divergem da alta do valor das mercadorias, para vender oportunamente antes de que a realidade force a “correção” para baixa, a fim de ajustar-se aos valores reais. A alta radical dos preços de um ativo, muito além dos valores reais, é o que se cama de formação de uma bolha. Por que a financeirização é tão volátil?Com a rentabilidade dependendo de golpes especulativos, não resulta surpreendente que o setor financeiro vá de bolha em bolha, ou de uma mania especulativa a outra. Visto que está sustentando por uma mania especulativa, o capitalismo induzido financeiramente não deixou de bater recordes em matéria de crises financeiras desde que os mercados de capitais foram desregulados e liberalizados nos 80.Antes da atual débâcle de Wall Street, as mais explosivas foram a crise financeira mexicana de 1994-95, a crise financeira asiática de 1997-98, a crise financeira russa de 1996, o colapso do mercado de valores de Wall Street de 2001 e o colapso financeiro argentino de 2002. O antigo secretário do Tesouro, de Bill Clinton, um homem de Wall Street, Robert Rubin, previu há cinco anos que "as crises financeiras futuras serão com quase toda certeza inevitáveis e poderiam chegar a ser até piores".Como se formam, crescem e estouram as bolhas?Tomemos como exemplo a crise financeira asiática de 1997-98:Primeiro: balança de pagamentos e liberalização financeira impostas pelo FMI e pelo Departamento norte-americano do Tesouro.Depois, entrada de fundos estrangeiros em busca de rápida e elevada rentabilidade, o que significa que entraram no mercado imobiliário e no mercado de valores. Superinvestimento, o que levou à derrubada dos preços no mercado de valores e no mercado imobiliário e que, por sua vez, conduziu ao pânico e à conseguinte retirada de fundos em 1997; em poucas semanas, milhões de dólares abandonaram as economias do leste asiático. Resgate dos especuladores estrangeiros por parte do FMI.Colapso da economia real: a recessão se estende por todo o leste asiático em 1998.Apesar da desestabilização em grande escala, todos as ações voltadas para impor regulações nacionais ou globais do sistema financeiro foram rechaçadas com razões puramente ideológicas. Voltemos à presente bolha. Como se formou?O atual colapso de Wall Street está enraizado na bolha tecnológica de fins dos 90, quando o preço das ações das empresas incipientes no mundo da Internet disparou, para logo desmoronar, resultando na perda de ativos no valor de 7 bilhões de dólares e na recessão de 2001-02.As frouxas políticas monetárias do Banco Central norte-americano, na gestão de Alan Greenspan, estimularam a bolha tecnológica e, quando esta colapsou, dando origem à recessão, Greesnpan, tratando de prevenir uma recessão duradoura, rebaixou em junho de 2003 as taxas de juros a um nível sem precedentes em 45 anos (a 1%), mantendo-no nesse nível durante mais de um ano. Com isso, o que conseguiu foi estimular a formação de outra bolha: a bolha imobiliária.Pouco tempo antes, como em 2002, economistas como Dean Baker, do Center for Economic Policy Research, alertaram sobre a formação de uma bolha imobiliária. Porém, numa data tardia como 2005 o então presidente do Conselho Econômico de assessores da Presidência da nação e atual presidente do Banco Central norteamericano, Bern Bernanke, atribuía o aumento dos preços dos imóveis a “uns fundamentos econômicos robustos”, e não à atividade especulativa. A quem pode surpreender que o estouro da crise subprime no verão de 2007 pegasse este homenzinho de moral tão baixa?E como cresceu?Escutemo-lo da boca de um dos próprios juizes chave nos mercados, George Soros: “As instituições hipotecárias animaram os hipotecados a refinanciar sus hipotecas, aproveitando a revalorização experimentada, na ocasião, de suas casas. Reabaixaram seus critérios de empréstimo e introduziram novos produtos, como hipotecas a juros variáveis, hipotecas que 'só geravam juros' e 'ofertas promocionais' com tipos de juros de morrer de rir. Tudo isso animou a especular com a casa. Os preços das casas começaram a subir a um ritmo de dois dígitos. Isso serviu para retroalimentar a especulação, e a alta dos preços imobiliários conseguiu que os proprietários de casas que se sentissem ricos; o resultado foi o boom consumista que sustentou a economia nos últimos anos”.Vendo as coisas mais de perto, vê-se que a crise hipotecária não resultou de uma oferta superior à demanda real. A “demanda” estava, quando muito, fabricada pela mania especulativa de promotores e financistas empenhados em conseguir grandes lucros a partir de seu acesso ao dinheiro estrangeiro que inundou os EUA na última década. Enormes volumes hipotecários foram agressivamente oferecidos e vendidos a milhões de pessoa que, normalmente, não teriam podido permitir-se tal coisa oferecendo-lhes taxas de juros ridiculamente baixas, posteriormente ajustáveis, para tirar mais dinheiro dos proprietários de casas. Mas como puderam as hipotecas subprime degenerarem-se num problema de tais dimensões?Porque os ativos passaram, então, a ser “assegurados”: aqueles que tinham gerado as hipotecas trataram de amalgamá-las com outros ativos, em complexos produtos derivados chamados “obrigações de dívida colaterizada” (CDO, nas suas iniciais em inglês), o que resultou relativamente fácil, dado que trabalhavam com diversos tipos de intermediários que, sabedores do risco, desfaziam-se desses títulos de valores o mais rapidamente possível, passando-os a outros bancos e a outros investidores institucionais. Essas instituições, por sua vez, se desfaziam do produto, passando-o a outros bancos e a instituições financeiras estrangeiras. Quando aumentaram os juros dos emprésticos subprime, das hipotecas variáveis e dos outros empréstimos imobiliários, o jogo chegou ao seu fim. Há cerca de 6 milhões de hipotecas subprime, das quais 40% entrarão em insolvência nos próximos dois anos, segundo estimativas de Soros. A esses 6 milhões há que se acrescentar outros 5 milhões de insolventes nos próximos 7 anos, derivados dos tipos hipotecários variáveis e de outros “empréstimos flexíveis”. Mas os títulos, cujos valores se conta em bilhões de dólares, já se infiltraram como um vírus no sistema financeiro global. O gigantesco sistema circulatório do capitalismo foi fatalmente infectado. E como puderam os titãs de Wall Street desmoronarem como um castelo de cartas?O que ocorreu com Lehman Brothers, Merril Lynch, Fannie Mae, Freddie Mc e Bear Stearns foi, simplesmente, que as perdas representadas por esses títulos tóxicos rebaixaram em muito suas reservas, o que conduziu a sua queda. E cairão mais, provavelmente, quando em seus livros de contabilidade, os títulos qiue agora figuram como haveres, corrigirem-se para refletir o atual valor desses ativos. E muitos outros lhes seguirão, à medida que vão sendo expostas outras operações especulativas, como as centradas nos cartões de crédito e nas diferentes variedades de seguro contra riscos. AIG caiu por causa de sua gigantesca exposição na área não-regulada dos contratos de proteção creditícia derivada (credit default swaps), um dos derivados financeiros que permitiam aos investidores apostar dinheiro na possibilidade de que as empresas não pudessem pagar os empréstimos. Essas apostas sobre insolvências creditícias representam agora um mercado de 45 bilhões de dólares, um mercado, como se disse, que carece de qualquer regulação. A ciclópica dimensão dos ativos, que poderiam ser deteriorados no caso de a AIG colapsar foi o que motivou Washington a mudar de idéia e intervir para resgatá-lo, logo após ter deixado o Lehman Brothers cair. O que vai acontecer agora?Pode dizer-se sem vilania que haverá mais bancarrotas e mais nacionalizações e intervenções públicas recuperando as instituições e que os bancos estrangeiros terão um papel auxiliar ao do governo dos EUA. E que o colapso de Wall Street vai mais longe e prolongará a recessão norte-americana. E que a recessão nos EUA se comunicará a Ásia e ao resto do mundo, que também sofrerá uma recessão, senão algo pior. A razão disto é que o principal mercado exterior da China são os EUA e que a China, por sua vez, importa matérias primas e bens intermediários – que servem para suas exportações aos EUA – do Japão, da Coréia e do Sudeste asiático. A globalização tem tornado impossível o “desacoplamento”. Os EUA, a China e o Leste Asiático andam agora como três prisioneiros atados por uma mesma corrente. Em resumo?O desabamento de Wall Street não se deve apenas à cobiça e à falta de regulação estatal do setor hiperativo. O colapso de Wall Street tem suas raízes na crise de superprodução que foi a praga do capitalismo global desde meados dos 70.A financeirização do investimento tem sido uma das vias de escape para sair do estancamento, sendo as outras a da reestruturação neoliberal e da globalização. Tendo resultado de pouco alívio a reestruturação neoliberal e a globalização, a financeirização pareceu atrativa como mecanismo de restauração da rentabilidade. Mas o que agora ficou demonstrado é que a financeirização é uma trilha perigosa que leva à formação de bolhas especulativas, capazes de oferecer uma efêmera prosperidade a uns quantos, mas que terminam no colapso empresarial e na recessão da economia real. As questões-chave são estas: Quão profunda e duradoura será esta recessão? A economia dos EUA necessitará criar outra bolha especulativa para sair dessa recessão? E se isso for o caso, onde se formará a próxima bolha? Alguns dizem que a próxima surgirá no complexo militar-industrial ou no “capitalismo de desastre” sobre o qual escreve Naomi Klein. Mas isso não é farinha do mesmo saco.
Walden Bello, professor de ciências políticas e sociais na Universidade das Filipinas (Manila), é membro do Transnational Institute de Amsterdam e presidente de Freedom from Debt Coalition, e é analista sênior no Focus on the Global South. Artigo publicado em 05 de outubro no SinPermiso.
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Não. Se algo ficou claro com os movimentos contraditórios dessas últimas semanas, em que, no momento em que se permitia a quebra do Lehman Brothers se nacionalizava a AIG e se programava a tomada de controle da Merril Lynch pelo Bank of America, é que não há uma estratégia para enfrentar a crise. Há, em resumo, respostas táticas, como bombeiros que pisam na mangueira, atrapalhados com a magnitude do incêndio.O resgate de 700 milhões de dólares das obrigações hipotecárias respaldadas pelo poder dos bancos não é uma estratégia, senão basicamente um esforço desesperado para restaurar a confiança no sistema, para prevenir a erosão da fé nos bancos e em outras instituições financeiras e para evitar a afluência massiva de retirada de fundos dos bancos, como a que desencadeou a Grande Depressão de 1929.
O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global?
Foi a cobiça?A velha e venerada cobiça teve sua parte. A isso se referia Klaus Shwab, o organizador do Forum Econômico Mundial, o convescote da elite global celebrado anualmente nos Alpes suíços, quando disse a sua clientela, em Davos este ano: “Temos de pagar todos os pecados do passado”.
Wall Street foi um caso de "alguazil endemoniado"? Certamente. Os especuladores financeiros fizeram marola até se confundirem eles próprios com a criação de contratos financeiros cada vez mais complexos, como os derivados, tratando de ganhar dinheiro a partir de todos os tipos de riscos (incluídos exóticos instrumentos de riscos futuros, com os credits default swaps ou contratos de proteção de derivados creditícios, que permitiam aos investidores apostar, por exemplo, que os clientes da própria corporação bancária não seriam capazes de devolver sua dívida! Tal é o comércio multibilionário não regulado que acabou abatendo a AIG. Em 17 de dezembro de 2005, quando a International Financing Review (IFR) anunciou seus prêmios anuais – um dos programas de prêmios mais prestigiados do setor -, disse: “Lehman Brothers não só manteve sua presença global no mercado, como dirigiu a penetração no espaço de preferência...desenvolvendo novos produtos e desenhando transações capazes de subvencionar as necessidades dos clientes...Lehman Brothers é o mais inovador no espaço de preferência precisamente por fazer coisas que não se podem ver em nenhum outro lugar”. Sem comentários.Foi falta de regulação?Sim. Todo mundo reconhece agora que a capacidade de Wall Street para inovar e imaginar instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados tem ido muito além da capacidade regulatória do Estado, e não porque o Estado não seja capaz de regular, mas porque a atitude neoliberal, de laissez-faire imperante impediu ao Estado desenhar mecanismos efetivos de regulação. Então não há nada mais? Não há nada sistêmico?Bem, Georges Soros, que viu a crise se aproximar, disse que o que estamos passando é a crise do sistema financeiro, a crise do “gigantesco sistema circulatório” de um sistema “capitalista global...que está passando dos limites”.Para seguir com a tese do arquiespeculador, estamos assistindo é a uma intensificação de uma crise ou de uma contradição central do capitalismo global: a crise de superprodução, também conhecida como super-acumulação e supercapacidade.Trata-se da tendência do capitalismo de produzir uma enorme capacidade produtiva que termina por rebaixar a capacidade de consumo da população, devido às desigualdades que limitam o poder de compra popular, o qual termina por erodir as taxas de lucro. Mas o que a crise de superprodução tem a ver com os acontecimentos recentes?Muitíssimo. Só que, para entender a conexão, teremos de retroceder à chamada Época Dourada do capitalismo contemporâneo, ao período compreendido entre 1945 e 1975.Foi um período de rápido crescimento, tanto nas economias do centro como nas subdesenvolvidas; um crescimento propiciado, em parte, pela massiva reconstrução da Europa e do Leste Asiático depois da devastação da II Guerra Mundial e, em parte, pela nova configuração sócio-econômica institucionalizada sob o novo estado keynesiano. Um aspecto chave desta última foram os severos controles estatais da atividade de mercado, o uso agressivo de políticas fiscais e monetárias para minimizar a inflação e a recessão, assim como um regime de salários relativamente altos para estimular e manter a demanda. O que aconteceu, então?Bem, este período de elevado crescimento terminou em meados dos 70, quando as economias do centro se viram imersas na estagflação, quer dizer, na coexistência de um baixo crescimento com uma inflação alta, o que a teoria econômica neoclássica supunha impossível. Contudo, a estagflação era um sintoma de uma causa mais profunda, a saber, a reconstrução da Alemanha e do Japão, assim com o rápido crescimento de economias em vias de industrialização, como Brasil, Taiwan e Coréia do Sul, somando-se a isso uma enorme capacidade produtiva que incrementou a competição global, enquanto a desigualdade social, dentro de cada país e entre países limitou globalmente o crescimento do poder aquisitivo e da demanda, resultando assim erodida a taxa de lucro. A drástica elevação do preço do petróleo nos anos setenta não fez senão agravar a coisa.Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução?O capital tentou três vias de saída do atoleiro da superprodução: a restruturação neoliberal, a globalização e a financeirização. Em que consistiu a reestruturação neoliberal?A reestruturação neoliberal tomou a forma do reaganismo e do thatcherismo no Norte e do ajuste estrutural no Sul. O objetivo era a revigorização da acumulação de capital, o que foi feito: 1) removendo as restrições estatais ao crescimento, ao uso e aos fluxos de capital e de riqueza; 2) redistribuindo a renda das classes pobres e médias dentre os ricos, de acordo com a teoria de que assim os ricos seriam motivados a investir e a alimentar o crescimento econômico. O problema dessa fórmula era que, ao redistribuir a renda em favor dos ricos, estrangulava-se a renda dos pobres e das classes médias, o que provocava a restrição da demanda, sem necessariamente induzir os ricos a investir mais em produção. De fato, a reestruturação neoliberal, que se generalizou no Norte e no Sul ao longo dos anos oitenta e noventa, teve resultados pobres em termos de crescimento: o crescimento global prometido foi de 1,1% nos 90 e de 1,4 nos 80, enquanto a média nos 60 e nos 70, quando as políticas intervencionistas eram dominantes, foi, respectivamente, de 3,5% e de 2,54%. A reestruturação neoliberal não pôde terminar com a “estagflação”.Em que medida a globalização foi uma resposta à crise?A segunda via de escape global tentada pelo capital para enfrentar a estagflação foi a “acumulação extensiva” ou globalização, quer dizer, a rápida integração das zonas semi-capitalistas, não-capitalistas e pré-capitalistas à economia global de mercado. Rosa Luxemburgo, a celebrada economista e revolucionária alemã, percebeu este mecanismo há muito tempo, vendo-o nas economias metropolitanas. Como? Com o acesso de novas fontes de produtos agrícolas e de matéria-prima baratos; e criando novas áreas para investimento em infra-estrutura. A integração se produz através da liberalização do comércio, removendo obstáculos à mobilidade do capital e abolindo as fronteiras para o investimento no exterior. Nem é o preciso lembra que a China é o caso mais destacado de uma área não-capitalista integrada na economia capitalista global nos últimos 25 anos. Para compensar seus lucros declinantes, um considerável número de corporações empresariais situadas entre as primeiras 500 do ranking da revista Fortune deslocaram uma parte significativa de suas operações para a China, a fim de aproveitar as vantagens do chamado “preço chinês” (as vantagens de custos derivadas de um trabalho barato e aparentemente inesgotável). Em meados da primeira década do século XXI, entre 40 e 50% dos lucros das corporações estadunidenses procediam de suas operações e vendas no exterior, marcadamente na China. Por que a globalização não pôde superar a crise?O problema com esta via de saída do estancamento é que se exacerba o problema da superprodução, porque aumenta a capacidade produtiva. A China dos últimos 25 anos acrescentou um tremendo volume de capacidade manufatureira, o que teve por efeito deprimir os preços e os lucros. Não por acaso, os lucros das corporações estadunidenses deixaram de crescer até 1997. De acordo com um índice estatístico, as taxas de lucros das 500 maiores da Fortune passou de 7,15 em 1960-69 a 5,3 em 1980-1990, a 2,29 em 1990-99 e a 1,32 em 2000-02. Dados os limitados ganhos obtidos para conter o impacto depressivo da superprodução, seja através da reestruturação neoliberal, seja com a globalização, a terceira via de saída tornou-se vital para manter e para elevar a rentabilidade. A terceira via é a financeirização. No mundo ideal da teoria econômica neoclássica, o sistema financeiro é o mecanismo a mercê do qual os poupadores, ou quem se encontra na posse de fundos excedentes, juntam-se com os empresários que têm necessidade de seus fundos, para investir em produção. No mundo real, do capitalismo tardio, com o investimento na indústria e na agricultura gerando lucros magros, por causa da superprodução, grandes quantidades de fundos excedentes circulam e são investidas e re-investidas no setor financeiro. Quer dizer, o sistema financeiro gira sobre si mesmo. O resultado é que se aumenta o hiato aberto entre uma economia financiera hiperativa e uma economia real estancada. Como bem observa um executivo financeiro: “tem havido uma crescente desconexão entre a economia real e a economia financeira nos últimos anos. A economia real cresceu, mas nada comparável à financeira...até que explodiu”. O que este observador nos diz é que a desconexão entre a economia real e a financeira não é acidental: que a economia financeira se distanciou precisamente para fazer frente ao estancamento gerador da superprodução da economial real. Quais foram os problemas da financeirização como via de saída?O problema de investir em operações do setor financeiro é que equivale a exprimir valor de valor já criado. Pode criar lucro, de acordo, mas não cria valor – só a indústria, a agricultura, o comércio e os serviços criam valor novo. Visto que os lucros não se baseiam na criação de valor novo ou agregado, as operações de investimento resultam extremamente voláteis e os preços das ações, as obrigações e de outras formas de investimento podem chegar a divergir radicalmente de seu valor real: por exemplo, as ações de empresas incipientes de Internet, que se mantiveram por um tempo em alta, sustentadas principalmente por valorações financeiras em espiral, para logo arruinarem-se.Os lucros dependem, então, do aproveitamento das vantagens por movimento de preços que divergem da alta do valor das mercadorias, para vender oportunamente antes de que a realidade force a “correção” para baixa, a fim de ajustar-se aos valores reais. A alta radical dos preços de um ativo, muito além dos valores reais, é o que se cama de formação de uma bolha. Por que a financeirização é tão volátil?Com a rentabilidade dependendo de golpes especulativos, não resulta surpreendente que o setor financeiro vá de bolha em bolha, ou de uma mania especulativa a outra. Visto que está sustentando por uma mania especulativa, o capitalismo induzido financeiramente não deixou de bater recordes em matéria de crises financeiras desde que os mercados de capitais foram desregulados e liberalizados nos 80.Antes da atual débâcle de Wall Street, as mais explosivas foram a crise financeira mexicana de 1994-95, a crise financeira asiática de 1997-98, a crise financeira russa de 1996, o colapso do mercado de valores de Wall Street de 2001 e o colapso financeiro argentino de 2002. O antigo secretário do Tesouro, de Bill Clinton, um homem de Wall Street, Robert Rubin, previu há cinco anos que "as crises financeiras futuras serão com quase toda certeza inevitáveis e poderiam chegar a ser até piores".Como se formam, crescem e estouram as bolhas?Tomemos como exemplo a crise financeira asiática de 1997-98:Primeiro: balança de pagamentos e liberalização financeira impostas pelo FMI e pelo Departamento norte-americano do Tesouro.Depois, entrada de fundos estrangeiros em busca de rápida e elevada rentabilidade, o que significa que entraram no mercado imobiliário e no mercado de valores. Superinvestimento, o que levou à derrubada dos preços no mercado de valores e no mercado imobiliário e que, por sua vez, conduziu ao pânico e à conseguinte retirada de fundos em 1997; em poucas semanas, milhões de dólares abandonaram as economias do leste asiático. Resgate dos especuladores estrangeiros por parte do FMI.Colapso da economia real: a recessão se estende por todo o leste asiático em 1998.Apesar da desestabilização em grande escala, todos as ações voltadas para impor regulações nacionais ou globais do sistema financeiro foram rechaçadas com razões puramente ideológicas. Voltemos à presente bolha. Como se formou?O atual colapso de Wall Street está enraizado na bolha tecnológica de fins dos 90, quando o preço das ações das empresas incipientes no mundo da Internet disparou, para logo desmoronar, resultando na perda de ativos no valor de 7 bilhões de dólares e na recessão de 2001-02.As frouxas políticas monetárias do Banco Central norte-americano, na gestão de Alan Greenspan, estimularam a bolha tecnológica e, quando esta colapsou, dando origem à recessão, Greesnpan, tratando de prevenir uma recessão duradoura, rebaixou em junho de 2003 as taxas de juros a um nível sem precedentes em 45 anos (a 1%), mantendo-no nesse nível durante mais de um ano. Com isso, o que conseguiu foi estimular a formação de outra bolha: a bolha imobiliária.Pouco tempo antes, como em 2002, economistas como Dean Baker, do Center for Economic Policy Research, alertaram sobre a formação de uma bolha imobiliária. Porém, numa data tardia como 2005 o então presidente do Conselho Econômico de assessores da Presidência da nação e atual presidente do Banco Central norteamericano, Bern Bernanke, atribuía o aumento dos preços dos imóveis a “uns fundamentos econômicos robustos”, e não à atividade especulativa. A quem pode surpreender que o estouro da crise subprime no verão de 2007 pegasse este homenzinho de moral tão baixa?E como cresceu?Escutemo-lo da boca de um dos próprios juizes chave nos mercados, George Soros: “As instituições hipotecárias animaram os hipotecados a refinanciar sus hipotecas, aproveitando a revalorização experimentada, na ocasião, de suas casas. Reabaixaram seus critérios de empréstimo e introduziram novos produtos, como hipotecas a juros variáveis, hipotecas que 'só geravam juros' e 'ofertas promocionais' com tipos de juros de morrer de rir. Tudo isso animou a especular com a casa. Os preços das casas começaram a subir a um ritmo de dois dígitos. Isso serviu para retroalimentar a especulação, e a alta dos preços imobiliários conseguiu que os proprietários de casas que se sentissem ricos; o resultado foi o boom consumista que sustentou a economia nos últimos anos”.Vendo as coisas mais de perto, vê-se que a crise hipotecária não resultou de uma oferta superior à demanda real. A “demanda” estava, quando muito, fabricada pela mania especulativa de promotores e financistas empenhados em conseguir grandes lucros a partir de seu acesso ao dinheiro estrangeiro que inundou os EUA na última década. Enormes volumes hipotecários foram agressivamente oferecidos e vendidos a milhões de pessoa que, normalmente, não teriam podido permitir-se tal coisa oferecendo-lhes taxas de juros ridiculamente baixas, posteriormente ajustáveis, para tirar mais dinheiro dos proprietários de casas. Mas como puderam as hipotecas subprime degenerarem-se num problema de tais dimensões?Porque os ativos passaram, então, a ser “assegurados”: aqueles que tinham gerado as hipotecas trataram de amalgamá-las com outros ativos, em complexos produtos derivados chamados “obrigações de dívida colaterizada” (CDO, nas suas iniciais em inglês), o que resultou relativamente fácil, dado que trabalhavam com diversos tipos de intermediários que, sabedores do risco, desfaziam-se desses títulos de valores o mais rapidamente possível, passando-os a outros bancos e a outros investidores institucionais. Essas instituições, por sua vez, se desfaziam do produto, passando-o a outros bancos e a instituições financeiras estrangeiras. Quando aumentaram os juros dos emprésticos subprime, das hipotecas variáveis e dos outros empréstimos imobiliários, o jogo chegou ao seu fim. Há cerca de 6 milhões de hipotecas subprime, das quais 40% entrarão em insolvência nos próximos dois anos, segundo estimativas de Soros. A esses 6 milhões há que se acrescentar outros 5 milhões de insolventes nos próximos 7 anos, derivados dos tipos hipotecários variáveis e de outros “empréstimos flexíveis”. Mas os títulos, cujos valores se conta em bilhões de dólares, já se infiltraram como um vírus no sistema financeiro global. O gigantesco sistema circulatório do capitalismo foi fatalmente infectado. E como puderam os titãs de Wall Street desmoronarem como um castelo de cartas?O que ocorreu com Lehman Brothers, Merril Lynch, Fannie Mae, Freddie Mc e Bear Stearns foi, simplesmente, que as perdas representadas por esses títulos tóxicos rebaixaram em muito suas reservas, o que conduziu a sua queda. E cairão mais, provavelmente, quando em seus livros de contabilidade, os títulos qiue agora figuram como haveres, corrigirem-se para refletir o atual valor desses ativos. E muitos outros lhes seguirão, à medida que vão sendo expostas outras operações especulativas, como as centradas nos cartões de crédito e nas diferentes variedades de seguro contra riscos. AIG caiu por causa de sua gigantesca exposição na área não-regulada dos contratos de proteção creditícia derivada (credit default swaps), um dos derivados financeiros que permitiam aos investidores apostar dinheiro na possibilidade de que as empresas não pudessem pagar os empréstimos. Essas apostas sobre insolvências creditícias representam agora um mercado de 45 bilhões de dólares, um mercado, como se disse, que carece de qualquer regulação. A ciclópica dimensão dos ativos, que poderiam ser deteriorados no caso de a AIG colapsar foi o que motivou Washington a mudar de idéia e intervir para resgatá-lo, logo após ter deixado o Lehman Brothers cair. O que vai acontecer agora?Pode dizer-se sem vilania que haverá mais bancarrotas e mais nacionalizações e intervenções públicas recuperando as instituições e que os bancos estrangeiros terão um papel auxiliar ao do governo dos EUA. E que o colapso de Wall Street vai mais longe e prolongará a recessão norte-americana. E que a recessão nos EUA se comunicará a Ásia e ao resto do mundo, que também sofrerá uma recessão, senão algo pior. A razão disto é que o principal mercado exterior da China são os EUA e que a China, por sua vez, importa matérias primas e bens intermediários – que servem para suas exportações aos EUA – do Japão, da Coréia e do Sudeste asiático. A globalização tem tornado impossível o “desacoplamento”. Os EUA, a China e o Leste Asiático andam agora como três prisioneiros atados por uma mesma corrente. Em resumo?O desabamento de Wall Street não se deve apenas à cobiça e à falta de regulação estatal do setor hiperativo. O colapso de Wall Street tem suas raízes na crise de superprodução que foi a praga do capitalismo global desde meados dos 70.A financeirização do investimento tem sido uma das vias de escape para sair do estancamento, sendo as outras a da reestruturação neoliberal e da globalização. Tendo resultado de pouco alívio a reestruturação neoliberal e a globalização, a financeirização pareceu atrativa como mecanismo de restauração da rentabilidade. Mas o que agora ficou demonstrado é que a financeirização é uma trilha perigosa que leva à formação de bolhas especulativas, capazes de oferecer uma efêmera prosperidade a uns quantos, mas que terminam no colapso empresarial e na recessão da economia real. As questões-chave são estas: Quão profunda e duradoura será esta recessão? A economia dos EUA necessitará criar outra bolha especulativa para sair dessa recessão? E se isso for o caso, onde se formará a próxima bolha? Alguns dizem que a próxima surgirá no complexo militar-industrial ou no “capitalismo de desastre” sobre o qual escreve Naomi Klein. Mas isso não é farinha do mesmo saco.
Walden Bello, professor de ciências políticas e sociais na Universidade das Filipinas (Manila), é membro do Transnational Institute de Amsterdam e presidente de Freedom from Debt Coalition, e é analista sênior no Focus on the Global South. Artigo publicado em 05 de outubro no SinPermiso.
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quinta-feira, 2 de outubro de 2008
A ESTRATÉGIA DO MEDO
Algumas coisas que a mídia não diz sobre a crise nos EUA
Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore (foto) conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população.
Quem acompanha a cobertura da crise nos Estados Unidos feita pela imprensa brasileira pode ser levado a acreditar que a política está "atrapalhando" a busca de uma solução para o problema. Essa afirmação vem sendo feita todos os dias por vários jornalistas e colunistas econômicos em todo país, supostamente especializados no assunto. A aprovação da proposta de ajuda aos bancos quebrados é apontada como uma condição necessária para evitar o caos. Há vários silêncios nesta cobertura, aqui e também nos EUA.Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população, omitindo, entre outras coisas, que a proposta apresentada ao Congresso não trazia qualquer esperança para os pobres mortais ameaçados de perder suas casas hipotecadas (Marco Aurélio Weissheimer)Tradução do artigo de Michael Moore publicado no jornal Página 12
Querem nos meter medoTodos diziam que a lei seria aprovada. Os especialistas do universo já estavam fazendo reservas para celebrar nos melhores restaurantes de Manhattan. Os compradores particulares em Dallas e Atlanta foram despachados para fazer as primeiras compras de Natal. Os homens loucos de Chicago e Miami já estavam abrindo as garrafas e brindando entre eles muito antes do café da manhã.Mas o que não sabiam era que centenas de milhares de estadunidenses tinham acordado pela manhã e decidido que era tempo de se rebelar. Milhares de chamadas telefônicas e correios eletrônicos golpearam o Congresso tão forte como se Marshall Dillon (Comissário Dillon, personagem de uma série de televisão) e Elliot Ness tivessem descido em Washington D.C. para deter os saques e prender os ladrões.A Corporação do Crime do Século foi detida por 228 votos contra 205. Foi um acontecimento raro e histórico. Ninguém conseguia lembrar de um momento onde uma lei apoiada pelo presidente e pelas lideranças de ambos os partidos fosse derrotada. Isso nunca acontece. Muita gente está se perguntando por que a ala direita do Partido Republicano se uniu à ala esquerda do Partido Democrata para votar contra o roubo. Quarenta por cento dos democratas e dois terços dos republicanos votaram contra a lei.Eis o que aconteceu:A corrida presidencial pode estar ainda muito parelha nas pesquisas, mas as corridas no Congresso estão assinalando uma vitória esmagadora dos democratas. Poucos questionam a previsão de que os republicanos receberão uma surra no dia 4 de novembro. As previsões indicam que os republicanos perderão cerca de 30 cadeiras na Câmara de Representantes, o que representaria um incrível repúdio a sua agenda. Os representantes do governo têm tanto medo de perder seus assentos que, quando apareceu esta “crise financeira” há duas semanas, deram-se conta que estavam diante de sua única oportunidade de separar-se de Bush antes da eleição, fazendo algo que fizesse parecer que estavam do lado da “gente”.Estava vendo ontem C-Span, uma das melhores comédias que assisti em anos. Ali estavam, um republicano depois do outro que apoiaram a guerra e afundaram o país em uma dívida recorde, que tinham votado para matar qualquer regulação que mantivesse Wall Street sob controle – ali estavam, lamentando-se e defendendo o pobre homem comum.Um depois do outro, usaram o microfone da Câmara baixa e jogaram Bush sob o ônibus, para baixo do trem (ainda que tenham cotado para retirar os subsídios aos trens também), diabos, teriam jogado o presidente nas águas crescentes de Lower Ninth Ward (bairro de Nova Orleans) sepudessem prever outro furacão.Os valentes 95 democratas que romperam com Barney Frank e Chris Dodd eram os verdadeiros heróis, do mesmo modo como aqueles poucos que votaram contra a guerra em outubro de 2002. Reparem nos comentários dos republicanos Marcy Kaptur, Sheila Jackson Lee e Dennis Kucinich. Disseram a verdade. Os democratas que votaram a favor do pacote o fizeram em grande parte porque estavam temerosos das ameaças de Wall Street, que se os ricos não recebessem sua dádiva, os mercados enlouqueceriam e então adeus às pensões que dependem das ações e adeus aos fundos de aposentadoria. E adivinhem? Isso é exatamente o que fez Wall Street! A maior queda em um único dia no índice Dow da Bolsa de Valores de Nova York.À noite, os apresentadores de televisão gritavam: os estadunidenses acabaram de perder 1,2 bilhão de dólares na Bolsa! É o Pearl Harbour financeiro! Caiu o céu! Gripe aviária! Obviamente, quem conhece a bolsa sabe que ninguém “perdeu” nada ontem, que os valores sobem e baixam e que isso também acontecerá porque os ricos compraram agora que estão baixo, os segurarão, depois os venderão e logo em seguida os comprarão novamente quando estiverem baixos de novo. Mas, por enquanto, Wall Street e seu braço de propaganda (as redes de TV e os meios de comunicação que possuem) continuarão tratando de nos meter medo. Algumas pessoas perderão seus empregos. Uma débil nação de fantoches não suportará muito tempo esta tortura. Ou poderemos suportar?Eis no que acredito: a liderança democrata na Câmara baixa esperava secretamente todo o tempo que esta péssima lei fracassasse. Com as propostas de Bush derrotadas, os democratas sabiam que poderiam então escrever sua própria lei que não favoreça apenas os 10% mais ricos que estavam esperando outro lingote de ouro. De modo que a bola está nas mãos da oposição. O revólver de Wall Street, porém, aponta para suas cabeças. Antes que dêem o próximo passo, deixem-me dizer no que os meios de comunicação silenciaram enquanto se debatida essa lei:
1. A lei de resgate NÃO prevê recursos para o chamado grupo de supervisão que deve monitorar como Wall Street vai gastar os 700 bilhões de dólares;
2. A lei NÃO considerava multas, sanções ou prisão para nenhum executivo que roubar dinheiro público;
3. A lei NÃO fez nada obrigar aos bancos e aos fundos de empréstimo a renovar as hipotecas do povo para evitar execuções. Esta lei não deteria uma sequer execução!
4. Em toda a legislação NÃO havia nada executável, usando palavras como “sugerido” quando se referiam à devolução do dinheiro do resgate a ser feito pelo governo.
5. Mais de 200 economistas escreveram ao Congresso e disseram que esta lei poderia piorar a crise financeira e provocar ainda MAIS uma queda.
É hora de nosso lado estabelecer claramente as leis que queremos aprovar.
Tradução para o espanhol: Celita Doyhambéhére
Tradução para o português: Marco Aurélio Weissheimer
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Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore (foto) conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população.
Quem acompanha a cobertura da crise nos Estados Unidos feita pela imprensa brasileira pode ser levado a acreditar que a política está "atrapalhando" a busca de uma solução para o problema. Essa afirmação vem sendo feita todos os dias por vários jornalistas e colunistas econômicos em todo país, supostamente especializados no assunto. A aprovação da proposta de ajuda aos bancos quebrados é apontada como uma condição necessária para evitar o caos. Há vários silêncios nesta cobertura, aqui e também nos EUA.Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população, omitindo, entre outras coisas, que a proposta apresentada ao Congresso não trazia qualquer esperança para os pobres mortais ameaçados de perder suas casas hipotecadas (Marco Aurélio Weissheimer)Tradução do artigo de Michael Moore publicado no jornal Página 12
Querem nos meter medoTodos diziam que a lei seria aprovada. Os especialistas do universo já estavam fazendo reservas para celebrar nos melhores restaurantes de Manhattan. Os compradores particulares em Dallas e Atlanta foram despachados para fazer as primeiras compras de Natal. Os homens loucos de Chicago e Miami já estavam abrindo as garrafas e brindando entre eles muito antes do café da manhã.Mas o que não sabiam era que centenas de milhares de estadunidenses tinham acordado pela manhã e decidido que era tempo de se rebelar. Milhares de chamadas telefônicas e correios eletrônicos golpearam o Congresso tão forte como se Marshall Dillon (Comissário Dillon, personagem de uma série de televisão) e Elliot Ness tivessem descido em Washington D.C. para deter os saques e prender os ladrões.A Corporação do Crime do Século foi detida por 228 votos contra 205. Foi um acontecimento raro e histórico. Ninguém conseguia lembrar de um momento onde uma lei apoiada pelo presidente e pelas lideranças de ambos os partidos fosse derrotada. Isso nunca acontece. Muita gente está se perguntando por que a ala direita do Partido Republicano se uniu à ala esquerda do Partido Democrata para votar contra o roubo. Quarenta por cento dos democratas e dois terços dos republicanos votaram contra a lei.Eis o que aconteceu:A corrida presidencial pode estar ainda muito parelha nas pesquisas, mas as corridas no Congresso estão assinalando uma vitória esmagadora dos democratas. Poucos questionam a previsão de que os republicanos receberão uma surra no dia 4 de novembro. As previsões indicam que os republicanos perderão cerca de 30 cadeiras na Câmara de Representantes, o que representaria um incrível repúdio a sua agenda. Os representantes do governo têm tanto medo de perder seus assentos que, quando apareceu esta “crise financeira” há duas semanas, deram-se conta que estavam diante de sua única oportunidade de separar-se de Bush antes da eleição, fazendo algo que fizesse parecer que estavam do lado da “gente”.Estava vendo ontem C-Span, uma das melhores comédias que assisti em anos. Ali estavam, um republicano depois do outro que apoiaram a guerra e afundaram o país em uma dívida recorde, que tinham votado para matar qualquer regulação que mantivesse Wall Street sob controle – ali estavam, lamentando-se e defendendo o pobre homem comum.Um depois do outro, usaram o microfone da Câmara baixa e jogaram Bush sob o ônibus, para baixo do trem (ainda que tenham cotado para retirar os subsídios aos trens também), diabos, teriam jogado o presidente nas águas crescentes de Lower Ninth Ward (bairro de Nova Orleans) sepudessem prever outro furacão.Os valentes 95 democratas que romperam com Barney Frank e Chris Dodd eram os verdadeiros heróis, do mesmo modo como aqueles poucos que votaram contra a guerra em outubro de 2002. Reparem nos comentários dos republicanos Marcy Kaptur, Sheila Jackson Lee e Dennis Kucinich. Disseram a verdade. Os democratas que votaram a favor do pacote o fizeram em grande parte porque estavam temerosos das ameaças de Wall Street, que se os ricos não recebessem sua dádiva, os mercados enlouqueceriam e então adeus às pensões que dependem das ações e adeus aos fundos de aposentadoria. E adivinhem? Isso é exatamente o que fez Wall Street! A maior queda em um único dia no índice Dow da Bolsa de Valores de Nova York.À noite, os apresentadores de televisão gritavam: os estadunidenses acabaram de perder 1,2 bilhão de dólares na Bolsa! É o Pearl Harbour financeiro! Caiu o céu! Gripe aviária! Obviamente, quem conhece a bolsa sabe que ninguém “perdeu” nada ontem, que os valores sobem e baixam e que isso também acontecerá porque os ricos compraram agora que estão baixo, os segurarão, depois os venderão e logo em seguida os comprarão novamente quando estiverem baixos de novo. Mas, por enquanto, Wall Street e seu braço de propaganda (as redes de TV e os meios de comunicação que possuem) continuarão tratando de nos meter medo. Algumas pessoas perderão seus empregos. Uma débil nação de fantoches não suportará muito tempo esta tortura. Ou poderemos suportar?Eis no que acredito: a liderança democrata na Câmara baixa esperava secretamente todo o tempo que esta péssima lei fracassasse. Com as propostas de Bush derrotadas, os democratas sabiam que poderiam então escrever sua própria lei que não favoreça apenas os 10% mais ricos que estavam esperando outro lingote de ouro. De modo que a bola está nas mãos da oposição. O revólver de Wall Street, porém, aponta para suas cabeças. Antes que dêem o próximo passo, deixem-me dizer no que os meios de comunicação silenciaram enquanto se debatida essa lei:
1. A lei de resgate NÃO prevê recursos para o chamado grupo de supervisão que deve monitorar como Wall Street vai gastar os 700 bilhões de dólares;
2. A lei NÃO considerava multas, sanções ou prisão para nenhum executivo que roubar dinheiro público;
3. A lei NÃO fez nada obrigar aos bancos e aos fundos de empréstimo a renovar as hipotecas do povo para evitar execuções. Esta lei não deteria uma sequer execução!
4. Em toda a legislação NÃO havia nada executável, usando palavras como “sugerido” quando se referiam à devolução do dinheiro do resgate a ser feito pelo governo.
5. Mais de 200 economistas escreveram ao Congresso e disseram que esta lei poderia piorar a crise financeira e provocar ainda MAIS uma queda.
É hora de nosso lado estabelecer claramente as leis que queremos aprovar.
Tradução para o espanhol: Celita Doyhambéhére
Tradução para o português: Marco Aurélio Weissheimer
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Análise: Nafta e abertura política fortaleceram tráfico no México
Há cerca de dois anos, a cidade de Uruapan, no Estado mexicano de Michoacán, ganhou as manchetes dos jornais do país. A razão não foram chuvas torrenciais ou o impacto de um terremoto, mas um incidente macabro acontecido em um bar chamado Sol y Sombra.
De maneira um tanto inesperada, as cabeças de cinco homens decapitados foram lançadas na pista de dança do local.
Até esta noite, o bar, que fica na estrada Uruapan-Pátzcuaro, no subúrbio de Bela Vista, era conhecido por oferecer serviços de dança e costumava ficar cheio. Mas o cenário mudou.
Michoacán, assim como seu vizinho, Guerrero, passaram a ser então conhecidos como Estados marcados pela violência associada ao narcotráfico.
Por décadas, os dois Estados estiveram na geografia do comércio de drogas ilícitas do México. Mas o pior período nos dois lugares começou com o desvio das rotas de cocaína internacionais para o território mexicano, principalmente para a costa do Oceano Pacífico.
Tanto Michoacán quanto Guerrero possuem uma extensa costa ao longo do Pacífico. No limite ente os dois territórios está o porto mexicano de Lázaro Cárdenas, o mais dinâmico da costa do Pacífico mexicano.
Este é um ponto de entrada e saída de mercadorias com um movimento cada vez mais intenso e que em apenas uma década saltou de um montante de 4,5 mil contêineres por ano para 197 mil.
Mas é só transitar pelas estradas de ambos Estados para que o viajante encontre alguns dos símbolos do boom de uma economia ilícita cada vez mais violenta.
Ao longo das estradas, próximo às entradas das cidades, há discotecas, lojas de carros usados que aparecem e desaparecem como mágica, motéis que anunciam quartos que podem ser alugados por três horas por US$ 10 ou US$ 15 e, obviamente, serviços funerários que funcionam 24h por dia.
No México, assim como em outros países, o tráfico de drogas é uma das muitas atividades que formam a economia ilegal. Muitos dos produtos e serviços oferecidos são ilegais, tanto pela natureza do negócio quanto pelos métodos que são usados neste comércio. Há também uma boa dose de consentimento oficial a estas atividades.
Mas o tráfico de drogas é muito mais que apenas mais um setor da economia ilícita. Na verdade, o tráfico é um sócio em muitas destas atividades e um agente multiplicador de áreas para a impunidade.
A era da cocaína
A história do tráfico de drogas no México passa por duas grandes etapas.
O primeiro começou com a legislação que proibiu o consumo, a venda e produção de narcóticos nos EUA e sua posterior adoção pelo México, no início do século passado.
A legislação nos EUA ofereceu uma janela de oportunidade para aqueles que estavam dispostos a lucrar com as vendas de álcool e narcóticos do outro lado da fronteira.
O marco legal promoveu uma repentina escalada no número de turistas que cruzavam a fronteira com o México em busca destas substâncias. Em 1919, 14 mil turistas cruzaram a fronteira, no ano seguinte o número subiu para 420 mil. O crescimento criou as bases da economia ilegal no país.
Da década de 1920 até final dos anos 1950, surge assim uma pequena - e relativamente pacífica - economia ilícita, organizada em volta do cultivo e tráfico de maconha e heroína.
Mas, no final dos anos 1970 e início dos 1980, nasce uma nova economia ilícita organizada em volta do tráfico de cocaína.
O desvio para o México de 60% do pó branco destinado aos EUA marcou o início de um outro estágio, assim como o surgimento de uma vigorosa e cada vez mais violenta economia de transporte de cocaína e de outros serviços associados a ela.
Há, talvez, duas explicações mais comuns à repentina explosão do tráfico de drogas no México.
A primeira é a operação militar conhecida como “Hat Tricks”, com a qual Washington tentou retirar a Flórida do comércio de cocaína. O resultado foi a mudança deste comércio do Estado americano para o México.
O segundo ponto é a abertura de oportunidades para o transporte de mercadorias ilícitas como resultado do Nafta, tratado de livre-comércio entre o México, EUA e Canadá, que começou a vigorar em 1994.
Terra de oportunidades?
No México, como em muitos outros países em desenvolvimento, a presença de mão de obra barata, a disponibilidade de terras a preços baixos e a aplicação intermitente da lei ofereceu, durante décadas, vantagens à produção e comércio de maconha e ópio.
Entretanto, a participação do México – assim como a da Colômbia e da Nigéria – no circuito internacional de drogas ilícitas também é resultado de três variáveis fundamentais: a geografia, uma longa tradição de contrabando e a relativa fraqueza da autoridade central.
No final da década de 1980 as áreas tradicionais de cultivo de drogas ainda estavam em uso - mas a partir daí, começou a mudar a antiga geografia do mercado e os cartéis começaram a dividir o país e a repartir seu território.
Sob estas novas condições, a já reduzida capacidade do Estado de fazer com que a lei fosse cumprida ficou ainda mais cerceada.
Outro fator foi a escassez de oportunidades econômicas. A pressão da crise econômica dos anos 1980 e a fraqueza da economia criaram um grande setor da população sem empregos fixos.
Nos anos 1990, a entrada em vigor do Nafta parecia abrir um novo caminho para a recuperação, mas, depois de mais de uma década, é sabido que o acordo não foi capaz de promover um crescimento econômico significativo ou aumento nos empregos.
Nestas condições, o desemprego criou um grande setor informal e uma reserva de mão de obra para a economia ilícita de serviços ligados ao tráfico de cocaína.
Em outras palavras, a participação da população nas atividades ilegais não só aumentou de maneira gradual, mas também se diversificou.
Se em décadas anteriores o traço mais característico desta participação era a presença de camponeses em áreas de cultivo de drogas em Estados produtores – estimada em 1965 em torno de 200 e 300 mil pessoas -, na década de 1980 a economia ilícita não só incorporou novas atividades, como passou a precisar do talento e da habilidade de profissionais e empresários.
Procura de profissionais
A nova, animada e diversificada economia ilícita dos anos 1990 – com suas ramificações na indústria de roubo de automóveis, prostituição e tráfico de pessoas, seqüestros e outras atividades – também contava com a participação de transportadores, carregadores, secretárias, contadores, administradores, pilotos, advogados e assessores financeiros.
No início do século 20, a estas profissões se juntaram vigilantes, assassinos de aluguel e exércitos particulares que hoje tomam as manchetes dos principais jornais diários do México.
Mudança de cenário
Há menos de quatro décadas, México e Turquia eram anunciados como histórias de sucesso entre países em desenvolvimento.
Apesar de terem tomado caminhos diferentes, no início dos anos 1970, os dois países conseguiram reduzir e controlar suas economias ilegais.
Segundo vários pesquisadores, este sucesso era fruto de três fatores principais.
Nos dois países, a erradicação e o controle da produção de drogas foi alcançada em um contexto em que o Estado mantinha o monopólio da violência e exercia também uma sólida autoridade central aliada à relativa independência e saúde econômica.
Mas o cenário no México é completamente diferente hoje. Qualquer um que ler as manchetes dos jornais dos últimos três anos pode se perguntar se o Estado tem o real monopólio da violência.
A abertura política trouxe consigo o enfraquecimento do poder Executivo, que até então era uma peça-chave da autoridade do Estado.
A fraca economia das últimas três décadas também não contribuiu para oferecer mais oportunidades de emprego, o que explica o fato de tantos mexicanos terem procurado trabalho na economia ilícita.
Limitações, dificuldades e incertezas. O resultado é tráfico de drogas, violência e mortes. Para onde quer que se olhe, o cenário é aterrador.
Mónica Serrano é professora do Centro de Estudos Internacionais do Colégio do México e pesquisadora associada do Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Oxford. Ela escreve sobre política mexicana, crime internacional e relações internacionais da América Latina.
Durante toda esta semana a BBC Brasil estará publicando reportagens especiais sobre o combate ao narcotráfico no México.
www.bbcbrasil.com.br
De maneira um tanto inesperada, as cabeças de cinco homens decapitados foram lançadas na pista de dança do local.
Até esta noite, o bar, que fica na estrada Uruapan-Pátzcuaro, no subúrbio de Bela Vista, era conhecido por oferecer serviços de dança e costumava ficar cheio. Mas o cenário mudou.
Michoacán, assim como seu vizinho, Guerrero, passaram a ser então conhecidos como Estados marcados pela violência associada ao narcotráfico.
Por décadas, os dois Estados estiveram na geografia do comércio de drogas ilícitas do México. Mas o pior período nos dois lugares começou com o desvio das rotas de cocaína internacionais para o território mexicano, principalmente para a costa do Oceano Pacífico.
Tanto Michoacán quanto Guerrero possuem uma extensa costa ao longo do Pacífico. No limite ente os dois territórios está o porto mexicano de Lázaro Cárdenas, o mais dinâmico da costa do Pacífico mexicano.
Este é um ponto de entrada e saída de mercadorias com um movimento cada vez mais intenso e que em apenas uma década saltou de um montante de 4,5 mil contêineres por ano para 197 mil.
Mas é só transitar pelas estradas de ambos Estados para que o viajante encontre alguns dos símbolos do boom de uma economia ilícita cada vez mais violenta.
Ao longo das estradas, próximo às entradas das cidades, há discotecas, lojas de carros usados que aparecem e desaparecem como mágica, motéis que anunciam quartos que podem ser alugados por três horas por US$ 10 ou US$ 15 e, obviamente, serviços funerários que funcionam 24h por dia.
No México, assim como em outros países, o tráfico de drogas é uma das muitas atividades que formam a economia ilegal. Muitos dos produtos e serviços oferecidos são ilegais, tanto pela natureza do negócio quanto pelos métodos que são usados neste comércio. Há também uma boa dose de consentimento oficial a estas atividades.
Mas o tráfico de drogas é muito mais que apenas mais um setor da economia ilícita. Na verdade, o tráfico é um sócio em muitas destas atividades e um agente multiplicador de áreas para a impunidade.
A era da cocaína
A história do tráfico de drogas no México passa por duas grandes etapas.
O primeiro começou com a legislação que proibiu o consumo, a venda e produção de narcóticos nos EUA e sua posterior adoção pelo México, no início do século passado.
A legislação nos EUA ofereceu uma janela de oportunidade para aqueles que estavam dispostos a lucrar com as vendas de álcool e narcóticos do outro lado da fronteira.
O marco legal promoveu uma repentina escalada no número de turistas que cruzavam a fronteira com o México em busca destas substâncias. Em 1919, 14 mil turistas cruzaram a fronteira, no ano seguinte o número subiu para 420 mil. O crescimento criou as bases da economia ilegal no país.
Da década de 1920 até final dos anos 1950, surge assim uma pequena - e relativamente pacífica - economia ilícita, organizada em volta do cultivo e tráfico de maconha e heroína.
Mas, no final dos anos 1970 e início dos 1980, nasce uma nova economia ilícita organizada em volta do tráfico de cocaína.
O desvio para o México de 60% do pó branco destinado aos EUA marcou o início de um outro estágio, assim como o surgimento de uma vigorosa e cada vez mais violenta economia de transporte de cocaína e de outros serviços associados a ela.
Há, talvez, duas explicações mais comuns à repentina explosão do tráfico de drogas no México.
A primeira é a operação militar conhecida como “Hat Tricks”, com a qual Washington tentou retirar a Flórida do comércio de cocaína. O resultado foi a mudança deste comércio do Estado americano para o México.
O segundo ponto é a abertura de oportunidades para o transporte de mercadorias ilícitas como resultado do Nafta, tratado de livre-comércio entre o México, EUA e Canadá, que começou a vigorar em 1994.
Terra de oportunidades?
No México, como em muitos outros países em desenvolvimento, a presença de mão de obra barata, a disponibilidade de terras a preços baixos e a aplicação intermitente da lei ofereceu, durante décadas, vantagens à produção e comércio de maconha e ópio.
Entretanto, a participação do México – assim como a da Colômbia e da Nigéria – no circuito internacional de drogas ilícitas também é resultado de três variáveis fundamentais: a geografia, uma longa tradição de contrabando e a relativa fraqueza da autoridade central.
No final da década de 1980 as áreas tradicionais de cultivo de drogas ainda estavam em uso - mas a partir daí, começou a mudar a antiga geografia do mercado e os cartéis começaram a dividir o país e a repartir seu território.
Sob estas novas condições, a já reduzida capacidade do Estado de fazer com que a lei fosse cumprida ficou ainda mais cerceada.
Outro fator foi a escassez de oportunidades econômicas. A pressão da crise econômica dos anos 1980 e a fraqueza da economia criaram um grande setor da população sem empregos fixos.
Nos anos 1990, a entrada em vigor do Nafta parecia abrir um novo caminho para a recuperação, mas, depois de mais de uma década, é sabido que o acordo não foi capaz de promover um crescimento econômico significativo ou aumento nos empregos.
Nestas condições, o desemprego criou um grande setor informal e uma reserva de mão de obra para a economia ilícita de serviços ligados ao tráfico de cocaína.
Em outras palavras, a participação da população nas atividades ilegais não só aumentou de maneira gradual, mas também se diversificou.
Se em décadas anteriores o traço mais característico desta participação era a presença de camponeses em áreas de cultivo de drogas em Estados produtores – estimada em 1965 em torno de 200 e 300 mil pessoas -, na década de 1980 a economia ilícita não só incorporou novas atividades, como passou a precisar do talento e da habilidade de profissionais e empresários.
Procura de profissionais
A nova, animada e diversificada economia ilícita dos anos 1990 – com suas ramificações na indústria de roubo de automóveis, prostituição e tráfico de pessoas, seqüestros e outras atividades – também contava com a participação de transportadores, carregadores, secretárias, contadores, administradores, pilotos, advogados e assessores financeiros.
No início do século 20, a estas profissões se juntaram vigilantes, assassinos de aluguel e exércitos particulares que hoje tomam as manchetes dos principais jornais diários do México.
Mudança de cenário
Há menos de quatro décadas, México e Turquia eram anunciados como histórias de sucesso entre países em desenvolvimento.
Apesar de terem tomado caminhos diferentes, no início dos anos 1970, os dois países conseguiram reduzir e controlar suas economias ilegais.
Segundo vários pesquisadores, este sucesso era fruto de três fatores principais.
Nos dois países, a erradicação e o controle da produção de drogas foi alcançada em um contexto em que o Estado mantinha o monopólio da violência e exercia também uma sólida autoridade central aliada à relativa independência e saúde econômica.
Mas o cenário no México é completamente diferente hoje. Qualquer um que ler as manchetes dos jornais dos últimos três anos pode se perguntar se o Estado tem o real monopólio da violência.
A abertura política trouxe consigo o enfraquecimento do poder Executivo, que até então era uma peça-chave da autoridade do Estado.
A fraca economia das últimas três décadas também não contribuiu para oferecer mais oportunidades de emprego, o que explica o fato de tantos mexicanos terem procurado trabalho na economia ilícita.
Limitações, dificuldades e incertezas. O resultado é tráfico de drogas, violência e mortes. Para onde quer que se olhe, o cenário é aterrador.
Mónica Serrano é professora do Centro de Estudos Internacionais do Colégio do México e pesquisadora associada do Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Oxford. Ela escreve sobre política mexicana, crime internacional e relações internacionais da América Latina.
Durante toda esta semana a BBC Brasil estará publicando reportagens especiais sobre o combate ao narcotráfico no México.
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Brasil fica pior que AL em ranking de chances na escola
Um novo indicador calculado pelo Banco Mundial aponta que as oportunidades educativas oferecidas às crianças brasileiras são piores que a média latino-americana.
O Índice de Oportunidades Humanas (IOH), que vem a público pela primeira vez nesta quinta-feira, é uma tentativa de "medir se as chances estão distribuídas de maneira equitativa" entre os indivíduos de um país logo no início da vida, nas palavras de um pesquisador envolvido na criação da metodologia.
Em uma escala de zero a cem, o IOH brasileiro na área educacional ficou em 67 pontos, abaixo da média latino-americana de 76 - isto apesar de ser considerado um dos países cujos indicadores mais avançaram no período estudado, 1995-2005.
O índice considera duas dimensões: educacional e de moradia. No quesito moradia, o Brasil superou a média regional (77 e 64, respectivamente), o que fez o país se aproximar da América Latina na ponderação final (72 e 70, respectivamente).
Chile, Argentina, Costa Rica, Venezuela e Uruguai foram os países em que o índice apontou uma distribuição mais equitativa de oportunidades.
Por outro lado, Nicarágua, Guatemala e Honduras foram os países onde se verificou maior discriminação no acesso a elas.
Desde o berço
A América Latina foi escolhida como amostragem para a elaboração do primeiro índice por exemplificar as desigualdades na distribuição de oportunidades entre suas crianças. O estudo levou em conta 200 milhões de crianças em 19 países.
Os estudiosos do Banco Mundial levaram em conta cinco fatores para elaborar o IOH: conclusão do sexto ano escolar na idade correta e matrícula escolar de crianças entre 10 e 14 anos (para o indicador de educação); e acesso a água potável, saneamento e eletricidade (para o índice de moradia).
O relatório não deixa de reconhecer que houve avanços na educação brasileira na última década e meia. Mas aponta que um quinhão importante dos cidadãos ainda padece de desigualdades que se originam ainda no berço e têm efeitos duradouros sobre os resultados finais.
No Brasil, o Banco Mundial destacou como o estrato social em maior desvantagem é quase exclusivamente formado por negros. Na Guatemala, a situação se reproduz para os membros de comunidades étnicas que têm como língua materna uma língua indígena.
Em toda a América Latina, a renda do pai e a educação da mãe são as que mais claramente diferenciam as classes avantajadas das em desvantagem.
No Brasil, os estratos com menor acesso às oportunidades são exclusivamente formados por moradores do Norte e do Nordeste do país, em especial de áreas rurais.
Por outro lado, quase metade (44%) dos indivíduos com mais acesso às oportunidades nasceu nas regiões mais ricas, como São Paulo ou o Distrito Federal.
Os estados de Santa Catarina e São Paulo têm um IOH quatro vezes mais alto que o de Alagoas ou o Piauí, revelou o estudo.
Bolsa Família
"Sabemos agora que o campo de jogo está desnivelado quando começamos na vida, e que circunstâncias pessoais sobre as quais não temos nem responsabilidade nem controle no início da vida são muito importantes no nosso destino final", disse o diretor regional do Banco Mundial para as Américas, Marcelo Yugale.
"Isso nos faz questionar se não é o caso de dar a todos as mesmas chances, e não os mesmos prêmios."
O relatório estimou que entre 25% e 50% da desigualdade de renda observada entre adultos latino-americanos se deve a circunstâncias que enfrentaram quando começaram a vida, sobre as quais não tinham controle nem responsabilidade.
Como os dados para o relatório foram obtidos entre 1995 e 2005, os pesquisadores disseram que é "plausível" - mas não obrigatório - que haja uma melhora no desempenho brasileiro no futuro, em função de políticas sociais como o Bolsa Família.
"O Bolsa Família é conhecido por ter aumentado as matrículas entre os grupos mais vulneráveis, que tipicamente têm históricos familiares menos privilegiados", disse à BBC Brasil, por email, o economista Francisco Ferreira, um dos autores do Banco Mundial que elaboraram o estudo.
"Também pode ter tido um impacto em antecipar a entrada dos mais pobres no primeiro ano escolar, o que pode fazer com que mais crianças terminem o sexto ano dentro do prazo."
Mas Ferreira salientou que há "razões limitadas para esperar que a taxa de melhora no futuro demonstre uma acentuada diferença em relação à de 2005".
"O programa nacional do Bolsa Família data de 2003, e houve muitas melhoras importantes no lado da oferta (em termos de construção e financiamento de escolas) que vêm de antes, de meados dos anos 1990."
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O Índice de Oportunidades Humanas (IOH), que vem a público pela primeira vez nesta quinta-feira, é uma tentativa de "medir se as chances estão distribuídas de maneira equitativa" entre os indivíduos de um país logo no início da vida, nas palavras de um pesquisador envolvido na criação da metodologia.
Em uma escala de zero a cem, o IOH brasileiro na área educacional ficou em 67 pontos, abaixo da média latino-americana de 76 - isto apesar de ser considerado um dos países cujos indicadores mais avançaram no período estudado, 1995-2005.
O índice considera duas dimensões: educacional e de moradia. No quesito moradia, o Brasil superou a média regional (77 e 64, respectivamente), o que fez o país se aproximar da América Latina na ponderação final (72 e 70, respectivamente).
Chile, Argentina, Costa Rica, Venezuela e Uruguai foram os países em que o índice apontou uma distribuição mais equitativa de oportunidades.
Por outro lado, Nicarágua, Guatemala e Honduras foram os países onde se verificou maior discriminação no acesso a elas.
Desde o berço
A América Latina foi escolhida como amostragem para a elaboração do primeiro índice por exemplificar as desigualdades na distribuição de oportunidades entre suas crianças. O estudo levou em conta 200 milhões de crianças em 19 países.
Os estudiosos do Banco Mundial levaram em conta cinco fatores para elaborar o IOH: conclusão do sexto ano escolar na idade correta e matrícula escolar de crianças entre 10 e 14 anos (para o indicador de educação); e acesso a água potável, saneamento e eletricidade (para o índice de moradia).
O relatório não deixa de reconhecer que houve avanços na educação brasileira na última década e meia. Mas aponta que um quinhão importante dos cidadãos ainda padece de desigualdades que se originam ainda no berço e têm efeitos duradouros sobre os resultados finais.
No Brasil, o Banco Mundial destacou como o estrato social em maior desvantagem é quase exclusivamente formado por negros. Na Guatemala, a situação se reproduz para os membros de comunidades étnicas que têm como língua materna uma língua indígena.
Em toda a América Latina, a renda do pai e a educação da mãe são as que mais claramente diferenciam as classes avantajadas das em desvantagem.
No Brasil, os estratos com menor acesso às oportunidades são exclusivamente formados por moradores do Norte e do Nordeste do país, em especial de áreas rurais.
Por outro lado, quase metade (44%) dos indivíduos com mais acesso às oportunidades nasceu nas regiões mais ricas, como São Paulo ou o Distrito Federal.
Os estados de Santa Catarina e São Paulo têm um IOH quatro vezes mais alto que o de Alagoas ou o Piauí, revelou o estudo.
Bolsa Família
"Sabemos agora que o campo de jogo está desnivelado quando começamos na vida, e que circunstâncias pessoais sobre as quais não temos nem responsabilidade nem controle no início da vida são muito importantes no nosso destino final", disse o diretor regional do Banco Mundial para as Américas, Marcelo Yugale.
"Isso nos faz questionar se não é o caso de dar a todos as mesmas chances, e não os mesmos prêmios."
O relatório estimou que entre 25% e 50% da desigualdade de renda observada entre adultos latino-americanos se deve a circunstâncias que enfrentaram quando começaram a vida, sobre as quais não tinham controle nem responsabilidade.
Como os dados para o relatório foram obtidos entre 1995 e 2005, os pesquisadores disseram que é "plausível" - mas não obrigatório - que haja uma melhora no desempenho brasileiro no futuro, em função de políticas sociais como o Bolsa Família.
"O Bolsa Família é conhecido por ter aumentado as matrículas entre os grupos mais vulneráveis, que tipicamente têm históricos familiares menos privilegiados", disse à BBC Brasil, por email, o economista Francisco Ferreira, um dos autores do Banco Mundial que elaboraram o estudo.
"Também pode ter tido um impacto em antecipar a entrada dos mais pobres no primeiro ano escolar, o que pode fazer com que mais crianças terminem o sexto ano dentro do prazo."
Mas Ferreira salientou que há "razões limitadas para esperar que a taxa de melhora no futuro demonstre uma acentuada diferença em relação à de 2005".
"O programa nacional do Bolsa Família data de 2003, e houve muitas melhoras importantes no lado da oferta (em termos de construção e financiamento de escolas) que vêm de antes, de meados dos anos 1990."
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Crise faz preço da soja desabar e ameaça exportação do Brasil
A crise do mercado financeiro fez com que o preço internacional da soja e de outras commodities desabasse em setembro, em um ano em que muitos produtos agrícolas vinham registrando altas recordes. Para analistas, isso vai prejudicar as exportações brasileiras ainda este ano.
No começo de 2008, a soja disparou com a crise de demanda por alimentos, que forçaram os preços para cima. No dia 2 de julho, a soja se valorizou em 45,5% em relação ao começo do ano, segundo dados da Newedge. Foi o preço mais alto da commodity no ano.
Mas no mês passado, a crise financeira global fez o preço da soja desabar abaixo do valor do ano passado. Na quarta-feira, a soja terminou cotada a US$ 10,89 por bushel na Bolsa de Chicago (nos contratos futuros para novembro). O valor atual da soja é mais de 6% menor do que no começo do ano.
O café, cujo preço também estava em alta, está agora desvalorizado em 5,6% no acumulado do ano. Das principais commodities brasileiras negociadas no exterior, o açúcar é o mais beneficiado, com valorização de 26% desde o começo de 2008.
'Crédito é caro'
"O preço das commodities tem caído rápido devido à realidade do mercado. A liquidação do mercado está forçando o preço para baixo", disse à BBC Brasil o analista da Newedge, o brasileiro Vinícius Ito.
Muitos investidores que estavam especulando no mercado de commodities agora procuram refúgio em opções mais estáveis de investimento, como ouro.
Segundo o analista, a queda do preço das commodities deve ser sentida imediatamente por toda cadeia produtiva do Brasil, por dois motivos: além de a safra brasileira estar valendo menos no mercado, os produtores terão mais dificuldade para conseguir crédito, que está escasso no mercado, devido à crise.
"Crédito é muito caro no Brasil. O pessoal toma empréstimos de dinheiro fora e empresta no Brasil, só que neste momento o crédito está sumindo", diz Ito.
Para o analista americano Don Roose, da U.S. Commodities, os preços das commodities estão apenas voltando ao valor normal, já que eles estavam muito inflacionados na metade do ano, durante a crise da alta do preço de alimentos.
"Os preços estavam batendo recordes históricos. Agora estamos vendo eles cotados a um terço dos valores recordes", diz Roose.
O Brasil e outros grandes produtores rurais vão sentir os efeitos disso, já que o comércio global deve se retrair ainda este ano, diz o analista americano.
FMI: preços altos
Ainda não está claro para analistas por quanto tempo os preços das commodities continuarão caindo, nem o tamanho da desvalorização.
Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), apesar da recente queda, os preços das commodities vão continuar altos.
Um documento divulgado pelo Fundo nesta quinta-feira afirma que, apesar da recente queda do preço das commodities, "muitas das forças que causaram o boom (do preço das commodities) ainda estão presentes".
"A economia mundial passou (neste ano) pela maior e mais contínua expansão de preços de commodities desde os anos 1970", diz o relatório World Economic Outlook do FMI.
"Os preços devem provavelmente se manter altos em relação aos padrões históricos."
Os analistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que, no caso dos alimentos, os preços vão depender do consumo asiático. O aumento do padrão de vida na Ásia foi um dos fatores que causou a forte alta do preço dos alimentos no começo do ano.
"Se a Ásia crescer menos, pelas forças de oferta e demanda, o preço pode cair", diz Roose.
Já Vinicius Ito lembra que outros fatores – como boa produção de trigo, bom clima na Austrália e boa safra nos Estados Unidos – também podem contribuir para reduzir o preço dos alimentos.
Extraído de www.bbcbrasil.com.br
No começo de 2008, a soja disparou com a crise de demanda por alimentos, que forçaram os preços para cima. No dia 2 de julho, a soja se valorizou em 45,5% em relação ao começo do ano, segundo dados da Newedge. Foi o preço mais alto da commodity no ano.
Mas no mês passado, a crise financeira global fez o preço da soja desabar abaixo do valor do ano passado. Na quarta-feira, a soja terminou cotada a US$ 10,89 por bushel na Bolsa de Chicago (nos contratos futuros para novembro). O valor atual da soja é mais de 6% menor do que no começo do ano.
O café, cujo preço também estava em alta, está agora desvalorizado em 5,6% no acumulado do ano. Das principais commodities brasileiras negociadas no exterior, o açúcar é o mais beneficiado, com valorização de 26% desde o começo de 2008.
'Crédito é caro'
"O preço das commodities tem caído rápido devido à realidade do mercado. A liquidação do mercado está forçando o preço para baixo", disse à BBC Brasil o analista da Newedge, o brasileiro Vinícius Ito.
Muitos investidores que estavam especulando no mercado de commodities agora procuram refúgio em opções mais estáveis de investimento, como ouro.
Segundo o analista, a queda do preço das commodities deve ser sentida imediatamente por toda cadeia produtiva do Brasil, por dois motivos: além de a safra brasileira estar valendo menos no mercado, os produtores terão mais dificuldade para conseguir crédito, que está escasso no mercado, devido à crise.
"Crédito é muito caro no Brasil. O pessoal toma empréstimos de dinheiro fora e empresta no Brasil, só que neste momento o crédito está sumindo", diz Ito.
Para o analista americano Don Roose, da U.S. Commodities, os preços das commodities estão apenas voltando ao valor normal, já que eles estavam muito inflacionados na metade do ano, durante a crise da alta do preço de alimentos.
"Os preços estavam batendo recordes históricos. Agora estamos vendo eles cotados a um terço dos valores recordes", diz Roose.
O Brasil e outros grandes produtores rurais vão sentir os efeitos disso, já que o comércio global deve se retrair ainda este ano, diz o analista americano.
FMI: preços altos
Ainda não está claro para analistas por quanto tempo os preços das commodities continuarão caindo, nem o tamanho da desvalorização.
Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), apesar da recente queda, os preços das commodities vão continuar altos.
Um documento divulgado pelo Fundo nesta quinta-feira afirma que, apesar da recente queda do preço das commodities, "muitas das forças que causaram o boom (do preço das commodities) ainda estão presentes".
"A economia mundial passou (neste ano) pela maior e mais contínua expansão de preços de commodities desde os anos 1970", diz o relatório World Economic Outlook do FMI.
"Os preços devem provavelmente se manter altos em relação aos padrões históricos."
Os analistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que, no caso dos alimentos, os preços vão depender do consumo asiático. O aumento do padrão de vida na Ásia foi um dos fatores que causou a forte alta do preço dos alimentos no começo do ano.
"Se a Ásia crescer menos, pelas forças de oferta e demanda, o preço pode cair", diz Roose.
Já Vinicius Ito lembra que outros fatores – como boa produção de trigo, bom clima na Austrália e boa safra nos Estados Unidos – também podem contribuir para reduzir o preço dos alimentos.
Extraído de www.bbcbrasil.com.br
terça-feira, 30 de setembro de 2008
A crise do capitalismo e a importância atual de Marx
Entrevista com ERIC HOBSBAWM
Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: “A Era da Revolução: Europa 1789-1848” (1962); “A Era do Capital: 1848-1874” (1975); “A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro “A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.
Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro “Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later” (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).
Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.
Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milênio?”. Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”. Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?
Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da “sociedade burguesa”, cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx.Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.
Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?
Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.
Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?
Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista. Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “socialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de “O Capital”. Como mostram os “Grundrisse”, aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso. Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.
Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os “Grundrisse”. Escritos entre 1857 e 1858, os “Grundrisse” são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?
Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no “Capital”, como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).
Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos “Grundrisse”, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os “Grundrisse” “trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na “Ideologia Alemã”. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos “Grundrisse” hoje?
Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.
Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?
Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.
Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano
Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer
Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: “A Era da Revolução: Europa 1789-1848” (1962); “A Era do Capital: 1848-1874” (1975); “A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro “A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.
Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro “Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later” (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).
Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.
Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milênio?”. Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”. Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?
Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da “sociedade burguesa”, cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx.Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.
Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?
Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.
Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?
Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista. Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “socialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de “O Capital”. Como mostram os “Grundrisse”, aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso. Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.
Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os “Grundrisse”. Escritos entre 1857 e 1858, os “Grundrisse” são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?
Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no “Capital”, como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).
Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos “Grundrisse”, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os “Grundrisse” “trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na “Ideologia Alemã”. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos “Grundrisse” hoje?
Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.
Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?
Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.
Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano
Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer
Ideologia e eleições levam a colapso de pacote nos EUA
A rejeição pela Câmara do megapacote econômico de US$ 700 bilhões proposto pelo governo americano tem raízes tanto ideológicas como eleitorais.
A maior parte dos que congressistas que rejeitaram o projeto é formada pelos republicanos do presidente George W. Bush, a despeito de todos os apelos do líder americano para que a proposta fosse aprovada em caráter de urgência.
A proposta havia sido submetida a um série de mudanças nos últimos dias, após discussões entre lideranças dos dois partidos e parecia caminhar para a aprovação.
Mas acabou sendo derrubada na tarde desta segunda-feira por 228 votos contra 205. Era necessário um total de 218 votos para ratificar o projeto.
Somente 65 republicanos votaram pelo projeto, contra 133 que foram contrários. Ao todo, 140 democratas ratificaram o pacote, e outros 95 votaram contra.
Socialismo
A ala mais conservadora do Partido Republicano é radicalmente contrária à intervenção do Estado na economia e julga que o pacote seria um "cheque em branco" para o sistema financeiro às custas do contribuinte americano.
A maior parte da cifra bilionária do pacote seria gerada por meio de impostos.
Os congressistas contam estar recebebendo milhares de telefonemas de seus eleitores, pedindo que eles não votem por uma proposta que auxiliaria grandes instituições financeiras em detrimento do cidadão comum.
Em entrevista ao jornal The New York Times, o parlamentar Jeb Hensarling, do Estado do Texas, resumiu o estado de espírito da facção mais à direita dos republicanos.
"Nos pediram para escolher entre o caos financeiro e a falência do contribuinte, de um lado, e a estrada para o socialismo, do outro", afirmou Hensarling. "E tínhamos que fazer isso em 24 horas."
Além disso, muitos representantes do Congresso são candidatos à reeleição, e a aprovação da proposta econômica, impopular junto a muitos eleitores, poderia prejudicar suas possibilidades nas urnas.
O fato de a aprovação do pacote estar sendo pressionada por um presidente cujo índice de aprovação é inferior a 30% também influenciou a decisão de parlamentares que não querem ser identificados com o impopular líder republicano.
Objeções
Os congressistas republicanos levantaram objeções tanto quanto ao conteúdo do pacote como à pressa com que o documento de mais de 100 páginas foi colocado em votação.
No fim de semana, líderes partidários haviam chegado a um acordo em relação a pontos polêmicos, como mecanismos de supervisão do mercado financeiro, proteção para os contribuintes e limites aos salários de executivos de instituições financeiras.
As concessões, porém, não foram suficientes para convencer boa parte dos congressistas a seguir a orientação dos líderes no plenário.
Depois da votação, líderes republicanos sugeriram que a culpa era dos democratas, que não teriam conseguido mobilizar sua maioria na Câmara.
Extraído de www.bbcbrasil.com.br
A maior parte dos que congressistas que rejeitaram o projeto é formada pelos republicanos do presidente George W. Bush, a despeito de todos os apelos do líder americano para que a proposta fosse aprovada em caráter de urgência.
A proposta havia sido submetida a um série de mudanças nos últimos dias, após discussões entre lideranças dos dois partidos e parecia caminhar para a aprovação.
Mas acabou sendo derrubada na tarde desta segunda-feira por 228 votos contra 205. Era necessário um total de 218 votos para ratificar o projeto.
Somente 65 republicanos votaram pelo projeto, contra 133 que foram contrários. Ao todo, 140 democratas ratificaram o pacote, e outros 95 votaram contra.
Socialismo
A ala mais conservadora do Partido Republicano é radicalmente contrária à intervenção do Estado na economia e julga que o pacote seria um "cheque em branco" para o sistema financeiro às custas do contribuinte americano.
A maior parte da cifra bilionária do pacote seria gerada por meio de impostos.
Os congressistas contam estar recebebendo milhares de telefonemas de seus eleitores, pedindo que eles não votem por uma proposta que auxiliaria grandes instituições financeiras em detrimento do cidadão comum.
Em entrevista ao jornal The New York Times, o parlamentar Jeb Hensarling, do Estado do Texas, resumiu o estado de espírito da facção mais à direita dos republicanos.
"Nos pediram para escolher entre o caos financeiro e a falência do contribuinte, de um lado, e a estrada para o socialismo, do outro", afirmou Hensarling. "E tínhamos que fazer isso em 24 horas."
Além disso, muitos representantes do Congresso são candidatos à reeleição, e a aprovação da proposta econômica, impopular junto a muitos eleitores, poderia prejudicar suas possibilidades nas urnas.
O fato de a aprovação do pacote estar sendo pressionada por um presidente cujo índice de aprovação é inferior a 30% também influenciou a decisão de parlamentares que não querem ser identificados com o impopular líder republicano.
Objeções
Os congressistas republicanos levantaram objeções tanto quanto ao conteúdo do pacote como à pressa com que o documento de mais de 100 páginas foi colocado em votação.
No fim de semana, líderes partidários haviam chegado a um acordo em relação a pontos polêmicos, como mecanismos de supervisão do mercado financeiro, proteção para os contribuintes e limites aos salários de executivos de instituições financeiras.
As concessões, porém, não foram suficientes para convencer boa parte dos congressistas a seguir a orientação dos líderes no plenário.
Depois da votação, líderes republicanos sugeriram que a culpa era dos democratas, que não teriam conseguido mobilizar sua maioria na Câmara.
Extraído de www.bbcbrasil.com.br
sábado, 27 de setembro de 2008
A crise de Wall Street equivale à queda do Muro de Berlim
Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia em 2001, sustenta que a crise de Wall Street evidencia que o modelo de fundamentalismo de mercado não funciona. Para ele, a crise que sacudiu Wall Street é para esse modelo o equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim para o comunismo. Stiglitz critica a complexidade dos produtos financeiros que provocaram a crise e os incentivos ao risco dos sistemas de recompensa dos executivos.Barack Obama afirma que o naufrágio de Wall Street é a maior crise financeira desde a Grande Depressão. John McCain diz que a economia está ameaçada, mas é basicamente forte. Qual deles têm razão?Stiglitz – Obama está muito mais próximo da verdade. Sim, os Estados Unidos tem talentos, grandes universidades e um bom setor de alta tecnologia. Mas os mercados financeiros desempenham um papel muito importante, sendo responsáveis nos últimos anos por cerca de 30% dos lucros empresariais. Os executivos dos mercados financeiros obtiveram esses lucros com o argumento de que estavam ajudando a gerir o risco e a garantir maior eficácia ao capital. Por isso, diziam, mereciam rendimentos tão altos. Ficou demonstrado que isso não é certo. A gestão que eles executaram foi muito mal. Agora, o tiro saiu pela culatra e o resto da economia pagará porque as trocas comerciais cairão devido à redução do crédito. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um setor financeiro vibrante.Assim, o diagnóstico de Obama, quando diz que nosso setor financeiro está em estado deplorável, é correto. E se está em um estado deplorável, isso significa que nossa economia está em um estado deplorável. Ainda que não levássemos em conta a comoção financeira, mas só a dívida doméstica, nacional e federal, isso já bastaria para ver a seriedade do problema. Estamos nos afogando. Se observarmos a desigualdade, que é a maior desde a Grande Depressão, o problema é sério. Se observarmos o estancamento dos salários, o problema é sério. A maior parte do crescimento econômico dos últimos cinco anos baseava-se em uma bolha do setor imobiliário, que agora estourou. E os frutos desse crescimento não foram repartidos amplamente. Em resumo, os fundamentos não são bons.Qual deveria ser, na sua opinião, a resposta política ao afundamento de Wall Street?Stiglitz – Está claro que necessitamos não só voltar a regular, mas também redesenhar o sistema regulador. Durante seu reinado como chefe do Federal Reserve, no qual surgiu essa bolha hipotecária e financeira, Alan Greenspan tinha muitos instrumentos ao seu alcance para freá-la, mas não conseguiu fazer isso.Afinal de contas, Ronald Reagan escolheu-o por sua atitude contrária à regulação. Ele substituiu a Paul Volcker no Federal Reserve, conhecido por manter a inflação sob controle. O governo Reagan não acreditava que ele fosse um “liberalizador” adequado. Por conseguinte, nosso país sofreu os efeitos de escolher como regulador supremo da economia a alguém que não acreditava na regulação. De modo que, para corrigir o problema, a primeira coisa que precisamos é de líderes políticos e responsáveis que acreditem no papel da regulação. Além disso, precisamos estabelecer um sistema novo, capaz de suportar a expansão das finanças e dos instrumentos financeiros de um modo melhor que os bancos tradicionais.Precisamos, por exemplo, regulamentar os incentivos. Eles têm que ser pagos baseando-se nos resultados de vários anos, e não no de apenas um, porque este último modelo fomenta as apostas. As opções de compra de ações fomentam a adulteração da contabilidade e é preciso frear essa prática. Em resumo, oferecemos incentivos para que se alimentasse um mau comportamento no sistema.Além de freios, precisamos de faixas de controle. Historicamente, todas as crises têm estado associadas a uma expansão muito rápida de determinados tipos de ativos. Se conseguimos frear esse processo, podemos impedir que as bolhas cresçam de modo descontrolado. O mundo não desapareceria se as hipotecas crescessem 10% e não 25% anualmente. Conhecemos tão bem o patrão que deveríamos fazer algo para dominá-lo. Precisamos ainda de uma comissão de segurança para os produtos financeiros, assim como temos no caso dos produtos de consumo. O setor financeiro estava inventando produtos que não geriam o risco, mas sim o produziam.Certamente, acredito na necessidade de uma maior transparência. No entanto, desde o ponto de vista dos critérios reguladores, esses produtos eram transparentes em um sentido técnico. Mas eram tão complexos que ninguém os entendia. Mesmo que fossem tornadas públicas todas as cláusulas destes contratos, elas não trariam a nenhum mortal alguma informação útil sobre seu risco. Muita informação equivale a nenhuma informação. Neste sentido, aqueles que pedem mais revelações como solução para o problema não entendem a informação. Se alguém compra um produto, necessita de uma informação simples e básica: qual é o risco. Essa é a questão.Os ativos hipotecários que provocaram o caos estão em mãos de bancos ou fundos soberanos da China, Japão, Europa e países do Golfo. Como essa crise os afetará?Stiglitz – É certo. As perdas das instituições financeiras européias com as hipotecas subprime foram maiores do que as verificadas nos Estados Unidos. O fato de os EUA terem diversificado esses ativos hipotecários por todo o mundo, graças à globalização dos mercados, suavizou o impacto interno. Se não tivéssemos disseminado o risco por todo o mundo, a crise seria muito pior. Uma coisa que agora se entende, a conseqüência dessa crise, é a informação assimétrica da globalização. Na Europa, por exemplo, não se sabia muito bem que as hipotecas norte-americanas são hipotecas sem lastro: se o valor da casa baixa mais que o da hipoteca, pode-se devolver a chave ao banco e ir embora. Na Europa, a casa serve de garantia, mas o tomador do empréstimo segue endividado, aconteça o que aconteça. Este é um dos perigos da globalização: o conhecimento é local, sabe-se muito mais sobre sua própria sociedade do que sobre as outras.Qual é então, em última análise, o impacto do naufrágio de Wall Street na globalização regida pelo mercado?Stiglitz - O programa da globalização esteve estreitamente ligado aos fundamentalistas do mercado: a ideologia dos mercados livres e da liberalização financeira. Nesta crise, observamos que as instituições mais baseadas no mercado da economia mais baseada no mercado vieram abaixo e correram a pedir a ajuda do Estado. Todo mundo dirá agora que este é o final do fundamentalismo de mercado. Neste sentido, a crise de Wall Street é para o fundamentalismo de mercado o que a queda do Muro de Berlim foi para o comunismo: ela diz ao mundo que este modo de organização econômica é insustentável. Em resumo, dizem todos, esse modelo não funciona. Este momento assinala que as declarações do mercado financeiro em defesa da liberalização eram falsas.A hipocrisia entre o modo pelo qual o Tesouro dos EUA, o FMI e o Banco Mundial manejaram a crise asiática de 1997 e o modo como procedem agora acentuou essa reação intelectual. Agora os asiáticos dizem: “Um momento, para nós, vocês disseram que deveríamos imitar o modelo dos Estados Unidos. Se tivéssemos seguido vosso exemplo, agora estaríamos nesta mesma desordem. Vocês, talvez, possam se permitir isso. Nós, não”.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
CAPITALISMO EM CRISE
Como resultado de um intenso bombardeio midiático, me peguei diversas vezes classificando os recentes acontecimentos no sistema financeiro global como uma “crise”. Trata-se, no entanto – de forma muito evidente, inclusive –, de um conhecido processo estudado e identificado há décadas por gente como o economista brasileiro Celso Furtado.O noticiário econômico acerca deste processo de falências e estatizações que ora ocorre nos EUA segue um padrão jornalístico já há algum tempo observado. As estatísticas são lançadas em função de uma dominação das elites sobre o aparelho de Estado, realidade que é presente no Brasil, de fato, porém de forma muito mais evidente nos Estados Unidos, como veremos a seguir.Conforme destacou o jornalista Bernardo Kucinski (1) analisando o cenário brasileiro, “divulgam quanto cresceu o PIB (Produto Interno Bruto), porque esse dado é importante para o empresariado. Mas a participação do salário na renda nacional parou de ser divulgada há anos, desde que caiu abaixo de níveis civilizados (...) Divulgam-se detalhadamente os itens de pauta das exportações, mas não os detalhes de gastos com royalties e patentes. Seu conhecimento geraria uma atitude crítica em relação à renumeração dos capitais financeiros”. E alerta: “Quase tudo pode ser provado em economia, manipulando-se estatísticas”.O sociólogo Luiz Gonzaga Belluzzo tratou de lembrar que o neoliberalismo, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nunca desejou o “Estado mínimo”, pois precisa de Estados nacionais fortes para utilizar o poder político e fiscal destes, com o objetivo de fortalecer os respectivos sistemas empresariais (incluindo os mercados financeiros e de capitais). O propósito é o de ganhar espaço na arena global. “Nessa toada, as reformas [ditas neoliberais, dos anos 70] atropelaram as instituições destinadas a garantir a segurança econômica e social da maioria assalariada ou dependente”,avalia Belluzzo. E conclui: “O Estado não saiu de cena, apenas mudou de agenda” (2).Até mesmo no Brasil, durante a onda de privatizações e entreguismo dos oito anos do Governo FHC, foi observado durante o seminário da Rede de Economia Global (REGGEN) de 2003 que, ao contrário do que muitos propunham, os dados mostravam que o investimento público cresceu, porém foi – conforme denuncia Belluzzo – direcionado para a “iniciativa privada” (3).O próprio termo “iniciativa privada” é contraditório, pois, como veremos, muitas vezes a iniciativa é do Estado, com dinheiro público, e o setor privado se apropria destes recursos por meio de ações fraudulentas e lesivas aos cofres públicos. Vide, entre outros inúmeros casos, a privatização da ex-estatal brasileira Vale do Rio Doce, que opera no setor de extração de recursos naturais, centralmente estratégico para o país.Contradições negligenciadasO noticiário da mídia corporativa procura fixar os atuais acontecimentos a poucos tópicos, sem discutir a seriedade e complexidade do problema, como, por exemplo, a falta de controle do sistema financeiro. O analista político Noam Chomsky aponta há décadas as contradições de um sistema fadado ao fracasso: “Uma instituição privada tem um objetivo: maximizar os lucros e minimizar as condições humanas. Porque isso maximiza os lucros. Isso é o que eles perseguem. Eles não poderiam perseguir nada além disso. Se o sistema é minimamente competitivo, eles precisam fazer isso. É a natureza do sistema (...) Haverá bastante dinheiro do contribuinte entrando nos fundos para não deixar que seus lucros caiam” (4).É preciso um esforço para não considerar como custos apenas os gastos feitos diretamente pelo governo num contexto de “crise” – tal como a proposta de gastar US$ 700 bilhões na compra de títulos “podres”. Há muitos outros custos que são vendidos como grandes benefícios do capitalismo moderno.Um dos exemplos utilizados por Chomsky é comum a todos os brasileiros: “Digamos que você telefone para conseguir uma passagem aérea [ou outro serviço que dependa desta forma de atendimento]. As empresas aéreas são automatizadas, o que lhes economiza um monte de dinheiro. Os economistas podem constatar que isto é muito eficiente. Por outro lado, quando você dá o telefonema. Isso está lhe custando dinheiro, você fica sentado lá, por meia hora, enquanto você fica ouvindo aquelas mensagens, ‘Obrigado por nos ligar’, ‘Agradecemos sua ligação’, ‘Nós o amamos’, ‘Espere um momento’, ‘O próximo operador lhe atenderá em seguida’... e aí entra a música. Todo esse tempo tem um custo para você. Mas não é um custo que alguém meça”.Até o momento, nem um único economista distinto ou jornalista venerável, com espaço e destaque na televisão, questionou qual é o custo de não gastar este dinheiro – R$ 700 bilhões! – no sistema de saúde ou educacional. Ressalta-se que os “custos” são gerados por decisões tomadas e por decisões não tomadas – a inércia política. O caos no sistema de saúde americano – conforme denunciou o documentarista Michael Moore – ou o aumento da fome no mundo entre 2006 e 2007 – denunciado há poucos dias pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – não geram manchetes de “crise”.Chomsky conclui, ainda dentro do exemplo acima referido: “O custo é multiplicado pelo número de usuários. É uma grande soma. Pegue o custo do indivíduo, multiplique pelo número de pessoas usando o serviço, compare isso com a eficiência da automação e você talvez venha a descobrir que a automação é uma total perda para a economia. Mas é um ganho da maneira como é calculada”.Caça aos “culpados”O discurso oficial da mídia (TV Globo, GloboNews, Record, Bandeirantes e grandes jornais do Rio e São Paulo, avaliados nesta segunda 22) tenta sutilmente culpar um punhado de CEOs [chief executive officer], os diretores de grandes transnacionais financeiras, pela debandada do sistema financeiro americano.A âncora da GloboNews chegou a perguntar a um ex-ministro da Fazenda se eles [os CEOs] não deveriam ser penalizados. O “comentarista” disse que sim, que eles deveriam ser punidos. “Os executivos deveriam não receber seus benefícios e até mesmo devolver alguns que já receberam”, disse. O falso debate – com esta gravíssima punição sugerida, destaca-se! – está formado.É preciso ser muito astuto para imaginar que, por conta de erros pessoais, individuais, o Banco Central americano (FED) tenha decidido injetar outros 95 bilhões de dólares nos bancos em chamadas “operações de refinanciamento de rotina”. Prestem atenção: esta medida foi anunciada nesta segunda (22), para além da proposta da Casa Branca enviada ao Congresso e dos 315 bilhões da semana passada.Não coube a esta emissora questionar se não estaria havendo uma falência deste sistema, proclamado por especialistas de plantão como liberal, o mesmo sistema que agora se vê obrigado a recorrer ao dinheiro do contribuinte para supostamente não afundar.Como estão envergonhados, digamos objetivamente aqui o que está se salvando: a barra dos “investidores”, os acionistas, gente que tem dinheiro o suficiente para injetar milhares de dólares nesses bancos. A população, conforme denunciaram parlamentares nos EUA, não vão receber nenhum apoio, segundo a proposta do governo. Apesar manter suas crescentes dívidas no “crédito” imobiliário que, no final das contas, era mais uma bolha.Alguns congressistas, a despeito da pressão política do sistema financeiro, pediram no “ato” administrativo proposto pela Casa Branca o mais básico de todos os principais governamentais: regras! É curioso que nenhum telejornal tenha citado alguns dos trechos do pequenino documento (de apenas 3 páginas) que a secretaria do Tesouro dos EUA criou para abocanhar 700 bilhões de dólares.A Casa Branca determina, por exemplo, que “a secretaria está autorizada a tomar tais ações à medida que a secretaria considerar necessárias para realizar os poderes deste ato, inclusive, sem limitação (...)”. Em outro trecho define: “Quaisquer verbas usadas para ações autorizadas por este ato, incluindo o pagamento de despesas administrativas, devem ser consideradas apropriadas no momento de tais gastos” (5).A imprensa manteve o velho estilo parcial de sempre – o secretário de Tesouro dos EUA era o único que aparecia durante a primeira semana de crise. “Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano”, repetia a GloboNews na própria segunda-feira (22). “A Globalização não deve ser responsabilizada”, ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo – é claro – voz oficial. Para falarem da ‘crise’, convocaram apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.“Cadê a tal independência?”A jornalista e apresentadora Lilian White Fibe, no último programa ‘Roda Viva’ (TV Cultura) da segunda (22), fez uma pergunta franca e direta ao entrevistado, o economista Ilan Goldfajn, que já foi diretor de política econômica do Banco Central (BC) brasileiro e atualmente é pesquisador da PUC Rio. Ela questionou firmemente: “Então, professor, cadê a tal independência do Banco Central americano, o tal Banco Central mais independente do mundo?”A resposta não poderia ter sido mais risível, porém esclarecedora. Ilan disse que o FED – o BC americano – continuava independente, na opinião dele, e que o fato de o anúncio ter sido eminentemente político não mudava esta posição. O governo americano, argumentou Ilan, foi até o FED e este, por sua vez, colocou as opções mais “razoáveis” na mesa. O governo americano, então, acatou...Em suma: quem manda nas finanças do mundo – o que inclui deter a chave dos cofres do governo mais rico do mundo – são os financistas de Wall Street. Ou seja, os responsáveis pelo caos que a presidente argentina classificou como “economia de cassino dos EUA”.Já Giuliano Guandalini, editor de economia da revista Veja, procurou – a serviço do tipo de imprensa mais vendida que existe no Brasil – defender os “mercados”, que estão inevitavelmente sofrendo ataques até mesmo de grupos conservadores. Giuliano argumentou – em formato de “pergunta” para Ilan – que o sistema não era falho, já que havia proporcionado ganhos consideráveis durante muitos anos.Aqui, novamente, faz-se uma observação risível e reveladora. Se os investidores se beneficiaram enormemente deste sistema que, como muitos agora lembram, privatiza os lucros e socializa os prejuízos, por que o governo não utiliza parte destes lucros e paga a “conta” da farra? Por que, afinal, o dinheiro tem que vir do bolso do contribuinte, e não destas empresas de “investimento de risco”?A resposta é simples. A saída, para o esquema neoliberal, não admite outra coisa senão socializar os prejuízos. Fazer os capitalistas pagarem a conta – até Arnaldo Jabor anda falando mal deles! – é muito perigoso. Seria como, digamos, “confiscar bens”! Confiscar bens de capitalistas não é permitido.Farra com dinheiro (do) públicoOs meios de comunicação evitam passear por este debate e, inclusive, se negam em falar em estatização. Até porque estatizar é coisa de gente como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Trata-se, no linguajar da mídia corporativa, de uma “intervenção” – mesmo que o governo tenha confiscado, por meio de cláusula contratual, 80% das ações da AIG, por exemplo.Emir Sader, num artigo de 2004, explica como funciona um dos instrumentos correntes de privatização dos lucros e socialização dos riscos: “Entre em um banco e deposite 100 reais em uma caderneta de poupança. O funcionário lhe dirá para retornar daqui a um mês, para receber seus polpudos dividendos, algo como R$ 100,60. Em seguida, ao mesmo funcionário, no mesmo balcão, você pede 100 reais emprestados. Receberá a resposta de que – além de todos os trâmites de cadastro, garantia, ficha pregressa etc. –, deverá pagar, daqui a um mês, algo como 109 reais. Essa ‘pequena’ diferença - algo como 15 vezes mais - é o que os bancos e os economistas, ministros, presidentes de bancos centrais, e todos os que funcionam como seus ventríloquos, chamam de spread. Em inglês, para melhor disfarçar, como convêm ao economês”.Mas o que é o spread? “Os dicionários falam sempre de algo como ''extensão'', ''propagação'', ''expansão'', no máximo ''pasta para passar no pão''. Nada que possa esclarecer essa estranha mágica de pagar 0,6% e cobrar 9% ao mês e que faz a felicidade dos bancos e propicia os recordes de lucratividade do sistema financeiro – batidos novamente esta semana – à custa de quem não vive da especulação. Os dicionários de economia esclarecem que spread é a diferença entre o quanto os bancos pagam e o quanto recebem; em outras palavras, o lucro dos bancos. Nenhum investimento permite ganhar tanto, em prazo tão curto, com tanta liquidez e pouco ou nada de imposto - recordemos que investimentos estrangeiros na Bovespa não pagam imposto, ao contrário da cesta básica, de livros etc” (6) [leia mais sobre este mecanismo brutal de exploração do trabalhador na referência do artigo].O Jornal Nacional da quarta-feira (17), ainda assustado com a derrocada de um projeto que defende diariamente, abriu falando sobre “a maior intervenção dos EUA” no setor privado. Já naquele dia, o governo havia comprometido mais de 300 bilhões de dólares nas empresas falidas. E, como sempre, deram voz ao Ser Supremo, Vossa Divindade: “Mesmo assim, o mercado não se acalmou”.O apresentador William Bonner falou em “crise de confiança que atinge o mercado financeiro”. Não pretende explicar que a crise não é de confiança, porque seria muito perigoso que o telespectador que o vê e o ouve – aquele que é metade Homer Simpson metade Lineu, lembra? (7) – fique sabendo que não são apenas os títulos que o governo comprará que são podres, e sim o próprio sistema de jogatina que diversos ativistas denunciam há décadas. Insistem no discurso vazio: “E mais um sinal da crise de confiança que atinge o mercado financeiro: um outro banco americano, o Washington Mutual, anunciou que está à venda. Procura um comprador para salvá-lo da crise” (8).Lula faz discurso duro sobre crise e é ignoradoO presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, um dos discursos mais importantes de seu mandato, agregando elementos como conhecimento histórico, síntese política, momento oportuno e amplitude de temas. Destaca-se que o Brasil sempre abre os debates, por tradição, o que se configura em um importante aspecto de prestígio.O Jornal da Globo (TV Globo) desta terça-feira (23), dia do discurso, procurou esconder a fala de Lula, ao citar apenas um trecho insignificante e, ainda por cima, dizer que o “discurso mais esperado” era o do presidente Bush. Como sempre, o mandatário estadunidense teve uma participação pífia, ordinária e mentirosa, que nem sequer vale nota de rodapé.Lula, no entanto, sem nenhum sentimento de nacionalismo ou partidarismo, falou o que poucos têm condição ou coragem de pôr em pauta. Logo no início, o brasileiro registra: “A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial. As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política”.Evidentemente que o povo brasileiro não terá acesso, nos jornais e telejornais populares, a uma explicação detalhada sobre o que Lula quis dizer com “fundamentalistas de mercado”. “A ausência de regras”, completa o presidente, favorece os “aventureiros e oportunistas” (sic), em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. “É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas. O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores”.Novamente, seria perigoso demais que os Willians da TV Globo (Bonner ou Waack) retomassem o pensamento de Celso Furtado. Seria perigoso, pois poderia desencadear questionamentos sobre o funcionamento da própria lógica de privatização dos lucros e socialização dos riscos que ora ocorre no Brasil, tal como a lógica que permite o spread bancário.Eles poderiam explicar, por exemplo, que a globalização financeira alimenta-se da desordem monetária causada pelo fim das paridades fixas entre moedas fortes. As regras, neste caso, são parecidas com as regras de um grande cassino em Las Vegas. O pano de fundo, comenta o jornalista Bernardo Kucinski (9), é a lenta agonia da cultura monetária baseada no dólar. Enquanto o Japão acumula, por exemplo, grandes saldos em seu comércio exterior, os Estados Unidos tentam manter a hegemonia do dólar, numa espécie de “fuga para o futuro”, na expressão de Furtado. Nesta tentativa, arrastaram para uma crise estrutural nos anos 90 países que têm dívidas em dólar – incluindo o Brasil.Kucinski demonstra como funciona este “novo sistema de dominação” baseado no endividamento, igualmente registrado no balanço de pagamentos e consolidado em grandes tábuas mundiais da dívida externa, compiladas pelo Banco Mundial: “Essas tábuas mostram que, entre 1980 e 1991, os países da periferia pagaram US$ 607 bilhões de juros, mais do que o valor original da dívida, que, no entanto, nesse mesmo período saltou de US$ 573 bilhões para US$ 1281 bilhões”. Em outras palavras: quantas mais estes países pagam, mais devem.No Brasil, o pagamento dos juros é a rubrica que consome a maior quantidade de recursos públicos. Só nos primeiros meses de 2008, o governo gastou com juros R$ 106,8 bilhões, ou 6,7% do PIB. É possível imaginar, diante de tão obscuros números, que nem todo o dinheiro da “ajuda” financeira que os EUA deram e pretendem dar às instituições financeiras são de contribuintes americanos. Há também brasileiros, argentinos, bolivianos, venezuelanos, chilenos...(10)“Fuga para o futuro”Esta mesma lógica especulativa de fuga para o futuro, com a política de redução da taxa de juros sem controle sobre o crédito, é um fator essencial para o estouro da bolha especulativa nos mercados de hipotecas. Agora, os neoliberais de plantão, com amplo suporte dos amigos jornalistas da mídia corporativa, tratam de tentar transferir os riscos para os indivíduos dispersos.Em vez de abordar estes temas, a TV Globo preferiu exibir uma charge em que sugere Lula e seus assessores vão à ONU, na verdade, para vender biocombustíveis ele próprio, como se fosse um mercador querendo vender a matéria prima de seu país. Este é o “humor” praticado na Rede Globo (11).Lula defendeu o papel da ONU na criação de “mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras” contra o que classificou como “anarquia especulativa”.Muros da globalizaçãoMantendo a coesão entre os temas, em um dos mais importantes trechos, Lula criticou duramente o caráter totalitário da globalização financeira: “O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados”.E partiu objetivamente para a defesa de governos como o da Venezuela e da Bolívia: “Um suposto ‘nacionalismo populista’, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos”, complementando com algumas considerações sobre a importância da aliança dos países do sul, em particular da América Latina. “Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado – em 200 anos de vida independente – que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa” (12).Na mídia corporativa brasileira, ao que tudo indica, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) nem sequer existe – apesar dos seus inúmeros êxitos políticos. O motivo dos neoliberais da mídia brasileira (hoje envergonhados) para esconder esta iniciativa é justamente o seu sucesso. E um outro detalhe: a sede da União será localizada em Quito, capital do Equador, o Banco do Sul será na capital da Venezuela, Caracas, e o seu parlamento será localizado em Cochabamba, na Bolívia.
(*) Gustavo Barreto é editor da Revista Consciência.Net e editor de Internacional do Fazendo Media.
extraído de www.agenciacartamaior.com.br
(*) Gustavo Barreto é editor da Revista Consciência.Net e editor de Internacional do Fazendo Media.
extraído de www.agenciacartamaior.com.br
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